Conte Sua História de São Paulo: o professor do cronista da cidade

 

Por Eloi Jun Yano
Ouvinte da CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte da CBN Eloi Jun Yano:

 

 

Estudei no Colégio Estadual de São Paulo, no bairro do Brás. Por que minha mãe me colocou lá se eu morava na Vila Mariana? Se no começo parecia longe ir de ônibus, imagine meus amigos que vinham de Itaquera, Cidade Patriarca, Artur Alvim…

 

Uma mistura de todas as nacionalidades. Além dos japoneses, como eu , tinham os coreanos, chineses, italianos, até amigos gregos…

 

Na nossa escola, tínhamos laboratório de química, física, ciências. … bom, na minha época já um pouco deteriorado …. Além do teatro e do nosso orgulho maior: a imensa quadra coberta, toda de assoalho de madeira. Uma beleza!

 

Às vezes, cabulávamos aulas e íamos jogar futebol debaixo dos viadutos na baixada do Glicério. Nos recreios qualquer coisa virava bola. Desde uma pinha até um simples pedaço de madeira. E lá estávamos nós tirando Jankenpon para escolher os timinhos e chutar a bola improvisada.

 

E a disciplina e respeito com professores?

 

Quando eles entravam, todos de pé a recebê-los. Lembro muito bem do professor Bretas. Naquela época já velhinho mas com muita sabedoria.

 

Toda segunda-feira, tínhamos que levar um recorte de jornal e ler para os colegas. Uma vez, fui o escolhido e li crônica de Lourenço Diaferia. Quando acabei o texto, o professor me olhava com ternura. Fui bem na lição, pensei. E ele emocionado disse que Lourenço tinha sido seu aluno.

 

Outra vez, na aula de redação, um colega leu um poema de sua própria autoria. O professor sabiamente não lhe deu nota. Disse que não daria uma nota a alguém que poderia um dia ser famoso: – “já pensou se ele dissesse que eu dei zero para um poema dele?”

 

Foi então que pensei comigo mesmo e lembrei de Lourenço Diaferia, ex-aluno do professor Bretas: será que um dia ele deu zero para o nosso cronista da cidade?

 

Eloi Jun Yano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Debora Gonçalves. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade e envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: “Você ama filhos e estrangeiros”

 

Por Joana Matos Nogueira
Ouvinte da rádio CBN

 

 

São Paulo, você é admirável
Você ama filhos e estrangeiros
Você é movimento, é dinamismo
Você é vinte e cinco de Janeiro

 

Você está presente na hora de ajudar
Praticando sempre a compaixão
Não se omite perante os excluídos
Mas sempre tem lhes estendido a mão

 

Sei que não nasci das suas entranhas
Mas você me abraçou, me recebeu
Portanto, seus filhos precisam amá-la muito
Para amá-la tanto quanto eu!

 

Joana Matos Nogueira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a viagem de trem com meu pai

 

Por Dimas Ramalho 
Ouvinte da rádio CBN

 

 

 

 

Ainda criança tomei o trem com meu pai Horácio para conhecer a capital. “Vai ver o que é uma cidade grande”, disse-me. Foi onde ele passou boa parte de sua vida de estudante: internato no Arquidiocesano e, depois, Direito na São Francisco.
 

 

Na chegada, não acreditei no tamanho da Estação da Luz e, depois, na quantidade de pessoas e automóveis circulando. De mãos dadas, chegamos ao Teatro Municipal e ele me falou da Semana Modernista de 22. Fiquei curioso ao ouvir sobre Mário de Andrade e Anita Malfatti.
 

 

Em frente, vi o Mappin, enorme. Atordoado com as escadas rolantes, subi e desci até cansar. Em seguida, fomos à Rua Direita, onde só pedestres passavam. Na Praça da Sé, vi o mundo real e, na Catedral, onde entramos, em silêncio absoluto, pude observar a dimensão da fé.
 

 

Depois, na Faculdade de Direito, ele apontou as Arcadas e vi seus olhos úmidos. Somente anos mais tarde, quando também ingressei na São Francisco, entendi o que significou aquele momento. Até hoje, sinto a mesma emoção cada vez que visito a faculdade.
 

 

De táxi, fomos ao aeroporto e ele, que era piloto brevetado, falou de partidas e de sua paixão por aviões. Encostado no vidro, fiquei por muito tempo observando as aeronaves subindo e descendo, pensando em quanta gente passava por São Paulo.
 

 

No Butantã, explicou que do veneno vinha a cura. E, no zoológico, disse que um dia iríamos respeitar mais os animais e a natureza.
 

 

No Mercado Municipal, me perdi entre as bancas. Na feira livre, não vi o fim dos quarteirões e o pastel foi inevitável.
 

 

No Copan, ouvi sobre Niemayer e observamos com atenção as curvas do prédio. Já na cobertura do Edifício Itália, tive a noção de perspectiva e, no térreo, experimentei o primeiro café italiano da minha vida. Era uma máquina enorme que ocupava todo o balcão e de onde saia um café muito encorpado e quente. “Que modernidade essa máquina”, eu pensei.  Sempre que tomo um café forte, lembro daquela tarde ensolarada por São Paulo.
 

 

Na volta desses dias de passeio, sentia o coração acelerado a bordo do trem, sentado ao lado de meu pai no carro Pullman, rumo a Taquaritinga (de onde vim), passando por Araraquara, onde hoje resido. Mãos geladas. Medo. Estava apaixonado pela cidade grande.
 

 

Nas longas horas da viagem de volta percebi quanto o amava, mas não disse, nem naquele dia, nem nunca. Somente agradeci em silêncio enquanto observava seu rosto sereno cochilando. Já eu não consegui dormir. Passou muita coisa na minha cabeça de criança/pré-adolescente. Um turbilhão de emoções. Trânsito, ônibus, cinema, livro, barulho, gente, muita gente.
 

 

Quem me visse naquela noite perceberia que nos olhos daquele menino brilhava uma luz diferente, estranha, nova, desafiadora, como se fosse um rito de passagem. Minha mãe percebeu. Tem coisas que só as mães percebem. Nunca mais fui o mesmo. Não sei quanto tempo durou aquela viagem. Acho que dura até hoje. Meus sonhos ampliaram-se. Vi que nunca mais teria sossego. E foi assim.
 

 

Quando penso nas mãos do meu pai, que me levaram mundo afora e me soltaram, sinto que fiquei adulto ali naquela viagem. Desassossegado, com “bicho-carpinteiro” no corpo, como dizia minha avó materna. Devia ter contado ao meu pai tudo o que aconteceu comigo, tudo que se passava na minha cabeça. Mais uma vez não falei nada. Ele, com certeza, pensaria sorrindo: “acho que ele está aprendendo!”.

 

Dimas Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Milton Jung. Escreve sua história de São Paulo e envie para o email milton@cbn.com.br

 

Conte Sua História de São Paulo: um passeio para matar a sede da metrópole

 

Por Frei Antonio Leandro da Silva

 

 

Tenho sede não só de conhecer a metrópole, como também desvendar seus recantos obscuros, percorrer interstícios, caminhar sempre um pouco mais…

 

Impressionam-me suas largas e movimentadas avenidas, arrojados viadutos, fascinantes monumentos, modernas arquiteturas, templos monetários… Uma cidade construída sobre concreto e asfalto. Nessa sociedade, sinto-me desconhecido de todos, estranho no meio da multidão.

 

Sigo a Rua São Bento, atravesso as praças do Patriarca e Antônio Prado. Subi a Avenida São João e, no cruzamento desta com a Ipiranga, experimento o que tantos nordestinos já sentiram: o anonimato de quem vive na cidade grande. Visito a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaço sagrado para acolher os fadigados, refúgio dos caminhantes. Ajoelho-me, rezo. O espaço fortalece minhas forças e esperanças para caminhar. A oração reanima, acalenta e silencia a alma.

 

O tempo corre, olho para o relógio, levanto-me. Retorno pela Avenida São João. Contemplo situações e pessoas, cines pornográficos, prostitutas encostadas nas esquinas e bares, bêbados deitados no chão, adolescentes cheiram cola, mulheres, com seus filhinhos, imploram esmolas aos transeuntes. Homens de gravatas conduzem pastas, mulheres bem vestidas e simpáticas seguem caminhos, camelôs desmontam suas barracas. Polícia faz a ronda, ambulâncias acionam as sirenes. Atravesso o Vale do Anhangabaú, olho atentamente os arredores. Subo a rampa da Rua São Francisco, cruzando com a Rua do Ouvidor.

 

Finalmente, meus passos me trouxeram de volta ao convento. Caminho direto ao meu quarto e concluo a escrituração:

 

“Uma coisa aprendi neste dia: o caminho da vida é longo, sinuoso e penoso. Preciso sempre caminhar com determinação, coragem e autoconfiança, mesmo quando as circunstâncias me pareçam estranhas, pois é vivenciando o novo, o estranho, que podemos dar significado ao caminhar sem desanimar”.

 

Frei Antonio Leandro da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: meu passeio às cegas na terra da garoa

 

Por Wilson Baroncelli
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Essa é do tempo em que São Paulo tinha garoa, da qual você só ouviu falar, pois sumiu faz muito tempo. Do tempo em que havia bondes, inclusive em avenidas importantes, como a Paulista.

 

Lembro da linha que ia do Largo Ana Rosa até Santo Amaro: com exceção do Brooklyn, depois do Ibirapuera até lá só havia mato. Corria em via exclusiva, feito trem – tinha propagandas como esta: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo fagueiro, que o senhor tem ao seu lado. No entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”. Havia também o trem de cremalheira para Santos, que eu, meus avô, tio e primo pegávamos para ir até Piaçaguera caçar siris no mangue. Depois minha avó cozinhava num imenso caldeirão. Isso – claro! – quando a Cosipa estava em seus primórdios e antes que o polo petroquímico de Cubatão poluísse tudo.

 

De volta a nossa história de São Paulo:

 

O ano acho que foi 1966, 1967. Naquela época, a garoa de São Paulo era densa, infernal. Ou, dizendo melhor, invernal, porque gelada, de penetrar nos ossos. Se déssemos o azar de estar usando japona (um casaco de lã de fechamento transpassado, comum na época), ela ficava encharcada e levava uma semana pra secar. E, com frequência, a garoa vinha acompanhada de uma neblina igualmente tão densa que a gente tinha a sensação de que dava pra cortar com faca.

 

Naquele fim dos anos 1960, os esportes favoritos dos rapazes de classe média – eu entre eles – eram futebol e paquera, não necessariamente nessa ordem. Coisa impensável hoje. Não o futebol, a paquera. Atualmente tudo é assédio. Uma pena…

 

Quando não tínhamos namorada, nos sábados à noite a gente saía de carro, sempre em dupla, e ia paquerar na Augusta e nas ruas do centro da cidade (24 de Maio e Barão de Itapetininga), então liberadas ao tráfego. As meninas faziam o mesmo, algumas também de carro. Frequentemente só gastávamos combustível, mas de vez em quando as coisas davam certo. Nessas horas, o rumo que tomávamos ficava na dependência da vontade das meninas. Respeitávamos isso.

 

Numa dessas ocasiões, estava no carro de meu amigo Arnaldo, o Nardo. Eu, nessa época, não dirigia, ia sempre de carona. As meninas que paqueramos toparam seguir para Interlagos, onde havia diversos dancings à beira da represa de Guarapiranga, pra gente tomar umas (ninguém tinha consciência dos riscos de beber e dirigir – pensando bem, mesmo hoje muita gente não tem), dançar e namorar.

 

Na volta, a garoa. E a neblina.

 

Aqui preciso abrir um parêntesis para que se compreenda o drama da situação que se seguiu. Nasci míope como Mr. Magoo (os mais novos podem dar um Google pra saber o que significa). Acho que na época usava óculos com sete graus. Ou seja, se em condições normais não enxergava direito, imagine com chuva e neblina. Pois bem, quando embicamos na avenida Atlântica na direção da Ponte do Socorro, a situação ficou preta. Literalmente. As luzes da avenida pareciam lâmpadas de Natal (só serviam pra enfeitar), os faróis do fusca do Nardo não iluminavam coisa alguma e, pra complicar, os vidros do carro, fechados por causa da chuva, embaçavam.

 

Pânico.

 

Trafegamos um bom tempo à velocidade de tartaruga, passando pano no para-brisa pra desembaçar. Minha cervical doía de tanta tensão. Mas chegou uma hora que não deu pra seguir, porque simplesmente o Nardo não enxergava os limites da rua. Eu, então, nem se fala. Parar naquele ermo nem pensar, embora não fosse tão perigoso como hoje. Ainda assim, era arriscado. Então tomei a decisão de ir pro sacrifício. Desci do carro e fui andando na frente dele, pois, apesar da chuva, ali fora enxergava um pouco mais. A sensação foi de ter andado 300 km ou 48 horas seguidas.

 

A neblina só amainou depois que cruzamos a Ponte do Socorro. Nardo parou para que eu voltasse para dentro e só aí percebi que diversos outros carros haviam nos seguido como em um cortejo. Pra sorte deles, não erramos o caminho.

 

Wilson Baroncelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem aos 464 anos da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: vivi a evolução do Villa-Lobos

 

Por Reynaldo Goto

 

 

Nasci e cresci na Zona Oeste de São Paulo, no Bonfiglioli para ser mais exato. Brincava em uma pequena praça pública onde meus pais sabiamente escolheram sua residência. Ao contrário das crianças de hoje, eles tinham que nos “forçar a sair da rua”, que naquele tempo já era relativamente perigosa, porém longe dos níveis alarmantes de hoje.

 

Como um típico representante da geração canguru, saí tarde da casa dos meus pais. E apenas por um desafio profissional em Munique, na Alemanha. Lá percebi o valor da convivência em locais públicos. Frente a um longo período de inverno rigoroso, ficava muito impressionado de como os alemães enchiam seus parques no primeiro sinal de melhora das temperaturas.

 

Ao regressar ao Brasil para ter nossos filhos, finalmente comprei meu apartamento, também na Zona Oeste. Levava meus filhos por vezes na praça onde viviam meus pais e outras no Parque Villa Lobos. Achava curioso que o tanque de areia, do parque, era muito internacional: além dos meus filhos só observava crianças falando francês, alemão ou inglês. Confesso que essa situação me deixa não apenas perplexo, mas também um pouco irritado.

 

Felizmente fui testemunha de uma mudança muito positiva desse cenário. Pouco a pouco, o Villa Lobos foi evoluindo, novas trilhas permitiram acessos a lugares maravilhosos pouco explorados; um orquidário e um centro de reflorestamento trouxeram uma melhor cobertura para locais antes vazios; novas pistas para corrida atraíram novas tribos de atletas, assim como as recém-inauguradas academias abertas; uma nova biblioteca possibilitou novas opções para as crianças e principalmente uma agenda bem organizada de eventos trouxe uma nova vida ao parque.

 

Hoje, o Parque Villa Lobos é extremamente democrático, possibilita o convívio pacífico e harmônico de pessoas independentemente de suas supostas classes sociais, seus rótulos, suas tribos ou suas ideologias. É uma Ilha de Esperança que nos mostra como podemos pouco a pouco, com perseverança, sem soluções imediatistas e mirabolantes, com melhoria continua e boa relação público-privada transformar positivamente nossa cidade de São Paulo.

 

Reynaldo Goto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Comemore com a gente os 464 anos de São Paulo: escreva seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a chuva de prata no Viaduto do Chá

 

 

Por Julio Tannus
Ouvinte da rádio CBN

  

 

  

 

Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante.

  

 

Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 1940, morei na São Lázaro, travessa da São Caetano, hoje a “Rua das Noivas”. Era movimentadíssima com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz.

  

 

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Julio passeia ao lado do irmão, Carlos, no Viaduto do Chá

  

 

Após alguns dias na cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhar na São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na avenida Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo. Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo. Aquele monumento hoje está na Cidade Universitária. Quando o vi, exclamei do alto de meus cinco anos de vida: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. “Fica quieto menino!” foi a reação de mamãe diante da imagem daquela mulher de peito nu na estátua.

  

 

Fui flamenguista por herança de pai. E de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas … até que na celebração do Quarto Centenário da cidade, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração. Por curiosidade, essa final contra o Palmeira só foi disputada em 6 de fevereiro de 1955.

  

 

O Quarto Centenário é de 1954. E teve imensa participação de toda a população, que invadiu as ruas de nossa cidade. Ocorreram festas maravilhosas. Recordo-me nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, da Rádio Record, descreveu com precisão:

  

 

“O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o Viaduto do Chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o Viaduto do Chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.”

 
 

 

Palavras que me levam a recordar o hino do Quarto Centenário:
 

 

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 
 

 

Julio Tannus é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos contar outros capítulos desses 464 anos: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: minha primeira decepção de criança ao fim da II Grande Guerra

 

Por Aldo Bertolucci
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, para comemorar os 464 anos da nossa cidade, o texto do ouvinte da CBN Aldo Bertolucci, que completa 78 anos de vida e de São Paulo:
 

 

Meus pais eram italianos e morávamos na Alameda Ribeirão Preto, paralela a Paulista. De nossa casa, afinal o bairro era Bela Vista, víamos os prédios Martinelli e do Banespa, com toda uma várzea e casas pequenas aos nossos pés. Nossa rua era de paralelepípedos por onde todos os dias passava a velha Amulari – uma portuguesa que ficou assim conhecida porque ao trazer suas cabras para vender o leite sempre se desculpava que estava ali para “amulari as pessoas” ou incomodar as pessoas. Soube-se depois que ela, andrajosa e maltrata, era dona de várias casas de aluguel no bairro.

 

Do outro lado do vale havia um campo de futebol, ali perto da Rua dos Ingleses, onde os times do bairro jogavam peladas nos fins de semana. Durante a guerra, os poucos automóveis a gasogênio não nos incomodavam e jogávamos futebol na rua mesmo. Às vezes, éramos interrompidos pelo Salomão, o verdureiro, que vinha com sua carroça puxada pelo Caxambu, um cavalo alazão que estacionava à espera dos clientes. Quando o cavalo fazia cocô, meu avô saia correndo de casa para catar o esterco que ele punha nas suas plantas. Alguns meninos mais corajosos de nossa rua entravam em um bueiro de um lado da rua, passavam pelo cano que ia até o outro lado e saiam pelo outro bueiro.
 

 

Em frente de casa havia um convento de freiras de clausura, cercado de muros muito altos, que ocupava todo o quarteirão desde a Ribeirão Preto até a São Carlos do Pinhal, a Rua Pamplona a Alameda Campinas. Parte desse espaço é ocupado agora pelo Hotel Maksoud. Nós garotos subíamos até o segundo andar de nossas casas para espiar alguns movimentos das freiras que mantinham uma horta. Havia uma capela onde íamos à missa. Mas era construída em duas asas. Nós ficávamos em uma e as freiras em outra sem que pudéssemos vê-las.

 

Um dos passeios mais esperados era atravessar a Paulista em direção aos Jardins – que não tinham ainda se consolidado – e chegar ao ponto final do bonde 40 – Jardim Paulista, na Rua Veneza. Do ponto final seguíamos a pé em direção ao que é hoje o Itaim Bibi, andando no meio do mato e do brejo para chegar aos sítios onde se criavam os cavalos que corriam no Jóquei. Hoje a Avenida São Gabriel substituiu as chácaras.
 

 

Lembro o fim da guerra mundial com as rádios festejando a paz e meu pai com uma bomba manual enchendo os pneus de seu Chevrolet 1938, que estava parado havia vários anos, para ir comprar gasolina e darmos uma primeira volta. Ficamos decepcionados, meu irmão e eu, porque nossa mãe se apoderou do assento da frente que achávamos ser de nosso direito.

 

Lembro também que, naquela época, a Cruz Vermelha abriu um posto ao lado do Correio Central para receber doações para vários países europeus. Fomos com minha mãe levar um saco de roupas para nossos avós e tios que tinham sobrevivido ao conflito, na Itália.
  

 

Aldo Bertolucci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a praça com o nome do meu pai

 

Por Natanael Boldo

 

 

Sou o filho mais novo de uma família de sete irmãos: seis homens e uma mulher. Meu pai, Sr. João Boldo, veio de Itapira, no interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, instalou-se na Freguesia do Ó, acolhido pelo cunhado dele, irmão da minha mãe, o Tio Paulino. Foi na Freguesia que trabalhou como almoxarife por 35 anos até se aposentar. Foi seu único emprego aqui em São Paulo.

 

Passados alguns anos da sua chegada, comprou terreno no Jardim Cidade Pirituba, na rua Silvino de Godoy, onde construiu a casa que moro até hoje com minha mãe, Dona Teresinha, que está com 89 anos. Meu pai foi um dos primeiros moradores do lugar, chegou ao bairro em 1966. Eu tinha apenas um mês de vida. Era uma casa humilde, com dois quartos, cozinha, sala e banheiro. No quintal, tínhamos galinheiro e várias arvores frutíferas. Da porta de casa, tínhamos uma vista privilegiada do Pico do Jaraguá, lugar onde passeávamos com frequência. Juntava toda a molecada da rua. As mães faziam lanches de mortadela e suco. E por lá passávamos o dia.

 

Criou os filhos com muita dificuldade. Éramos muito humildes. E sempre nos cobrou que fossemos pessoas honradas, honestas … e exigiu que estudássemos. Ao lado da minha mãe, que também é uma mulher guerreira, que nunca frequentou os bancos da escola, puderam nos orientar pelo melhor caminho que a vida tinha a oferecer. Como recompensa, viram seus filhos se formarem.

 

Meu pai também era um músico dos bons, tocava bandolim como ninguém. Aos sábados bem cedo, íamos a Praça da República passear pela feira de artesanato e depois passávamos na loja de instrumentos Del Vecchio, na Rua Aurora. Ali se encontrava com Evandro do Bandolim e seu regional. Não tinha hora pra sair, pois a música rolava solta.

 

Eu ainda era muito criança, mas lembro que aos domingos depois da missa meu pai reunia a família antes do almoço para tocar. Era maravilhoso, música de qualidade e família reunida. Era um autodidata, estudou bem pouco, mas sabia de coisas que doutores não tinham conhecimento. Era um homem que lia muito e estava sempre à frente do seu tempo.

 

Perto de casa havia um brejo onde começou a plantar árvores. Hoje, este mesmo local foi transformado em um parque municipal, o Rodrigo de Gaspari. Fez o mesmo na rua onde moro, a Silvino de Godoy. No terreno que chegou a ter um campo de futebol, passou a plantar todo tipo de árvore: ipês, paineiras, jambo. De tão verde que ficou, transformou-se em praça: a Praça João Boldo, em Pirituba, bairro considerado o segundo mais arborizado de São Paulo.

 

Natanael Boldo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar os 464 anos da nossa cidade juntos: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: os primeiros passos com meu avô

 

Por Carlos Garabet Giovoglanian

 

 

Nasci nessa cidade, que já foi chamada de São Paulo de Piratininga, em 7 de janeiro de 1958. Filho do Senhor Kaspar, imigrante da Grécia, descendente de armênios, que aqui chegou em 31 de outubro de 1951 e da Dona Maria que também aqui nasceu.

 

No Cambuci, bem perto do Pátio do Colégio, dei meus primeiros passos junto com minha avó que me levava para passear. Encantava-me escorregar em caixas de papelão, no jardim diante da Paróquia São Joaquim, igreja imponente que se destaca naquele velho bairro. Era dia de festa quando íamos caminhar no Jardim da Aclimação, com seu lindo lago, que recebeu esse nome inspirado pelo ”Jardin d’Acclimatation”, de Paris. Era lá que aves e gados trazidos do interior se aclimatavam na Capital, daí Jardim da Aclimação.

 

Ainda me lembro de todos aqueles trabalhadores que passavam diante de casa vendendo leite quentinho, ordenhado diretamente das cabras com seus sinos badalando anunciando sua chegada; do vendedor de biju com sua matraca; do floricultor espanhol com suas lindas rosas e palmas e do verdureiro Argemiro com sua carroça.

 

Fui estudar no Externato José Bonifácio, escola de idioma armênio, no bairro do Bom Retiro, que fica atrás da Catedral São Jorge na Avenida Santos Dumont. Depois no Colégio Nossa Senhora da Glória, dos irmãos Maristas, cuja imagem do Irmão Justino me acompanhará pelo resto dos meus dias.

 

Visitar meu primo que morava em Santo Amaro era uma viagem emocionante. De táxi alcançava o Largo Ana Rosa e de lá tomava o bonde que me levava até a Estátua do Bandeirante Borba Gato, pertinho do Clube Banespa com suas lindas piscinas onde no verão íamos nos refrescar. Santo Amaro parecia muito distante pois era repleto de áreas verdes, matas e riachos que ainda não haviam sido devastadas pelas construções. Na volta, a passagem pelo Parque do Ibirapuera era obrigatória para nos divertir e nos instruir, com seus jardins, balanços, sorveterias, Museu da Aviação, que já não está mais lá, o planetário e o Pavilhão Japonês, homenagem a esse povo que tanto fez por nossa cidade.

 

Todos os meses ia ao centro e descia na Praça da Sé, caminhava pela Rua Direita até alcançar a Praça do Patriarca e entrava na Galeria Prestes Maia para comprar passe de ônibus da CMTC. A cidade se modernizava e em plena Praça da Sé tive o enorme prazer de fazer uma chamada por telefone diretamente da cabine recém instalada, em 1972.

 

Em 1974, já estudando no Colégio Arquidiocesano, no bairro da Vila Mariana, fiz minha primeira viagem pelo metrô recém-inaugurado que nos levava da Estação Santa Cruz até a Estação Jabaquara. Em 1976, ingressei na Escola de Engenharia Mauá onde me formei. E em 1992, me casei com a Rose, que vinda de Marília também adotou São Paulo.

 

Carlos Garabet Giovoglanian é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.