Bruno Alves comemora o primeiro gol da vitória gremista
Foram três gols e poderiam ter sido muitos outros. O volume de jogo foi intenso do início ao fim da partida com sequências de jogadas de ataque, trocas de passes rápidas, deslocamento de jogadores e chegadas fortes na área. Uma partida gostosa de assistir na noite desta quinta-feira pela segunda fase da Copa do Brasil. Só não foi mais agradável porque desperdiçou-se muitas finalizações — inclusive um pênalti — e oportunidades demais foram oferecidas ao adversário.
Das muitas boas noticias, começo por Cristaldo, meia que se destaca pelas assistências que colocam seus companheiros em condições de gol. Já nos acréscimos do primeiro tempo, foi dele a cobrança de falta, sutil e bem colocada, que permitiu Bruno Alves marcar de cabeça. Dos pés do argentino também partiu o chute forte que fez o goleiro oferecer rebote para Ferreirinha estufar a rede, no segundo tempo.
Pepê, Vina e Bitello completaram o meio de campo com vitalidade e qualidade no passe — um fundamento que vem sendo aprimorado pelo time desde o início desta temporada. A própria movimentação com Luis Suárez está mais bem sintonizada. É evidente a evolução no entrosamento dele com os demais colegas de equipe.
Hoje, Luisito sofreu seu primeiro revés, desde que chegou ao Grêmio, ao ter sua cobrança de pênalti defendida pelo goleiro adversário. Como experiência e resiliência não faltam ao nosso atacante, insistiu de um lado, tabelou pelo outro e chutou a gol o quanto pode. Seu esforço foi premiado no segundo tempo quando aproveitou o vacilo de um dos defensores, driblou seu marcador e colocou a bola distante do goleiro.
A partida que nos levou à terceira fase da Copa do Brasil foi importante, também, porque sinalizou que temos a cada jogo um time mais bem entrosado e demonstrando características que nos permitem sonhar com um desempenho ainda melhor a medida que a temporada coloque no nosso caminho equipes mais fortes. Até aqui, o Grêmio foi superior a todos os seus adversários e se mantém invicto no ano.
Ferreirinha ajeita o copo para marcar o segundo gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Um gol no primeiro tempo, um no segundo e a classificação à próxima fase da Copa do Brasil foi conquistada com a tranquilidade que esperávamos, considerando o adversário e os devidos cuidados a serem adotados para a sequência da temporada. De minha parte não havia nenhuma expectativa de goleada, como imaginavam os mais deslumbrados torcedores. Diante do que sofremos no ano passado, me bastava a passagem à segunda fase.
De verdade, para meus desejos se completarem faltou apenas o gol de Luis Suárez. Sim, porque hoje, para mim e imagino para um número considerável de gremistas, vamos a campo sempre a espera da vitória do Grêmio e do gol de nosso atacante. Queremos a alegria de vê-lo balançar as redes.
Nesta noite de quarta, Suárez não marcou, mas se fez necessário no gramado do Mané Garrincha. Sem contar a forma como se entrega e luta insistentemente para alcançar o gol, naturalmente ele chama atenção dos zagueiros, o que abre espaço para os companheiros que se aproximam da área.
Bom exemplo da importância da presença dele foi como abrimos o placar com quase meia hora de jogo. Suárez recebeu a bola de Cristaldo, foi seguido por dois marcadores e de calcanhar devolveu para o argentino, que estava livre para marcar. Poderia ter tentando o gol por conta própria, afinal é o centroavante de ofício. Mas atua com inteligência e tem uma capacidade acima da média para enxergar as jogadas.
O segundo gol veio quando a partida estava chegando ao fim e foi mérito de Ferreirinha. Nosso atacante pela esquerda se deslocou para receber na entrada da área, dominou a bola, driblou o marcador e colocou no canto do goleiro adversário. Um gol para dar confiança ao ponteiro que está retornando ao time após uma lesão no início deste ano.
O Grêmio fez o necessário e o que se esperava dele nesta etapa da competição. Que siga cumprindo o seu papel até alcançar os hexas que têm para conquistar neste ano: o da Copa do Brasil e o do Campeonato Gaúcho.
Elis Regina, gremista que era, cantou Cartomante, e foi minha única inspiração após assistir ao Grêmio cair de forma inédita da Copa do Brasil, na primeira rodada. Sim, o Grêmio, o Rei de Copas caiu, Elis!
Nos dias de hoje é bom que se proteja . Ofereca a face pra quem quer que seja Nos dias de hoje, esteja tranquilo Haja o que houver pense nos seus filhos Não ande nos bares, esqueça os amigos Não pare nas praças, não corra perigo Não fale do medo que temos da vida Não ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje não dê um motivo Porque na verdade eu te quero vivo Tenha paciência, Deus está contigo Deus está conosco até o pescoço. Já está escrito, já está previsto Por todas as videntes, pelas cartomantes Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros Cai o rei de paus, cai, não fica nada!
Quem me lê nesta Avalanche — e são cada vez mais caros e raros —- sabe que a dedico ao meu tricolor de coração. E a publico poucas horas após o árbitro trilar o apito final. Como tudo está fora da ordem, da vida ao meu time de futebol preferido, abandonei meus compromissos com o leitor e com a coluna depois do resultado de domingo passado. Não significa que abdiquei da minha paixão, porque esta é eterna, o que me faz acreditar mesmo no inacreditável —- o que não é o caso, ainda. Já havia desistido de escrevê-la pelo tempo passado e o desconforto com o tema. Foi então que “o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma cartão na mão”, como bem escreveu em Letras, Maria Bethânia.
No pacote que abri ansioso, sem saber o que me aguardava, encontrei livro, camisa e copos alusivos ao trabalho do colega de profissão e companheiro de Twitter, Bruno Zanette, com quem compartilho alguns amores. Nascido e vivido em Foz do Iguaçu, adora rádio e futebol, a assim como eu. Nos últimos tempos, dedicou-se a registrar os momentos vividos por um time que fez história no futebol feminino: o Foz Cataratas FC, campeão da Copa do Brasil, em 2011.
Azul como meu Grêmio, mas bicolor por nascença, o Foz surgiu em 2010, estreou às vésperas do Dia Internacional da Mulher e foi vice-campeão da Copa do Brasil naquele ano.
A derrota na final para o Duque de Caxias (RJ) foi marcada por polêmica de arbitragem, expulsão, discussão e gás de pimenta. A despeito de justiça ter sido feita ou não, foi aquele jogo que forjou o caráter e a personalidade do time que conquistaria o Brasil no ano seguinte.
Bruno, que era repórter de campo e torcedor do Foz —- não necessariamente nesta ordem —- registra a história no livro “O ano em que o Foz Cataratas conquistou o Brasil”, publicado graças a sua coragem e talento —- características que também fazem parte do roteiro das ‘Poderosas do Foz’, como as meninas que jogavam na tríplice fronteira eram conhecidas. Da mesma forma que elas, o autor também contou com a torcida de apoiadores que aceitaram financiar a ideia de registrar um dos capítulos do futebol feminino, no Brasil.
Eis aí, entre tantos, o maior mérito deste trabalho realizado pelo Bruno. Como escreve a jornalista Patrícia Zeni, na apresentação do livro, “a história do futebol feminino ainda está escondida” e Bruno dá o ponta pé inicial para torná-la pública. Faz trabalho bem feito, com precisão, apuro e emoção —- similar ao que aquelas jogadoras aprestaram em campo quando desafiadas por suas adversárias.
Os feitos das “Poderosas” deixo para que o próprio Bruno conte. Ele tem autoridade no assunto e foi testemunha ocular daquela conquista que fez “a alegria das arquibancadas, com jogadas imortais de craques”—- como eternizado no hino do clube. De minha parte fica o convite para que você conheça e apoie o trabalho dele, inspirando outros jornalistas a contarem em livro a história do futebol feminino no Brasil. E, também, deixo meu agradecimento ao autor que, ao me proporcionar a leitura destes feitos, ameniza a frustração dos resultados do meu time de coração.
Ps: aos leitores recém-chegados, explico: a Avalanche Tricolor registra resultados, jogo após jogo, alcançados pelo Grêmio, sem que, necessariamente, eu tenha o compromisso de escrever sobre eles, especialmente quando meu time nada faz por merecer.
Sou gremista, não por agora. Sou gremista de nascença. Quem já conversou comigo, leu minhas palavras ou ouviu minhas conversas sabe muito sobre isso. E se começo a Avalanche reforçando essa ideia é porque muitos devem imaginar que momentos como esse que estamos enfrentando são suficientes para nos afastar daquilo que aprendemos a gostar. Quem viveu o que vivemos, não esmorece. Não se micha como dizem lá pelas nossas bandas.
Na noite de ontem, mesmo diante do desastre da primeira partida, do time alternativo levado a campo, das carências de qualidade e talento, do poder financeiro e político do adversário —- que teve o privilégio de levar torcedores para o estádio e esfregar na nossa cara, sem máscara, o desrespeito aos quase 590 mil mortos por Covid-19 — , lá estava eu na torcida mais uma vez. Porque é assim que nos tornamos gremistas. Acreditando sempre, mesmo que não haja por que acreditar.
Posso lhe garantir, já foi pior. Muito pior. E se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, for gremista como eu, sabe do que estou falando. Hoje, sofremos mais porque ficamos mal acostumados com a performance, resultados e títulos dos últimos anos. Tivemos um time de excelência e de futebol exuberante poucas temporadas atrás. E quando olhamos em campo, ainda vemos alguns resquícios desse passado recente: alguns cambaleando e outros apenas como um desenho mal esboçado do que foram. Tem até mesmo talentos em potencial, que não conseguem se expressar.
Nada disso … nem a bola mal tratada, nem a gestão mal acabada, nem as derrotas acumuladas, … nada disso me demove do desejo de torcer pelo meu Grêmio. De acreditar no meu Grêmio. De sofrer desta paixão. Por isso, a despeito do que esteja acontecendo, do que aconteceu na noite desta quarta e do que acontecerá em seguida, cá estou a ratificar este amor e a desejar-lhe um feliz aniversário, Grêmio!
A bola mal havia começado a rolar na Arena, e eu ainda tinha compromissos profissionais a cumprir. Online como têm sido todos os que realizo desde o ano passado. Alinhei a tela de dois computadores e mantive um olho no futebol e o outro na mesa redonda. Aliás, uma mesa bem interessante de debate —- bem mais do que o jogo que estava sendo jogado.
Debate rico, pelo tema e pelos convidados. Na série “Paisagens na pandemia”, Jaime Troiano, colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, era o técnico, escalou o time e nos botou a jogar: a Cecília Russo, pelo lado da psicologia; o Emerson Bento, da educação; e o Fernando Jucá, das organizações. Fosse vôlei, eu era o levantador. Como a analogia é com o futebol, sem o talento de Jean Pyerre, mas suando a camisa muito mais do que ele, minha função era distribuir o jogo. Fazer perguntas. Provocar a discussão, no bom sentido.
Muito mais pela experiência de cada um do que pelas assistências que fiz, Cecília, Emerson e Jucá bateram um bolão, jogaram com as palavras, fizeram embaixadinhas com o conhecimento e deixaram, cada um do seu jeito, um golaço registrado no placar.
A preleção foi do Jaime que, em lugar de fazer essa pobre analogia com o futebol, nos proporcionou uma viagem ao litoral paulista, em caminho que fazia quando criança, no banco de trás do carro, e para passar o tempo contava quantos túneis havia na estrada. Nunca tinha certeza se haveria, na jornada, um outro túnel —- alguns intermináveis para ansiedade infantil , como acontece com a gente diante desta pandemia. Lembremos que não é o primeiro túnel que enfrentamos, apesar de ser o mais longo de nossas vidas. Talvez não seja o último, e Jaime chamou atenção para isso e nos propôs pensarmos que lições aprendemos para usarmos assim que este acabar e, quem sabe, um próximo túnel se apresentar.
“Sairemos do túnel com uma prática mais equilibrada da divisão de papéis entre gêneros?”.
A persistirem os sintomas, não. Mesmo que possamos encontrar casos simbólicos em que homens, tendo de trabalhar em casa, perceberam a necessidade de assumirem uma série de tarefas que antes eram realizadas apenas pela “mulher da casa”, pesquisa do Ibope realizada, neste ano, escancara a realidade doméstica. Ao perguntar para o casal quem organizava determinadas tarefas, o instituto identificou que, de 13 atividades descritas, em apenas duas os homens apareceram como os principais responsáveis: tirar o lixo (53%) e fazer o que precisa de manutenção na casa (69%). Cuidar dos filhos (88%), dos idosos (79%) e dos animais de estimação (59%), preparar a refeição (87%), limpar (87%) e lavar (77%), ficaram por conta das mulheres.
Emerson tem a vivência de mais de 20 anos como executivo de um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, o Bandeirantes. Pegou o gancho da Cecília para lembrar que homens e mulheres, pais e mães, tiveram um choque de realidade ao serem obrigados a ficar em casa com seus filhos e acompanharem o ensino à distância. A começar pelo fato de que, na avaliação dele, muitos dos adultos usavam a escola como uma espécie de depósito de corpos, onde deixavam os filhos armazenados em um período do dia para poderem fazer suas atividades. Houve casos em que tentou-se repetir essa estratégia, querendo que as crianças cumprissem seu horário de expediente diante do computador, com a escola reproduzindo a grade das aulas presenciais —- não deu certo, é claro. Professores e alunos foram muito mais flexíveis nas tomadas de decisões e conseguiram se adaptar bem melhor do que os pais àquela nova situação. Para Emerson, a experiência do ensino à distância e a expansão do uso da tecnologia serão suportes para o projeto pedagógico a ser realizado assim que sairmos do túnel. No entanto, ‘vai rodar’ quem não investir nas relações socioemocionais:
“Quando sairmos do túnel, a tecnologia sustentará uma educação mais humana para os humanos”
Emerson
Pensava cá com meus botões analógicos, se seguirmos enxergando a escola como este ‘depósito de corpos’ e terceirizando a educação dos nossos filhos, que seres humanos estaremos preparando para o futuro —- que para alguns está logo ali, na saída do túnel? Nem bem tinha absorvido essa reflexão, o Jucá entrou na jogada. Pegou a bola, colocou embaixo do braço e pediu um tempo, esse produto raro no ambiente organizacional:
“O ambiente corporativo hoje é uma máquina de fazer loucos ou um espaço fértil para nosso desenvolvimento pessoal?”
Fernando Jucá
A pergunta abriu caminho para ele contar histórias corporativas que ilustravam luz e sombra no mundo do trabalho. Dramas de pessoas que se perderam entre o “home” e o “office” quando os dois cenários se misturaram; de gente que sem ter o “olhar do dono” no cangote do escritório, tentou mostrar produtividade trabalhando muito além da conta; mas também de gestores que perceberam que as relações humanas deveriam prevalecer, a partir do desenvolvimento de uma prática até então pouco comum: a escuta ativa. Ouvir o que outro tem a dizer, auscultar sua alma e compartilhar os sentimentos — tudo aquilo que não aprendemos em anos de ensino superior, cursos de extensão, mestrados e doutorados. Boa lição desta tragédia que vivemos em sociedade.
Como era de se esperar, na conversa que durou hora e meia não se ofereceu uma resposta definitiva. Nem mesmo que tivessem acréscimos, prorrogação, cobrança de penaltis ou jogo de volta, esta reposta seria definitiva. Porque ela não existe. A começar pelo fato de que a pandemia mais do que transformar pessoas, expressou o que as pessoas têm, pensam e são, para o bem e para o mal. Ou seja, o túnel não tem uma só saída. Existem várias. Caberá a cada um de nós fazermos a escolha certa.
E aí, concluo eu, coisa que aliás não consegui fazer enquanto estava embevecido com a fala dos meus colegas: a nós cabe criarmos na família, na escola e no trabalho ambientes eticamente saudáveis porque assim, quando aqueles que estão ao nosso entorno tiverem de decidir qual caminho seguir no fim do túnel terão a oportunidade de fazerem escolhas mais qualificadas.
E quanto ao jogo? Bem, primeiro disse que esta coluna, apesar de vir sob o selo de Avalanche, não seria sobre futebol; segundo, que a vitória mirrada de um a zero contra um time que jogou metade do tempo com um a menos, não me estimulou a qualquer texto; terceiro, confesso, com cinco minutos de bola rolando no nosso debate até esqueci de olhar para a tela em que o Grêmio estava jogando. Lendo alguns comentários esportivos quero crer que ainda termos um longo túnel a percorrer.
Era o ano de 1986, o Grêmio com um timaço em campo; e eu um neófito repórter de campo. Naquele tempo, repórter de rádio tinha o direito de ficar ao lado do gramado. E a Guaíba de Porto Alegre, não poupava equipe. Éramos quatro ou cinco para auxiliar o narrador da partida. Conforme a jogada se desenrolava, éramos chamados para destacar aquilo que “só você viu”. Além da alegria de fazer parte daquele elenco de jornalistas esportivo —- e estar assistindo ao meu Grêmio em posição privilegiada —-, ainda tive o prazer de participar da jornada que era comandada por meu pai, Milton Ferretti Jung.
O jogo também me proporcionou um causo para contar.O único gol da partida foi aos oito minutos do segundo tempo, marcado por Osvaldo, um meio de campo com corpo atarracado, boa habilidade nos pés e inteligente ao seu posicionar, que havia feito sucesso na Ponte Preta de São Paulo, e acabou sendo campeão do Mundo pelo Grêmio, em 1983. Assim que ele completou a jogada nas redes coloradas, correu para comemorar em direção às sociais do estádio Olímpico. Agradeceu aos céus e foi acompanhado pelos demais colegas de time. No meio do caminho, estavam eu e meu microfone aberto que captou os gritos pela graça alcançada.
Coube a mim, descrever o gol e tomei a palavra de Osvaldo para celebrar o momento. Foi então que se criou o folclore de que o “obrigado” que se ouviu na transmissão jamais foi dito por Osvaldo, mas por mim, que, supostamente, comemorava com o time o gol que daria o bicampeonato estadual. Não foi verdade, como você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, pode conferir no vídeo que me foi enviado pelo Ricardo Wortman e está publicado no canal do Edu Cesar, no Youtube. Não que não estivesse comemorando. Estava. Apenas não fui eu quem agradeci a Deus, mesmo que tivesse vontade.
Esta história completou, agora, no dia 20 de julho, 35 anos, e faço este registro porque, na noite de terça-feira, ao assistir ao Grêmio nas oitavas de final da Copa do Brasil, confesso, tive vontade de repetir o mesmo grito e agradecer pela vitoria conquistada. Um 3 a 0 tão raro nestes tempos bicudos do futebol gremista quanto os leitores desta Avalanche. De um time em reconstrução, que tenta encontrar o lugar certo para cada um dos seus jogadores, um posicionamento mais adaptado aos nossos limites e de um técnico sempre capaz de tirar 100% do potencial de cada um de seus comandados. Só assim, foi possível, assistir ao terceiro e definitivo gol que resultou de jogada armada e escalada por Scolari, com a presença de Pinares, Luis Fernando e Diogo Barbosa, que completou para as redes de cabeça.
O resultado não nos dá nenhum título, como o da partida de 1986, mas, convenhamos, nos permite respirar um pouco diante dos inúmeros tropeços que acumulamos nos últimos meses. Mesmo assim, preferi guardar o grito de “obrigado” para outros momentos, até porque Deus tem coisa muito mais importante para fazer agora.
A conversa corria solta e animada com os estudantes de Jornalismo e da Administração, da UNISATC, de Criciúma, quando a partida desta noite já havia se iniciado. O papo virtual tinha jornalismo e comunicação como temas predominantes. Às boas perguntas que ouvi, me esforcei para dar respostas que atendessem o interesse da turma. Estrategicamente, deixei uma tela extra, ao lado do computador, com a bola rolando na Ilha do Retiro.
Foi de revesgueio que assisti àquela cobrança de falta que resultaria no único gol da partida — e deles, não nosso. Porque nós, até onde consegui ver, só forjamos jogadas mas não soubemos concluí-las com o mínimo de precisão. Diante das dificuldades para fazer a bola chegar ao alvo, já começava a imaginar onde encontraria inspiração para esta Avalanche que teimo escrever mesmo quando o time não faz por merecer.
Salvo pelo gongo. Ops, salvo por uma pergunta. Se não me falha a memória foi o Marcelo, um dos estudantes. Ou teria sido o Heitor? Perdão, guris. Sei que fui provocado a falar da minha passagem pelo futebol, como repórter, apresentador e narrador de TV.
Isso moveu com minha memória afetiva e me fez lembrar que, há exatos 20 anos, eu havia realizado o maior sonho, ou um dos maiores, que um torcedor pode sonhar com seu time: narrei o título de campeão da Copa do Brasil, de 2001, do Grêmio. O tetracampeonato!
Trabalhava na RedeTV, que havia recebido da TV Globo o direito de transmitir as partidas da Copa do Brasil daquele ano. A convite de Juca Kfouri fui testar o que considerávamos ser um novo formato na narração esportiva da televisão — até então contaminada pelo modelo das transmissões de rádio. Era para ser uma locução mais pausada, focada em informar o nome dos jogadores e alguma outra circunstância que se desenvolvia em campo ou fora dele. Sem gritaria, sem animação de torcida e valorizando o silêncio, sempre que possível. Acreditávamos que a riqueza das imagens e do som ambiente seriam suficientes para acompanhar o telespectador. Acho que já falei com você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, desta experiência.
Naquele ano, o Grêmio, sob o comando de Tite, fez uma campanha incrível na competição e se candidatou à final contra o Corinthians, de Vanderlei Luxemburgo, considerado pela crônica esportiva o favorito. No primeiro jogo, os paulistas saíram com dois gols de vantagem, em pleno estádio Olímpico. Mas o Grêmio encontrou forças para empatar e chegar vivo à decisão em São Paulo.
Fui privilegiado e escalado a transmitir a final, tendo Juca Kfouri, Jorge Kajuru e Oswaldo de Oliveira ao meu lado como comentaristas. As cabines de transmissão, no Morumbi, sacudiam com a animação do torcedor corintiano que tomou conta de praticamente todo o estádio. Apenas uma pequena parcela das arquibancadas foi reservada aos gremistas.
Antes de os jogadores subirem as escadas que davam acesso ao gramado, Tite reuniu o elenco e fez apenas um pedido: “vão lá e divirtam-se!”. Algo sobrenatural deve ter acontecido, porque mesmo estando distante deles, foi como se eu tivesse recebido aquela mesma mensagem e decidido que me divertiria com o microfone em mãos. Vencemos por 3 a 1 e, por mais que o profissionalismo exigisse equilíbrio, vibrei a cada gol do meu Grêmio, revivendo os tempos em que narrava futebol entorno da mesa de botão quando meu time sempre vencia.
Lembrar daquela tarde de domingo, no Morumbi, e assistir às imagens dos gols que marcamos foi estimulante nesta noite e uma ótima desculpa para eu não perder tempo com o mal e desorganizado futebol que estamos jogando.
Ferreirinha arrisca o chute em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Em uma semana na qual supostos candidatos a títulos se despediram precocemente da Copa do Brasil, cautela era a melhor estratégia. Pouco exagerada, verdade, dada a escalação de dois volantes mais fixos atrás — até porque tínhamos Geromel e Kannemann em campo, o que por si só é uma garantia de redução de riscos. O Grêmio havia saído do jogo de estreia, na Arena, com a impressão de que desperdiçara a oportunidade de decidir a classificação antecipadamente, mesmo que a vantagem de dois gols desse a impressão de que a vaga seria sua nas oitavas-de-final. Mas vai que …
Nunca é bom apostar com o azar.
Um chute desviado daqui, um pênalti mal ajeitado logo ali e tudo se complicaria no Serejão, também conhecido por Boca do Jacaré — um estádio acanhado para dizer o mínimo. O gramado, então, um desrespeito ao futebol profissional. Em péssimo estado e com buracos no meio do caminho.
A primeira vítima foi o goleiro adversário que teve o pé preso na grama e uma torção logo no início que o prejudicou no restante da partida. Depois, o talento e o toque de bola. Perdoe-me quem pensa o contrário: piso ruim atrapalha muito quem sabe jogar mais, porque reduz a velocidade da bola, distorce a direção do passe e costuma chegar na canela do companheiro, quando deveria ser tocada de pé em pé. Vimos isso durante o jogo.
Seja como for, desde o primeiro movimento, ficou claro que o Grêmio não queria jogar. Ao menos não queria se expor no jogo. O primeiro passe foi para trás e o segundo mais para trás ainda. A bola circulou entre os zagueiros muito mais do que pelos jogadores de meio de campo. Para um lado, para o outro. O marcador não vinha. Para um lado, para o outro. O marcador arriscava e voltada. Para um lado e para o outro. Às vezes, um avanço. Nada convincente.
No segundo tempo, com Diego Souza e Ferreirinha o nível da partida subiu.
Não que precisasse muito esforço para isso. A bola ficou mais no campo de ataque. A proximidade do gol não foi suficiente para colocá-la lá dentro. Além de um chute no travessão do nosso atrevido ponteiro esquerdo, pouco coisa se viu na partida desta quinta-feira à tarde.
O zero a zero ilustrou bem a qualidade do jogo, do gramado e do estádio. E o Grêmio cumpriu seu papel nesta etapa da Copa do Brasil, o que diante do desastre de gente graúda, convenhamos, está de bom tamanho.
Tiago Nunes, nosso técnico, invicto até aqui, ao lado do campo —- na única derrota, ele estava em casa se recuperando da Covid-19 —, gaúcho como eu, deve ter ouvido muito sua avó recomendar: melhor prevenir do que remediar. Cumpriu a risca o ensinamento.
A propósito: se é melhor prevenir do que remediar no futebol, quando o que está em jogo é a vida, o ditado é ainda mais pertinente. Portanto, a despeito do que este lunático que comanda o Brasil tenha dito hoje, cuide-se, previna-se, mantenha distância, evite aglomeração e use máscara. Tenha tomado vacina ou sido contaminado pela Covid-19, use máscara, pelo amor de Deus!
Ricardinho no caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Um gol, uma assistência e a cara de lamento no banco —- assim foi, na tarde desta quarta-feira, Ricardinho, o goleador que assistimos nascer no berço tricolor, desde que foi descoberto em São Paulo. Que tem marcado um gol a cada duas partidas disputadas, neste ano. E gols de um de um tipo de centroavante que há algum tempo faz falta para nós. Na trombada, na bola sobrada, na perspicácia de roubar do zagueiro desatento ou aproveitando-se da falha alheia.
A cada gol uma emoção nos atinge. Ricardinho bate continência para a câmera e ergue a camisa para revelar ao público a homenagem eterna ao pai e ao avô, que morreram de Covid-19. Uma perda que, claramente, ainda causa dor no guri de apenas 20 anos. Ele próprio, dia desses em entrevista coletiva, agradeceu pelo acolhimento dos companheiros e pelo fato de que quando entra em campo consegue amenizar o sofrimento da morte de gente que para ele é referência na vida.
Hoje, foi na disputa apertada, dentro da área congestionada de marcadores, que Ricardinho fez o Grêmio desencantar e abrir o placar na nossa estreia na Copa do Brasil, aos 44 minutos do primeiro tempo. Na volta para o segundo tempo, novamente foi ele, o oportunista, quem percebeu a falha na reposição de bola do goleiro e a desatenção do zagueiro, para arrancar em direção ao gol. Chutou uma, duas vezes. Até encontrar Jean Pyerre na pequena área pronto para empurrar a bola às redes.
Ricardinho foi essencial para a vitória que deu boa vantagem ao Grêmio nesta briga por uma vaga à próxima fase da Copa do Brasil.
Não foi o suficiente para o nosso atacante sair satisfeito de campo. Um erro que ele cometeu aos 19 minutos do segundo tempo —- quando o Grêmio já tinha vantagem —-, ao desperdiçar o gol aberto e colocar a bola no travessão, deixou o centroavante inconformado.
Nosso jovem goleador lamentou, socou a trave, bateu as mãos nas pernas, tapou o rosto quando sentou no banco, logo que foi substituído. Vai dormir essa noite com o lance na mente; com a tristeza de quem fez o mais difícil e não soube concluir a gol.
Não se lamente, Ricardinho!
A gente até entende seu desejo de marcar e marcar cada vez mais gols. É importante que tenhamos esse desejo de acertar sempre. De sermos perfeitos —- mesmo que saibamos que somos apenas humanos. De pararmos para pensar por que erramos ou como evitar esse erro novamente.
Mesmo que você leia aqui ou acolá alguma crítica ao gol perdido, tenha certeza de que o gol marcado e o gol armado por você foram muitos mais relevantes. Se você perdeu um gol feito é porque você se fez presente para tentar marcar mais uma vez. Assim é a nossa vida: acertamos e comemoramos; erramos e aprendemos; sorrimos e sofremos.
Valorize suas conquistas —- elas nos fizeram muito mais felizes nesta estreia da Copa do Brasil. E, em nome desta felicidade, agradecemos a você, Ricardinho.