Um caminho para nossa Educação

 

Por Julio Tannus

 

Muito tem se falado sobre o nível de nosso ensino, tanto nos cursos básicos como nas universidades. Para Edgar Morin há sete saberes necessários à educação para promover a formação de futuras gerações. Diz que são necessárias novas práticas pedagógicas para uma educação transformadora que esteja centrada na condição humana, no desenvolvimento da compreensão, da sensibilidade e da ética, na diversidade cultural, na pluralidade de indivíduos. E que privilegie a construção de um conhecimento interdisciplinar, envolvendo as relações indivíduo-sociedade-natureza. Para ele é fundamental criar espaços para o diálogo que propicie a reflexão, capaz de viabilizar práticas pedagógicas fundamentadas na solidariedade, na ética, na paz e na justiça social.

 

Uma educação baseada nos Sete Saberes (*) poderá colaborar para que os indivíduos possam enfrentar as múltiplas crises sociais, econômicas, políticas e ambientais, que colocam em risco a preservação da vida no planeta.

 

Aqui vão os “Sete Saberes”.

 

As cegueiras do conhecimento, o erro e a ilusão – Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla face do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão.

 

Os princípios do conhecimento pertinente – O conhecimento dos problemas-chave, das informações-chave relativas ao mundo, por mais aleatório e difícil que seja, deve ser tentado, sob pena de imperfeição cognitiva, mais ainda quando o contexto atual de qualquer conhecimento político, econômico, antropológico, ecológico… é o próprio mundo. A era planetária necessita situar tudo no contexto e no complexo planetário.

 

Ensinar a condição humana – A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária; uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua humanidade comum e, ao mesmo tempo, reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano.

 

Ensinar a identidade terrena – A partir do século XVI, entramos na era planetária e encontramo-nos desde o final do século XX na fase da mundialização. A mundialização, no estágio atual da era planetária, significa primeiramente, como disse o geógrafo Jacques Lévy: “o surgimento de um objeto novo, o mundo como tal”. Porém, quanto mais somos envolvidos pelo mundo, mais difícil é para nós apreendê-lo. Na era das telecomunicações, da informação, da internet, estamos submersos na complexidade do mundo – as incontáveis informações sobre o mundo sufocam nossas possibilidades de inteligibilidade.

 

Enfrentar as incertezas – Ainda não incorporamos a mensagem de Eurípedes, que é a de estarmos prontos para o inesperado. O fim do século XX foi propício, entretanto, para compreender a incerteza irremediável da história humana.

 

Ensinar a compreensão – A situação é paradoxal sobre a nossa Terra. As interdependências multiplicaram-se. A consciência de ser solidários com a vida e a morte, de agora em diante, une os humanos uns aos outros. A comunicação triunfa, o planeta é atravessado por redes, fax, telefones celulares, modens, internet; entretanto a incompreensão permanece geral. Sem dúvida, há importantes e múltiplos progressos da compreensão, mas o avanço da incompreensão parece ainda maior.

 

A ética do gênero humano – individuosociedadeespécie são não apenas inseparáveis, mas coprodutores um do outro. Cada um destes termos é, ao mesmo tempo, meio e fim dos outros. Não se pode absolutizar nenhum deles e fazer de um só o fim supremo da tríade; esta é, em si própria, rotativamente, seu próprio fim. No seio desta tríade complexa, emerge a consciência. Desde então, a ética propriamente humana, ou seja, a antro-poética, deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos. Essa é a base para ensinar a ética do futuro.

 

Para cada um, Morin faz uma análise que não cabe aqui ser reproduzida, mas certamente merece ser lida, estudada e apreendida.

 

(*) Edgar Morin, Os sete saberes necessários à educação do futuro – 2a Edição Revisada; Cortez Editora

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada,
co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier), e escreve no Blog do Mílton Jung, às terças-feiras.

Direita e Esquerda ou Educação e Alienação?

 

Por Carla Zambelli
Fundadora do Movimento NASRUAS CONTRA CORRUPÇÃO

 

Essa discussão toda sobre esquerda e direita é hipócrita. Esquerdistas batem no peito para defenderem a coletividade acima de qualquer coisa, mas são os primeiros a fecharem suas portas para pedintes. Direitistas não acompanham a mudança e têm dificuldade de respeitar a diversidade entre as pessoas. E assim vamos vivendo, brigando e divergindo enquanto milhares morrem por diversos motivos imbecis.

 

Não importa quem tem mais razão, se Delfim ou Bobbio, mas as teorias extremistas não acompanham a vontade da maioria, nunca.

 

O mundo deveria ser menos taxativo, menos carimbo ou nomenclaturas e mais solução. Sempre haverá os mais ricos, os milionários. Os carros de luxo, helicópteros, casas e hotéis padrão cinco ou seis estrelas, conglomerados, fortunas e por outro lado sempre haverá os menos privilegiados.
O que não deveria mais existir é, de um lado, o derrame do erário pela corrupção, dinheiro que vem fácil porque se compra o setor público, que por outro lado tira do mais pobre, tornando-o cada vez mais miserável, dando ao mais rico e arrancando a oportunidade de estudo e consequente crescimento do que não nasceu em berço esplêndido.

 

Por que não podemos ter sim o luxo, que sustente e faça rodar a máquina administrativa pública e privada para o bem dos menos favorecidos, oferecendo a estes um bom estudo, infraestrutura de qualidade com saneamento, transporte público funcional, lazer e cultura, saúde de qualidade, coisas básicas, conseguidas com o imposto que as grandes empresas pagariam sem que houvesse a necessidade de corrupção?

 

Por que as empresas não podem concorrer a uma licitação da mesma forma como apresentam orçamentos para clientes privados, com o menor preço de fato? Com qualidade e garantia do serviço?

 

Por que nossos impostos, um dos mais altos do mundo, não conseguem pagar um ensino integral para que as mães possam trabalhar e deixar seus filhos, tranquilamente nas escolas, com atividades extras, alimentação e banho?

 

Por que o miserável tem que sofrer sem esgoto e água tratada, sem banho quente, e tem que receber os bolsas esmolas da vida, quando na verdade deveria receber educação e ter oportunidade de concorrer de igual para igual às vagas em universidades públicas para, então, terem chance no mercado de trabalho?

 

Por que o nosso governo tem que gastar milhões em publicidade para mostrar o que faz, quando na verdade faz algo muito aquém de suas obrigações?

 

Por que não podemos valorizar o lado bom do capitalismo e o que ele nos dá, que é a oportunidade de crescer, mas fazê-lo de forma ética e responsável, cuidando dos pobres, lhes dando o mínimo de conforto e segurança, e deixando a força de vontade de cada um fazer a diferença ao invés da lei do ganha-ganha?

 

Há sim uma forma intermediária, sem extremos, sem excessos para se fazer um país dar certo. O Brasil poderia continuar a trilhar o caminho da boa economia e até da Copa do Mundo, mas fazendo tudo isso de forma limpa, transparente, com um preço justo para que o povo recebesse o fruto do seu suado trabalho em forma de infraestrutura, educação, segurança e saúde.

 

E o mais importante, tudo isso sem necessariamente distribuir esmolas de um lado e de outro aprovando automaticamente na escola para que o aluno saia mais estúpido e alienado do entrou na escola.

 

Temos que ensinar nossas crianças de verdade, com qualidade, com profundidade. Ensinar o que é cidadania, ética e educação política, de forma integral, para que nossas crianças saiam das ruas e entrem para um novo mundo. Um mundo sem esquerda e direita, mas com democracia e possibilidade de um futuro brilhante para todos, de verdade, para que aqueles que realmente se dedicam, façam a diferença pelo esforço e não pelo suborno.

 

E quem sabe assim, teríamos um país uno em seus tratamentos para com o próximo e justo para com os que se destacam por esforço próprio e de forma ética. Há projetos tramitando na Câmara dos Deputados, neste sentido. O povo aguarda ansiosamente que coloquem em pauta e aprovem o que pode ser a solução do Brasil, formando cidadãos de verdade, pois a solução mais profunda e certeira para o que se tornou nosso país está na educação.

 

Por que ler e escrever?

 

Por Julio Tannus

 

Seguem algumas citações:

 

O verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê – Mário Quintana
A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede – Carlos Drummond de Andrade
A leitura nutre a inteligência – Sêneca
A pessoa que não lê, mal fala, mal ouve, mal vê – Malba Tahan

 

Guimarães Rosa me disse uma coisa que jamais esquecerei tão feliz me senti na hora: disse que me lia “não para a literatura, mas para a vida” – Clarice Lispector
A leitura de um grande livro é muito mais rica que assistir a um grande filme – Steven Spielberg
Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história – Bill Gates
O importante é motivar a criança para leitura, para a aventura de ler – Ziraldo

 

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria – Jorge Luis Borges
É preciso fazer compreender a criança que a leitura é o mais movimentado, o mais variado, o mais engraçado dos mundos – Alceu Amoroso Lima
Amar a leitura é trocar horas de fastio por horas de inefável e deliciosa companhia -
John F. Kennedy

 

Creio que uma forma de felicidade é a leitura – Jorge Luis Borges
A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo – Merleau-Ponty
Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida e nos marcam para sempre – Cecília Meireles
A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo – Nelson Mandela

 

Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda – Paulo Freire
Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi – Mário de Andrade
Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena – e disso vem o valor da literatura. Por meio dela, fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo – Monteiro Lobato
Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias – Pablo Neruda

 

Escrever é estar no extremo de si mesmo – João Cabral de Melo Neto
Escrever é um ócio muito trabalhoso – Goethe
Não se é escritor por ter escolhido dizer certas coisas, mas sim pela forma como as dizemos – Jean-Paul Sartre
A poesia é a música da alma, e, sobretudo, de almas grandes e sentimentais – Voltaire
Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras – Robert Frost
A Matemática pura é, à sua maneira, a poesia das ideias lógicas – Albert Einstein

 

Contribuição da professora Malu Zoe:

 

“Quando somos adolescentes, gostamos da ideia de sermos os descobridores de pequenos universos. Mas, depois de uma certa idade, preferimos voltar aos lugares que já conhecemos, onde não precisamos nos apresentar. Gosto das velhas companhias e dos velhos livros” – Manguel, escritor argentino

 

“Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido vegetal de folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que o vento em folha de livro.
Todavia, a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.
João Cabral de Melo Neto

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

As Depredações Escolares: lugar público, terra de ninguém

 


Por Julio Tannus

 

As depredações nas escolas públicas em nossa cidade não são de hoje, e também não é nosso privilégio.

 

Escola abandonada

 

No início da década de 80, no Governo Franco Montoro, e a pedido do então Governador de São Paulo, através de sua Secretaria de Educação, foi-se a campo para levantar o máximo de informações sobre essa questão. Falou-se com diretores de escola, educadores, alunos e todo o elenco participante desse espaço vital para a sociedade como um todo.

 

Desde então, vários problemas vem sendo levantados, e entre outros, relacionados à:

 

Vagas

 

A instabilidade e a incerteza quanto às vagas geram mal-estar no seio da população, que termina por imprimir sua revolta contra o prédio escolar. Qualquer tentativa de negociação para resolver a questão passa, necessariamente, pela ampliação do número de vagas oferecidas.

 

Local

 

As favelas e os bairros desfavorecidos fazem com que a escola seja um lugar privilegiado, pelo seu tamanho em relação aos barracos, pelo seu prédio mais bem equipado que as moradias populares e, principalmente, por representar o Estado e ser patrimônio público. Por precárias que sejam as instalações escolares contam com salas de aula e cadeiras para acolher um número importante de pessoas. Apesar da precariedade das instalações elétricas, elas existem e, mesmo não sendo um modelo apropriado, podem ser utilizadas. Enfim, a escola tem sanitários, água encanada e outros pequenos benefícios que os barracos dos moradores nem sempre possuem.

 

Diferenças Sociais

 

Escolas localizadas em áreas onde subsistem sociedades diferentes, umas mais pobres que outras, um mais desfavorecido que o outro – miseráveis e pobres. E aí se formam grupos ou “panelas”, gerando-se conflitos permanentes. E os conflitos entre grupos são fatores que contribuem para o surgimento da depredação escolar.

 

Manutenção

 

Qualquer dano no prédio escolar é estímulo para a promoção reprodutiva de depredações. Desta forma, os banheiros, as descargas, os azulejos, as torneiras, os vidros, e outros objetos danificados devem ser reparados o mais breve possível.

 

É dessa época a ideia de ocupar os prédios escolares nos fins de semana com várias atividades – esportes, cultura, lazer – a fim de se coibir tais depredações, que nesse período são mais agudas.
Várias outras iniciativas têm sido tomadas, entretanto, todas elas incapazes de solucionar o problema.

 

Dois textos cobrem de forma ampla o assunto:

 

Formas contemporâneas de negociação com a depredação
Hélio Iveson Passos Medrado

 

Iniciativas públicas de redução da violência escolar no brasil
Luiz Alberto Oliveira Gonçalves
Marilia Pontes Sposito

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Da pior espécie

 

Por Juliana Furtado
Ouvinte-internauta da CBN

 

O dedo do meio mostrado para mim por uma loira apressadinha, de dentro do seu carro na Marginal logo de manhã, me fez pensar na falta de educação que acomete aqueles que justamente têm acesso a ela.

 

O ma-educado típico não é a manicure, o cobrador de ônibus ou o frentista do posto, dos quais recebo frequentemente sorrisos e palavras de profunda inteligência.

 

Ele é o executivo-padrão que sai do restaurante da Faria Lima e joga papel de bala no chão. É o dono do carro mal-estacionado que come a vaga ao lado no shopping, jaula da humanidade pós-moderna. É o pai de família que trata o garçom com superioridade no restaurante da moda. É a dondoca que buzina lá atrás quando você pára o carro para o pedestre atravessar. Na selva de pedra, evolução zero.

 

Os macacos que apareceram outro dia no jardim da minha sogra são mais civilizados. Você dá a banana, eles pegam, não avançam. Respeitam o espaço do outro. Não fazem ideia do que é arrogância. Seguem o instinto, mas nele há coerência.

 

Aliás, olhando bem para eles, vi o quanto somos primatas. Aos macacos, as bananas. Aos homens, um curso de boas maneiras.

O que você pediria ao próximo prefeito?

 

 

Muito rica de propostas, a edição da revista Época São Paulo chegou às bancas neste fim de semana com o perfil de 13 dos possíveis candidatos à prefeitura da capital e 50 sugestões para quem pretende governar esta cidade com cerca de 11,2 milhões de moradores e R$ 38,7 bilhões no Orçamento. Além disso, é possível identificar as prioridades de parcela da população a partir do resultado de pesquisa encomendada ao instituto Conectaí (braço on-line do Ibope) que contou com a participação de 254 entrevistados.

 

Na opinião dos paulistanos, a maior encrenca a ser resolvida pelo prefeito eleito é o transporte (40,4% indicaram este tema como o principal), o que não chega a surpreender depois que assistimos a greves em metrô e trem, há duas semanas, e congestionamento que quase bateu na casa dos 300 quilômetros, como na sexta-feira. Não tenho o detalhamento da pesquisa, mas penso que esta demanda está mais próxima da classe média e de quem ainda consegue resolver as questões de educação e saúde por conta própria. Digo isso, porque partidos políticos, em estudos de opinião pública, têm encontrado a área de saúde como a mais crítica – da mesma forma que o Ibope levantou em pesquisa encomendada pela Rede Nossa São Paulo, no início do ano. Na revista, após transporte, apareceram educação (18,4%) e saúde (14,2%).

 

Para personalidades e leitores, a revista fez a seguinte pergunta: “se você pudesse ter um encontro de 5 minutos com o próximo prefeito, o que pediria a ele?”. Falou-se de pedágio urbano, corredor de ônibus nas marginais, calçadas mais largas, fim do Minhocão, transformação de cemitério em área de lazer, menos cargos de confiança, mais e melhores bibliotecas, entre tantas outras ideias. Vou destacar duas que me chamaram atenção e deixo as demais para você ler na banca.

 

A primeira, proposta por Maria Alice Setubal, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, que prega a extensão da jornada diária do ensino fundamental para sete horas em todas as escolas municipais. Apenas os alunos de 45 CEUs – Centros Educacionais Unificados têm esta oportunidades, em 94% das demais unidades da rede, a jornada é de cinco horas, e 6% submetem parte de seus alunos ao turno da fome, os obrigado a estudar das 11 da manhã às três da tarde. “Numa cidade voltada à educação, as escolas devem estar abertas aos estudantes pelo maior tempo possível”, disse Maria Alice à revista. Candidato que se preze tem de assumir já este compromisso e dar uma solução antes do primeiro ano de gestão.

 

A segunda ideia que gostei é do psicanalista Antonio Lancetti que propõe a criação de sala de uso seguro para dependentes de crack. Fiquei feliz em ler esta sugestão pois vai ao encontro do que escrevi recentemente na coluna Adote São Paulo que assino na Época São Paulo (leia aqui). Diz Lancetti que “para a iniciativa dar certo, as salas precisam funcionar 24 horas por dia e estar vinculadas a consultórios de rua e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)”. Importante alerta para quem acreditou que a Policia Militar resolveria o problema que assistimos na Cracolândia, região central. Aliás, não sei se você teve oportunidade de ler reportagem no Estadão de domingo que antecipou resultado de estudo encomendado pela Secretaria de Assistência Social no qual 72% dos moradores de rua disseram que a operação policial não mudou em nada a vida deles, enquanto 17% que piorou. O que apenas comprova que as soluções para o crack não são fáceis nem simplistas, assim como não o são para a mobilidade urbana, para o ensino, para a saúde, para a cidade toda. Por isso, senhores candidatos, muita inteligência e criatividade serão necessárias.

 

N.B: Na edição de junho da Época São Paulo aproveitei para escrever sobre como escolher um vereador na próxima eleição. Mas sobre isso, falo com você mais para o fim da semana. Se tiver uma chance, compre a revista, leia e comente.

De faxina

 

Por Maria Lucia Solla

 

Urubu

 

“Não, não sei; e se eu for procurar, eu me perco…” … disse o Secretário de Educação da vez, da cidade de Jandira, no Estado de São Paulo, quando um repórter lhe perguntou por que é que em vez das 700 vagas de creches prometidas pelo prefeito à população, no prazo de um ano, só tinham sido entregues trinta e poucas. O assunto era o prazo de término das obras e inauguração e entrega, à população, das unidades já prontas. Trocando em miúdos, o repórter queria saber que obstáculos tinham impedido que as creches ficassem prontas. E o Secretário disse que não tinha a mínima ideia de quais tinham sido os tais obstáculos e que também não tinha intenção de procurar por eles. A busca da solução seria o foco. Esse papo surreal se deu frente à ira de pais e mães desconsolados por não terem com quem deixar seus filhos para ir trabalhar. Gente boa, como você, como eu. Gente que batalha, a maioria dignamente e com garra. Sabemos como é encontrar um obstáculo desse tamanho e podemos compreender a indignação de pais e mães que fazem a sua parte no remar este barco.

 

Na mesma cidade, no início do ano passado, o ex-secretário de Habitação e Obras de Jandira, o senhor Wanderley de Aquino, foi preso por corrupção e enriquecimento ilícito. Se isso não bastasse, continua sendo o principal suspeito de assassinar o ex-prefeito, o finado senhor Braz Paschoalin. Foi também provado que ele se associou ao crime organizado para desviar dinheiro dos cofres municipais. Quem tem o poder de controlar o descontrole da liberação de verba, de manipular contrato e superfaturar obra pública, de bordar licitação, de usar parente como laranja e pobre coitado como testa de ferro, merece a forca. Que lhe seja confiscado o brioche do café da manhã e do lanchinho da tarde.

 

Me dou conta de que cadeia está cheia de bandido pobre e sem conexão – wi-fi, money-fi ou QI-fi. O lado de fora das grades está repleto de gente da mesmíssima laia da que está do lado de dentro, com a agravante de que aquele que transita do lado de fora teve e tem condição de acessar ferramentas que abrem e inflam a consciência do Homo sapiens. Gente que não usa o verbo ralar, mas o verbo rolar, e seu derivado enrolar.

 

Tem fraude milionária do Oiapoque ao Chuí, tem indústria da seca no Nordeste, investigação fajuta que termina em pizza, vereador e prefeito presos, atentado a escolas. Uma cambada presa, e outra muito maior, solta. Um rolo atrás do outro. Bandidagem sem tamanho; e não só aqui em Terra Brasillis. Isso pipoca pelo mundo, em todas as línguas, sob o jugo de todas as moedas. Às claras, com pompa e circunstância.

 

Me perdoe o personagem da vez, autor da frase que abre este texto, mas assisti à entrevista pela TV, e ele me pareceu perdidaço. Não tem ideia (!) do que se passa na pasta que, ao menos no papel e no holerite, deveria ser cuidada por ele.

 

Quadrilha e político são palavras que têm andado juntas; cada dia mais juntas. Criança ouve falar todo dia de bicheiro, CPI, político, formação de quadrilha, roubalheira à luz de holofotes, câmeras e microfones, e corrupção, como se esses fossem elementos do coletivo Pátria. Os partidos políticos estão partidos.

 

Assassinato em massa, sete corpos degolados e um suspeito, delegados e outros em viagem para para que o suspeito pudesse depor e ser julgado desaparecem numa ceifada só, quando o helicóptero que utilizavam despenca e se despedaça. Tudo muito estranho. Como diria meu neto, muuuuuuuito estranho.

 

Haja água sanitária!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De educação

 

Por Maria Lucia Solla

 

Ouça “De educação” na voz e sonorizado pela autora

 

Prédio e janela

 

Olá,

 

por que é que carro ainda tem buzina? No século vinte e um, pelo amor de Deus! Quem mora na vizinhança onde eu moro sabe que a situação está insustentável durante todo o dia e principalmente no início da noite. Moro perto de um laboratório clínico, e quem está ali já está estressado o bastante para levar buzina no ouvido além de agulha no braço.

 

A invenção do automóvel nasceu da vontade do homem de se locomover mais depressa e com menos esforço. Nada contra. No início, mais parecia uma charrete com uma roda só, na frente, no lugar do cavalo. Lindo! Depois foi movido a vapor, a motor de quatro tempos, até chegar aos nossos dias, onde os bólidos se servem de toda sorte de droga para atiçar cavalos invisíveis.

 

Agora, o fato de a buzina ter persistido é que não me convence. Tem sinal de trânsito de todo tipo e tamanho, em todo lugar. Tem radar, tem pedágio inteligente, marronzinho, azulzinho, amarelo e verde, todos de caderninho na mão, procurando, eu quero acreditar, organizar o caos e punir os caóticos. Não vou dar palpite no sistema, que disso eu não entendo, mas será que quem cuida do assunto entende mesmo, num país em que ser político é ter um diploma multifuncional? Se é político e está do lado do rei, mesmo sendo professor de biologia pode reger as finanças do pais ou cuidar da malha rodoviária. Se além de político você ainda tiver prestígio, dinheiro e manha para se safar de safadeza, não há limite para o poder. Então, quem sou eu para entender de organizar o trânsito. Entendo de letrinhas, de gente, e dou um duro danado para entender de mim mesma.

 

Procuro não sair de casa, de carro, em horário crítico, para fugir da muvuca, e tem vezes que, frustrada, oscilo entre a sensação de liberdade e de prisão. Agora, vamos combinar que quem sai na chuva, pelo motivo que for, vai se molhar. A vida prega peças e, mesmo planejando idas e vindas, acabamos caindo na armadilha de avenida entupida, acidente na Marginal, ponte que arreia por isso, por aquilo, pontos de alagamento, arrastão, fila tripla de caminhão.

 

Ontem sentei na frente da loja de conveniência do posto de gasolina perto de casa, esperando que meu carro fosse lavado. Um belo capuccino, o livro que sempre levo na bolsa para casos desse tipo, e me pus a ler. Sentindo o forte calor na pele, suspirei em paz. Foi quando o gato subiu no telhado e levou com ele a minha paz.

 

Relaxar? Levei um susto com uma buzina que gritava, gritava rouca, sem parar. Levantei os olhos e dei de cara com uma mulher que dirigia um desses carros enormes que ocupam o lugar de dois. Ela tinha a janela aberta e seu braço trazia toda a caixa de jóias com ele. Irritada, batia a mão na porta e buzinava, buzinava. Me assustei, levantei da cadeira, espichei o pescoço para ver o que acontecia e, pasme!, era só o carro da frente esperando que o da frente dele conseguisse entrar no super mercado, para continuar a viagem. Coisa de trinta segundos. Num zás, a epidemia tomou conta do quarteirão inteiro, e outros começaram a buzinar histericamente sem mesmo saber por quê.

 

O automóvel percorreu um longo e interessante percurso na história, para chegar ao que é. E nós? Permanecemos um bando de mal-educados mimados. Ganhamos dinheiro para comprar carros grandes e caros para fazer crer que somos importantes, mas não tivemos tempo de nos educarmos, e buzinamos como bebês enfurecidos quando lhes tiram a chupeta. Marmanjos e marmanjas de dar dó. Vergonha!

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Competir com harmonia

 

Gestão de empresas e pessoas foi o tema da entrevista de Wandick Silveira, diretor-presidente do Grupo Ibemec Educacional, ao programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ele falou da necessidade de as empresas criarem um ambiente de competição mas, também, de harmonia para motivar os colaboradores e reter talentos. Durante a entrevista, Wandick comentou, ainda, sobre os jovens de até 24 anos e a influência deles nas relações corporativas.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, quartas-feiras, 11 horas, no site da Rádio CBN (www.cbn.com.br) com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn e e-mail milton@cbn.com.br. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN

Avalanche Tricolor: Mérito para quem luta

 

Grêmio 2 x 2 Atlético GO
Brasileiro – Olímpico Monumental

Foi um fim de semana especial. E antecipo que não me refiro ao futebol, sobre este falem os entendidos. Prefiro escrever de metas, sonhos e conquistas alcançados na sala de aula, onde não chegava a ser um aluno exemplar, mas deixei boa impressão, sem falsa modéstia, tendo tido participação na política e no esporte do colégio em que estudei boa parte de minha juventude, em Porto Alegre. Além de ter sido presidente do grêmio estudantil e jogado em algumas das equipes principais de basquete do Colégio Rosário, também construí excelentes amizades com professores que conseguiam entender minha personalidade. Minhas notas não eram suficientes para me colocar no topo da lista dos melhores alunos, no entanto me garantiam no ano seguinte – exceção à sétima série, do primeiro grau – rebatizado ensino fundamental -, quando tomei bomba e fui obrigado a repetir. Mesmo esta experiência trágica me proporcionou momentos importantes e situações que guardo na memória até hoje.

Quando o boletim recheado de notas vermelhas (nunca me dei bem com esta cor) chegou em casa o pai estava viajando para transmitir uma partida de futebol pela rádio, o que me deu tempo para em uma tentativa desesperada negociar com a mãe uma forma de impedir que ele soubesse do resultado. Evidentemente que ela não aceitou, nem haveria como evitar a situação, e me convenceu de que o melhor mesmo seria eu contar a ele o que havia acontecido. Sem coragem de encará-lo prorroguei ao máximo o momento da verdade e tenho dúvidas se teria conseguido não fosse a intervenção de meu padrinho e técnico Ênio Andrade, que na época treinava o Grêmio. Em uma jogada combinada com o pai que, lógico, estava inteirado do meu infortúnio, Seu Ênio me convidou a passear pelo pátio do Estádio Olímpico e com a mão sobre meus ombros fez algumas perguntas do cotidiano até chegar ao ponto crucial: o desempenho escolar. Em seguida, quis saber por que não tinha coragem de contar ao pai, afinal ele era meu companheiro e seria mais fácil enfrentar aquele momento de angústia. Ele e minha mãe tinham razão, assim que falei, o sofrimento foi amenizado apesar de ter ouvido justificáveis reprimendas.

Lembrei desta história, no fim de semana, depois que voltei da escola de meus filhos com o boletim deles em mãos. Ao mostrar a avaliação para o mais novo, recebi um comovido abraço seguido de lágrimas para as quais fiquei sem palavras. Me coube retribuir com um lento cafuné deixando o tempo passar e a emoção, também. Meu pequeno não chorava notas ruins nem a necessidade de realizar provas de recuperação, muito antes pelo contrário. Este havia sido um ano no qual teve pequenos tropeços, nada de anormal, e, talvez, não conseguisse passar por média pela primeira vez. Neste último trimestre, ele se dedicou muito, esteve mais atento e foi preciso nas lições de casa, além de ter mantido o bom hábito de participar das discussões na sala de aula. Em praticamente todas as matérias melhorou seu desempenho e teve seu esforço reconhecido pelos professores no Conselho de Classe. Chorou de alegria pela conquista alcançada em uma satisfação que me encheu de orgulho. Ele sai deste ano com mais uma lição aprendida e a certeza de que mereceu o prêmio recebido.

O mérito da vitória não existe para aqueles que não lutaram por ela. Ele lutou e nós vibramos muito com isso. Não posso dizer o mesmo do meu time.