O futebol não quer você no estádio adversário

 

Gremio x Palmeiras

Torcida do Grêmio no Pacaembu, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em um momento em que o futebol brasileiro tem conseguido mobilizar uma quantidade significativa de torcedores para os estádios —- e os “calculistas” podem me confirmar se a média de público tem aumentado, neste ano —- quero conversar com você, caro e raro leitor deste blog, sobre a dificuldade para se assistir aos jogos no estádio do adversário.

 

(ops: antes de seguir em frente, acabo de receber a confirmação do meu colega Paulo Vinícius Coelho: o público tem aumentado, a média está em 20.700 torcedores, a maior em 36 anos)

 

Nasci e fiz minha infância e adolescência quase dentro de um estádio de futebol. O quintal da casa em que morei, em Porto Alegre, era o Olímpico Monumental. Assistir aos jogos pelo interior do Rio Grande do Sul também não era um problema pois tinha o privilégio de chegar aos estádios na companhia da equipe de esportes da Rádio Guaíba, estivesse ou não com o meu pai. Os portões se abriam e na pior das hipóteses eu arrumava um lugarzinho na cabine da emissora.

 

Nos clássicos que eram disputados no Beira Rio a logística era parecida graças ao carinho com que a diretoria do Grêmio sempre concedeu ao meu pai. Assim, era fácil encontrar um diretor gremista que me acolhia e  me levava junto com o staff para o estádio adversário.

 

As coisas começaram a ficar mais complicadas aqui em São Paulo. Os primeiros jogos em que me arrisquei foi no Canindé, em época na qual a Portuguesa estava sempre disposta a pregar suas peças —- bons tempos aqueles, não é Luisinho! Foi lá, porém, que tive minha primeira decepção. Pois insisti em levar um dos meus filhos. A desorganização na fila do ingresso, a forma agressiva com que os cambistas nos abordavam e a violência de uma das organizadas fez com que ele me pedisse para nunca mais convidá-lo para aquele selvageria.

 

Tivemos algumas experiências, também, no Parque Antártica e no Morumbi —- nada muito convidativo, mesmo que os resultados em campo tenham sido positivos para o meu Grêmio. Aliás, antes mesmo de os meus meninos serem gremistas, fui ao Morumbi com eles para ver o São Paulo em campo e os maus-tratos foram tais que acabamos sentados nas cadeiras reservadas ao time adversário, que estavam completamente vazias.

 

Transformei-me em torcedor de televisão, especialmente depois do surgimento do paga-pra-ver. É mais fácil, mais seguro e mais confortável — mesmo que nada se comparece com o prazer de você pular na arquibancada, gritar até a voz se perder e comemorar abraçado a alguém do seu lado que você jamais viu na vida e jamais verá de novo, mas se identifica com você pela cor da sua camisa.

 

Nesta semana, muitos amigos não acreditaram que eu não assistiria ao Grêmio na Libertadores, no estádio do Pacaembu, em São Paulo.

 

Pense comigo: o trajeto até o estádio tem de ser feito de forma clandestina, porque se um louco qualquer identificá-lo com a camisa contrária, você corre o risco de ser agredido. Estacionar seu carro nas proximidades do estádio é uma façanha (e um achaque). O espaço destinado ao torcedor adversário é sempre o pior possível. Distante e em um canto qualquer, cercado de seguranças por todos os lados, oferecendo a sensação de que você é um terrorista prestes a explodir uma bomba. Ao fim da partida, você se transforma em refém, pois só pode deixar o local quando a polícia entender que está tudo em ordem do lado de fora. Ou seja, para um jogo que começa às nove e meia da noite, como foi o caso desse, você só vai voltar para a casa por volta de uma hora da manhã —- inviável para quem como eu acorda às quatro da matina.

 

Entenda, não estou aqui desmerecendo o sistema de segurança necessário para manter a ordem e os bons costumes em um estádio de futebol. Sei que a estupidez humana exige alguns limites. Mas chamo atenção para a necessidade de o torcedor adversário —- e aqui em São Paulo sempre sou o adversário —- também ser mais bem respeitado nos estádios de futebol.

 

Hoje, pensei em me organizar com a família e assistir ao Grêmio no sábado pela manhã, no Morumbi. O horário é ótimo —- mesmo que ainda me cause uma estranheza —- e o local é próximo de casa. Além de ver meu time, mesmo com os reservas em campo, ainda terei a oportunidade de acompanhar, ao vivo, a atuação de Daniel Alves, um dos maiores nomes do futebol mundial. Sim, eu gosto de ver craques jogando, apesar deles estarem do outro lado.

 

Aí surge a primeira decepção: na busca de ingresso, a informação que descubro é que a torcida visitante pode comprá-lo, mas “somente no dia da partida, na bilheteria 05 do portão 15”. Não fosse o fato de ser um dos mais caros, R$ 80,00, você tem de ficar sentado na arquibancada superior, a mais distante do gramado e sem direito a cobertura — torça para não chover no dia nem ter de enfrentar um sol escaldante.

 

Com todas as possibilidade de os ingressos serem vendidos on-line, difícil entender o motivo de oferecer como único serviço ao torcedor adversário a bilheteria e no dia da partida — o que nos leva a crer que haverá filas enormes e a possibilidade de entrar quando a bola já estiver rolando. Só uma coisa justifica essa atitude: convidar o torcedor adversário a ficar em casa e diante da televisão.

 

 

 

Um comentário sobre “O futebol não quer você no estádio adversário

  1. Grande verdade Milton. Tive uma infância muito parecida, ainda mais sendo sobrinho neto do Foguinho. Hoje vivo em SP, como vc, a dificuldade é exatamente está.
    Não consegui me conter, fui atrás de ingressos, conseguindo somente nas cadeiras ao lado da torcida de nossa torcida, em meio aos Palmeirenses.
    Assisti e sofri calado, calado mas feliz, muito feliz.
    Abraço Tricolor!
    PS. Moro ao lado do Pacaembú, na próxima, seu carro ficará em casa e “até a pé nós iremos” juntos ao jogo.

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