Foto-ouvinte: Cafezal da 9 de Julho

      
                                   

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Estátua Colhedor de Café

São Paulo está longe da “cidade ideal”, mas  a escultura “Colhedor  de Café “, obra de Lecy Beltran  na Avenida Nove de Julho, Jardim Europa, para homenagear os plantadores de café de São Paulo, é um exemplo  de monumento bem cuidado entre os muitos semidestruídos da região central. A escultura tem um pé de café de cada lado, carregado de flores e frutos. Pedestres  de diferentes classes sociais param, admiram e  degustam  ali mesmo grãos maduros e impuros. Não importa se  são impróprios  para o consumo humano.

Moradores da Rua Turquia garantem que o café do Jardim Europa é uma delícia, as crianças adoram. No domingo,16 de janeiro, o eletricista  Evandro José de Andrade, enquanto colhia alguns grãos acompanhado da filha Beatriz,  recordou  seu tempo de infância em Fernandópolis, interior de São Paulo – onde nasceu, cresceu e trabalhou numa fazenda de café. Evandro  ainda lembrou   do maior bem da  família: um rádio. Todas as tardes ouvia ‘Flor do Cafezal’  de  Cascatinha e Inhana.
 

Meu cafezal em flor quanta flor meu cafezal…  
Passa-se o tempo vem o sol ardente e bruto
Morre o amor e nasci o fruto no lugar de cada flor
Passa-se o tempo em que a vida e todo encanto morre o amor e nasce o pranto
Fruto amargo de uma dor
Meu cafezal em flor quanta flor meu cafezal
Ai menina meu amor minha flor do cafezal
 

2 comentários sobre “Foto-ouvinte: Cafezal da 9 de Julho

  1. Prezado Milton Yung,

    um pouco de história:

    Café não se troca!

    Saulo Ramos era jornalista em Santos, mas jornalista verdadeiramente militante em “A Tribuna”, o jornal de maior circulação na cidade. Fazia de tudo, reportagens, noticiário geral, polícia, cais do porto, crônicas sociais, política, comentários econômicos, era uma espécie de coringa que a secretaria do jornal usava para qualquer assunto.
    Jânio era prefeito de São Paulo e freqüentava o Guarujá, onde o velho Gabriel, seu pai, tinha uma casa de praia.
    Jânio e Saulo se conheceram porque, no Guarujá e nas manhãs de Sábado, ambos costumavam tomar caipirinha no bar do posto de gasolina do Viola, não tanto pela qualidade da bebida, mas pelos irresistíveis quibes caseiros feitos pela mãe do Viola, dono do posto e bom de papo na hora do aperitivo de praia.
    Firmou-se a amizade pelos anos que se seguira, mas a fama de Jânio afastou-o do bar do Viola. Os encontros entre Jânio e Saulo passaram para as respectivas residências, já que a intimidade o permitida.
    Eleito governador de São Paulo, Jânio lembrou-se de uma das facetas de Saulo, um estudioso da economia cafeeira, na época a maior fonte de divisas e de riquezas do País. Basta lembrar que o Brasil exportava anualmente 4 bilhões de dólares, dos quais 2 bilhões e 800 milhões eram gerados pelo café.
    Saulo conhecia os problemas do setor; desde a produção – pois nascera no interior e vivera intensamente as questões ligadas à lavoura de café (seu pai era cafeicultor) – até a comercialização no Porto de Santos, o maior exportador do produto, pois o jornalista de “A Tribuna” teve que aprender tudo sobre a atividade econômica em torno do produto para escreve com segurança seus comentários no maior jornal de Santos.
    São Paulo, na época o maior estado produtos de café, tinha grande influência sobre o governo federal e impunha as diretrizes econômicas da política cafeeira. Difícil era conciliar os interesses conflitantes entre lavoura, comércio e exportação.
    Saulo tinha noção segura sobre a forma de harmonizar os conflitos dos setores. Jânio sabia disto. Convidou Saulo, que não aceitou, a participar do governo estadual como assessor para assuntos do café. O jornalista estava se formando em Direito, não pretendia envolver-se em política. Mas ficou à disposição do amigo para debater, sempre que necessário, as questões ligadas à economia cafeeira.
    Carvalho Pinto era secretário da Fazenda e promoveu uma reunião com as lideranças da lavoura, comércio e exportação, na presença do governador, a fim de colher elementos para definir as reivindicações do governo de São Paulo perante o governo federal.
    Jânio ouviu atentamente todos os setores. Recolheu atentamente as exposições de cada setor, todas escritas, enfiou-as numa pasta e disse ao professor Carvalho Pinto, diante do olhar admirado das lideranças cafeeiras: – Eu mesmo estudo isto.
    Duas horas mais tarde a pasta estava sobre a mesa de Saulo Ramos, em Santos. E alguns dias depois Jânio reconvocou os líderes e fez longa exposição sobre qual seria a posição de São Paulo, criticando os exageros das reivindicações dos cafeicultores, a falta de objetividade das sugestões dos exportadores e frisando que todos os problemas do café somente poderiam ser resolvidos através de uma reforma cambial com a eliminação gradativa do confisco.
    Sucesso total, que deixou o professor Carvalho Pinto emudecido diante dos conhecimentos de Jânio à respeito daqueles problemas, que os políticos em geral achavam complicadíssimos.
    Eleito Presidente da República, Jânio chamou Saulo ao apartamento de Abreu Sodré, em São Vicente e disse:
    Agora você vai comigo para Brasília, assessorar-me na política do café. Não desejo mais ser boneco de ventríloquo.
    Saulo aceitou, sob condições: liberdade para escolher o Presidente do IBC, total liberdade para o planejamento da economia cafeeira, sem interferências dos ministros da Fazenda e da Indústria e Comércio, e reforma cambial para a eliminação do confisco.
    O Presidente eleito concordou, pois ainda não havia convidado os ministros mencionados e, quando o fez, Clemente Mariani para a Fazenda, Arthur Bernardes para Indústria e Comércio, declarou que a política do café seria conduzida pessoalmente pelo Presidente da República. Os ministros aceitaram, até com certo alívio. Mariani, banqueiro baiano, não desejava participar daquela verdadeira guerra de paulistas, paranaenses e mineiros. Bernardes, como bom mineiro, desejava ser ministro da Indústria e Comércio, sem as complicações intrincadas do café.
    Saulo escolheu o ministro (do Itamaraty) Sérgio Armando Frazão para Presidente do IBC, rompendo a velha tradição de entregar autarquia ora a um fazendeiro de café, ora a um representante dos comerciantes ou exportadores. Inaugurou a experiência bem sucedida de considerar o café como assunto de política externa, conduzida com a participação de diplomata.
    Com a reforma cambial pela resolução 204 da Sumoc, Jânio cumpriu a promessa: autorizou a edição da resolução 205, também da Sumoc, redigida por Saulo, Frazão e Octávio Bulhões, então presidente da Superintendência da Moeda e do Crédito.
    Foi assim, extinto o confisco cambial sobre as exportações do café e criada a quota de contribuição, destinada a ser gradualmente eliminada, embora seus rendimentos fossem exclusivamente investidos na economia cafeeira. Com a renúncia de Jânio, a eliminação gradual da quota de contribuição foi abandonada pelos governos que se seguiram e transformou-se, ela própria, em novo confisco cambial.
    Embora o Brasil, em 1961, estivesse com perigosa superprodução de café (40 milhões de sacas), a dupla Saulo-Frazão conduziu uma política que deu excelentes resultados, mas exigiu um trabalho indescritível.
    Com a execução desta política, de defesa do preço, pressionado para baixo pelo excesso do produto, o governo de Jânio conseguiu exportar cerca de 18 milhões de sacas e aumentar sensivelmente a receita de divisas com a exportação de café. Nos sete meses de governo Jânio o PIB cresceu 9,2%, graças aos recursos irrigados internamente pelo café exportado.
    Um belo dia surgiu, no Planalto, um deputado paulista (1) da então UDN propondo a Jânio um negócio fabuloso para o País…A Espanha pretendia trocar alguns milhões de sacos de café por navios, de fabricação espanhola, destinados à navegação de cabotagem nas costas marítimas brasileiras, oferta que fascinou os governadores do Nordeste.
    Pressionado e também fascinado pela mirabolagem da operação, Jânio pediu a Saulo parecer sobre a proposta. O parecer foi contrário.
    Jânio chamou Saulo ao seu gabinete e o bate-boca foi histórico:
    Desencalhamos milhões de sacos de café de nossos custosos estoques, recebemos navios de que necessitamos demais e você diz que não pode! Por acaso você pegou o vírus dos burocratas? – disse Jânio aos gritos.
    A Espanha consome duzentas mil sacas de café por ano. Não vamos esperar que ela seja boazinha de estocar, por nós, alguns milhões de sacas para consumir ao longo dos próximos anos, mesmo porque a estocagem é cara e o café perecível, envelhece, perde qualidade com o tempo. Logo a Espanha vai revender o café que receber e com o abatimento do preço, o abatimento que faria se comprássemos os navios a dinheiro. O resultado será catastrófico, porque o abatimento no preço do café provocará uma queda no mercado internacional e atingirá, por óbvio, toda a nossa exportação. Café não se troca; vende-se.
    Jânio não se conformou. Disse que faria a operação, que obrigaria os espanhóis a assumirem o compromisso de não revenderem e, se acaso o fizessem, os preços teriam de obedecer às cotações internacionais. Desfilou uma série de ingenuidades que os intermediários do negócio haviam enfiado em sua cabeça. E disse que autorizaria a operação, a despeito do parecer contrário.
    Se Vossa Excelência autorizar a operação, terá que deferir o meu pedido de exoneração no mesmo dia ¬- disse Saulo.
    Pois defiro-o antes. Apresente o pedido a Chico Quintanilha e peça-lhe para despachar comigo tão logo eu voltar da reunião de governadores do Nordeste, para onde vou hoje. Passe bem.
    Saulo saiu do gabinete presidencial e redigiu o pedido de demissão. Jânio foi para o Nordeste para uma de suas célebres reuniões com governadores, às quais levava o ministério, deslocava a sede do governo, fazia espetaculares movimentações. E na pauta desta reunião estava a reivindicação dos governadores nordestinos interessados na operação espanhola que lhes daria os cobiçados navios de cabotagem.
    Saulo entregou o pedido de demissão ao chefe da Casa Civil, Francisco Quintanilha, que sorriu e comentou:
    Até parece que você não conhece o Jânio. Pode levar de volta este pedido, antes que algum jornalista tome conhecimento. Espere o homem voltar do Nordeste.
    No dia seguinte, Saulo encontrou sobre sua mesa um bilhete de Quintanilha (era o governo dos bilhetinhos) com o exemplar de um jornal do Nordeste, que estampava na manchete: “JÂNIO: CAFÉ NÃO SE TROCA!”
    No texto da notícia vinha toda a observação do parecer de Saulo, com enérgicas advertências do presidente contra o perigo de operações desastrosas para a economia geral do País.
    Ao voltar do Nordeste, dia seguinte cedo, Jânio saiu do elevador, no Planalto, e, contrariando o costumeiro rumo, tomou a direção da esquerda. Dirigiu-se para a sala de Saulo. Abriu a porta e o amigo, que estava estudando alguns processos, levantou-se:
    Saulo, meu bem, leu os jornais do Nordeste?
    Li.
    Gostou?
    Claro.
    Que gente maluca! O deputado, aquele (1), voltou no meu avião inconformado, metendo o pau em você. Creio que ele deixou de ganhar uma gorda corretagem. Se era pelo café, amargou; se era pelos navios, naufragou. Essa gente não tem o menor espírito público. Venha ao meu gabinete. Vamos trabalhar.

    Obs.:*1- O deputado era Herbert Levy, da UDN de São Paulo, e que, a partir de então, passou a odiar Jânio e Saulo.

    Abraços,

    Nelson Valente

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