De Certeza e de Deus

 

Por Maria Lucia Solla

MVC-662F

O mundo externo, e consequentemente o interno, tem passado por poucas e boas.
Nada é. Não há certeza. Ou melhor, certeza nunca houve, mas nós nos agarramos e continuaremos a nos apegar a tristes arremedos dela.

De religiões e dogmas, desisti há muito. Era levada por ventos curiosos, mas não me entregava nunca. Mesmo babando de inveja da certeza dos que a tinham; mesmo doida por pertencer a uma tribo que me acolhesse, cedo percebi que essa acolhida custava caro demais. Preço que eu não queria pagar.

Quanto a certeza, com a dose de incoerência que todos temos no cardápio – confessemos ou não -, ainda me pego indo atrás de uma ou outra, no fim. No entanto, enquanto cobiço uns pares delas, também quero me livrar das que teimam em se agarrar em mim.

O vazio de certeza, no início, dá insegurança. Como nos primeiros passos não encontrar estendida a mão da proteção. Como pedalar pela primeira vez sem as rodinhas de trás, ou pular na piscina e não ver a cara molhada e divertida do pai acenando; dando a mão.

O homem se separou da Natureza e de Deus, e disputa, a unha, certeza por certeza. Por vezes, a tiro. Paga por ela, morre por ela. Ajoelha-se e vende a própria alma por um vislumbre dela; e no entanto, à única certeza irrefutável, que é nossa de graça, viramos as costas e nos recusamos a aceitar.

a morte do corpo material
a viagem é de ida e volta
ponto final

Hoje, só não percebe quem não quer: a vida aperta a porca, e o parafuso penetra a carne e é então que é preciso aceitar que na dor há propósito; ela nos impulsiona a encontrar a via que desemboca na harmonia, que é o modus operandi da Criação. Se não fosse assim, se Ela não fosse movida a ritmo, harmonia, equilíbrio e perfeição

os planetas se chocariam uns contra os outros em frenética dança egocêntrica
o Sol viria espiar a Terra e nos exterminaria com uma lambidas de suas régias labaredas
a lua preguiçosa apareceria de quando em quando de luz opaca e sonolenta
as estrelas sairiam em caminhada pelos céus de outras galáxias
e seríamos sem elas ainda mais tristes

Eu não estaria aqui esperneando na busca do equilíbrio e da harmonia pessoal.
Da minha sanidade mental.

E como isso tudo me remete a Deus, lembro que quando menina eu tinha certeza Dele, mas sentia pena do Deus da minha certeza, e chorava. Ouvia dizer que Ele era maior e melhor que tudo e todos, e isso me levava a pensar um Deus material, velho, barbudo, sisudo, distante e solitário. Um Deus que julgava, condenava e tinha preferências entre os humanos e suas tribos. Se não fizéssemos o que Ele determinava, nos expulsava de seu Reino e nos virava as costas. Para sempre. Isso me perturbava, trazendo ansiedade,
aos sete anos de idade.

Eu pensava um Deus eterno que sofria de solidão eterna. Sem amigos! Quem
pode ter amigos sendo melhor e maior que todos!

mas voltando a certezas confesso
escrevo para delas me livrar
não para novas conquistar

E enquanto isso você, do outro lado da tela, ouve meus ais e uis nascidos da birra de não ter o que quero, quando quero, nascidos da frustração. E eu não jorraria palavras, ipis e urras, britados da satisfação.

E sem certezas, não tenho resposta pronta nem mapa do tesouro. Não tenho a pretensão de explicar o Divino e Seus desígnios. Não tenho receita para o meu nem para o teu bem-estar. E vou vivendo.

E Deus?
Hoje, dele não tenho certeza.
Eu o sei, o sinto e o percebo nos meus momentos de lucidez.

mas quando me deixo tomar por uma ou outra certeza
sofro e o resultado é nefasto
isso acontece sem dúvida
quando eu Dele me afasto.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com fé e certeza nas suas incertezas

Inferno astral

 

Por Abigail Costa

Meu amigo desfrutava as últimas horas do fumódromo permitido dentro da empresa. Entre uma tragada e outra uma conversa entre virginianos. Como estamos próximos de completar mais um ano de vida, tudo o que não vem dando muito certo é culpa do inferno astral.

– Relaxa! Deixa pra resolver depois. São esses dias!

– Calma! Esse tipo de preocupação vai passar assim que chegar o dia do seu aniversário.

– Sério? Isso existe? De verdade?

Sabe que em determinados momentos é até bom acreditar em horóscopo, meditar nas palavras escritas no adesivo do pára-brisa do carro na sua frente.

“Deus deu a vida para cada um cuidar da sua”.

Essa li outro dia e costumo repetir a frase em tom de brincadeira.

Já pensou se a gente pudesse entregar a nossa vida nas mãos de alguém que durante um tempo zelasse por ela com paciência, amor, carinho, e nos devolvesse com juros, cotação lá nas alturas? Assim como um investidor cuida do nosso dinheiro, vez ou outra? Ações, euro, dólar, imóveis. Não quero nem pensar, faça o melhor por mim.

Acontece isso quando o mundo parece despencar na nossa cabeça. Vem de lá, de cá. Aparecem problemas até no pé da mesa!

Jesus apaga a luz ! Quando acender de novo tudo estará resolvido.

Enquanto ninguém toca na tomada, vou acreditando neste tal Inferno Astral, um jeito malandro que meu amigo me ensinou de ganhar tempo pra pensar melhor. No balanço das contas a gente percebe que alguns problemas não são assim tão urgentes.

Eles aparecem pra testar a nossa fé.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung sem nunca perder a fé