Que sem graça seria se os calendários não existissem!

 

TCE calendario 13.03.14 cor

 

Lembro das folhinhas dos calendários pendurados na parede de casa, geralmente na parede da cozinha, ao menos até os imãs de geladeira aparecerem. Arrancava-se as folhas a medida que os dias passavam e com elas iam-se as homenagens que, imagino, seus criadores procuravam a dedo nos livros das bibliotecas – como deve ter ficado desinteressante a tarefa deste pessoal depois que a internet chegou!?. Ficava-se sabendo que o 8 de outubro era Dia da Santa Pelágia Penitente, enquanto o 25 de julho, o Dia da Abóbora. Havia as folhinhas com mensagens que pareciam tiradas de cadernos baratos de poesia: “a beleza das pessoas está na capacidade de amar e encontrar no próximo a continuidade de seu ser”, dizia uma que sei lá bem porque guardei na memória. Nada que fosse mudar nossas vidas, mas as folhinhas nos ofereciam a cada dia uma curiosidade por mais inútil que fosse.

 

Hoje, ainda recebo alguns calendários de mesa, de plástico e feios. As folhinhas são raras e chegam com tanta propaganda que mal têm espaço para as mensagens e homenagens. Para não jogá-las fora, passo à frente, muitos para minha sogra que insiste em pendurá-las na parede da cozinha. Os dias se passam agora no computador, em agendas virtuais, nas quais há lugar apenas para as atividades do cotidiano: reunião, palestra, conta para pagar, consulta no médico. Mesmo assim, ainda servem para marcar o nosso tempo e nos oferecer a oportunidade da renovação de esperanças sempre que o ano se encerra. E esta é uma sensação curiosa, porque, pense comigo, amanhã será apenas a sequência de hoje; vamos acordar e nos deparar com a mesma casa, a mesma cidade, a mesma família (neste caso, ainda bem); os compromissos que não atendemos continuarão pendentes e as coisas mal resolvidas permanecerão assim até que encontremos uma solução. Nada de novo, a não ser o dia, e, graças ao calendário, o ano.

 


Que sem graça seria se os calendários não existissem!

 

Feliz 2015!

Somos felizes, mas fazemos de conta que não sabemos

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Muitos ou,quem sabe,muitíssimos de nós somos felizes e,sei lá por que razão,fazemos de conta que não sabemos disso. Estou,confesso com lisura,entre essas pessoas que sempre encontram algum motivo para se queixar da vida. Faço,particularmente,uma força danada para me corrigir. Foram tantos,nos últimos dias,os episódios trágicos que lotaram os meios de comunicação,que me fizeram,no mínimo, repensar minha maneira de ser.

 

Creio que nada pode ser mais terrível do que as forças malignas da natureza. Supertufões, como o Haiyan,que atingiu com violência descomunal o arquipélago das Filipinas,armado de ventos que chegaram a 278km/h e de ondas gigantes,talvez tenha matado 10 mil pessoas,fora as que,se não perderam a vida,ficaram sem suas casas, ameaçadas por doenças e necessitando do socorro de inúmeros países. No Brasil,não sofremos com catástrofes provocadas por furacões,tsunamis e outros que tais,capazes de infernizar, com alguma regularidade, outras regiões do planeta.

 

Menos letais são os problemas enfrentados pela gente pobre brasileira,especialmente aquelas que se obrigam a erguer os seus casebres em terrenos que ficam à margem de rios ou córregos,sujeitos a verem suas residências paupérrimas serem inundadas em consequência de chuvaradas, episódios que ocorrem mais do que uma vez por ano. Exemplo disso está nesta manchete do jornal gaúcho Zero Hora:”Chuva mata,isola e deixa desabrigados no Estado”.

 

Refiro-me ao que aconteceu no início desta semana no Rio Grande do Sul. Olho as fotos publicadas pela mídia e fico a imaginar o desespero dos que perderam,mais do que as suas casinhas,todos os seus eletrodomésticos adquiridos a duras penas. Não bastassem os danos causados pela mãe natureza (ou madrasta natureza), em meu estado,não há semana,principalmente as que tenham feriados prolongados,esses que começam nas noites de quintas-feiras e se estendem até o final dos domingos,em que não ocorram acidentes fatais, nas vias urbanas e nas estradas,envolvendo toda espécie de veículos. Nesse domingo,colisão entre dois carros,um deles com oito pessoas,matou cinco jovens com idades entre 16 e 24 anos. A maioria das vítimas retornava de uma festa. Mas os óbitos não ficaram nisso:nesse final de semana,registraram-se mais 17 mortes,em acidentes de trânsito,no Rio Grande do Sul.

 

Diante desses fatos que acabei de relatar,sou obrigado a me perguntar até quando vou inventar motivos para me queixar da vida. Eu sou feliz. E sei disso!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De mais um dia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De mais um dia” na voz e sonorizado pela autora

A gente só se dá conta de que a vida é finita quando faz tlim-tlim, a cada dezena de anos, a caixa registradora da idade; e só se liga que o ano termina quando dezembro chega afobado e se despede num zás, sem dó nem piedade.

Na verdade verdadeira a vida começa a acabar no começo, e continua a cada inspiração. De expiração em expiação. E não há o que reclamar da sua finitude, da nossa inconsciência teimosa, ou da realidade de cada um. Tudo isso faz parte, da velhice à juventude.

um dia depois do outro
num chove no outro faz sol
se não vem a mim o cravo que eu tanto queria
procuro me alegrar com o girassol

Não sei você, mas só me dou conta da idade quando me olho no espelho. Tem vezes que olho e digo: epa, espera aí, para tudo! Quem é essa mulher? Mas é só me virar que esqueço da imagem intrusa que acabo de ver, e me apego à vida com fome e sede, porque tenho mesmo é sede e fome de viver.

Nasci velha e triste. Cheguei muito cedo numa festa que recém começava, onde tentavam se entrosar, meu pai e minha mãe, que ainda tinham na idade o primeiro dígito um. E para coroar a falta de jeito, vim com selo de Saturno.

o saturnino nasce velho
e vai no sentido contrário
envelhece na contramão
assim que quando o espelho não está por perto
me sinto menina
com perdão do comum lugar
me sinto rosa em botão
até que joelhos ou costas
sem nem mesmo avisar
dão sinal de exaustão

e assim vai a vida
há anos que lá se vão
e quero ver se consigo
na lida da minha vida
comemorar cada dia
como se fosse Reveillon

e desejo desta vez
feliz segundo minuto hora
dia semana mês

que é o que precisa enfim
para compor um Ano Novo Feliz
especial pra você
e especial pra mim

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De estar feliz

 

Por Maria Lucia Solla

Das nuvens

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Felicidade é estar com a barriga cheia e o sono em dia, com tudo funcionando como deve: coração batucando legal, rins fazendo a sua função, sem greve, sem rebelião. Felicidade é enxergar bem, respirar o ar da vida e não o da morte, e saber que os que te cercam têm isso também

Estar feliz é poder ir daqui-pra-lá-e-de-lá-pra-cá, principalmente se o daqui for de um canto confortável e gostoso, e se o pra-lá for um lugar que faz o coração batucar, ainda mais forte e mais depressa, animado pela adrenalina que brota da excitação. Felicidade pode ser estar numa cantina num vilarejo escondido na Bolívia, pode ser o sushi do restaurante favorito comido em casa, sentado no chão, apoiado na mesa de centro na frente da TV, assistindo a um programa que faz a gente sorrir feito bobo, ou lendo um livro que não dá para largar e interrompendo a refeição um milhão de vezes para anotar as ideias que não param de chegar, para engolir o que mastigou, para digerir o que leu, para assimilar o que pensou.

Estar feliz é ter confiança nos dirigentes do país, do ônibus, do trem e do carro, sentindo que o barco vai bem conduzido, não faz água e fica longe do perigo. Estar feliz é poder viver com a consciência tranquila e o coração em paz. É saber que ninguém está espreitando atrás da fresta para te pegar no pulo e tirar vantagem de você. É poder receber o que comprou sem precisar lutar na justiça por meses, às vezes por anos, perdendo saúde e sono. É poder ter respeitado o que é seu, oferecendo respeito em troca.

Estar feliz é confiar que o banco cuida do teu dinheiro, que o médico que te atende sabe o que está fazendo, é ter consciência do que está comendo. Felicidade é poder acreditar em quem diz que gosta de você, é não usar o outro até gastar e aí não ter mais, é deixar ir quando o prazo termina, não iludir, não ser manipulado, roubado, emboscado, traído.

Estar feliz é ter mais motivo de sorrir do que de chorar, é ter quem a gente ama gostando de ser amado e se deixando amar. Estar feliz é trabalhar no que gosta, ou ao menos gostar do que faz, e ter a oportunidade de escolher o que fazer. É saber que o ônibus vai chegar, que a gente vai sentar e, a viagem, nem vai perceber. Estar feliz é andar descalço na praia com o sol acariciando o corpo, a brisa desmanchando o cabelo e cara de idiota, chupando um picolé e se sentindo o maioral. Nem que seja uma vez por mês no bate-volta.

Estar feliz é viver intimamente com a arte, é criar, é recriar, não matando o já criado; reinventando, reinventando, reinventando. É garantir cadeira cativa para a ilusão. Estar feliz é aceitar que a gente está aqui e pronto, e a partir daí pavimentar dia a dia o caminho para estar feliz cada vez mais vezes e por mais tempo. É transformar num só conceito de amor, criatura, criação e criador.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Se você sentir que não dá, não força

 

Por Abigail Costa

Essa foi uma das inúmeras pérolas que colecionei durante os anos que passei pelos estádios de futebol.

Entre uma jogada e outra, o narrador soltava a frase….

Na ocasião, ela cabia durante os noventa minutos de jogo.

Saí das quatro linhas há algum tempo, mas o velho e bom profissional continua narrando as partidas. Entre outras palavras de efeito, ele caprichando nos “rrrrrrr”.

“Se você sentirrrrrrr que não dá, não forrrrrrrrça”.

Antes que alguém diga que temos que morrer tentando, (isso fica lindo no texto), faço aqui minhas costuras.

O não força não significa desistência.

Se a gente entender como uma forma de guardar forças para o que realmente interessa, a vida fica mais leve.

Não tem um dia que não me deparo com uma situação onde não forçar é o melhor resultado.

Isso, principalmente em relação as pessoas. As mais próximas, sempre.

“Será que não é melhor isso para você?” “Amanhã não é mais conveniente?”

“Quero aquilo, hoje mesmo!”

Mesmo sabendo que a decisão tomada não chega a ser a mais conveniente, fico quieta.

No lugar de espernear mostrando o por quê das escolhas, não forço.

Liberdade para ele, respeito pra mim.

E no trabalho? Quantas vezes isso não acontece?

Quantos por causa dos outros estragam seu dia, sua família? Prejudicam a família.

Insistiram e forçaram a barra.

Tenho usufruído da experiência do narrador. Tem dado certo.

“Isso vai te deixar feliz?”

Que bom!

Eu estou ainda melhor.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung sem forçar