Avalanche Tricolor: emoção, sofrimento e lágrima como verdadeiros gremistas que somos

 

Grêmio 1×0 Pachuca MEX
Mundial – Estádio Haza bin Zayed/Al Ain

 

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É madrugada em Abu Dhabi! Voltei para cá depois de assistir à vitória que colocou o Grêmio na final do Mundial de Clubes, em Al Ain, que fica há cerca de uma hora e meia daqui. Temo que esta madrugada se estenda ainda mais, pois está difícil acalmar o coração e a excitação após partida tensa, disputada e sofrida como a desta estreia do Grêmio na competição.

 

Havia pedido 2 a 0 nas entrevistas que concedi para emissoras de rádio brasileiras, entre as quais duas CBNs, em Porto Alegre e São Paulo. Era muito mais um desejo de tranquilidade do que uma crença. Conhecedor das façanhas gremistas por que esperar que a classificação à final viesse com um passeio, como alguns quiseram dar a entender que seria obrigação do campeão da Libertadores? Fomos forjados no sofrimento e assim construímos nossas conquistas. Não seria diferente em um Mundial.

 

Ainda sinto o impacto da tensão provocada todas às vezes que o adversário ameaçava nosso time em desenfreados ataques. Nas bolas que Marcelo Grohe defendeu, nas que desviaram por força do destino ou nas que sequer chegaram ao nosso gol graças aos mitológicos Geromel e Kannemann. Ou às roubadas cirúrgicas de Cortez, que encarnou nessa noite Everaldo, Arce e todos os laterais que passaram por nossa história.

 

Tenho presente no corpo o resultado do sofrimento diante de ataques mal engendrados, de lances forçados e de jogadas inacabadas, que se repetiram em boa parte do jogo. Sem contar os gols desperdiçados em cobranças de faltas que chegaram a tocar a rede ou rasparam o travessão, mas sempre pelo lado de fora. Ou em lances como aquele em que Luan estava livre dentro da pequena área. Era só tocar na bola que ela entrava, gritavam na arquibancada. A gente sabe que lá dentro é tudo muito diferente, mas enquanto os nossos não conseguiam fazer a diferença só nos restava sofrer.

 

As marcas desta semifinal que me tiram o sono não estão apenas no peito e na alma. Estão na memória, também. Nas cenas que tenho vivenciado desde que desembarquei na Terra do Mundial. Na caminhada ao estádio ao lado dos filhos, na torcida cantando nosso hino e nossas cores, nos olhares que trocamos a cada minuto que se passava sem que o gol saísse. Na imagem dos guris aplaudindo, lamentando, gritando por este jogador, praguejando por aquele outro, vibrando e sofrendo como eu sempre vibrei e sofri.

 

E, claro, não me sai da cabeça o instante mágico em que Renato redivivo e incorporado em Everton disparou em velocidade pelo lado esquerdo em direção à área, balançou entres marcadores, abriu espaço e disparou com o pé direito para marcar o único e necessário gol que nos levaria à final do Mundial. Foi tudo ali, na nossa frente, diante de nossos olhos, bem pertinho de onde estávamos assistindo ao jogo. Parecia ter sido feito para nós. E tenho certeza que o foi.

 

Um momento único a ser vivido por mim que passei infância e adolescência dentro do saudoso estádio Olímpico e aqui realizo o sonho de ver meu time mais uma vez no Mundial. Um momento que pude dividir com as devidas emoção e lágrimas abraçado aos meus dois filhos, que viveram longe de Porto Alegre. Emoção e lágrimas devidamente retribuídas por eles como verdadeiros gremistas que são. Gremistas forjados por mim – sem dúvida – mas, especialmente, pela nossa história!

 

E que história experimentamos juntos nessa noite que não vai acabar tão cedo!

Tudo pelo bem do jogo

 

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Os jornais do fim de semana sempre são lidos com mais tranquilidade, sem a pressa imposta pela rotina do trabalho. Aliás, essa rotina que me impõe sair da cama ainda de madrugada durante a semana, me acostumou mal: aos sábados e domingos, estou em pé quando a maioria das pessoas ainda sonha profundo. Boa oportunidade para o café, o omelete e, claro, a leitura das notícias no silêncio da manhã apenas quebrado pelo bando de sabiás que cerca minha casa (que sejam preservados!).

 

Reforma administrativa e falcatruas da política nacional à parte, duas notícias me chamaram especial atenção.

 

A primeira no mundo do esporte, que estava exposta em todos os jornais e já havia sido divulgada na CBN: os maiores patrocinadores do futebol internacional se uniram para pedir que Joseph Blatter renuncie, imediatamente, da presidência da Fifa, devido a insustentável onda de denúncias que atinge a ele e seus comparsas na entidade. Visa, Adidas, InBev, McDonalds e Coca-Cola – uma gente que investiu US$ 1,4bilhão somente na Copa do Mundo do Brasil – promoveram, na sexta-feira, uma inédita pressão política para afastar o dirigente.A nota da Coca-Cola foi a mais interessante: “Pelo bem do jogo, ele deve renunciar imediatamente para que um processo sustentável de reforma seja realizado”. Pelo bem do jogo?

 

A outra notícia encontrei na coluna de leitura obrigatória assinada por Fernando Reinach, no jornal O Estado de São Paulo, sob o título “O primeiro remédio contra o envelhecimento”. O biólogo diz que duas drogas disponíveis nas farmácias e baratas têm se mostrado promissoras para retardar o envelhecimento, a Rapamicina, um imunossupressor, e a Metformina, que combate a diabete. Por já ser conhecida desde 1960 e não ter praticamente efeitos colaterais, a comunidade médica estaria pronta para iniciar os testes em larga escala, com mais de 3 mil idosos, com a Metformina. Reinach informa que os testes não se iniciaram por falta de dinheiro e interesse, a medida que nenhum laboratório se dispõe a colocar milhões de dólares para conduzir os trabalhos,pois ninguém terá lucro com sua venda, já que a droga não tem mais patente, sem contar que, ao fim dos exames, há o risco de não se confirmar a propriedade esperada.

 

Os laboratórios com sua lógica se equivalem, nesse caso, aos patrocinadores da Fifa que decidiram reagir, como escreveram, “pelo bem do jogo” – expressão que me soou não exatamente como uma referência ao jogo de futebol.Se é que você me entende?

 

A foto que ilustra este post é do álbum de The Open University, no Flickr

Avalanche Tricolor: vaga na Copa do Brasil ainda está em jogo, apesar de gol mal anulado

 

Grêmio 0x1 Criciúma
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

Time precisa agora de todo o apoio do torcedor (foto do Grêmio Oficial no Flickr)

Time precisa agora de todo o apoio do torcedor (foto do Grêmio Oficial no Flickr)

 

É impressão minha ou todo mundo achou que o erro do árbitro ao anular o gol de Pedro Rocha foi normal? Que não influenciou na partida? Que pouca diferença faria no desempenho das duas equipes? Ouvi alguns comentaristas durante a transmissão e pouco se citou o fato, para mim crucial no jogo. Houve até quem, a princípio, validasse a decisão do juiz.

 

Eram 22 minutos quando Rocha, em meio aos zagueiros e em velocidade, tabelou com Luan e, na entrada da área, recebeu passe preciso, em jogada que tem marcado o futebol gremista nesses tempos de Roger, para com apenas um toque deslocar o goleiro e por a bola dentro do gol.

 

Vamos ser sincero: era desnecessária a linha digital que as emissoras de televisão usam nas transmissões – aliás, demoraram para usar nesta terça-feira – para perceber que o atacante estava em posição legal. O auxiliar, que está lá só para ver esse lance e trabalha recomendado pela Fifa a, na dúvida, dar sequência à jogada, não entendeu dessa maneira e levou o árbitro ao erro.

 

Como agora é proibido reclamar do juiz, mesmo diante de erros crassos, aos jogadores cabe apenas indignar-se em silêncio, enquanto os algozes seguem sua vida sem qualquer punição. Um erro que pode custar a desclassificação desta Copa, pois exigirá vitória em Criciúma na partida de volta – o que, convenhamos, não é difícil, desde que as finalizações voltem a ser mais certeiras.

 

Um gol naquela altura mudaria o cenário da partida, pois obrigaria o adversário a abandonar sua postura defensiva, desmontaria a retranca montada para surpreender o Grêmio e abriria espaço para jogar. Sem o gol, o Grêmio teve dificuldade para trocar bola com mais objetividade e foi punido com um erro na saída de bola da sua defesa.

 

O Grêmio não perdeu a partida somente por causa do árbitro, mas também por causa dele, e precisa acertar sua forma de jogar contra equipes retrancadas, pois com sua ascensão na temporada tende a ser essa a postura dos próximos adversários. Porém, analisar o resultado do jogo e nosso destino na competição sem levar em consideração a anulação do gol no primeiro tempo é injusto. Assim como o foi a vaia de alguns torcedores ao fim da partida. Pois, mesmo com a derrota, o que o time precisa agora é de todo o apoio para se recuperar na próxima partida e, novamente, revelar-se Imortal.

Fifa quer proibir rádio de pilha em estádio da Copa

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Foi com surpresa que,na semana passada,recebi uma ligação de um moço da TV Record me perguntando se eu aceitaria conceder entrevista sobre assunto que provocou estranheza na mídia: a FIFA,uma dama que está mandando e desmandando nesta ano em que teremos a Copa do Mundo aqui em nosso país,resolveu proibir que torcedores ingressem nas Arenas,cujas construções custaram os olhos não só de uma,mas de várias caras,seja de estados,municípios e do próprio governo,portando rádios de pilha por menores que sejam. Demorei a acreditar que a entidade, que comanda o futebol mundial,se preocupasse com a presença de tão inocentes dispositivos,imaginando que possam ser mal usados,isto é,que sejam jogados para dentro dos gramados,tendo como alvo quem trabalha neles:árbitro,os seus auxiliares e jogadores. Os estádios recém inaugurados ou reinaugurados,caso do Gigante da Beira-Rio,não possuem mais alambrados.

 

Duvido que,em Porto Alegre,pelo menos,algum torcedor vá assistir a um dos cinco jogos que serão aqui realizados,disposto a atirar uma radiozinho em algum profissional que esteja nas proximidades ou dentro do campo de futebol. Imagino que essas partidas serão assistidas,principalmente,por torcedores da nacionalidade das seleções participantes. A minoria brasileira não teria razão para atirar qualquer objeto para dentro do gramado,eis que verá os jogos com sangue doce. Os estrangeiros,com certeza,sequer pretendem levar rádios de qualquer tamanho para os estádios. Afinal,não têm o hábito de portar esses aparelhos em estádios de futebol.Quem não vive sem rádio é o brasileiro,que se acostumou a ouvir as narrações,os comentários e as reportagens radiofônicas. Os radiozinhos,ainda por cima,estão perdendo o seu espaço, no bolso dos torcedores,para os telefones celulares. Esses,conforme informaram as concessionárias de telefonia móvel,estarão finalmente aptos para captar o som transmitidos pelas rádios,o que não era possível no Beira-Rio.

 

Não esqueço que na minha longa carreira de radialista,na qual atuei apenas em duas emissoras porto-alegrenses,somando 60 anos de trabalho,rádios de todas espécies,dos grandes aos de bolso,fizeram parte da minha vida. Nos estádios,tínhamos de ser caprichosos,eis que os nossos ouvintes,em boa parte,queriam que,no mínimo,não errássemos os nomes dos jogadores e gritássemos eventuais gols com total vibração,às vezes,com a voz distorcida pelo berro exagerado. Narrei o gol mil de Pelé,no Maracanã. Quando ele marcou,de pênalti,o estádio inteiro gritou enlouquecido e fez-me levantar demasiadamente a voz.Até hoje não gosto de ouvir a minha desafinada narração.

 

As narrações,no rádio,pautaram as que são feitas,hoje,nas televisões. Os que relatam os jogos parece que estão falando para quem não está na frente de um televisor FULL HD.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Garrincha, a FIFA e o revisionismo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O jogador Pato no “Bem, Amigos” ao ser indagado por Galvão Bueno se tinha visto o filme de Pelé respondeu negativamente. Romário também já demonstrou ignorar a história de alguns craques que fizeram a história do futebol. Se não, a história do próprio futebol. Donde se conclui, que se jogadores esclarecidos como Romário e Pato desconhecem referências do esporte que praticam a maioria também deve se ater à própria atualidade.

 

Esta fragilidade de conhecimento que desperdiça a sinergia e esvazia o protagonismo, leva inclusive a parca representatividade destes profissionais, que ficam à mercê das empresas que os contratam, que são os clubes de futebol. Estes, por sua vez, também se entregam às federações estaduais, federais e mundial. Diferença gritante com os tenistas, profissionais mais preparados, que mandam em sua modalidade.

 

A FIFA, portanto, entidade soberana do esporte, que é hoje o mais popular do mundo, controla as federações, os clubes e os jogadores. Além de se sobrepor aos países em seus eventos, obrigando-os a se enquadrar em suas regras, que sabemos são norteadas ao máximo resultado pecuniário. Doa a quem doer.

 

É um poder inigualável este que a FIFA exerce, pois enquanto as grandes marcas mundiais de serviços e produtos têm limites éticos no trato com clientes e funcionários, a FIFA começa a ultrapassá-los. E, uma das mais recentes vítimas, quem diria, é Garrincha. Personalidade de destaque nos anais da FIFA. A biografia de Garrincha no site da FIFA é absolutamente verdadeira, totalmente elogiosa, e descompassada da justificativa da entidade máxima do futebol, ao desautorizar o nome “Estádio de Brasília Mané Garrincha”, alegando que “Mané Garrincha” não tem a internacionalidade que as arenas precisam.

 

No site da FIFA, Garrincha está na relação dos 15 maiores jogadores de todos os tempos, e é visto como:

 

“Chaplin do futebol”
“O pequeno pássaro que voou no Brasil”
“O anjo de pernas tortas”
“Imprevisível, mágico, indefinível e explosivo”
“Um dos maiores jogadores a vestir a camisa canarinho”
“De que planeta ele é?”

 

Ora, que os tempos mudaram, e que a meta é o acordo com empresas cujas marcas paguem para estampar chuteiras, meias, calções, camisas e até estádios já se sabia. O inusitado é o revisionismo, típico dos regimes totalitários.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Grêmio dá show de campo, mas ninguém dá bola

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

Arena do Grêmio

 

Tostão em sua coluna na Folha lembra que Chico Buarque escreveu que os europeus eram os donos do campo, e os brasileiros, da bola. Hoje há controvérsias.

 

Enquanto os maiores espaços da mídia esportiva em geral estão sendo ocupados pelo mundial de clubes, focando particularmente o Corinthians, ontem, dois eventos deveriam ter dividido as atenções. Deveriam, mas não dividiram.

 

No ginásio do Ibirapuera, depois de longos anos, os maiores tenistas da atualidade exibiram-se em torneio que leva o nome de Roger Federer, o melhor de todos os tempos. Evento que só não teve a chancela de primeiro mundo porque evidenciou o terceiro mundo de nossa infraestrutura, quando dez mil pessoas que pagaram mil reais o ingresso tiveram que amargar um estádio sem ar condicionado num dia de temperatura escaldante.
Já em Porto Alegre, o Grêmio patrocinou um espetáculo com perfeição absoluta. Indubitavelmente o fato mais importante do fim de semana esportivo. Além do que um feito e tanto sob o aspecto da gestão do futebol, tão tímida e poluída pelos clubes brasileiros em geral.

 

O Grêmio Futebol Porto Alegrense, simplesmente construiu um estádio para 60 000 pessoas, dentro do rigoroso padrão FIFA, a um custo total de 540 milhões de reais. Com 61% de recursos da iniciativa privada e 39% de financiamento do BNDES.

 

Ao compararmos com outros estádios da COPA 14, vamos verificar que o Grêmio conseguiu cumprir uma promessa não cumprida pela CBF quando assumiu a COPA 14, ao se comprometer em empreender com a iniciativa privada e não utilizar recursos públicos. Fato que fica visível na comparação com o Itaquerão. Estádio para 48 000 pessoas com extensão para a abertura de 20 000 lugares, perfazendo o total de 68 000 assentos. No estádio corinthiano o valor estimado é de 890 milhões de reais. 60% do investimento será público e 40% de financiamento do BNDES. A prefeitura de São Paulo doará 420 milhões e o governo do Estado 70 milhões.

 

Duas perguntas deveriam estar pressionando os dirigentes e os políticos:

 

Como se explica o custo da Arena do Grêmio?

 

Por que a Arena do Grêmio não receberá jogos da COPA 14?

 

Plagiando Chico, podemos dizer que o Grêmio é o dono do campo, mas a bola está com a CBF. Em todos os sentidos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve no Blog do Mílton Jung

FIFA instiga e espreita

 

Por Carlos Magno Gibrail

As grandes marcas internacionais se sobrepõem as nações, mudando culturas e hábitos ancestrais. Entretanto, estas multinacionais normalmente se enquadram nas leis dos países em que atuam.

Não é o caso da FIFA.

Buscando lucros totais em todas as atividades relacionadas ao evento COPA, atropela o ordenamento político e jurídico existente nas sedes dos jogos. A venda de ingressos e de imagens, produtos centrais de um jogo de futebol passam a ser detalhes, tal a variedade de produtos e serviços sob seu controle.

Esta filosofia, crescentemente intensificada, atingiu até a Alemanha, que se curvou diante da cerveja americana imposta pelo evento. Mas, para evitar dificuldades futuras a FIFA, passou a direcionar a escolha a nações com destaque em corrupção. Veio a África do Sul, o Catar e a Rússia. Nós inclusive.

Eis aí a chance de o Brasil surpreender e provar que não é membro deste grupo.

Não vai ser fácil, pois já há Prefeitos e afins se manifestando a favor da FIFA. E, das 12 sedes, apenas o Paraná é o estado em que não há lei conflitante com as exigências da FIFA. Estado, aliás, que já sentiu o método adotado nas compras. As cadeiras do estádio do Atlético Paranaense estavam pedidas a empresa nacional quando tiveram que cancelar e efetuar encomenda a fornecedor europeu, pois as especificações de tamanho e inclinação exigidas eram contempladas apenas pelo fabricante recomendado pela FIFA.

Do Mineirão, vem a confirmação deste esquema. O gramado exigido, de grama meio sintética e meio natural, acoplado a uma drenagem eletrônica por sensores é fabricado apenas pela belga Desso.

Onze cidades sede têm ressalvas na aceitação das normas. A meia-entrada de estudantes, a venda de bebidas alcoólicas e a Cidade Limpa, são entraves estaduais. Entretanto, salvo algumas poucas manifestações contrárias, como a vinda da Bahia com Ney Campello, de acordo com matéria de capa da ISTO É, tudo indica, que encabeçadas por São Paulo, as coisas serão facilitadas. Justamente a cidade do NON DUCOR DUCO. Não serei comandado, comandarei.

O governo federal tem o Estatuto do Idoso, o Estatuto do Torcedor e o Código de Defesa do Consumidor, que se choca com as normas da COPA. Dilma publicamente vem rechaçando a sua aceitação.

A FIFA dias atrás levantou uma previsão de prejuízo acima de cem milhões de dólares se acatar a meia-entrada. A mídia abriu grande espaço. Como se estivéssemos preocupadíssimos com o valor e a perda, esquecendo que em nosso país quem paga a conta da meia-entrada é quem paga a inteira. E quem a paga é o consumidor e não a FIFA.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

N.B: A foto das obras no Mineirão é de SylvioCoutinho/site Copa 2014

A FIFA encurralada

 

Por Carlos Magno Gibrail

Mexicanos reclamam erro em favor da Argentina

Em tragédia anunciada, a FIFA marcou um evento em Pretória na segunda-feira para árbitros e convidou a imprensa para conversar e também aprender a analisar impedimentos.

Na véspera, domingo, 27 de junho de 2010, os dois jogos marcados para as oitavas de final apresentaram erros gritantes, inclusive de impedimento, a olho nu. À sistema eletrônico, nem se discute.

Em Inglaterra x Alemanha depois do primeiro gol alemão com impedimento não anotado, a Inglaterra marcou seu gol de empate quando perdia de 1×2, com a bola entrando 33 cm além da linha do campo, que o árbitro não validou.

Poucas horas após, no jogo Argentina x México, Tevez assinala um gol argentino completamente impedido. Com direito a repetição no telão do estádio.

A Inglaterra, prejudicada agora, beneficiada em 1966, certamente mudará de postura, pois no International Board, órgão incumbido de discutir e aprovar os recursos eletrônicos, do qual participam o País de Gales, a Escócia, a Irlanda e a Inglaterra, os ingleses e irlandeses foram contra o uso de qualquer meio eletrônico para tirar dúvidas.

Beckham e seus compatriotas devem ir adiante, assim como o jornalista escocês Andrew Jennings está há anos denunciando as peripécias da FIFA, e que agora começam a tomar um tom mais grave dada a coerência das incoerências nas estratégias utilizadas.

Jennings, em entrevista à jornalista Flavia Tavares sugere o encurralamento em função da força do futebol brasileiro, e denuncia o motivo da chamada que a FIFA deu no Brasil sobre as futuras obras para a Copa 2014:

Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.

É o que já está acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?

E, para a ocasião das eleições, um recado:

O que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se os governantes se voltassem contra a corrupção da FIFA, teriam apoio maciço dos torcedores/eleitores”.

Tudo indica que as coisas começam a mudar, e as facilidades encontradas pela FIFA serão coisas do passado, pelo menos por parte da mídia e da opinião publica.

A revista CARTA CAPITAL, traz entrevista de Jennings feita por Paolo Manso, em que acusa e aponta provas contra Havelange, Teixeira e Blatter. Sobre João Havelange e Ricardo Teixeira, em resposta à pergunta qual o resultado da chegada de ambos à FIFA e à CBF:

Um “boom” de corrupção! A imprensa suíça escreveu que Havelange e Teixeira embolsaram a maior parte das propinas.

As propinas pagas pela FIFA apenas nos anos 90 são estimadas pelo Tribunal de Zug na Suíça em aproximadamente 100 milhões de dólares.

Andrew Jennings fala sobre quando tudo começou:

Em 1976, o então presidente da entidade, o britânico Sir Stanley Rous, foi deposto. Ninguém podia corromper Stanley. Em seu lugar entrou o brasileiro João Havelange, que era muito corrupto. Foi ele que inaugurou o “sistema”, recebendo propinas via ISL.

São Paulo como sede da Copa 14 provavelmente centralizará ações que irão confirmar ou não as suspeitas das interferências políticas e financeiras em benefício de poucos, e em detrimento de todos. Um dos membros de Teixeira, Marco Polo Del Nero, já voltou da Cidade do Cabo, mas parece que foram ostras estragadas que o trouxe mais cedo.

O ministro dos esportes parece confirmar as preocupações de Jennings, pois escreveu na Folha de segunda artigo defendendo a “construção de um novo estádio à altura de São Paulo”.

A competência demonstrada pela FIFA, a partir de Havelange, no aspecto mercadológico é agora colocada em cheque e em choque quanto à transparência operacional, financeira, gerencial e moral.

A Copa 2010 evidencia falha grave na bola e na arbitragem, itens básicos da base do futebol. Permitir à Adidas tudo, e não permitir à arbitragem nada, é má-dministração ou má-fé.

Fabricar uma bola em que o maior goleiro do mundo em seu primeiro contato já detecta a similaridade com produto de supermercado, é simplesmente falta de tudo. Como sabemos a USP confirmou a avaliação de Julio César, informando que as costuras a menos impedem a circulação do ar, aumentando a sua resistência e ocasionando mudança de direção.

Imprensa e torcedores/eleitores, ao que tudo indica começarão a agir. É o que começamos a fazer. E, acuado, Joseph Blatter também. Informou, ontem, ao pedir desculpas à Inglaterra e ao México, que irá reabrir o processo sobre o uso da tecnologia. Ao mesmo tempo em que se sentindo ameaçado pela interferência de Nicolas Sarkozy no futebol francês, tornando o mau desempenho na Copa assunto de Estado, advertiu publicamente o governo francês.

Quem sabe uma nova Revolução Francesa não estará a caminho?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Pela ruptura no poder do futebol

Por Carlos Magno Gibrail

Henry e a mão na bola

Grande parte das mudanças da civilização veio através de rupturas geradas por revoluções, guerras ou dissidências em organizações em resposta a situações limite de concentração de poder.

Nas religiões, uma das dissidências marcantes foi a revolta contra a Igreja Católica, quando na Alemanha Martinho Lutero, em 1529, estabeleceu o Protestantismo, em resposta ao poder absoluto do Papa.

O esporte, cada vez mais ocupando papel destacado na ordem social e econômica dos países, claramente não está acompanhando estruturalmente o crescente espaço que a vida contemporânea lhe concede.

Dentro do esporte, o mais popular de todos, o futebol, e um dos primeiros a se profissionalizar, ainda guarda fortemente o amadorismo de origem nos aspectos de gestão, embora em outros esteja bastante evoluído.

A pequenez da administração do “Soccer” não combina com a grandeza do mesmo:

“O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da FIFA, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir a uma Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.” Milton Jung na sexta feira neste Blog.

Recursos eletrônicos, bolas com chips e árbitros profissionais são rechaçados. Tal repulsa emana do sistema de poder em que os mandatos das entidades representativas nacionais e internacionais não têm limites. Na FIFA, entidade máxima, Blatter está há tantos anos quanto quis, assim como permanecerá até quando desejar. Na CBF, Ricardo Teixeira, idem. Na maioria dos clubes brasileiros, também, idem.

São os PAPAS do século XXI, cujo crescente poder faz com que uma nação como o Brasil aceite avalizar uma COPA repassando poder total ao próprio presidente da entidade que presidirá o evento e que, pioneiramente na história das Copas, acumula o cargo da confederação de futebol do país sede. Ricardo Teixeira preside a CBF, preside a organização da COPA 14, e tem poder absoluto, sem a contrapartida prestação de contas, que serão endossadas pelo Governo Federal.

Não obstante a bajulação nacional de governadores de Estado, Teixeira decide sobre o destino da abertura da COPA, da qual é Senhor, colocando o maior e mais rico estado da federação brasileira em constrangedora subordinação, ainda que seja São Paulo a única cidade capacitada a abrigar tal evento.

A FIFA, a CBF, convenhamos, estão exagerando e se distanciando do apoio das plateias que teriam que atender. Historicamente nos aproximamos da dissidência, que é um primeiro passo para a ruptura definitiva.

Politicamente em âmbito nacional a criação de uma Liga dissidente é legal, enquanto internacionalmente há impedimento por regras estabelecidas de Unidade de representação. Mercadologicamente a dissidência poderá ser uma nova segmentação de mercado, criando um futebol com organizações modernas e regras atualizadas, respeitando o avanço tecnológico e a inteligência dos torcedores.

Que a mão de Henry e o empurrão no Morumbi sirvam de motivação para o surgimento de lideranças dissidentes.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung

Hora de tomar chá de cadeira

 

Por Carlos Magno Gibrail

Morumbi da Galeria de Alvez no Flickr

O futebol e Ricardo Teixeira têm tudo a ver. Imagem e semelhança da grande maioria dos dirigentes de federações e clubes. Teixeira é a favor dos poderes plenos, da perpetuação nos cargos, dos sistemas e regras imutáveis, da aversão absoluta às mudanças, da paixão por si próprio, do apoio total aos bajuladores e da administração focada na manutenção do poder pessoal, adotando os amigos e expurgando os inimigos.

Não é a toa que o esporte mais popular do planeta não exiba nenhuma empresa dentro do ranking das melhores e maiores do mundo. Além da maioria dos clubes apresentarem crônicos prejuízos. A FIFA e demais federações, detentoras dos monárquicos poderes, conferem os lucros. Na Alemanha faturou US$ 2,6 bilhões, na África do Sul prevê US$ 3,8 bilhões e para o Brasil planeja US$ 4,4 bilhões onde 70% dos ingressos já estão vendidos.

Estranhamente, mas dentro do padrão incoerente do futebol, a FIFA começa a exigir do Brasil mais do que o fez em outros países. Isenções fiscais, vantagens operacionais, e de repente dirige a atenção para São Paulo. Afirmou ao governador José Serra que São Paulo teria a abertura da Copa, e que o Morumbi, indicado pela Prefeitura e Estado como a única alternativa, seria o local.

Entretanto a seguir, o secretário-geral da FIFA começava a torpedear o projeto apresentado, desqualificando-o. Ao mesmo tempo que ignorava as demais sedes, muitas das quais não cumpriam as datas e condições mínimas então exigidas.

Em 19 de março, finalmente, o todo poderoso Jerome Valcke declara a respeito do Morumbi, em entrevista coletiva após a reunião do comitê executivo da entidade na Suíça: “O último projeto que recebemos preenchem todos os requisitos pedidos”.

Em menos de 15 dias, Ricardo Teixeira ignora Valcke e ataca o Morumbi. Não surpreendeu quem acompanhava a luta travada no Clube dos 13. Apenas confirmava a marcação serrada para a disputa do poder e as consequentes vantagens financeiras e estratégicas neste campo encharcado de ações e traições políticas. Teixeira não perdoava o apoio de Juvenal Juvêncio à Koff. Muito menos a sua candidatura como Vice do Clube dos 13. Entidade que conseguiu trazer as quotas de TV de 20 para 450 milhões em benefício aos clubes.

Juvenal, iludido por Teixeira, deixa-o desiludido. Ou vice-versa. Ente ilusões e desilusões façamos alusão ao que interessa, pois a FIFA, Blates e Teixeira precisam mais de São Paulo, do que São Paulo necessita da Copa.

A coerência da escolha do governo paulista fica bem clara nas palavras que o Presidente da SPTuris Caio Luiz de Carvalho atenciosamente nos concede:

“Desde que começou a corrida pela Copa de 2014 no Brasil, indicamos o Estádio do Morumbi como sede dos jogos em São Paulo por vários motivos: é o maior da cidade e tem a capacidade exigida, tem a melhor infraestrutura e o SPFC se comprometeu a investir nas reformas necessárias, inclusive assinando esse compromisso (“Stadium Agreement”). O Governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura de São Paulo, após o estudo inicial, consideraram que não seria viável construir um novo estádio na cidade com verba pública, já que só o município possui outros sete estádios (alguns deles, inclusive, subutilizados e que vem apresentando pouco público durante as partidas), um novo seria muito dispendioso e possivelmente não “se pagaria”, ou seja, talvez fosse apenas mais um para a cidade custear, bancar sua igualmente cara manutenção após a Copa e que poderia ser subutilizado. Por isso, o Comitê Paulista optou por focar seus investimentos em obras que a cidade realmente necessita como intervenções em transporte público e mobilidade”.

De outro lado, a dependência da Copa 2014 a São Paulo é evidente se olharmos os números da cidade, que Caio nos forneceu:

São Paulo – com orçamento de 34 bilhões de reais para projetos de infraestrutura, transporte público e mobilidade que ficarão prontos para a Copa de 2014 -, com 15% do PIB do Brasil, 6% da população e, portanto, disparada em primeiro lugar quanto às possibilidades econômico-financeiras, tão importantes para uma COPA, reflete em infindável relação de quesitos esta posição.

É a primeira cidade turística, tendo recebido em 2009 mais de 11,3 milhões de visitantes. Seus 410 hotéis possuem 42.000 quartos enquanto o Rio 26.000, Brasília 20.000 e BH 8.000. E os hotéis de São Paulo comemoraram em 2009 uma taxa de ocupação de 63%, com um valor médio de 190 reais por unidade habitacional. Os 90.000 eventos realizados certamente contribuíram.

12.500 Restaurantes, 15.000 bares, 3.200 padarias oferecem como opção 52 tipos de cozinhas diferentes.    45 grandes shoppings, 59 ruas comerciais especializadas em 51 segmentos, 240.000 lojas, comercializam produtos do mundo todo.

Para a cultura, 110 museus, 160 teatros, 260 cinemas, 90 bibliotecas, 40 centros culturais, 105 faculdades e 28 universidades.

No transporte, o aeroporto de Cumbica recebeu 20 milhões de passageiros em 2008, Congonhas 14 milhões e os três terminais rodoviários 16 milhões. São 89 estações de trem, 55 estações de metrô e 83 km de linha, 200 heliportos. 32.000 taxis, 15.000 ônibus. E o porto de Santos fica a 70 km de São Paulo.

Diante disso, com Serra ansioso, Teixeira pretensioso, só nos resta ouvir Juca Kfouri e tomar chá de cadeira, esperando a queda do Ricardo Teixeira.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Mílton Jung e tá crente que vai assistir à abertura da Copa do Morumbi


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