Avalanche Tricolor: forjado no drama de uma enchente, o Grêmio saiu gigante da tempestade de Talcahuano

Huachipato 0x2 Grêmio

Libertadores – Talcahuano, Chile

O reconhecimento do time a performance de Marchesín. Foto:Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há cerca de um mês, Diego Costa resgatava pessoas atingidas pelas enchentes do Rio Grande do Sul, e Caíque comandava um barco a remo em meio ao temporal, em busca de famílias ilhadas em suas casas. Assim como eles, outros jogadores gremistas se envolviam diretamente na ajuda de amigos, vizinhos, parentes e de toda gente que pudessem alcançar. Muitos deles se mobilizaram para arrecadar dinheiro e doações, atendendo às primeiras necessidades da população sofrida.

Na noite desta terça-feira, lá estavam todos embaixo de um temporal que não deu trégua ao longo de boa parte de um jogo que, por sua importância para nosso destino na Libertadores, já havia sido batizado de Batalha de Talcahuano, cidade da província de Concepción, no Chile. Não imaginávamos que seria no cenário que encontramos, só atenuado graças ao gigantismo do Grêmio.

Foi a dimensão de nossa história que mais uma vez nos levou à vitória e à classificação para as oitavas de final da Libertadores. Considerando os maus resultados nas duas primeiras partidas desta fase, os desafios fora de casa e, especialmente, a tragédia no Rio Grande do Sul, muitos de nós nos contentaríamos com o retorno às atividades. O Grêmio, não! O Grêmio sempre quer provar que é possível ir além.

Fomos além! Vencemos o Estudiantes fora de casa (às vésperas da parada pelas enchentes), goleamos o The Strongest no estádio emprestado do Couto Pereira e, ontem, superamos o Huachipato, em um gramado impraticável para o futebol.

Foi gigante Diego Costa ao superar o zagueiro dentro da área, após a cobrança de escanteio, ainda nos primeiros minutos da partida, para marcar seu gol de cabeça quando ainda era possível jogar futebol.

Foi gigante Marchesín, que fez uma sequência de defesas no segundo tempo, impedindo o empate e contendo a pressão do adversário quando só jogar futebol não bastava. Era necessário enfrentar poças d’água, lamaçal e bola desorientada pelo peso da chuva.

Foi gigante Kannemann, com a bravura eterna que marca sua trajetória com a camisa gremista. Não perdeu uma só bola jogada para dentro de nossa área. Desta vez, teve Rodrigo Ely à sua altura, zagueiro que tem revelado valentia e precisão no desarme, conquistando a confiança de um torcedor que se sente órfão diante da ausência de Geromel.

Foram enormes todos os demais que entraram em campo e garantiram a presença do Grêmio na Libertadores com uma rodada de antecedência, a despeito de tudo que estamos passando nestas últimas semanas.

Mesmo aqueles que, da casamata, inspiraram os colegas no gramado merecem nosso louvor. E aqui destaco o goleiro reserva Caíque — sim, aquele mesmo do barco a remo —, que vibrava, apoiava, dividia opinião com o técnico, e se fez presente em um jogo no qual estaria reservado a ele apenas um lugar entre os suplentes. Mas Caíque, assim como o Grêmio, não aceita ser coadjuvante, vai além!

Forjado no drama de uma enchente, o Grêmio saiu gigante e venceu a tempestade de Talcahuano.

Avalanche Tricolor: orgulho e cantoria, aos trapos e farrapos

Grêmio 0x2 Bragantino

Brasileiro – Couto Pereira, Curitiba/PR

Torcedor gremista no Couto Pereira, foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eram mais de 60 minutos de jogo jogado e a narradora da Globo Isabelly Morais tascou um “a torcida do Coritiba (?) canta forte”. Ato falho de quem assim como a maioria de nós vivenciamos esta partida de futebol cercada pela estranheza. 

O time da casa não estava em campo; o time que tinha o mando do campo não estava em casa; e a maior parte da torcida que ocupou as arquibancadas veio de fora para apoiar seu time que não tem casa para jogar.

Quando ouviu a cantoria forte ressoando pelas arquibancadas do estádio Couto Pereira, em Curitiba, a narradora foi traída pela memória. Com sua voz sempre bem colocada, trocou Grêmio por Coritiba, sem perceber nem corrigir. Falha justificada: convenhamos, por que seriam os gremistas a cantar forte naquela “altura do campeonato” em que seu time perdia por dois a zero e pouco havia a fazer para desfazer o placar? Só se fossem loucos! Em tempo: somos.

As circunstâncias que levam o Grêmio a disputar sua segunda partida em três dias, após ter juntado seus trapos e farrapos nas enchentes do Rio Grande do Sul, seguiram a surpreender a promissora narradora de futebol da Globo. 

Quando o jogo se encerrava e o resultado estava sacramentado, o editor de TV cortou a cena para a arquibancada onde se concentravam a maior parte dos quase sete mil torcedores que foram ao estádio. Isabelly fez o que lhe cabia: na descrição da cena, disse que o torcedor gremista festejava. Mais não disse porque talvez não tenha entendido bem o que comemorávamos.

Que fique claro, caro e cada vez mais raro leitor, esta Avalanche não se escreve para criticar a narradora da boa safra de vozes femininas que surge no jornalismo esportivo brasileiro. Apenas usa-a como personagem para justificar como tem sido e ainda será estranha a nossa vida nos próximos três meses, ao menos —- foi a previsão mais otimista que ouvimos do presidente Alberto Guerra, em entrevista que se antecipou a partida desta tarde, em Curitiba. 

O Grêmio está condenado a levar seu mando de campo para um estádio distante do Rio Grande do Sul. Fez isso na decisiva partida pela Libertadores, na quarta-feira à noite, e conseguiu golear seu adversário e transformar o Couto Pereira em uma espécie de Olímpico Monumental redivivo. Deve repetir a façanha semana que vem contra o Estudiantes: se Deus quiser ainda com chances de classificação à próxima fase da competição. Dependerá de vencermos a batalha de Talcahuano, no Chile, na terça-feira.

Mobilizar seu torcedor e levar mais de 20 mil ou até 30 mil pessoas tão distante de Porto Alegre, muitos com dificuldades de transporte e infraestrutura para deixar o Rio Grande do Sul, é tarefa superlativa. Por isso, já se esperava menos pessoas na arquibancada do Couto Pereira, na partida deste sábado. Sabíamos que enfrentaríamos nosso adversário em condições de desigualdade. Em campo, teríamos de contar com reservas, recém reunidos para treinar e, portanto, pouco entrosados. 

Apesar deste cenário de esfarrapados e desabrigados, do qual somos protagonistas, a cantoria que confundiu a narradora e a festa que se fazia nas arquibancadas, registrada pelas imagens da TV, não era nem do time da casa, o Coritiba, nem do time que vencia a partida, o Bragantino. Era do Grêmio. Dos torcedores gremistas que reconhecem o esforço que fazemos para cumprir nossas obrigações no futebol.

Os torcedores gremistas cantávamos a vitória de estarmos de volta aos gramados e o orgulho de sabermos que, independentemente, das condições que nos submetam jamais fugiremos da luta. Mesmo que estejamos aos farrapos.

Avalanche Tricolor: a catarse de um retorno e a certeza de que somos o Rio Grande do Sul!

Grêmio 4×0 The Strongest

Libertadores – Couto Pereira, Curitina/PR

Foto: Lucas Uebel/RS

Catarse, liberação de emoções ou tensões reprimidas. É o que está no dicionário. É como a psicologia explica. É o que justifica cada uma das muitas lágrimas que verti no rosto nesta noite em que o Grêmio retornou ao futebol, um mês após o início de uma tragédia jamais vista por todos nós, no Rio Grande do Sul. 

Espero que minha turma aqui de casa não leia essa Avalanche. Porque não sei como entenderia as sensações que vivenciei. Não era apenas a um jogo de futebol que assistia. Ou assistíamos, dado que milhares de outras pessoas como ‘nosotros’ presenciaram essa mesma experiência. E devem ter chorado a cada minuto de bola rolando.

Solucei no gol de Soteldo, ainda no primeiro tempo, que mostrou aos gaúchos que os que peleiam, recusam a falência da esperança. Choraminguei em seguida a bola de João Pedro encontrar as redes, em um chute de destino improvável. Lacrimejei na certificação da vitória que se fez graças a insistência de Galdino. Debulhei-me quando Gustavo Nunes roubou a bola no meio do campo, driblou todos que se atreveram a surgir no seu caminho e bateu para definir a goleada mais significativa da história do Grêmio. .

O guri que comemorou o feito com um sorriso no rosto e o abraço de seus colegas, há menos de um mês era um dos sobreviventes da maior enchente que atingiu o Rio Grande do Sul. Deixou as dependências do Grêmio, ao lado de seus colegas, com água barrenta cobrindo a cintura. Seu companheiro de ataque, Diego Costa, despendeu energia e coragem para salvar pessoas ilhadas nas enchentes e abrigar em sua casa gente que acabara de ver a vida submergir. 

Assim como Gustavo e Diego, cada um daqueles jogadores que estiverem em campo ou fizeram parte do elenco, na noite desta quarta-feira, em Curitiba, tinha uma sofrência na memória: o amigo desabrigado, o conhecido desalojado, o vizinho que morreu, o colega de trabalho que quase tudo perdeu. 

Nas arquibancada, não menos sofrido, o torcedor gremista fez do Couto Pereira um Olímpico Monumental redivivo. Os trapos que adornaram o estádio, assim como as bandeiras do Grêmio, do Rio Grande e do Coritiba, que nos abrigou, acolheram não apenas o nosso time, mas cada gaúcho que sofre a dor da perda e do desespero nestes dias tão difíceis.

Envolto nesse sofrimento que acumulamos nos últimos 30 dias, ver o Grêmio jogar como jogou e ganhar como ganhou, me fez chorar. Não pelo Grêmio em si — o que, convenhamos, não seria pouca coisa. Foi um misto de felicidade e tristeza. 

Chorei por descobrir como podemos ser persistentes e resilientes, mesmo diante de todo o sofrimento que nos assola.

Chorei pelas famílias que sofrem sem entender que futuro terão; pelas pessoas que perderam pais e mães, filhos e filhas, tios e avós; pelos 169 mortos até agora confirmados e por tantos outros que se confirmarão.  

Chorei pelos registros de vida que subitamente se perderam na correnteza; pela angústia do irmão e da irmã, do sobrinho e da sobrinha, da cunhada e de todos demais da família. Chorei pela casa de minha infância que foi ameaçada. Pelo bairro em que morei. Pelas ruas que andei.

Chorei! E chorei porque, nesta noite, fui lembrado que o meu Rio sempre será Grande!

O rádio de madeira no balcão de casa

Por Christian Jung

 Este texto foi escrito originalmente para o site Coletiva.Net

O rádio SEMP em que ouvia o pai. Foto: Arquivo Pessoal

Na casa onde nasci e ainda moro, no período que tinha família com mãe, pai e irmãos morando juntos, havia um rádio de madeira da marca SEMP. Ficava em lugar privilegiado sobre o balcão da sala de jantar. Era nesse aparelho que ouvíamos as notícias, ao longo dos dias. Além da programação musical e os jogos de futebol.

Não por acaso, o rádio sempre esteve muito presente em minha vida e dos meus irmãos: era dentro daquela caixinha de madeira que nós escutávamos a voz do pai. Ele era o locutor do principal noticiário do rádio gaúcho, o Correspondente Renner, e narrador esportivo. O forte apelo emocional que o futebol tinha sobre o público e o fato de o rádio ser o único veículo a levar ao ar as emoções da bola, naquela época, faziam dos narradores esportivos, personalidades.

O pai era famoso pela precisão e velocidade na locução; e o jargão mais conhecido dos torcedores era o grito de gol: “Gol, gol, gol!”. E assim, por muitas vezes, quando andava com ele pelas ruas de Porto Alegre, escutava as pessoas gritando do outro lado da calçada:  “Milton Jung, o Homem do Gol, Gol, Gol!”

Mas voltemos ao SEMP. 

A imagem do velho rádio, que revi dia desses, me remeteu à ingenuidade da minha infância. Escutava o pai mais de uma vez por dia lendo as notícias “chatas de adultos”, que nada resolviam os meus problemas de criança. E diante dos meus momentos de malcriação, a mãe me repreendia e lembrava que o pai, dentro daquela caixinha, estava me escutando. 

Mesmo não achando muito provável, ao menos em frente ao rádio, procurava manter o silêncio. Era uma época em que a figura paterna impunha muito respeito. E os pais costumavam cobrar de forma austera. A bem da verdade, o pai não era desses de dar grandes broncas.

Apesar de desconfiar que estava sendo ludibriado, um fato me deixava em dúvida: ao voltar para almoçar em casa, o pai já sabia de tudo que eu havia aprontado. E ainda me chamava com o seu vozeirão: “Christian, o que aconteceu hoje?”. A ideia de que o rádio teria me delatado persistia. Sem perceber que era a mãe quem me entregava assim que ele chegava em casa. Por um bom tempo respeitei a caixinha de madeira da sala de jantar.

Hoje, é meu irmão que ocupa o espaço – dentro da caixinha de madeira – aliás, dentro do rádio e em rede nacional, mas meus sobrinhos não sofrem do mesmo terror – bem mais espertos e comportados do que o tio, logicamente. 

Sem contar que o modelo “rádio de madeira” virou item de colecionador. Atualmente, são várias as plataformas que permitem a transmissão das notícias e levam a informação a locais muito mais distantes. Não se corre mais o botão do dial para sintonizar a emissora preferida. Basta apertar a tecla ou usar o comando de voz para se ouvir a rádio e o locutor desejados.

Se acessar as notícias ficou mais fácil, o mesmo não se pode dizer da tarefa de unir a família no almoço. Ainda mais quando, na maioria das vezes, as cabeças sequer olham as panelas sobre a mesa porque estão afundadas na tela do celular.

Para que não seja indevidamente difamado: lá em casa, não aprontei muito, e aprendi de mais sobre o poder da comunicação.

Este texto foi escrito, originalmente, para o site Coletiva.Net

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias (macfuca@gmail.com)

Avalanche Tricolor: vaga adiada para a Arena

Operário-PR 0x0 Grêmio

Copa do Brasil – Germano Krüger, Ponta Grossa/PR

Galdino tenta mais um ataque em foto de Dido/GrêmioFBPA

Em jogo de futebol escasso, as palavras escasseiam, também. Pouco se tem a dizer de uma partida em que o placar ficou em zero a zero. E a perfomance foi apenas a suficiente para deixar a decisão da vaga para a  Arena, em 22 de maio. 

Nesta estreia de Copa do Brasil, que tanto gostamos, assistimos a raros rompantes de futebol. Um tentativa aqui, outra acolá. De gol desperdiçado quase nada a lamentar. Talvez naquele ataque ao fim do primeiro tempo em que Diego Costa serviu Cristaldo dentro da área. De resto, pouca inspiração.

A boa da noite foi ver o esforço de Galdino pela direita. Mesmo que contestado, jogou acima do esperado. Já havia demonstrado sua utilidade no esquema gremista na vitória pela Libertadores. Hoje, foi além. Aproveitou o espaço que tinha, fez boas jogadas, driblou e tentou tabelar com seus companheiros. 

Os torcedores gostaríamos de sair de Ponta Grossa com a vitória tranquilizadora, sem dúvida. Especialmente aqueles que tiveram de pagar R$ 350,00 para assistir ao jogo no estádio. Mas a impressão que ficou é que havia um contentamento do time em fazer um jogo seguro e ciente de que a decisão da vaga à próxima fase da Copa será mesmo diante da torcida, na Arena.

Avalanche Tricolor: árbitro erra e sempre contra o nosso time

Bahia 1×0 Grêmio

Brasileiro, Fonte Nova, Salvador/BA

Imagem reproduzida da Sportv

O árbitro erra. E erra sempre contra nosso time. Se erra para os outros, com certeza erra mais contra nós. E quanto mais meu time perde, mais erros comete. O cara ou a cara que escolheu essa profissão sabe a que veio. É bode expiatório. É meu culpado preferido. É do jogo, mesmo que nada disso esteja previsto lá na regra 5 das leis do futebol.

Com o tempo, o árbitro deixou de errar sozinho. Se no início tinha dois auxiliares para cometer suas barbaridades, agora tem um quarto árbitro fora do campo com direito a dar pitacos pelo radinho e mais um monte de quase-árbitros sentados na salinha do VAR, sempre prontos para anular os gols do meu time ou flagrar irregularidades que jamais admitirei dos meus jogadores.

O árbitro escalado para a partida de sábado à noite, em Salvador, na Bahia, Bráulio da Silva Machado, foi mais um a cumprir com perfeição o papel de algoz. Soubemos que, ontem, ainda contou com ajuda extraordinária.  E o fez de maneira sórdida, perspicaz. Porque não errou o lance fatal, o pênalti que definiria o placar, naquela cena explícita que a imagem da televisão registra e escancara para todos os torcedores – disso também já fomos vítimas na partida de estreia do Campeonato Brasileiro. Foi no varejo. No lance menor. Ali no meio de campo. Na escapada do contra-ataque. Na inversão de valores. 

Ao longo da partida, deixou passar faltas claras, sinalizou outras inexistentes. Puniu com o rigor da lei os que se atreveram a identificar seus erros. “Não tá gostando? Amarelo”; “Achou ruim? Vermelho!”! Sim, o árbitro tem o monopólio do erro no campo do futebol. Só ele detém o poder de errar e não ser punido. E punir. De desequilibrar o resultado da partida e voltar para a casa com o dever cumprido (e blindado pelos escudos de aço da polícia).

O Grêmio marcou mal, atacou mal, escalou-se mal, especialmente no primeiro tempo, e quando ajustou seus males não teve tranquilidade para fazer o placar a seu favor. Estava nervoso porque, você caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, sabe bem: juiz ruim gera insegurança, e se transforma em campo fértil para a tensão, que desestabiliza e cega os jogadores, o treinador e os torcedores. 

Árbitro ruim tem esse poder, também: nos torna incapazes de enxergarmos nossos erros pontuais e defeitos que se repetem desde o ano passado quando perdemos o Brasileiro, graças aos pontos desperdiçados nas partidas fora de casa. Até daria para ter sido campeão, mas naquele jogo contra o Corinthians, na casa do adversário, o árbitro entendeu que o jogador, dentro da área, com o braço aberto e para o alto, estava fazendo um movimento natural. 

Só nos resta protestar, sair de campo, abandonar o banco de reservas e pedir para que a CBF passe a escalar árbitros bons nas nossas partidas. Apesar de que árbitro que é se preza, bom ou ruim, erra. E erra sempre contra o nosso time. 

Avalanche Tricolor: vi, vivi e venci a Batalha de La Plata

Estudiantes 0x1 Grêmio

Libertadores – estádio  Jorge Luis Hirschi, La Plata ARG

Nathan comemora “vitória impossível” em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Nathan Fernandes e Gustavo Nunes talvez nunca entenderão o que protagonizaram na noite de hoje, em La Plata. A escapada em alta velocidade, no contra-ataque, o talento com que conduziram a bola, a despeito da marcação impiedosa dos adversários, e a maneira como estufaram a rede têm um simbolismo que nenhum deles alcançará. 

O Grêmio sofria com a expulsão de Villasanti. Já havia assistido a perda de seu capitão, Geromel, com lesão no ombro. Assistia à pressão do time da casa, empurrado pela torcida local. O torcedor vislumbrava o pior dos cenários. O risco da desclassificação prematura da competição se apresentava. Aos 31 minutos do segundo tempo, em um lance único e certeiro, os dois garotos que haviam entrado em seguida da expulsão, encarnaram a imortalidade que nos caracteriza.

Nenhum deles era nascido quando nós torcedores havíamos sofrido a dor de uma partida que ficou conhecida por Batalha de La Plata, em 1983. Até hoje, pensamos como foi possível cedermos o empate depois de estarmos vencendo por 3 a 1 e com quatro jogadores a mais em campo. Sim, sabemos das agressões em campo e no intervalo da partida e até das ameaças de morte. Mas foi um sofrimento apenas superado porque nos amadureceu para conquistar a primeira Libertadores de nossa história e nos levar ao Mundial, naquele ano. Nos despedirmos da Libertadores no mesmo palco daquela Batalha seria injusto para nossa história. 

Marchesín, João Pedro, Geromel, Rodrigo Ely, Kannemann, Fabio, Pepê, Villasanti, Cristaldo, Dodi, Galdino, Soteldo, JP Galvão, Gustavo Martini e, claro, Nathan Fernandes e Gustavo Nunes incorporaram a alma daquele Grêmio que começava a escrever sua Imortalidade no futebol sul-americano. Que nos fez ser respeitado onde desembarcamos nesse continente. Quando tudo parecia impossível, nos mantiveram vivos e venceram uma partida que pode reescrever nossa história nesta edição da Libertadores.

E eu, vi, vivi e venci esta Batalha de La Plata. Obrigado, Grêmio!

Avalanche Tricolor: foi bem bom!

Grêmio 1×0 Cuiabá

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Villasanti domina o meio de campo, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Duas vitórias, três gols a favor e nenhum sofrido. A passagem por Porto Alegre foi positiva para o Grêmio. E para mim, também. Na quarta-feira, estava por aqui mas compromissos profissionais me impediram de ir até a Arena. Contentei-me em assistir à vitória na tela do celular. E o futebol jogado contra o Atlético do Paraná foi bem bom, como costumam dizer meus conterrâneos da capital.

Por raras que são as oportunidades de estar em Porto Alegre quando o Grêmio joga em casa, nesse sábado não faltaria de jeito nenhum à Arena. A despeito de o time escalado ser uma espécie de “misto quente”, como chamamos quando as equipes mesclam titulares e reservas, o que me importava era a chance que o calendário do campeonato me oferecia para vivenciar, mais uma vez, a experiência de estar na arquibancada.

Gritar e cantar em coro com toda a torcida, praguejar o lance distorcido e criticar a sinalização ou a omissão do árbitro é uma sensação incrível. Resgato minha infância, relembro da adolescência, das vivências e sofrências dos tempos em que morei em Porto Alegre e frequentava o Olímpico Monumental, bem ao lado da minha casa. 

A vizinhança com o velho estádio é ainda mais provocadora de emoções. Desde uma certa melancolia com os resquícios daquele monumento, atualmente depredado, até a alegria pelas memórias que deixei por lá. A caminho da nova arena, dou uma piscadela em direção ao Olímpico, em agradecimento por ter sido tão importante nessa linda relação de amor.

Com tantas memórias atiçadas, ao chegar na Arena, para assistir à partida contra o Cuiabá, é impossível não se sensibilizar. Mesmo que o time não repetisse o desempenho do meio da semana, é maravilhoso ouvir a torcida empurrando seus jogadores ao ataque, na batida dos tambores da banda.

Em campo, apesar de a ausência de titulares, foi importante perceber como alguns jogadores evoluem e outros confirmam nossa admiração. Na lateral direita, por exemplo, João Paulo amadureceu e se estabilizou na posição. É protagonista em campo. 

No meio, Villasanti e Cristaldo são imprescindíveis. O paraguaio comanda o time e preenche todos os espaços do campo com precisão no desarme e ótima distribuição da bola. O argentino não para de fazer gols. Foi dele o que nos deu a vitória nesse sábado. Uma menção honrosa para Du Queiroz que talvez tenha feito sua melhor partida desde que chegou ao Grêmio.

No ataque, Gustavo Nunes, mesmo jogando invertido, é atrevido com a bola e refinado no drible. Enquanto Soteldo demonstra que está recuperando o desempenho que havia nos impressionado nas rodadas iniciais do Campeonato Gaúcho, antes de sofrer uma lesão grave. O baixinho chama o jogo para si, encara a marcação e é valente para suportar os defensores mais violentos. 

Verdade que sofremos além do que deveríamos, considerando que abrimos o placar ainda no primeiro tempo e estarmos diante de um adversário que até aqui não venceu nenhuma partida. Mas os três pontos conquistados foram mais do que suficientes, nessa sequência dura e até decisiva de partidas que estamos tendo nas duas competições que disputamos no momento.

Como disse no início deste texto e ratifico, o saldo foi bastante positivo nessa passagem do Grêmio por Porto Alegre. O meu, também. E não apenas por ter conseguido assistir ao meu time. Também, por estar com a família querida que vive por aqui; por ter tido sucesso nas atividades que estavam programadas; e pela satisfação de saber que amigos, colegas e pessoas que considero muito reconhecem o valor da jornada profissional que iniciei há 40 anos, nesta cidade. 

Avalanche Tricolor: vergonha!

Vasco 2×1 Grêmio

Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro (RJ)  

Pênalti! Não para o árbitro. Foto: reprodução da TV Globo

“É uma vergonha. é muito ruim. Tivemos uma palestra com a arbitragem falando da regra e na primeira rodada acontece isso. Uma vergonha”

Mathías Villasanti

Com a braçadeira amarela de capitão no braço esquerdo, ao lado do campo, minutos depois de encerrado o primeiro tempo, Mathías Villasanti, em seu portunhol, recorreu a palavra que estava presa na garganta do torcedor gremista.

Vergonha!

Era esse o sentimento em relação a atuação do time até aquele momento. Totalmente dominado. Havia espaço no meio de campo. Marcação frouxa na frente da área. E perdendo sempre o rebote, por onde saíram mais dois gols de nossos adversários. O mesmo havia ocorrido no meio da semana, na Libertadores.

A renúncia ao jogo também era evidente no setor ofensivo. Somente trocamos passes depois do duplo revés que havíamos tido. Mesmo assim, não havia intensidade na troca de bola e, com isso, pouco chegávamos na área ao menos para ameaçar o gol adversário. Os dribles eram lentos facilitando a marcação. As bolas lançadas em direção a área geralmente não tinha destino certo.

Vergonha!

A despeito de tudo isso que incomoda o torcedor, afinal fomos acostumados a assistir a um time competitivo, e sabemos que estes jogadores que aí estão têm total capacidade de nos oferecer esse futebol que demandamos, haveria uma vergonha ainda maior sendo forjada em campo. 

Aos 42 minutos do primeiro tempo, dentro da área, Diego Costa tentou dominar e deixou a bola escapar em direção ao gol. Seu marcador travou a bola entre o braço direito e o corpo, antes de despachá-la para frente. O árbitro Flávio Rodriguez de Souza estava de frente para o lance e não assinalou o pênalti. O VAR lhe deu a oportunidade de corrigir o erro. Mesmo assistindo à jogada com detalhe na tela, persistiu. 

Diante do novo procedimento em que o árbitro é obrigado a explicar sua decisão nos lances em que é chamado pelo VAR, a emenda ficou pior que o soneto. Disse em voz alta que foi acidental, portanto não houve a intencionalidade do jogador em impedir a trajetória da bola Meu Deus! A maior parte dos pênaltis assinalados no futebol não é cometida porque o marcador tem a intenção: é imprudência, incompetência, desleixo, falta de jeito, é acidental! A intenção do jogador não estava em julgamento. Estava, sim, o movimento que fez dentro da área. 

Vergonha!

O prejuízo ao não assinalar o pênalti claro foi ainda maior porque percebemos que o Grêmio encontraria poder de reação no segundo tempo, mesmo voltando a campo sem seu principal artilheiro, Diego Costa. Sob o comando de Villasanti, acuou o adversário. Variou as jogadas. Driblou e trocou passes com mais velocidade e precisão. A entrada de Gustavo Nunes e Nathan Fernandes tornou o time mais perigoso no ataque. E, aos 22 do segundo tempo, chegou ao gol depois de um escanteio curto, com participação de Cristaldo e Cuiabano, que encontrou Gustavo Martins dentro da pequena área.

A derrota gremista não se traduz no erro crasso do árbitro. Erramos muito na partida de estreia do Campeonato Brasileiro. Será preciso consertar as falhas que tendemos a repetir jogo após jogo e refinar nosso potencial ofensivo para recuperar os pontos perdidos. A melhor notícia: os dois próximos jogos serão na Arena do Grêmio.

Em tempo: “ahim, mas você não falou do pênalti para o Vasco!”. Não falei mesmo, até porque aqui falo do Grêmio. Foi lance no segundo tempo que só reforça: uma vergonha!.

Avalanche Tricolor: acredite se quiser!

Grêmio 0x2 Huachipato

Libertadores — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

O primeiro lance em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A primeira bola do jogo explodindo no poste e, no rebote, estufando a rede pelo lado de fora dava a entender que seria uma noite vitoriosa. De um time disposto a amassar o adversário, impor sua superioridade e prevalecer o fator local. Ledo engano.

Fomos ludibriados por aquele momento. Pois mesmo que outras bolas encontrassem o travessão e a que chegasse às redes tivesse sido anulada pelo árbitro, o que assistimos foi um desempenho abaixo da crítica em que sequer a sorte foi capaz de jogar ao nosso lado.

Os supersticiosos lembrarão do fato de o time chileno ter sido o primeiro estrangeiro a nos vencer na Arena, em 2013. Como se isso se tornasse uma verdade para o resto de nossos dias.  E contra a  qual não haveria o que fazer. Apenas aceitar.

Não aceitamos! Nem jamais aceitaremos! E por intolerantes que somos ao que o destino tenta nos impor é que precisamos estar prontos para reagir diante do improvável. 

Nosso próximo compromisso se transformará em mais uma Batalha de La Plata. Vencer será obrigatório. E com a vitória, iniciaremos uma virada histórica nessa Libertadores. 

É no que acredito! É no que me resta acreditar!