O pebolim estava mais emocionante

Direto da Cidade do Cabo

Brasil e Portugal no pebolim

O melhor do Brasil foi Dunga.

Explico, antes que alguém pense que fiquei louco, afinal, das três substituições que fez, as duas primeiras não funcionaram e, ainda, impediram que a terceira desse certo.

Júlio Batista estava mais perdido que cusco em procissão, corria pra cá, se movia prá lá, e não sabia o seu papel em campo. Daniel Alves entrou em campo disposto a enfiar um canudo nos portugueses de qualquer jeito e esqueceu que futebol é coletivo, tem mais gente doida pra marcar e mais bem colocada para tal.

Nilmar que substituiu Robinho, poupado devido a lesão, bem que tentou fazer alguma coisa, deu o chute mais perigoso do Brasil após uma bola que o Luis Fabiano não-tocou pra ele. A ideia era outra, mas chegou no lugar certo. É o que interessa. Pena o goleiro português ter feito o papel dele tão bem

Nosso goleador e Nilmar, porém, foram vítimas do meio campo sem criatividade, que se movimentava menos que time de pebolim, apesar de algumas tentativa sem sucesso. Verdade seja dita, a defesa de Portugal que, além dos quatro de trás, ainda recebeu o reforço de mais cinco meio campistas, deixando apenas Cristiano Ronaldo para as bolas sorteadas lá na frente, também não se mexia. Resultado: nada.

Os portugueses jogaram o primeiro tempo pra garantir a segunda vaga, e o segundo pra conquistar a primeira. Os brasileiros jogaram para vencer, ou melhor, queriam jogar para vencer, mas não havia gente capacitada.

O legal foi confirmar que Júlio César é o melhor goleiro do mundo, pois todas as vezes que é exigido atende nossas expectativas. Hoje, por duas vezes, fez o que o pessoal da marcação não havia conseguido: tirar a bola dos pés dos atacantes portugueses.

Por falar nos nossos defensores, se houve uma jogada emocionante no segundo tempo foi o quase carrinho de Lúcio, dentro da área brasileira, que cortou as pretensões de Cristiano Ronaldo em uma das muitas escapadas que deu. Apesar de que o Lúcio, esse sim, poderia ter ficado cravado lá atrás como a linha de defesa em time de pebolim. Às vezes, ele resolve se mandar pra frente com a bola nos pés e fica parecendo caminhão sem freio descendo a ladeira, desgovernado.

Mas vamos a justificativa para a primeira afirmação deste texto.

Na entrevista, após o empate com Portugal, Dunga disse que Robinho fez mais falta porque é driblador e sabe aproveitar os espaços curtos, comentou que a seleção insistiu muito em tocar bola na área mais congestionada do campo e falou que o futebol do Brasil precisa evoluir em relação ao que fez até aqui nesta Copa. O que justifica sua irritação ao lado do campo. Em uma partida na qual ninguém foi além da média, ao fazer a leitura correta do jogo, Dunga cumpre bem sua tarefa.

De minha parte, vou continuar assistindo ao jogo de pebolim disputado por torcedores brasileiros e portugueses aqui no Village Terra, em Cidade do Cabo, muito mais emocionante e disputado do que o Brasil e Portugal que assistimos, nesta sexta-feira.

Uma nova dimensão para o futebol do Brasil

Direto da Cidade do Cabo

Torcedor confia na vitoria contra Portugal

Torcedor confia na vitoria contra Portugal

Uma das atrações desta Copa é a transmissão em terceira dimensão por emissoras de TV confirmando um casamento antigo no qual tecnologias inovadoras nos são apresentadas tendo como atração o Mundial de futebol. Há dois dias, tive oportunidade de assistir ao compacto da vitória do Brasil sobre a Costa do Marfim em um aparelho destes, à disposição em um shopping da Cidade do Cabo. Somos obrigados a colocar um óculos, não muito cômodo, diga-se, caso contrário o que teremos é um jogo sem foco, parecido com aquelas televisões nas quais se enrolava um bombril na antena para captar melhor a imagem – ou com o futebol apresentado pelos franceses, compararia algum crítico da crônica esportiva.

Assim que nos posicionamos diante da tela e com óculos a postos, o espetáculo muda. Mais nítido do que aquele que vemos das arquibancadas dos estádios brasileiros. Nas imagens, o torcedor por trás da cena e os jogadores se deslocando parecem estar ao nosso alcance. Oferecem uma noção de profundidade que nos permite avaliar bem a distância do atacante para o gol.

O corredor que Luis Fabiano encontrou entre os zagueiros para receber o passe de Kaká e a visão que tinha para encher o pé contra o goleiro marfinense são nítidos. O duplo chapéu dele nos defensores fica ainda mais belo gravado naquele formato. Tem-se ideia da lucidez do atacante ao encontrar por cima da cabeça do marcador o caminho para deixar sua marca nesta Copa. Um gaiato ao meu lado chegou a dizer que até parecia haver alguma distância entre a bola e o braço que ele teria usado para facilitar as coisas.

Fico imaginando o que seria a imagem em 3D do terceiro gol do Japão no fim da rodada dessa quinta-feira com o drible malandro de Keisuke Honda que diante de um goleiro apavorado teve tranquilidade para servir Shinji Okazaki e deixar o gol aberto e livre para o companheiro fechar a vitória que classificou os japoneses às oitavas de final.

O chute distante do italiano Quagliarella sobre uma área congestionada de eslovacos que alcançou o gol pode não ter sido suficiente para impedir o vexame de os campeões mundiais serem desclassificados ainda na primeira fase, mas deve ter proporcionado um lindo momento para as câmeras que captam os lances em 3D.

No jogo visto nesta dimensão temos impressão que fomos convidados para a festa, mesmo longe do estádio. E, assim, nos tornaremos ainda mais exigentes em relação ao show que nos será apresentado.

Verdade que o futebol mundial evoluiu tanto quanto a tecnologia.

Para se ter ideia, as 12 seleções mais velozes desta Copa aceleram acima dos 30 km/h em uma partida. O México, segundo na sua chave e primeiro em velocidade, bate a casa dos 32 km/h, enquanto o Brasil, o quinto mais rápido, chega a marca de 30,75 km/h.

Se tiver interesse confira no site da Fifa, também, a quilometragem percorrida pelos jogadores. O alemão Sami Khedira, líder na estatística, já rodou 35 km em três jogos. Todos estes números são o dobro dos registrados na época da TV em preto e branco.

O problema é que enquanto a evolução da televisão foi na qualidade, a do futebol foi na força e velocidade.

Aprendi com meus colegas do Portal Terra que o que assistimos nesta Copa são equipes com algo que os especialistas chamam de futebol concreto. É um jogo mais objetivo, sem floreio, pois a marcação forte e veloz não dá tempo para o jogador pensar. Um, dois, três toques no máximo para que se encontre uma boa solução em campo. É preciso muita disciplina tática para atender os padrões atuais.

A criatividade tem ficado em segundo plano.

Espero que, nesta sexta-feira, a seleção brasileira, mesmo sem seu principal nome, Kaká, e com a ausência de Elano, autor de dois gols até aqui, seja capaz de mostrar novamente a sua superioridade em relação a boa parte dos adversários desta Copa. Com um futebol que respeita as regras atuais, equilibrado em seus diferentes setores, forte na marcação, disposto a chegar com a bola no chão até a área inimiga e sempre pronto a nos surpreender com um lance particular.

Um Brasil capaz de nos presentear com um futebol de outra dimensão.

A justiça se faz nesta Copa (até aqui)

Direto da Cidade do Cabo

Bandeira francesa em liquidação na Cidade do Cabo

Bandeira francesa em liquidação na Cidade do Cabo

A justiça não é uma máxima do futebol, haja vista as eternas e amadas seleções que não venceram as Copas para as quais eram favoritas. A Hungria na Suiça, em 54, o Carrossel Holandês na Alemanha, em 74, e o Brasil de Telê na Espanha, em 82, são exemplos do que escrevo.

Aliás, o futebol não foi inventado para que houvesse justiça, haja vista o fato de ser dos poucos esportes em que o time inferior tem quase a mesma possibilidade de vencer que o superior. Quantas vezes sua equipe, a melhor de todas, perdeu o jogo dito imperdível, saiu fora de uma competição após o tropeço contra uma agremiação insignificante.

Apesar disso, é da justiça que o futebol nos ofereceu até esta altura da Copa que irei escrever neste espaço.

O gol emocionante aos 46 minutos do segundo tempo, marcado por Donovan que classificou os Estados Unidos às oitavas de final, foi mais do que justo. Registre-se, quem diz isso foi autor de um texto neste mesmo blog no qual comentei que havia torcido pela Inglaterra contra os americanos porque afinal de contas os EUA não podem ganhar em tudo.

Na partida seguinte contra a Eslovênia, após estarem perdendo por 2 a 0, o time de Bob Bradley e sua cara de Steve Jobs não apenas conseguiu empatar de maneira espetacular como teria virado, não fosse a intervenção indevida do árbitro que inventou uma falta dentro da área no momento do gol. Outro erro na arbitragem impediu que os EUA saíssem na frente contra a Argélia e quase os deixou fora da Copa. Noventa e um minutos e 22 bolas chutadas a gol depois, a justiça se fez. E o chute de Donovan entra para a galeria de gols sensacionais.

E como o assunto é justiça, não posso deixar de citar a França. Alguém dirá que a seleção de Raymond Domenech e sua cara de não-fede-nem-cheira sequer teria de ter passaporte para a África do Sul, pois precisou de um lance irregular para ganhar sua vaga nas eliminatórias europeias. Depois de assistir ao vexame dos franceses nesta Copa, fiquei pensando na peça que o destino havia pregado a eles. Deixou que viessem, chegassem aqui com jeito de menino malandro que enganou os outros para, então, serem punidos diante dos olhos do mundo com os péssimos resultados dentro e fora de campo.

A vitória de Gana, mesmo perdendo seu último jogo para a Alemanha, torna justa a presença africana nesta Copa. O time de Milovan Rajevac e sua cara séria e sérvia era considerado o melhor do continente e, provavelmente, será o único a representá-lo nas finais do Mundial feito para a África, oportunidade para que o povo daqui siga acompanhando e vibrando com os jogos de futebol. Hoje era tocante, nos restaurantes e nas ruas, ver os africanos da África do Sul, os africanos de Angola, os africanos da Nigéria, enfim, os africanos de toda África comemorarem cada lance dos ganenses. Diferentemente da rivalidade que existe entre os países sul-americanos.

Assim como a classificação de Gana é justa, coloca o continente em seu devido lugar no cenário mundial. Por questões políticas, Joseph Blatter inchou a participação da África no futebol, ofereceu à região cinco vagas na Copa, além do próprio país-sede. Não mereciam tanto e a maioria tinha de ficar pelo caminho mesmo. A América do Sul de futebol superior tem quatro vagas à disposição e uma disputada na repescagem, por onde o Uruguai entrou.

Se é injusto este desiquilíbrio, a presença de um africano na sequência da Copa é boa para a competição e para a África, lógico.

E a África do Sul? Primeiro país-sede a deixar a competição ainda na primeira fase? Isto é justo para um povo que investiu tanta alegria no futebol? O time de Carlos Alberto Parreira e sua cara de Ronald Golias não tinha força para ir muito além, mas se despediu da Copa com uma vitória sobre a França, e isto ofereceu aos sul-africanos um sabor especial. Hoje, ainda, os jornais daqui fizeram manchetes destacando o orgulho desta conquista.

Argentina e Coreia do Sul, no Grupo A; Uruguai e México, no B; EUA e Inglaterra, no C; Alemanha e Gana, no D; além de Holanda no E e Brasil no G; são as seleções que já estão na próxima fase da Copa do Mundo. E pelo que apresentaram nesta primeira fase, não tenho medo de afirmar que o futebol foi mais do que justo até aqui.

Ainda faltam seis vagas para serem decididas. E estou curioso para saber se a justiça ainda vai prevalecer nesta Copa do Mundo. Vamos ver o que os Deuses do Futebol nos reservam. Não, melhor, não. Essa coisa de misturar Deus com futebol, ultimamente, tem dado muita controvérsia. Esta, aliás, uma briga pouco justa.

Pela ruptura no poder do futebol

Por Carlos Magno Gibrail

Henry e a mão na bola

Grande parte das mudanças da civilização veio através de rupturas geradas por revoluções, guerras ou dissidências em organizações em resposta a situações limite de concentração de poder.

Nas religiões, uma das dissidências marcantes foi a revolta contra a Igreja Católica, quando na Alemanha Martinho Lutero, em 1529, estabeleceu o Protestantismo, em resposta ao poder absoluto do Papa.

O esporte, cada vez mais ocupando papel destacado na ordem social e econômica dos países, claramente não está acompanhando estruturalmente o crescente espaço que a vida contemporânea lhe concede.

Dentro do esporte, o mais popular de todos, o futebol, e um dos primeiros a se profissionalizar, ainda guarda fortemente o amadorismo de origem nos aspectos de gestão, embora em outros esteja bastante evoluído.

A pequenez da administração do “Soccer” não combina com a grandeza do mesmo:

“O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da FIFA, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir a uma Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.” Milton Jung na sexta feira neste Blog.

Recursos eletrônicos, bolas com chips e árbitros profissionais são rechaçados. Tal repulsa emana do sistema de poder em que os mandatos das entidades representativas nacionais e internacionais não têm limites. Na FIFA, entidade máxima, Blatter está há tantos anos quanto quis, assim como permanecerá até quando desejar. Na CBF, Ricardo Teixeira, idem. Na maioria dos clubes brasileiros, também, idem.

São os PAPAS do século XXI, cujo crescente poder faz com que uma nação como o Brasil aceite avalizar uma COPA repassando poder total ao próprio presidente da entidade que presidirá o evento e que, pioneiramente na história das Copas, acumula o cargo da confederação de futebol do país sede. Ricardo Teixeira preside a CBF, preside a organização da COPA 14, e tem poder absoluto, sem a contrapartida prestação de contas, que serão endossadas pelo Governo Federal.

Não obstante a bajulação nacional de governadores de Estado, Teixeira decide sobre o destino da abertura da COPA, da qual é Senhor, colocando o maior e mais rico estado da federação brasileira em constrangedora subordinação, ainda que seja São Paulo a única cidade capacitada a abrigar tal evento.

A FIFA, a CBF, convenhamos, estão exagerando e se distanciando do apoio das plateias que teriam que atender. Historicamente nos aproximamos da dissidência, que é um primeiro passo para a ruptura definitiva.

Politicamente em âmbito nacional a criação de uma Liga dissidente é legal, enquanto internacionalmente há impedimento por regras estabelecidas de Unidade de representação. Mercadologicamente a dissidência poderá ser uma nova segmentação de mercado, criando um futebol com organizações modernas e regras atualizadas, respeitando o avanço tecnológico e a inteligência dos torcedores.

Que a mão de Henry e o empurrão no Morumbi sirvam de motivação para o surgimento de lideranças dissidentes.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung

O jogo que os meninos viram II

 

Direto da Cidade do Cabo

“Ainda bem, f.d.p” foi o que Dunga teria dito assim que o juiz deu o apito final da partida contra a Costa do Marfim. Em vez de deixar os meninos envergonhados, eles até que gostaram do desabafo. Foi o que me disseram assim que os procurei para os comentários sobre a vitória e classificação brasileira.

Os dois garotos, de 10 e 13 anos, apresentados neste blog, semana passada, após a estreia da seleção, fizeram tanto sucesso com a sinceridade de seu olhar, que decidi voltar a eles.

Ao menos para os meninos-comentaristas, ninguém precisará pedir desculpas pelos palavrões, ao contrário do que teve de fazer o técnico da França Raymond Domenech, alvo dos xingamento de Anelka no intervalo do jogo contra o México. Depois de afastar o atacante, foi à imprensa dizer que “lamento por todas as crianças que seguem a seleção da França”.

Os dois sabem que tem palavrão que ofende, tem palavrão que dá ênfase, tem palavrão dito no momento impróprio e tem palavrão que alivia. O de Dunga foi de alívio, naquele instantes. Os demais, ditos para quem não tem nada a ver com isso, e está apenas trabalhando, eles não ouviram e, portanto, não comentam. Fazem bem.

Ficaram assustados mesmo foi com a maneira dura com que aquele pessoal da Costa do Marfim jogava: “eles não são os Elefantes, são uns cavalos”, disse o menor. Mais incomodados, ainda, quando viram os marfinenses entrar de sola na canela de Elano. Como já escrevi, o mais velho diz que o meio-campo brasileiro tem “cara de dó” e, por isso, decidiu torcer por ele, em particular. Deu sorte.

Aliás, eles haviam reclamado durante o jogo a falta do gol do Elano. Pedido feito, pedido atendido, depois da boa jogada pela esquerda de Kaká. “Esse cara é legal, ele mostrou o nome das filhas depois do gol”, lembraram os dois, conquistados pela simpatia do “goleador”.

Será que ele pode ser punido por isto ? Espero que não, a mensagem era pra família, caramba.

Lembrei que eles queriam ter tirado o Kaká na partida de estreia já no primeiro tempo, antes mesmo da decisão do Dunga de substituí-lo: “Mas nesse jogo não merecia sair, apesar que disseram na TV que ele tinha de ter sido substítuido antes porque tomou o cartão amarelo”, comentou o mais velho. Sobre a expulsão: “Foi bem esquisito”.

Esquisito é elogio para o que o juiz deixou acontecer no gramado.

“O Robinho foi o Kaká do outro jogo, não fez nada desta vez”, concordaram os dois. “É, mas o Luis Fabiano fez bem mais do que todos eles juntos, num usou a mão, mas fez”, comenta o novinho que não havia nascido quando Maradona consagrou este lance no México86. “Foi o gol mais bonito que eu vi até hoje”, disse o mais velho que só assistiu aquele chapéu de Pelé, na Suécia58, pela televisão e em imagens desbotadas.

A vó, que esteve do lado deles no jogo de ontem, tinha idade para lembrar dos dois gols históricos, mas nunca acompanhou o futebol, só assiste aos jogos pra ficar junto com os netos.

Futebol-família é muito legal, mesmo que de vez em quando escape um palavrão.

Na moda, Dunga é arrojado

 

Por Dora Estevam

dunga_herchcovitchQue gosto é gosto e não se discute, todos nós sabemos, mas quando se trata de moda e talento todos dão palpite. A escolha foi feita em cima de dois fatores: praticidade e frio.

Não gastou (e poderia, ele tem dinheiro), ficou super confortável e quentinho. Goste ou não, ele usou um casaco de um estilista brasileiro (muitos teriam colocado importado) e mostrou que podemos, sim, tirar roupas de coleções passadas do armário e usá-las sem problema (como já comentamos nesta coluna).

Estou falando do glorioso Dunga que no jogo da estreia do Brasil contra a Coreia do Norte, na Copa do Mundo, escolheu um casaco que causou tanta estranheza quanto a escolha dos meninos da seleção.

Na decisão pela roupa, Dunga mostrou mais uma vez que tem estilo e personalidade. Pode até ter sido influenciado pela filha, mas ele usou o casaco.

A peça foi desenvolvida pelo estilista mais importante do Brasil, Alexandre Herchcovicht, coleção 2006, a qual foi inspirada em príncipes urbanos, mistura de alfaiataria e esporte. No desfile, o modelo usou gola careca e um chapeuzinho tipo coroinha.

“Confirmado, Dunga está de Herchcovitch e eu tenho um igual! Estou feliz!”, escreveu o estilista animadíssimo no Twitter.

Na produção de Dunga, a blusa debaixo, uma malha com gola olímpica em tom claro (também já usou outras duas vezes), calça e sapatos marrons. Isso é que é legal, o estilista ver a roupa dele na rua, com novas produções e ousadas combinações. Quando ele poderia imaginar que o técnico da seleção brasileira fosse desencavar um casaco de coleção passada e ainda usar na Copa.

Dunga foi muito original. Além de ser um ótimo momento para divulgar a moda brasileira.

Este tipo de roupa usada pelo técnico é apenas para quem entende de moda. Quem não entende e não tem informação crítica mesmo.

Dunga ficou lindo e chique, até mostrou como se vestir dentro de campo. Deixa essa coisa de terno pra executivos, advogados e empresários. Em campo tem que mostrar comportamento arrojado.


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo aos sábados no Blog do Mílton Jung.

Sem recurso eletrônico, torcedor vira idiota

 

Direto da Cidade do Cabo

 

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O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da Fifa, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir à Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.

 

Um jogo desta importância não pode ser decidido por um homem só como ocorre, atualmente, mesmo que ajudado por dois auxiliares. Ou atrapalhado por eles, como ocorreu, nesta sétima rodada de partidas da Copa da África do Sul, com o árbitro maliano Koman Coulibaly, que anulou gol legítimo dos Estados Unidos contra a Eslovênia. A bola cruzada por Donovan partiu do lado direito e passou sobre parte da defesa eslovena para ser jogada às redes por Maurice Edu.

 

Os americanos que se consagrariam com uma vitória histórica, pois teriam virado o jogo depois de estarem perdendo por 2 a 0, reclamaram no ato, mesmo sabendo da incapacidade deles mudarem a decisão. A torcida chiou nas arquibancadas e deve ter se voltado para os dois telões que reproduzem imagens da partida no estádio, mas não tiveram o direito de rever o lance, pois estas são “censuradas” pela Fifa e pelas regras do futebol. A questão é que apenas eles, diretamente envolvidos no jogo, tiveram este direito cassado.

 

A imensa audiência das emissoras de televisão viu e reviu a jogada de longe e de perto, por trás e pela frente, a partir de câmeras com capacidade de gerar slow motion de alta definição. Recursos com área sombreada, linhas imaginárias e imagem digitalizada deram suporte a opinião dos comentaristas. E foram unânimes em apontar o erro fatal.

 

A Fifa que faz acordos milionários com empresas de desenvolvimento tecnológico – a cada Copa temos uma explosão de vendas de aparelhos de televisão mais modernos, por exemplo – é a mesma que se nega a permitir o uso desses recursos no futebol sob a alegação de manter a igualdade de condições na disputa do jogo em qualquer canto do mundo. A entidade entende que para a prática do esporte bastam as traves, as redes, os uniformes e a bola, que podem ser usados por ricos e pobres, sem diferenças.

 

Primeiro, é irônico a instituição que lucra quase U$ 4 bilhões na Copa da África, doa a quem doer, nesta hora ser a porta-voz dos desvalidos. Segundo, a persistir a tese, deveríamos questionar o uso de técnicas avançadas de preparo físico, médico e psicológico dos atletas, afinal os time do Mali não conseguem oferecer a seus jogadores as mesmas condições que os times da Espanha.

 

Curioso ainda constatar que o mesmo futebol que abre mão desta tecnologia, aceita punir após a partida jogadores flagrados cometendo algum ato de violência. Flagrados pelas mesmas câmeras “cassadas” na hora do jogo.

 

Houvesse o “árbitro eletrônico” – se me permitem chamar assim o uso do vídeo para conferir lances polêmicos -, não teríamos sido obrigados a ver o futebol medíocre da seleção da França aqui na África. Em lugar dela, estaria a Irlanda, que vinha jogando muito mais, contudo acabou punida com um gol de mão de Tierry Henry. Tão pouco, os Estados Unidos estariam ameaçados de uma desclassificação pré-matura nesta Copa.

 

Pena os americanos não serem no futebol a potência que o são em outros esportes, pois talvez tivessem força para pressionar a Fifa a aceitar mudanças na regra, como ocorreu, em 2006, com o tênis. Graças a injustiça sofrida pela tenista Serena Williams, na partida contra Jennifer Capriati, pelo US Open, dois anos antes, iniciou-se um movimento em favor do replay-instantâneo. Atualmente, o tenista tem o direito a três pedidos de revisão por set e um adicional caso haja tie-break. O Hawk-Eye – Olho de Águia, em português – não é obrigatório em todas as competições, sendo usada apenas nas que distribuem maior premiação.

 

Na época em que a regra foi implantada, o número 1 do tênis Roger Federer fez duras críticas, sendo hoje um dos que mais se utilizam do recurso. Marat Safin, agora aposentado, chegou a dizer que eram idiotas os que defendiam o Hawk-Eye.

 

Idiotas somos nós, torcedores do futebol, enganados por árbitros que têm cada vez mais dificuldade para acompanhar a velocidade dos jogadores e da bola. Enquanto o futebol não aceita implantar os Olhos de Águia nos estádios da Copa do Mundo, estaremos sempre vulneráveis a manipulação dos Gaviões da Fifa.

 


A imagem acima é da galeria de Tiago Celestino, no Flickr

Um exército de abnegados com algum talento

 

Direto da Cidade do Cabo

Chegou veloz, convicto, certo de sua tarefa naquele momento. Maicon sabia qual era seu papel quando recebeu a confiança de Dunga para jogar na ala direita e a bola passada por Elano. Da mesma maneira, não teve dúvida de como chutar, de que lado da jabulani bater. E bateu de maneira que a bola mudasse de direção, escrevesse um roteiro diferente daquele programado pelo adversário.

Robinho havia tentado no primeiro tempo o mesmo através de seus dribles. No pouco espaço que havia no campo de ataque, onde estiveram 21 dos jogadores em boa parte do tempo, ele mostrou o que pode torná-lo um jogador diferente entre os “zés” e “manés” que representam suas seleções nesta Copa. Foi ele, por sinal, que encontrou Elano lá do lado direito, também, por trás da muralha montada pelos norte-coreanos, no segundo gol brasileiro.

Mesmo Kaká, limitado não pela qualidade, mas pelo físico, fez o que podia dado os problemas que enfrentou até agora. Chamou a marcação para ele, tentou se movimentar enquanto não estava com a bola nos pés, e ofereceu espaço para que os companheiros de equipe aparecessem.

Os lances na televisão não vão mostrá-lo na jogada, mas o sempre criticado, Felipe Melo, disse em campo porque recebeu a missão de ser uma dos volantes da seleção. Para que Maicon alcançasse sua glória pessoal – marcar gol em Copa é algo que fica gravado para o resto da vida -, precisou que Felipe desse início a jogada. Para Elano deixar sua marca, precisou que Felipe roubasse a bola lá trás, pegando os “armados” norte-coreanos de surpresa. Aliás, para que o Brasil levasse um gol, precisaram os coreanos que Felipe deixasse o gramado.

Goste ou não, assim é a seleção brasileira de Dunga, formada por jogadores que foram preparados para cumprir sua função, fiéis ao script desenhado pelo chefe durante todo o período de treinamento e sempre dispostos a oferecer um pouco mais do que o talento natural que receberam.

Comprometidos, sim. Abnegados, com certeza. E prontos para encarar todos os adversários que estiverem no caminho de seu compromisso maior: ser hexacampeão mundial. Podem até não alcançar esta marca, mas não tenha dúvida de que Dunga e companhia limitada vão derramar suar até o segundo final desta Copa.

E vão derramar lágrimas, também, como fez Maicon ao comemorar seu gol. Que seja sempre de alegria.

É Copa do Mundo e meu coração não saiu de férias

 

Entusiasmado com o futebol, e disposto a torcer pela seleção brasileira, o jornalista Airton Gontow enviou para o Blog o artigo que reproduzo a seguir, no dia em que o Brasil estreia na Copa do Mundo da África:

Por Airton Gontow

Há uma cena emblemática em “O ano em que meus pais saíram de férias”, excelente filme de Cao Hamburger sobre a Ditadura Militar, que tem como pano de fundo a Copa do Mundo de 1970. Jovens da esquerda brasileira assistem a um dos jogos da Seleção cientes de que o certo é torcer para a derrota do Brasil, já que o triunfo do time nacional seria mais uma arma nas mãos do governo militar. Mas na hora do primeiro gol do Brasil o que se vê é uma explosão de alegria.

Vivi uma cena, de certa forma semelhante, muitos anos antes, na Copa do Mundo de 86. Eu estava na Universidade de Tel Aviv, em Israel, onde estudava, assistindo à partida decisiva entre Argentina e Alemanha. Ao meu lado, estudantes judeus latino-americanos, metade deles da Argentina e os outros de países como México, Colômbia, Uruguai e Brasil. Todos manifestaram apoio irrestrito ao “irmano sul-americano”, ainda mais contra a Alemanha, time que, por motivos óbvios, não encontra muitos seguidores em Israel. Quando a Argentina fez o primeiro gol, nossos vizinhos vibraram intensamente e todos nós aplaudimos. Na hora do segundo gol, a vibração foi ainda mais forte e até nos arriscamos a cantar “Vamo, Vamo, Argentina…” Quando os alemães marcaram pela primeira vez houve um silêncio absoluto no quarto. O jogo prosseguiu, com todos nós ansiosos pelo seu término. Na hora do empate da Alemanha o que se viu e ouviu foram gritos ensurdecedores: “Gol! Gol! Gol!” De repente lá estavam todos os jovens estudantes – judeus e sul-americanos! – festejando em pé o gol dos alemães, sob os olhares surpresos dos argentinos que, aliás, saíram do quarto vibrando e sem nos olhar ou se despedir quando sua seleção conquistou o título.

Lembro destas histórias quando penso em Dunga. Meu Deus, não convocou o Ganso! Que loucura, não deu chance para o menino Neymar! Que heresia: o Zangado, ops!, o Dunga, ignorou a recuperação de Ronaldinho Gaúcho no Milan e vai pra Copa com Júlio Batista, Elano e Kleberson. Deixou o Hernanes de fora e convocou o Josué. Ao tirar com razão o Adriano riscou com a caneta, ou melhor, com Grafite, o nome de Fred, o substituto natural. Teremos na Copa o Doni e o Victor, melhor goleiro do País nos últimos dois Brasileirões, ficará por aqui!

Lembro destas histórias quando vejo as entrevistas e outras manifestações de Dunga e seu fiel escudeiro, Jorginho – que acusam qualquer crítica de falta de patriotismo. “Brasil: silencie ou deixe-o!”

Eu e você deveríamos torcer contra a Seleção Brasileira, já que a vitória na Copa poderá significar a perpetuação do jeito Dunga de comandar: a criação de inimigos externos para unificar o grupo; o desprezo pelo talento e o revanchismo. Deveríamos é torcer pela Argentina, do maestro Verón e do craque Messi, com seu futebol de técnica e garra. Ou mesmo pela Espanha, que nunca venceu uma Copa e que hoje joga um belíssimo futebol, com Fúria e arte.

Mas, claro, não dá. O coração simplesmente não deixa. Não há espaço para a razão na hora do futebol. Como jornalista terei sempre o sagrado compromisso de buscar a verdade. Mas não vou escrever “O Elano em que meu país saiu de férias”. Comprei uma televisão nova e até parei em faróis e lojas para decorar minha casa com as bandeiras e outros badulaques do Brasil. Já estou vestido – corpo e alma – com a camisa canarinho. De vuvuzela verde-amarela na mão!

Que o venha o Hexa! Com um gol de Grafite! Pelos pés de Júlio Batista! Com um petardo do operário Elano. “Doni! Doni!” “Dunga! Dunga! Dunga!” Pra frente Brasil!

Airton Gontow é jornalista e cronista.

Vuvuzela não cala decepção de trabalhador africano

 

Trabalhador na África do Sul

O estádio Moses Mabhida, em Durban, reuniu na noite de domingo duas verdades desta Copa da África do Sul: o espetáculo do futebol e o escândalo da desigualdade social. Os milionários jogadores da Alemanha já haviam deixado os vestiários de volta para a concentração, após a goleada por 4 a 0 contra a Austrália, quando estourou o confronto entre policiais e centenas de trabalhadores que prestam serviço no local.

Os funcionários protestavam contra o pagamento que consideram insuficiente para a função que realizam. Reclamavam terem recebido ofertas de salário que chegariam a R 1,500 mas não levaram mais de R 190. Em bom português: em vez de R$ 350 por dia, ganharam R$ 45.

Poucos dias antes do início dos jogos, o analista do jornal sul-africano Business Report Terry Bell alertava que os sindicatos e trabalhadores não identificam nenhum favorecimento para os movimentos sociais vindos da Copa e da Fifa. Enquanto a organizadora dos jogos garantia o maior lucro possível para si, eximia-se de qualquer responsabilidade em relação aos direitos trabalhistas advindos de contratações relacionadas a Copa.

Um dos líderes de sindicato que reúne trabalhadores de empresas de energia elétrica Lesiba Seshoka acusou a concessionária de emperrar as negociações por aumento salarial com o objetivo de jogar a opinião pública contra os funcionários, pois estes, supostamente, estariam interessados em prejudicar a realização da competição. “Não podemos adiar a fome para os nossos filhos”, comentou em um jornal que eu lia na praça procurada por milhares de turistas na hora do almoço, em Cidade do Cabo.

Aqui mesmo, em conversas com funcionários, nas áreas de prestação de serviço, é possível identificar outros motivos para a indignação. Muitas das vagas criadas para atendimento do público durante a Copa foram ocupadas por trabalhadores que chegaram dos demais países do continente. Calcula-se que 30% delas estão servindo a pessoas que se deslocaram desde Angola, Gana, Moçambique, entre outros.

Boa parte dos empregos que surgiram na onda dos jogos é temporária e informal. Ou seja, desaparecerá assim que o capitão da seleção vencedora levantar o caneco.

Nem o entusiasmo das vuvuzelas menos ainda a violência do gás lacrimogênio e das balas de borracha – jogados sobre os trabalhadores que participaram do protesto de domingo – serão suficientes para encobrir a frustração desta gente que acreditou no “espetáculo” do futebol.