Por quem você torce e por quê ?

 

Direto da Cidade do Cabo

Primeiro de tudo. Esqueça este papo de que jornalista é imparcial. Não torce por ninguém. Torcemos, sim. E este que vos escreve é gremista desde pequenininho. Azar de quem não gosta.

Em seguida, vamos ao que interessa.

Torcedores em Cidade do Cabo

A bola começa a rolar, e você lá com aquele olhar blazê. Coreia do Sul e Grécia, não interessa. A troca de bola rápida chama a atenção. A movimentação de um dos times lhe agrada. A defesa do goleiro, entusiasma. E, de repente, o gol. E você, discreto, comemora. Por que você torce ?

Eu escolhi os asiáticos porque mostraram futebol melhor do que os gregos, e estavam cheios de Jung na escalação. Me dei bem.

Aqui na Terra da Copa, há torcedores de todos os lados. Eles caminham juntos, cruzam um pelo outro, tocam uma corneta (não, não é da vuvuzela que estou falando), brincam, se cumprimentam e seguem em frente. Vestem a camisa da sua seleção, pintam o rosto com a bandeira nacional e às vezes pregam algumas peças.

O menino com a jaqueta do Brasil é mexicano. O brasileiro de verde e amarelo veste o uniforme da África do Sul. As suecas, também. E os dois argentinos não se acanham de andar prá lá e prá cá com a bandeirinha da Inglaterra – receberam de umas moças de shorts curto que saíram de dentro de um enorme e barulhento ônibus que tocava o hino da Rainha, diante da praça na qual turistas se encontram em V & A Waterfront, área rica da cidade.

Torcida inglesa

No jogo da Argentina, a torcida dos brasileiros pela Nigéria era explícita. Os poucos ataques do time africano eram acompanhados com atenção; enquanto os chutes de Messi e companhia, com apreensão. Não fiz parte desta torcida, pois tendo a ficar com os sul-americanos, mesmo quando estes são considerados arquirivais. Acertei o lado, de novo.

EUA e Inglaterra estavam em campo lá na parte de cima da África do Sul. Aqui na parte de baixo, “americanos” e “ingleses” sentaram lado a lado em uma pequena arena montada diante de um tela gigante de TV na praça do shopping Victoria Wharf. Havia africanos-ingleses, franceses-americanos, indiano-ingleses, sei-lá-o-quê-americanos e assim por diante.

Torcedores em Cidade do Cabo

Conversei com alguns brasileiros: Marcelo torce para os EUA porque “eles estão melhorando”; Fabi para a seleção de Beckham e ele é o motivo da torcida dela; Carol morou seis meses em Londres e não tem receio em socar o ar quando sai o primeiro gol do jogo; está com mais dois amigos que também viveram por lá e até agora não entenderam como Green deixou a bola passar. Eles quiseram saber para quem eu torcia: Inglaterra, eu disse. Se não os americanos vão perder em que esporte ?

A torcida internacional no Victoria Wharf se definia de acordo com o passar do jogo. Havia umas 400 pessoas sentadas nas arquibancadas ou debruçadas nas cercas do andar de cima. Os ingleses de origem e os agregados eram maioria, apenas uma pequena parcela comemorava os lances em favor dos Estados Unidos. Havia americanos de verdade, com bandeira enrolada, garrafa de whisky na mão e mais exaltados do que todos. Quando ensaiavam um “USA” desafinado, eram logo calados pelo “England” que soava mais alto e em diferentes sotaques.

Torcedores em Cidade do Cabo

As três amigas sul-africanas que estavam voltando para casa, depois de um dia de trabalho no shopping, sentaram por ali mesmo. A mais excitada era “american”, a colega “england” e a terceira “não-fede-nem-cheira”: “Nem gosto muito de futebol, mas está muito divertido.

Assim que a temperatura baixou ainda mais e a chuva apareceu, Inglaterra e Estados Unidos perderam o apoio de uma parcela da torcida.

“Por que vai embora ?”, perguntei. “Com essa chuva, deixa eles pra lá”, respondeu o torcedor com o moleton estampando a bandeira da Eslovênia. Deve ter deixado o local feliz com o empate de 1 a 1 que assistiu. Ele não estava ali torcendo, estava secando. A seleção dele joga amanhã contra a Argélia e se vencer termina a primeira rodada líder.

E você, como escolhe a seleção pela qual vai torcer. Ou secar ?

Avalanche Tricolor: Aerosmith é nosso

 


Flamengo 1 x 1 Grêmio
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Boa parte do público que cantava um dos maiores clássicos do Aerosmith enlouqueceu quando viu o Manto Tricolor ser embalado de forma estonteante pelo vocalista Steven Tyler, no palco armado na Fiergs, em Porto Alegre, na sexta-feira. Trian Kept A-Rollin explodia nos ouvidos da plateia formada por quase 15 mil pessoas quando uma nova onda de gritos surgiu dos muitos gremistas que se encontravam no espetáculo.

 

Tyler talvez não tivesse ideia da importância do gesto dele, mas ao erguer a camisa que lhe foi jogada na passarela enaltecia o símbolo de uma das mais bonitas histórias do futebol. E se mostrava sintonizado com o gosto de astros mundiais como Bob Dylan que décadas atrás se encantou ao ouvir o hino do Grêmio que lhe foi apresentado pelo amigo, fã, jornalista e historiador Eduardo Bueno. Alucinado como sempre, Peninha convence qualquer dos seus interlocutores que o encantamento pela sonoridade da letra de Lupicínio Rodrigues fez Dylan compor algumas de suas mais belas músicas. Se duvidar, relembre Blowing In The Wind.

 

O delírio do público com a camisa tricolor no ponto mais alto do show do Aerosmith também provou que a Fiergs tinha maioria gremista, refletindo o que as pesquisas comprovam: temos a maior torcida do Rio Grande – também nos espetáculo de música. Torcida que no sábado à noite não chegou a embalar com o ritmo do futebol apresentado no Maracanã, mas que está consciente do potencial de seu time.

 

Bem verdade que foi o ‘veterano’ Rodrigo (30 anos) quem fez o nosso gol de empate, mas ao fim da partida, com um grupo ainda esfacelado pelas últimas batalhas, vimos mais uma vez uma garotada promissora. Dos 14 jogadores que entraram em campo, seis integram a nova geração: Adílson (23), Roberson (21), Maylson (21), Bruno Colaço (20), Bergson (19) e Fernando (18). Meninos que nasceram em uma época que os torna incapaz de entender a importância do Aerosmith para o hard rock, mas que sabem como poucos o orgulho de vestir este Manto.

Avalanche Tricolor: Pizza e futebol

 

Palmeiras 4 x 2 Grêmio
Brasileiro – Palestra Itália

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Foram três horas de espera até que o forno alcançasse temperatura próxima dos 450ºC e a massa da pizza passasse a integrar o cenário até então recheado de fogo, brasa e lenha. Com as mãos untadas de farinha, e a satisfação de ter a família e amigos em volta, as lâminas entravam cruas e de lá saiam saborosas. Nada seria capaz de estragar aquela noite de sábado.

A TV estava distante o suficiente para não atrapalhar a conversa e, ao mesmo tempo, nos chamar atenção caso surgisse um grito de gol. Não deixaria de acompanhar a partida, é lógico, mesmo com a ressaca da “peixada” de quarta-feira. Confesso, porém, que a atenção aos convivas era maior.

Era dia de festa em casa. E no Palestra Itália, também.

Foi o último jogo no estádio que serviu de palco para jogadores e jogadas memoráveis, muitas das quais lembradas por parte dos 19 mil torcedores que estiveram, ontem à noite, no capítulo final. Pela importância do feito talvez até merecesse cerimônia mais apropriada, mas a diretoria do Palmeiras não aparentava clima para tanto.

A mesa com pizza foi a minha homenagem com sabor italiano ao Palestra.

Estive algumas poucas vezes por lá. Sempre para assistir ao Grêmio. De saudade, ficará a goleada mais comemorada que o meu time já levou: 5 a 1, em 2 de agosto de 1995. O gol de Jardel, aos 8 minutos de partida, garantiu a classificação à fase seguinte da Libertadores, pois o Grêmio havia vencido por 5 a 0 o primeiro jogo no Olímpico.

Assim como ontem, um dos gols palmeirenses foi em impedimento. Este, porém, é um detalhe que poucos devem se lembrar. Estes momentos acabam escondidos diante de tantos registros considerados significativos em uma conquista.

O Grêmio de ontem ainda responde as emoções enfrentadas no meio da semana pela Copa do Brasil. Sofre de problemas físicos que tem tirado jogadores fundamentais como Borges. Parece não ter acordado ainda para a realidade do Campeonato Brasileiro. Talvez precise de mais algumas rodadas e mexidas de ânimos para sintonizar-se na competição.

Assim como na pizza que agradou a todos, aqui em casa, teremos de ter paciência para que a chama que sempre moveu o Grêmio se ascenda e chegue a tempetura ideal no momento de saborearmos mais um título para o Imortal Tricolor.

Aprender com a derrota

 

Airton Gontow é jornalista, gaúcho e gremista como eu. Temos diferenças, porém. Ele esconde os quadros vermelhos da casa quando o Grêmio aparece na televisão. Dá um baita azar, garante. Eu desisti das minhas supertições e resolvi, inclusive, deixar de lado a mania de pedir a Deus uma ajudinha. Ele tem tantas coisas para resolver entre nós que prefiro não ocupá-lo com mais estes assutos (pelos Deuses do Futebol, é verdade, costumo chamar).

Apesar das manias, Gontow é mais racional ao analisar o desempenho do nosso time. Escreve com conhecimento e argumento, enquanto eu pego a flanela e me esforço em lustrar cada feito, mesmo quando somos derrotados. Ontem à noite, pouco depois do jogo com o Santos, Airton Gontow já tinha traçado a avaliação que você lê, assim que clicar no link abaixo:

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Avalanche Tricolor: Vale a pena ver


Santos 3 x 1 Grêmio

Copa do Brasil – Vila Belmiro


Vi Pelé jogar, ao vivo, uma única vez, no fim dos anos 60. Não tinha mais do que cinco anos de idade e fui ao estádio grudado na mão de meu pai, ansioso para assistir ao maior jogador de futebol do mundo. Da minha casa ao Olímpico, o caminho era curto e precisava passar por uma ruela de areia, com esgoto correndo dos dois lados.

Lembro pouca coisa daquele dia. O estádio cheio, um alambrado dividindo as arquibancadas da pista que circunda o gramado e eu driblando o corpo das muitas pessoas que estavam em pé na minha frente para enxergar Pelé. Arrisco dizer que minha memória guarda a imagem dele conduzindo a bola no meio de campo. Mais não sei dizer.

Mas eu vi Pelé jogar. E ninguém será igual a ele.

Hoje à noite, meu Grêmio enfrentou um grande adversário. Que não tem mais Pelé, mas tem Ganso, um craque que por seu equilíbrio é capaz de desequilibrar qualquer partida. E o fez no único momento em que sua marcação esteve desatenta. Assim são os jogadores excepcionais.

O futebol jogado pelo Grêmio, em especial no primeiro tempo, esteve a altura do que se esperava para esta partida. E encheu os olhos do torcedor. Demonstrou segurança e maturidade, foi eficiente na marcação, não deixou o adversário jogar,  fez a bola passar de pé em pé com velocidade e chegou várias vezes ao gol.

Cada roubada de bola e saída para o ataque me davam orgulho de torcer por um time como este. Faziam aumentar minha esperança em uma temporada que apenas se inicia. Abria meus olhos para o jogo de qualidade que somos capazes de executar, e para o quanto podemos evoluir ainda este ano.

Porém, o Santos tinha Ganso e isto faz diferença.

Ganso não é nem nunca será Pelé.  Mas é um atleta que vale a pena assistir em campo, mesmo quando enfrenta nosso time do coração.

Avalanche Tricolor: Vamos ao que interessa

 

Grêmio 1 x 2 Corinthians
Brasileiro – Olímpico Monumental

Maylson em foto de Fernando Gomes/ClicRBS

O domingo com sol em São Paulo completou o fim de semana agradável em que a cidade esteve tomada de atividades culturais. Havia palcos para cada estilo musical, estilos musicais dividindo o mesmo palco. Escolas abertas para teatro, espaços com poesia e muita gente se divertindo. Diversidade e talento moveram milhares de paulistanos.

Nesta tarde, porém, a preguiça tomou conta e ficar em casa foi a opção. Mesmo porque havia um programa agradável na TV: assistir ao Grêmio em jogo sem compromisso, sem a tensão das últimas semanas.

Além disso, não tem faltado talento ao Grêmio. No elenco, jogadores com estilos diferentes que se completam. Diversidade que oferece ao técnico Silas a chance de mudar o time conforme o adversário. Por isso, foi campeão Gaúcho. Por isso, está nas semifinal da Copa do Brasil. Por isso, passou a chamar atenção do Brasil, desde que virou em cima do Santos, na quarta-feira.

E foi pensando no Santos que o Grêmio entrou em campo, em Porto Alegre, onde o sol brilhou bem menos, o excesso de nuvens escureceu a tarde e a temperatura caiu. Havia uma cara de preguiça na capital gaúcha, também. O torcedor que foi ao Olímpico – e este que ficou diante da TV – olhou para a partida com a falta de importância que ela tinha, apesar do tamanho do adversário. Sabia que o que terá de acontecer de significativo nesta semana, não haveria de ser naquele momento.

Foi de olho no momento certo que entendi dois recados passados pelo time reserva que esteve em campo, hoje. O primeiro veio de William Magrão, obrigado a jogar de zagueiro boa parte do jogo devido a lesão de Mário Fernandes. Nosso volante que não vinha apresentando futebol a altura daquele que o consagrou, estava confiante no desarme e na distribuição da bola. O segundo de Maylson, este guri que foi titular, se machucou e teve oportunidade no segundo tempo. Entrou, driblou e marcou o único gol do Grêmio.

Magrão e Maylson são o melhor sinal de que podemos confiar na gurizada da Azenha. Pelo bem daqueles que investem nos jovens da base e acreditam na diversidade de talentos, torço para que venha deles a consagração que pode nos levar à final da Copa do Brasil.

E que esta venha no palco e momento devidos: quarta, na Vila Belmiro. Até lá !

Avalanche Tricolor: Carta ao meu filho

 

Grêmio 4 x 3 Santos
Copa do Brasil – Olímpico Monumental

 

bandeira-gremio-imortal-tricolor

 


Meu filho,

 

Ter nascido em São Paulo te fez ficar distante do Rio Grande. Em teus 13 anos de vida, poucas vezes estivemos juntos naquela terra. Quando estamos lá, preferimos a tranquilidade da casa do tio, o bate-papo ao lado da churrasqueira, uma tímida roda de chimarrão – aquela erva que tu não gostas de tomar por amargo que é.

 

Já ouviste o pai cantarolando desafinado o refrão do Hino Riograndense: ‘Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra’. Até já falamos sobre a Guerra Farroupilha quando sentamos juntos para estudar história do Brasil. Mesmo assim, não deves ter compreendido bem o que a letra pretendia celebrar. Isto é algo que está enraizado nas conquistas e derrotas daquela gente. Creio que só mesmo tendo nascido ali nas redondezas para compreender por completo o que move os gaúchos.

 

Hoje, quando tu vistes o pai reclamando sozinho de um jogador que perdia a dividida, do outro que era lento no momento de distribuir a bola e daqueles todos que preferiram por algum tempo assistir ao adversário jogar futebol, tudo isso acontecendo enquanto o placar mostrava ampla desvantagem, deves ter ficado incomodado comigo. Preferistes dormir sob a justificativa de que “amanhã tenho aula cedo” quando na verdade não querias ver o pai sofrendo diante da televisão nem amargando uma derrota clamorosa como muitos anunciavam na transmissão, e nas mensagens enviadas pelo Twitter, também.

 

Tu não sabes o que estavas perdendo. Não chegou a ser aquela façanha da 2a. Divisão quando tu me vistes chorando (que a mãe não leia isso aqui), mas foi divino mais uma vez. O Grêmio, time pelo qual teu pai resolveu se apaixonar, mostrou que não é apenas forte, aguerrido e bravo. É veloz, talentoso e heróico.

 

Tu perdestes a chance de ver nossa defesa e meio de campo marcando cada bola que se aproximava da área como se fosse a última, além da rapidez com que nossos jogadores trocavam passe em direção ao ataque. Não vistes, também, os três gols do Borges, que deu até cambalhota, e o golaço do Jonas. Nem mesmo o que fez o Silas que, novamente, mudou o time no intervalo, na conversa, e festejou cada conquista como um novo torcedor a beira do gramado.

 


Teu pai vibrou em silêncio pra não acordar ninguém em casa. Comemorou com os punhos cerrados repetindo o gesto de Vitor a cada gol marcado. Queria, porém, estar ao teu lado, pulando e te abraçando, compartilhando a alegria e o orgulho de ser gremista. Mas longe de mim querer te contaminar com esta coisa do futebol, és bem mais inteligente do que eu e sabes que tens coisas mais importantes para construir na tua vida.

 

Queria, porém, que tu soubesses que este Grêmio, pelo qual escolhi torcer, não é chamado de Imortal Tricolor porque nunca perde. Fomos e seremos derrotados pois assim é o futebol. Talvez até mesmo na próxima semana, quem vai saber?  Desta vez temos um adversário à altura. São estas intempéries que forjam nosso caráter.

 

Nossa imortalidade existe porque, por mais respeito que tenhamos por quem nos enfrenta, jamais nos daremos por vencidos e lutaremos sempre até o fim.

 

Do pai

Uma seleção justa como o futebol que joga

 

Dunga não está disposto a trocar figurinha com ninguém. Foi com esta frase – ou parecida – que encerrei o post sobre a seleção brasileira publicado segunda-feira. A lista dos 23 jogadores preferidos do técnico mostra, claramente, esta situação. Ao contrário do que muitos pediam, ele preferiu manter a equipe que vem lhe acompanhando nos últimos jogos.

Só mesmo a Panini, editora do álbum de figurinhas da Copa, para acreditar na possibilidade de Ronaldinho Gaúcho ser chamado (ou teria sido a carência de caras interessantes na nossa seleção?)

Temos de admitir que, apesar de todas as críticas previsíveis que Dunga recebe – e ainda receberá -, os critérios usados para convocar esta seleção estão claros desde que ele assumiu o cargo. A CBF o colocou lá para fazer desta uma antitese da equipe que perdeu a Copa em 2006. Não precisa ser craque, tem apenas de estar disposto a oferecer um pouco mais do que é capaz. O treinador quer ao seu lado pessoas de confiança e comprometidas com seu comando.

Exemplo disso foi o motivo que o fez decidir em favor de Doni, da Roma, em detrimento de Victor, do Grêmio. O “estrangeiro” brigou com o clube italiano para disputar um amistoso pela seleção, na Inglaterra. Mostrou a Dunga que estava comprometido.

Pensei na hora, bem que o Grêmio poderia ter tentado barrar alguma convocação qualquer para que o nosso goleiro tivesse tido a mesma oportunidade de peitar a diretoria e agradar a Dunga. Agora é tarde e não será esta escolha que fará alguma diferença no grupo. Goleiro reserva não tem direito sequer de entrar no álbum de figurinhas.

A propósito, foi ao folhear seu álbum que o treinador também não encontrou lugar para Ganso e Neymar, pois ambos deram azar de jogar um bolão somente depois que o período de jogos da seleção havia se encerrado. Que guardem este talento para 2014, está logo ali.

A única figurinha que o treinador aceitou trocar mesmo foi a de Adriano, parece que não colava mais no álbum dele. A decisão do técnico me fez clamar, pelo Twitter, por alguém que aceitasse a minha repetida do atacante do Flamengo por uma do Grafite. Pelas respostas obtidas, parece que só o Dunga tem. É exclusividade dele.

Noves fora, a seleção brasileira que vai para a Copa é uma seleção justa, assim como o futebol que deve apresentar nos estádios africanos: justinho. Nada mais além disso.

O álbum de figurinhas do Dunga

 

CNT_EXT_283135Todas as atenções do futebol brasileiro – e lá fora, também – se voltam para a lista de selecionados de Dunga, a ser apresentada às 13h. Não entendi porque os meninos vão a escola e o presidente Lula não decretou feriado nacional. Dependendo o que o destino nos prepara talvez seja este o momento de maior emoção da seleção brasileira nesta Copa.

Estes dias que antecederam o anúncio foram marcados por palpites de toda ordem; comentaristas fazem de conta que são capazes de pensar pela cabeça do técnico; tem ainda aqueles que afirmam, categoricamente, que este ou aquele jogador vai ser ou não vai ser chamado.

A única certeza que tenho é que os nomes serão anunciados, sempre faltará um preferido deste ou daquele grupo, e o Dunga será criticado. Seja porque chamou, seja porque não chamou, ele será criticado. É para isso que servem os técnicos, ao que parece. Pois não têm sequer o direito de entrar na coleção de figurinhas da Copa.

Tem craque que está machucado, tem um que até levou tiro; tem outros que não serão chamados – o Ronaldinho Gaúcho talvez seja apenas um rostinho bonitinho no álbum; tem escudo prateado das seleções; tem até imagem dos estádios que nem se sabe estarão totalmente concluídos até o início dos jogos.

Tente achar a cara do Dunga, do Maradona, do Fábio Capello ou do Marcelo Lippi. Não pense que são figurinhas raras. Simplesmente não foram contemplados. Quem reclama é o ouvinte-internauta da CBN Carlos Assis: “Nem estou falando da comissão técnica e dos massagistas, quem não se lembra do saudoso Mário Américo ou então do Nocaute Jack?”

Assis sente falta também dos árbitros e auxiliares da Copa, nomes mais garantidos do que de muitos jogadores listados na publicação: “Isto com certeza é uma discriminação de cunho trabalhista”. Talvez se a Ana Paula fosse da Fifa ! Pensando bem, melhor deixá-los fora pois seriam transformados em figurinhas malditas no primeiro pênalti não marcado.

Meu protesto é puramente clubístico: assim que meus filhos chegaram com o álbum na mão corri para conferir a lista de “selecionados” e notei a ausência do goleiro Vítor, do Grêmio – único representante do meu time que deverá ser chamado por Dunga. Discriminação que não é sofrida apenas por ele, afinal as demais seleções escaladas pela Panini não podem perder o goleiro titular, também.

Com todas as falhas, o critério usado pela editora pouco importará a partir de hoje, pois a seleção que vale mesmo será a escalada pelo Dunga. E consta que nosso técnico não está disposto a trocar figurinha com ninguém.

Em tempo: a rádio CBN transmitirá ao vivo a convocação da seleção brasileira de futebol

Avalanche Tricolor: Os guris da Azenha

 

Atlético-GO 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Goiânia-GO

Mithyuê é um dos guris da Azenha

No primeiro olhar, a Azenha parece seu uma rua meio sem graça, em Porto Alegre. Na era pré-shopping seu comércio era fundamental. Morávamos quase ao lado, no bairro do Menino Deus, e lá minha mãe comprava lã para nossos agasalhos, sapato pra gente ir a escola, uma o ou outra traquitana pra casa. Até a lotérica ficava logo ali na esquina. Precisava de alguma coisa, resolvia na Azenha.

Hoje, só passo de carro e tenho a impressão de que a rua não evoluiu. Apesar disso, tem uma importante função na cidade: é nossa passarela a caminho do Olímpico Monumental. Muita gente segue por ela com camisetas tricolores, bandeiras em punho, almofadinha com distintivo do clube embaixo do braço. Os bonés azul, preto e branco também podem ser visto entre as calçadas e os carros, estes quase sempre presos no congestionamento, em dia de jogo.

Poucas ruas incorporam tão bem o refrão consagrado do hino do Grêmio: “Até a pé nós iremos”.

Durante a semana, é pela Azenha que muitos guris seguem a caminho dos campos da escolinha de futebol. Vestindo camisa não-oficial, calção preto e meião até o joelho – às vezes furado, outras, renovado -, poupam as chuteiras do calçamento irregular jogando-as amarradas sobre os ombros. E levam a esperança de se transformarem em ídolos do time da paixão. Poucos terão a oportunidade esperada, passarão pelas peneiras e olhares críticos dos “professores” e serão convidados a voltar no dia seguinte, seguir treinando, sonhando.

Dos 14 jogadores que estiveram em campo na estreia do Campeonato Brasileiro, Neuton, Bruno, Mithyuê, Maylson, William Magrão, Adílson, Bergson e Roberson saíram das categorias de base para vestir a camisa profissional. Talvez tenham tido mais sorte e não precisaram enfrentar o ritual da Azenha para chegar até o Olímpico.

Na próxima quarta-feira à noite, no mais importante compromisso até aqui desta temporada, porém, qualquer um desses guris – mais o zagueiro-ala Mário Fernandes – têm de ter a consciência de que a cada bola dividida, bola roubada, bola passada ou bola chutada estarão levando com eles a história, a esperança e o sonho desses Guris da Azenha – aos quais um dia me juntei na tentativa de ser jogador de futebol.

Em tempo: O Campeonato Brasileiro começou. Que cada um faça sua parte. Não nos venham mendigar pontos no fim da competição.