Avalanche Tricolor: uma carta à Dona Eliane Geromel

Geromel se despede do Grêmio Foto: reprodução GZH

Dona Eliane:

Foi seu o abraço mais inusitado que recebi e retribuí em todos os meus tempos de arquibancada. Estávamos em Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos, e Everton havia marcado um golaço que nos levaria à final do Mundial de Clubes, em 2017. Todos corremos alucinados para comemorar o feito e, entre o choro imediato com os meus filhos e o agradecimento aos céus, nosso abraço se encontrou. Não nos conhecíamos pessoalmente; havia ali apenas o manto tricolor nos unindo em celebração.

Passado o primeiro instante de êxtase, você se apresentou como ouvinte do meu programa de rádio e mãe de Pedro Geromel — foi essa a ordem que escolheu para justificar o abraço entre desconhecidos, como se a felicidade de um gol daquele tamanho precisasse de explicação. Sua fala tornou-se um troféu particular para este torcedor. Claro que tê-la como ouvinte me envaidece; mas ser abraçado pela mãe daquele que mais admiramos e respeitamos nesses anos todos era demais para o meu coração tricolor.

Poucos jogadores fizeram por merecer tanto respeito do torcedor — os nossos e os adversários — quanto Geromel. Ele se fez líder pela personalidade entre os colegas; se fez ídolo pela performance em campo; se fez mito ao nos proporcionar os títulos mais importantes deste século; e se fez humano pela conduta íntegra e pelo comportamento irretocável, mesmo nos momentos mais difíceis que vivemos. Ele se tornou próximo com um sorriso sincero e uma fala genuína que destoam daqueles moldados pelo marketing e pelo uso exagerado das redes sociais.

Gustavo Poli, comentarista esportivo do jornal O Globo, escreveu certa vez, e eu anotei no caderninho que tenho sobre a mesa:

“Entre o homem e o ídolo há uma distância que não queremos percorrer. Porque o ídolo é nosso amor íntimo, um parente próximo. Nos abraçamos ao ídolo. O ídolo nos move e emociona. O ídolo não tem os defeitos do homem. Entre o homem e o ídolo existe a realidade — mas no futebol, a realidade comezinha importa menos. Para o torcedor, a realidade acontece entre quatro linhas.”

A definição é perfeita para os ídolos. E quantos temos no futebol. Ídolos que admiramos pelo que fazem em campo, não pelo que representam fora dele. Mas Geromel transcende essa descrição. Por isso o chamamos de GeroMito. E se assim o é, dona Eliane, isso tem muito a ver com a forma como Geromel — que imagino ser apenas o Pedrinho, na casa da Vila Mariana — foi educado e preparado para a vida pelos pais.

Pode parecer coincidência estar escrevendo esta carta a uma mãe no domingo em que, na Igreja Católica, celebramos Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um momento de veneração à mãezinha que, além de ter sido submetida a um dom sobrenatural, seguiu o Cristo de modo perfeito, como na oração que ecoa nas igrejas em 8 de dezembro. Jung, o psiquiatra, defendia que não existem casualidades, mas uma força do universo que atua para que os fatos se expliquem de maneira racional. Ter assistido à despedida de Geromel, neste domingo, me inspirou a ousar escrever este texto – especialmente depois de vê-la em campo ao lado do marido, dos filhos, da nora e dos netos. 

Dona Eliane, Geromel se eternizou no coração de todos nós, torcedores gremistas. E você — que tomei a liberdade de não chamar de senhora por imaginar que sou mais velho — foi primordial para que essa história se realizasse. Se um dia Maria foi convocada por Deus para conceber Jesus, a você coube a missão de nos dar Geromel.

E, assim como Maria entregou ao mundo o maior exemplo de amor e sacrifício, a senhora, dona Eliane, nos entregou um homem que, embora mortal, nos ensinou o que é ser eterno no coração de um povo. Não apenas pelo que fez dentro das quatro linhas, mas pelo que representou fora delas. Geromel não é apenas um ídolo; é um símbolo de tudo que desejamos ver no futebol e, mais ainda, na vida.

Enquanto o apito final ecoava no estádio e a torcida gritava seu nome, percebi que não estávamos nos despedindo de um jogador, mas celebrando uma lenda que escolheu caminhar ao nosso lado. Seu legado ficará em cada faixa hasteada, em cada canto entoado e no brilho emocionado dos olhos de quem teve a sorte de vê-lo jogar.

Por isso, obrigado, dona Eliane, por ter permitido que o Pedro, aquele menino da Vila Mariana, se tornasse o nosso Geromel. Hoje e sempre, ele será um pedaço de todos nós. E aquele abraço que trocamos, no calor de um gol histórico, simboliza o que Geromel é: um laço eterno entre a paixão e a gratidão.

Com carinho,
Um torcedor que, como tantos, nunca se esquecerá da família Geromel.

Mílton Jung

Avalanche Tricolor: faltam duas partidas, posso pedir só mais uma coisinha?

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Quase 40 mil torcedores lotaram a Arena do Grêmio na tarde deste domingo, em Porto Alegre. Sobre o que eles viram lá na arquibancada – e eu, cá em casa –, quem melhor resumiu foi Sérgio Xavier, comentarista da SporTV: no primeiro tempo, o Grêmio foi o time que queríamos ver ao longo deste ano; no segundo, foi o time que, infelizmente, tivemos na maior parte da temporada.

Na etapa inicial, o Grêmio exibiu o futebol que sempre desejamos: pressionando a saída de bola, sem dar espaços ao adversário, roubando a posse e tocando com rapidez e precisão, aproveitando o deslocamento dos companheiros. O ataque foi intenso, e a defesa, segura. Foi assim que o time construiu sua vitória parcial: Cristaldo abriu o placar e, em seguida, um gol contra, fruto da pressão ofensiva, ampliou a vantagem. Tudo funcionava.

No segundo tempo, os fantasmas que nos atormentaram durante o campeonato reapareceram. O Grêmio recuou, permitiu que o São Paulo dominasse o jogo, trocasse passes e, com uma facilidade que nos custou caro ao longo da temporada, chegasse ao gol. Sofremos um gol em uma falha de marcação na entrada da área, após escanteio, e, dali em diante, foi tensão até o apito final. Desta vez, ao menos, conseguimos segurar o resultado, que, embora não nos livre do rebaixamento, nos coloca em uma posição privilegiada na luta contra os adversários da parte de baixo da tabela.

Se o time oscilou, Geromel, não. Em sua penúltima partida na Arena, vestindo a camisa do Grêmio, o zagueiro foi impecável. Antecipou-se aos atacantes, desarmou com precisão e neutralizou os cruzamentos pelo alto. Cada lance protagonizado por ele foi reconhecido pela torcida, que o aplaudiu de pé. Uma homenagem mais do que justa, assim como a exposição na Arena que celebra seus feitos históricos.

Em um ano repleto de sustos e incertezas, atrevo-me a fazer um pedido aos deuses do futebol: que, adqui uma semana, possamos assistir à despedida de Geromel com uma vitória na Arena. E, por que não, coroada com um gol do nosso eterno capitão. Será que é pedir demais?

Avalanche Tricolor: quero falar sobre Geromel

Fortaleza 1×1 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza, CE

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última partida antes do Gre-nal, assuntos não faltam para os que gostam de falar do Grêmio —- gostem bem ou gostem mal. Pode-se falar da qualidade da assistência de Reinaldo, que serviu Suárez com um passe em curva nas costas dos marcadores e permitiu que o uruguaio marcasse o gol de empate. 

Claro, pode-se falar de Suárez, também, que sempre é um bom motivo para puxar conversa, mesmo com torcedores contrários. O gringo mais uma vez se entregou em campo como quase nenhum outro. E nos premiou com aquela corrida por trás dos zagueiros e a precisão do chute, apesar da pressão do goleiro que saiu em sua direção e parecia ter fechado todos os espaços. Até a reclamação de que ele não marcava gols fora de casa cai por terra: ele fez dois nas duas últimas partidas em que jogamos como visitantes

Há os que andam por aí reclamando da dificuldade que temos de impor nosso futebol na casa dos adversários — e têm motivos para tal; ou do desperdício de pontos que nos afasta cada vez mais do título, apesar de estarmos na luta pelas primeiras colocações há muitas rodadas; ou das perdas sucessivas de cobranças de pênaltis — esquecendo-se de que foi nos pênaltis que avançamos até a semifinal da Copa do Brasil.. 

Apesar de tudo, ter o melhor ataque, com 40 gols marcados e o segundo maior número de vitórias, 13 no total, no Campeonato Brasileiro, ao menos até o instante em que publico esta Avalanche, talvez também fosse razão de um bom bate-papo no boteco.

Todos são temas pertinentes! 

Eu me reservo o direito de falar do que mais me chamou atenção na partida dessa tarde de sábado: a performance de Geromel. Ver nosso zagueiro de volta com a faixa de capitão e, pela primeira vez no ano, disputando uma partida completa, após a cirurgia no joelho e o problema muscular, já seria motivo de alegria para mim. Vê-lo com a segurança e empenho que vi —  imagino que você, caro e cada vez mais raro leitor dessa Avalanche, também tenha visto — é mais do que motivo para minha satisfação.

Geromel está com 38 anos, completados há cerca de uma semana — aos crentes nas coisas alheias, ele é virginiano como o Grêmio. Resiliente e paciencioso, nosso zagueiro superou a distância dos gramados e a dureza do período de reabilitação. Para quem foi atleta e passou por isso, sabe o drama que é cada dia de fisioterapia, exercícios doloridos e avanços limitados, expectativas para voltar aos treinos e medos de que a lesão volte a incomodar.

Enquanto alguns reclamariam da falta de ritmo de jogo, na volta ao time, Geromel  demonstrou estar em plena forma física e técnica. Em campo, mostrou que mantém o reflexo que o fez dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa. Deu o bote na hora certa e impediu o drible do atacante. Antecipou-se às jogadas e abortou as tentativas do adversário. Dentro da área manifestou seu gigantismo despachando a bola pelo alto e por baixo. Independentemente de como ela viesse.. 

Nos deu ainda a satisfação de assisti-lo novamente ao lado de Kannemann com quem forma a dupla de zaga mais vitoriosa dos últimos tempos. Geromel traz tanta segurança à defesa que seu colega de área pode se expor menos e completou uma partida sem tomar cartão amarelo, coisa rara nesta temporada. 

Ao fim ainda expressou a humildade que marca sua trajetória. Ao repórter de campo que o elogiou, respondeu que não poderia ser diferente depois de tanto tempo que teve para treinar. Como se voltar a campo após meses recuperando-se de lesão e jogar da forma como jogou fosse a coisa mais natural do mundo. Não o é! Geromel é simplesmente sobrenatural !

Avalanche Tricolor: minha mãe tinha razão!

Bahia 0x0 Grêmio

Brasileiro B – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Grando defende mais uma, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os acréscimos já corriam no cronômetro do árbitro quando a bola veio por cima, pegou a defesa se deslocando e Bruno Alves em uma rara atrapalhada, até aparecer livre no pé do atacante de frente para o gol. A Gabriel Grando restou abrir ao máximo seus longos braços, escancarar as pernas o mais distante que foi possível e diminuir o espaço para o chute. A batida da bola no pé do poste ecoou de Salvador a Porto Alegre e som passou raspando aqui por São Paulo. Acompanhei em silêncio e sem respirar o interminável instante em que a bola percorreu a trajetória entre o pé do atacante e o poste gremista; o silêncio e o momento anaeróbico se mantiveram até ela ser despachada para escanteio por um dos nossos que estava no caminho.

Tomar um gol àquela altura causaria um tremendo estrago para nós que estamos resistido entre os quatro primeiros do campeonato desde que assumimos este posto há três rodadas. Diante das limitações técnicas perceptíveis sempre que a bola começa a rolar, a manutenção no G4, o reduzido número de gols que tomamos — apenas cinco em 16 jogos — e a série de dez partidas invictas são quase uma dádiva dos “deuses do futebol”, como se tentassem se desculpar por não terem nos concedido a benção de “sofrer sem cair” no ano passado — não que tivéssemos feito por merecê-la. 

Justiça seja feita, estar na parte de cima da tabela tem muito a ver com a forma com que Roger decidiu montar o time, considerando o elenco que tinha em mãos. O treinador sabe que não tomar gol e sair de campo sempre com algum ponto no bolso, nas partidas fora de casa, é lucro, enquanto não encontra a formação ideal nem os jogadores apropriados para cada posição. É dele, também, a capacidade de mobilizar o grupo a superar com muito esforço e dedicação a falta de criatividade. 

Tem o mérito de Grando, na partida de hoje — que fez ao menos duas grandes defesas — e de Geromel, em todo o campeonato — nosso capitão é supremo mesmo frente às dificuldades do time. E, claro, se aqui estamos na décima-sexta rodada do Campeonato Brasileiro, devemos muito à máxima que ouvia da Dona Ruth, sempre que eu conseguia me safar de alguma molecagem aprontada lá nas bandas da Saldanha Marinho: “guri, você tem mais sorte do que juízo!”.

O Grêmio, também, mãe! O Grêmio, também! 

Avalanche Tricolor: mantida a tradição!

Grêmio 0x1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estou diante de uma página em branco há algum tempo, a espera de criatividade para conversar com você sobre o Gre-Nal Corujão que assistimos na noite de ontem, disputado em Porto Alegre. Pode ser falta de foco, provocada  pelas poucas horas de sono; pode ser falta de inspiração, por não ter encontrado em campo a mesma precisão no ataque que nos garantiu a passagem à final do Gaúcho, ainda no primeiro jogo da semifinal. Talvez, porque fiquei tentado a falar da violência que voltamos a assistir dentro do estádio, e, confesso, o assunto não me é atrativo, a despeito da sua relevância e necessidade de encontrarmos alguma saída civilizada — até porque essas cenas tem se transformado em marca do clássico, e isso é ruim. Uma tradição a ser abandonada o mais breve possível!

Sobre o tema, a fala de Geromel ao fim do jogo além de cirúrgica foi simbólica ao ser interrompida por outro inusitado caso de violência, em que um funcionário, contratado pela administração da Arena Grêmio, e colorado pelo que se pode entender, resolveu “zoar” os jogadores gremistas ao fim da partida e provocou a reação agressiva de agentes de segurança e atletas. 

“Infelizmente, teve confusão desnecessária, a gente cobra paz, mas tem que começar pela gente para dar exemplo. Conversar para não acontecer novamente. Como eu disse, temos que ser exemplo. A gente reclama, cobra paz e chega aqui e dá mau exemplo”.

Antes de ser interrompido, Geromel falava do embate dos jogadores quase ao fim da partida em que Ferreirinha foi derrubado com um encontrão por um adversário em resposta a comemoração efusiva por alguma conquista que a televisão não me mostrou muito bem. Nosso atacante acabou expulso sem sequer ter reagido a agressão. Punido e fora da primeira partida da final por vibrar em um jogo vibrante? Estranho! Depois, como dois moleques de colégio, os envolvidos e expulsos tentaram se engalfinhar no corredor do vestiário. Dessa vez, os agentes de segurança fizeram seu papel. Proteger!

Quem se protegeu bem foi o Grêmio, apesar do sofrimento que ofereceu aos torcedores — achei que teve proteção de mais para ataque de menos. 

Fiquemos com a parte boa da proteção: Breno está de volta, ganha segurança, fez uma defesa importante e no gol que tomou nada podia fazer. Geromel … esse é gigante! Impressionante o que joga nosso zagueiro, além de ser uma pessoa exemplar dentro e fora de campo. Colocou mais um atacante no bolso; e com o apoio de Bruno Alves que tem se mostrado cada vez mais equilibrado na posição. Quem também não deu chance enquanto esteve em campo, foi Rodrigues que, claramente, tem apoio total do torcedor. 

No meio de campo, Lucas Silva jogou por dois — se é que você me entende. E com a bola no pé, mesmo que mais lento na saída de jogo, soube acionar Campaz, nosso melhor jogador do ataque. O colombiano está cada vez mais à vontade jogando pelo lado direito e tem uma fome de gol que impressiona. Chutar é quase uma obsessão!

Se a vitória não veio, o resultado foi na medida certa. Manteve a decisão na Arena e a tradição: pelo sexto ano consecutivo estamos na final do Campeonato Gaúcho. Essa sim uma tradição que podemos manter por um bom tempo!

Avalanche Tricolor: carta ao Geromel

Bahia 3×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Amigo Geromel:

Acordei há pouco, depois de uma noite mal dormida. Preferi o conselho do travesseiro – um erro que não recomendo a ninguém – a começar esta carta ainda sob a emoção provocada pelo resultado da sexta-feira. Precisava escrevê-la com um mínimo de razão, se é que tenho capacidade de acioná-la quando escrevo sobre coisas pelas quais sou apaixonado. 

Os torcedores somos passionais. Você sabe disso. O que certamente não sabe, porque não haveria motivos para saber, é que cultivei um tal relacionamento com o Grêmio que, ao contrário de muitos dos nossos, sou incapaz de maldizer meu time, meus ídolos e todos aqueles que vestem a camisa do Imortal. Talvez alguma ironia, uma palavra de lamento, quem sabe um pouco de sarcasmo para salgar a carne. Jamais apontar o dedo, julgar e – Deus me livre – ofender. Se vestiu esta camisa tricolor, tem meu respeito. Aliás, essa costuma ser minha conduta com todo e qualquer ser humano. São valores que precisamos preservar.

Na noite de ontem, a imagem de seu corpo estendido dentro da área pequena e seu rosto escondido na grama da Fonte Nova, logo depois de uma tentativa desesperada e frustrada de impedir o terceiro gol, representava a nossa entrega tanto quanto a nossa dor. Você permaneceu ali por alguns segundos, que me pareciam a eternidade. Porque me remeteram ao passado que vivenciei dentro do estádio Olímpico, onde tive minha personalidade forjada em meio a amigos, ídolos e mentores. Seu Ênio – Ênio Andrade – que o diga. Que mestre me foi. Como me ensinou para a vida. Ajudou-me até a entender melhor o meu pai. Acredite!

Em uma situação parecida com a de ontem – que ainda não é definitiva porque não está morto quem peleia -, atuava como gandula, ao lado do gramado, função que acumulava a de ‘pombo-correio’, uma espécie de garoto de recado do técnico, o seu Ênio. Naqueles tempos, o treinador não saía de dentro da casamata. Ao fim da partida, houve protesto da torcida, rojões explodiram na pista olímpica e as ofensas dirigidas ao time espocavam no meu peito. Corri para o vestiário junto com os jogadores e lá dentro recebi o abraço de um dos meus ídolos: Iura – você já ouviu falar dele, né? Os dois choramos copiosamente. Éramos dois guris gremistas sofrendo com o que havíamos assistido dentro e fora de campo e com o destino que nos era oferecido naquele instante.

Foi essa mesma sensação que tive ontem – só não fui explícito porque meu filho estava ao meu lado observando em silêncio o desespero do pai. E a maturidade, infelizmente, me trouxe a vergonha de chorar por um time de futebol (ah, este Milton mais velho não tem ideia de como era genuíno e muito mais aprazível ser aquele guri do Olímpico). Queria ter corrido para dentro do gramado, e compartilhado com você aquele instante pelo qual, suponho, tenha vindo à mente a sensação de impotência. De que nada mais poderá dar certo na nossa vida. De que uma história se encerrava.

Sabemos que aquele não é o ponto final muito menos aquela é a imagem de uma história que você construiu no Grêmio. Para nós, a maneira como você defende essa camisa, o futebol qualificado que você pratica, a maneira sóbria com que encara todas as dificuldades e os atacantes que se atrevem a entrar em nossa área, se sobrepõem a qualquer revés que possamos sofrer neste e em outros tempos.  O sorriso na vitória, a alegria do troféu erguido e a honestidade com que você atua em campo são muito maiores e mais marcantes do que a dor que você sentiu naquele instante no gramado. 

Queria ter estado lá, ao seu lado, abraçado e solidário, porque –  independentemente da importância que cada um dos que estiveram no nosso time nos recentes tempos de glória –  você, mais do que ninguém, mereceria uma roteiro diferente do que este que estamos protagonizando. 

Na impossibilidade de consolá-lo em campo, arrisco essa carta que, espero, chegue até suas mãos um dia. Uma carta que aqui está escrita talvez muito mais para apaziguar o meu coração entristecido. Afinal, você, por tudo que aprendemos assistindo à sua conduta, conhecendo sua família, comemorando com seus pais a classificação à final do Mundial, e compartilhando conhecimento com seu irmão, Ricardo, é uma fortaleza. Da qual não podemos prescindir. 

Força! E avante!

Do seu fã e amigo à distância, Mílton

Em tempo: Geromel, meu gato, está mandando aquele abraço pra você.

Avalanche Tricolor: por Geromel e Kannemann

 

Atlético GO 1×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Olímpico/Goiânia-GO

 

Kannemann é gigante na área; foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Antes de o domingo acabar, convido você a fazer comigo um exercício de imaginação. Faz de conta que o time para o qual você torce tenha disputado sete partidas em um campeonato de pontos corridos e só tenha perdido uma delas. Você olha os demais adversários e descobre que apenas um deles perdeu menos; três perderam tanto quanto; e os demais 15 perderam mais do que o seu time.

 

Isso não seria motivo de otimismo para você?

 

Depende. 

 

E depende porque no futebol não basta não perder. É preciso ganhar. Mais do que ganhar. É preciso jogar bom futebol. Especialmente se o seu time o acostumou a ver a bola sendo rolada com maestria no gramado, e os jogadores se movimentando em uma coreografia capaz de encher os olhos do torcedor e atrapalhar a visão dos marcadores. 

 

Assim tem sido desde 2016 com o Grêmio. Nosso time entra em campo e, independentemente do resultado, o futebol jogado é de alta qualidade —- com as exceções de praxe. Muitas vezes a perfomance era capaz de nos deixar satisfeitos apesar do revés no placar. Competições foram perdidas, mas nosso time deixava o gramado com a certeza de que enfrentou o bom combate; e de cabeça erguida se preparava para o confronto seguinte.

 

O futebol do Grêmio pós-Covid tem se revelado muito abaixo daquilo que nos acostumamos e do que somos capazes de fazer, levando em consideração os jogadores que integram o elenco. Esse desempenho tem dado espaço a críticas, estimulado teorias de conspiração e levado a escolhas precipitadas — dentro e fora de campo. 

 

Se a você —- caro e raro leitor desta Avalanche —-, no primeiro parágrafo deste texto, convidei a fazer um exercício de imaginação; faço agora um pedido à diretoria gremista, comissão técnica e seus jogadores: um exercício de humildade. 

 

Deixemos as conquistas recentes em seu devido lugar —- na memória e no passado. Encaremos a realidade. Saibamos ouvir uns aos outros. Identificar as fragilidades. Corrigir nossas fraquezas. Solucionar nossa escassez. Fortalecer nossos méritos —- e se há mérito e motivo que ainda me fazem felizes quando assisto ao Grêmio em campo, é saber que Pedro Geromel e Walter Kannemann vestem nossa camisa.

 

Os dois seguem sendo a maior dupla de zaga do futebol latino americano. Jogadores que se diferenciam pela maneira de se portar em campo. Ao contrário da maior parte dos zagueiros brasileiros, não têm medo de atacar o adversário, de dar o bote — como se diz no jargão do futebol. E o fazem com precisão, na maior parte das vezes. Se necessário for, dão a vida pelo time. Foi o que fizeram neste domingo de futebol muito mal jogado em Goiânia.

 

Geromel entregou-se a uma rara expulsão em sua carreira para evitar o mal maior. Kannemann sacrificou seus músculos. Os dois foram gigantes para manter vivo o desejo de vermos o Grêmio ser o time que admirávamos — aquele Grêmio que já jogou o melhor futebol do Brasil e da América do Sul. Que um dia haverá de voltar aos estádios.

 

Avalanche Tricolor: que baita zagueiro é esse Geromel!

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã/RJ

 

 

Geromel nas alturas, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio saiu do Maracanã lamentando a perda de dois dos três pontos que pareciam garantidos ao menos até o VAR e o árbitro da partida negarem o princípio que deveria mover suas decisões —- o mesmo que sustenta a justiça brasileira: in dubio pro reo. Na dúvida se a bola bateu na cabeça de Kannemann e depois no braço, que sequer as imagens conseguiram esclarecer, os senhores do apito e da telinha interpretaram contra o acusado. 

 

Tem de lamentar mesmo — nem tanto pelo árbitro e seus colegas, deles não costumo esperar muita coisa —- , mas principalmente porque foi superior ao adversário desde os 10 minutos do primeiro tempo. Aliás, que primeiro tempo. Coisa para ver, rever, repetir e ensinar.  Controlou o adversário quando este estava com a bola, a defesa foi muita segura e desarmou de maneira precisa e a saída para o ataque foi qualificada, mesmo que faltando um pouco mais de lances pelas laterais.

 

O gol de Pepê em uma jogada típica da equipe de Renato, com velocidade, deslocamento e passes precisos, fez justiça ao nosso domínio — e foi pelo lado.

 

Antes do gol já havíamos realizado duas ou três belas jogadas que mereceriam terminar na rede, mas que foram desperdiçadas por nossos atacantes. 

 

Aliás, como temos perdido gols ultimamente —- e não estou falando apenas de pênaltis, não. Jogadas bem elaboradas, às vezes de mais, que pecam no acabamento. Na última partida, em casa, passamos pela mesma situação. E também fomos punidos com um empate em jogo que tinha a cara da vitória.

 

No segundo tempo, faltou gás. Foi a impressão que tive. Alguns caíram antes do jogo terminar: casos de Maicon e Diego Souza, que preocupam pelas lesões que tiveram. Outros, se mantiveram em pé, mas revelaram cansaço, resultado da intensidade de jogo, da marcação acirrada e de um preparo físico ainda prejudicado pela parada fora de época, imposta pela pandemia.

 

A despeito de todos os lamentos. e considerando que seguimos invictos a 14 jogos e sem derrota no Campeonato Brasileiro, peço licença para encerrar essa nossa conversa —- caro e raro leitor —- com um expressão que tem me acompanhado jogo após jogo, especialmente após a volta da temporada. Uma frase que soa forte na minha garganta como se fosse grito de gol. Capaz de assustar a vizinhança e a turma aqui em casa. 

 

A cada desarme que faz dentro ou fora da área, por cima ou por baixo, com os pés ou com a cabeça; quando domina a bola em meio a confusão proporcionada pelo ataque adversário, livra-se de todos eles, ergue os olhos e encontra um companheiro para que este de início a jogada seguinte, comemoro com um só grito:

 

Que baita zagueiro é esse Geromel!

Avalanche Tricolor: um Gre-Nal com muita coisa fora da ordem

 

Grêmio 0x0 Inter
Libertadores —- Arena Grêmio

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Geromel mitou mais uma vez em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O clima está estranho aqui na Terra, você não acha?

 

Um vírus deixou o Mundo de joelhos. Mais de 128 mil pessoas já foram infectadas. Mais de 4 mil e 700 morreram. O valor das empresas derrete na bolsa. As pessoas fazem compras no mercado como se fosse a última vez. Tem líder político combatendo a contaminação com canetaço e galhofa. Fecham portos, aeroportos e fronteiras. O cumprimento com a mão está cancelado. Os encontros e eventos, também.

 

O futebol deixou de ser jogado na maior parte do hemisfério Norte. Aqui pelas nossas bandas, demorou-se um pouco mais para se tomar a mesma decisão. Depois de algumas partidas disputadas no Continente com estádios vazios, adiou-se as eliminatórias para o Mundial e foi anunciada a interrupção da Libertadores, mas antes era preciso assistir ao Gre-Nal das Américas.

 

Mais de 50 mil torcedores se aglomeraram na Arena para ver esse que foi o primeiro clássico gaúcho em uma Libertadores — o jogo merecia pela sua dimensão, mas, convenhamos, era muita gente junta para quem vive o medo do coronavírus.

 

Mais de 2 milhões foram obrigados a assistir à partida pelo Facebook —- em uma experiência que, ao menos de minha parte, é muita estranha e pouco efetiva se considerarmos quão acessível sempre foi ligar a televisão para torcer por seu time do coração.

 

A partida, enquanto a bola rolou foi de alto nível e extremo perigo. Bola no poste, no travessão ou na cavadinha para fora; chute espalmado para o lado, espirrada para escanteio ou despachada pelo zagueiro.

 

Mas havia algo estranho no ar. E não era apenas o risco de um vírus.

 

Desde os primeiros minutos, ninguém tirava o pé na dividida, alguns elevavam o cotovelo acima do razoável e a dureza das faltas obrigava o árbitro a agir e punir para por ordem na casa.

 

Quando tudo se encaminhava para um final sofrido, o que assistimos foi a uma pancadaria sem freio: gente chutando gente, batendo em gente, agarrando o pescoço da gente. Tinha até gente tentando afastar toda aquela gente.

 

O árbitro entrou em ação e distribuiu o cartão vermelho, expulsando ao menos três jogadores de cada lado —- fora uma turma que estava no banco de reservas e não fez falta nenhuma.

 

Ficou feia a coisa em campo e fomos obrigados a ver uma cena estranha nos minutos restantes, com cada time jogando com um no gol e mais sete na linha. Bem que tentaram ensaiar alguma coisa, mas naquela altura tudo estava fora da ordem — como, aliás, está o Mundo nessa altura do Campeonato.

 

Em meio a tudo isso, salvou-se um: Geromel. Nosso zagueiro foi o dono da área, colocou mais uma vez o principal atacante adversário no bolso e se comportou diante dos colegas que se engalfinhavam com a mesma elegância e respeito com que veste a camisa do Grêmio.

 


E quando já havia encerrado esta Avalanche, ouço as palavras de Geromel, ditas ao fim da partida:

“O país tá polarizado. Ninguém respeita ninguém. Nós temos aqui a oportunidade de dar um exemplo. Eu, como capitão do Grêmio, estou envergonhado”.

 Geromel é um mito.

Avalanche Tricolor: te mete com eles!

 

Grêmio 2×0 Inter
Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

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Pepê, Rômulo, Geromel e Matheus em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O domingo estava apenas começando e o movimento no entorno da Igreja do Menino Deus era grande. Tinham fiéis a caminho da missa das 10 e uma gurizada acompanhada por pais, tios e avós que seguiam na direção da Escola São Francisco, que fica logo atrás e onde, pelo que percebi, haveria alguma competição esportiva. O guri mais à minha frente estava de mãos dadas com o pai e a mãe, com toda a parafernália de um promissor craque. Em seguida vinham os avós que ouviam o neto falando alto provavelmente do que pretendia fazer assim que a bola começasse a rolar. “Te mete com ele!”, ouvi a vó dizer para o vô, em tom de orgulho e com um sotaque típico da terra.

 

“Te mete com ele!” soa espanhol e quando dito no ritmo desgarrado da fala do gaúcho se revela um alerta para que os atrevidos fiquem à distância. É uma demonstração de confiança no outro. Mas pode ser entendido também como um desafio: pode vir que ele está pronto para encarar qualquer bronca.

 

Fui à missa, enquanto a família ficou no portão de ferro da escola. Mas a voz da vó ficou nos meus ouvidos. “Te mete com ele!” me acompanhou no churrasco com a família, na casa da Saldanha, e no caminho para o aeroporto, de onde partiria de volta a São Paulo. Permaneceu na minha cabeça mesmo diante da frustração provocada pela companhia aérea que levou para o Salgado Filho um avião com 50 lugares a menos do que o previsto e atrasou o vôo por mais de uma hora e 15, desacomodando alguns passageiros e incomodando a todos.

 

Frustrou-me porque havia programado o desembarque em São Paulo a tempo de chegar em casa e assistir ao Gre-Nal na televisão —— antes que você pergunte, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, meu compromisso na CBN me impediria de ir ao jogo na Arena no fim do domingo, mesmo estando em Porto Alegre. Com o atraso, passei a maior parte do jogo no ar e somente quando o avião tocou a pista de Congonhas pude conferir o gol de Geromel, marcado de cabeça ainda no primeiro tempo. Disseram, também, que ao lado de Kannemann, o nosso Mito colocou o ataque adversário no bolso e fez com que Paulo Victor assisti-se à partida de graça. Te mete com ele, logo pensei enquanto puxava a bagagem.

 

Não demorou muito para perceber pela narração esportiva que o Grêmio dominava o Gre-Nal a ponto de levar o goleiro deles a cometer o suicídio em campo.

 

Soube ainda pelos comentaristas que àquela altura Matheus Henrique já havia colocado a bola embaixo do braço e comandado a vitória, sem errar passe, se desvencilhando da marcação dura e deixando seus companheiros em condições de gol. Te mete com ele, balbuciei comigo mesmo, fazendo com que o passageiro que estava à minha frente olhasse para trás na tentativa de entender o que eu dizia.

 

O Grêmio ainda faria o segundo gol assim que Pepê, em sua primeira jogada, alucinava seus marcadores e encontrava Rômulo, que também entrara no segundo tempo, chegando para marcar um golaço em pleno Gre-Nal. Logo ele, tão criticado, tão sofrido nesses últimos tempos. Te mete com ele, agora! — falei sorrindo com a motorista de táxi que me levava para casa. E não entendeu coisa nenhuma.

 

Quando cheguei ao meu destino, o jogo já havia acabado. A alegria estava no meu rosto. E a imagem daquele guri acompanhado pelos pais e avós a caminho do futebol se mantinha na minha cabeça. Ele era Geromel, se preparando para bater bola nos campinhos da Vila Maria; era Matheus Henrique, desfilando talento aos sete anos na várzea, em Paradas de Taipas; era Rômulo, correndo descalço atrás da bola, em Picos; era cada um daqueles jogadores que um dia sonharam jogar futebol e vestiram a camisa do Grêmio neste domingo de Gre-Nal.

 

Te mete como eles!