Avalanche Tricolor: Borja, não. São Borja!

Grêmio 2×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Na mesa de escritório, diante da qual sento para escrever esta Avalanche —- de onde, desde o início da pandemia, aliás, realizo todas as minhas atividades —-, misturado em meio a computadores, traquitanas eletrônicas, microfone, máscaras e papeis com anotações, está a imagem de Padre Reus. Era a mesma que o pai mantinha apertada em um das mãos, quando assistia aos jogos do Grêmio. Nela, buscava a fé que o manteve crente de que dias melhores sempre poderiam vir. 

Reus era alemão, nascido na Baviera, filho de João e Ana Margarida. Ingressou na Companhia de Jesus, quando já estava na Holanda, e após completar sua formação jesuíta, foi enviado para o Brasil. Sua jornada se iniciou em Rio Grande, foi professor de teologia em Porto Alegre, e seguiu sua obra em São Leopoldo, onde, aos 79 anos, morreu e teve o corpo sepultado. Seu túmulo, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, recebe visitantes de todo o país, que rezam e buscam a intercessão de Padre Reus para as graças pedidas. 

O pai nunca se acanhou, como devoto que era, em clamar pela ajuda de Padre  Reus, sempre que a coisa apertava para o nosso lado. Seus pedidos ao santo que ainda não é santo faziam sentido. Padre Reus, que tinha como lema “amar e sofrer”, dizia querer ser “vítima de amor”. E isso o pai sempre foi em relação ao nosso time. Eu também. Mas você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe bem da minha boa intenção em jamais misturar futebol e religião, por mais que possamos encontrar vários aspectos em comum.  Ao contrário do pai, prefiro deixar a imagem do Padre sobre a mesa de trabalho — imagino ter mais serventia.

Na hora do desespero — e o despertador sinaliza que esse momento já chegou —-, recorro aos salvadores aqui da terra. Alguns santos. Outros nem tanto. Na noite desta segunda-feira, quando tudo parecia que desmoronaria nos primeiros minutos de jogo —- tomamos um gol e fomos salvos do segundo por Chapecó —-, a intervenção divina do futebol se realizou. A princípio com um chute improvável de Alisson que encontrou um espaço que não havia entre o goleiro adversário e a trave. Em seguida, quando o estreante Borja, depois de ter sido agarrado dentro da área, converteu o pênalti, com a personalidade dos goleadores.

Nosso recém-chegado atacante já havia mostrado suas credenciais em dois cruzamentos que recebeu na área. E foi o jogador que mais conclui a gol na partida. Alguém poderá dizer que foi sorte de estreante. Ele próprio levantou essa hipótese quando lembrou que costuma marcar nas suas estreias. Independentemente do que venha a acontecer, o colombiano já demonstrou fome de gol e nos salvou logo no primeiro jogo em que vestiu a camisa do Imortal. Portanto, não me faço de rogado: Borja, não. São Borja!

Que deus (o do futebol) nos ajude.

Avalanche Tricolor: e a vida depois do túnel?

Grêmio 1 x 0 Vitória

Copa do Brasil —- Arena Grêmio, Porto Alegre

*este não é um texto sobre futebol

Jean Pyerre em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A  bola mal havia começado a rolar na Arena, e eu ainda tinha compromissos profissionais a cumprir. Online como têm sido todos os que realizo desde o ano passado. Alinhei a tela de dois computadores e mantive um olho no futebol e o outro na mesa redonda. Aliás, uma mesa bem interessante de debate —- bem mais do que o jogo que estava sendo jogado.

Debate rico, pelo tema e pelos convidados. Na série “Paisagens na pandemia”, Jaime Troiano, colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, era o técnico, escalou o time e nos botou a jogar: a Cecília Russo, pelo lado da psicologia; o Emerson Bento, da educação; e o Fernando Jucá, das organizações. Fosse vôlei, eu era o levantador. Como a analogia é com o futebol, sem o talento de Jean Pyerre, mas suando a camisa muito mais do que ele, minha função era distribuir o jogo. Fazer perguntas. Provocar a discussão, no bom sentido.

O jogo que nós estávamos jogando tinha três tempos e nós entramos no terceiro. “Religião e o desamparo humano” pautou o  primeiro capítulo da série, “Casa e família: um reencontro”, o segundo; e a nós ou aos meus companheiros de mesa redonda, coube responder a seguinte pergunta:  “E a vida depois do túnel?”.

Muito mais pela experiência de cada um do que pelas assistências que fiz, Cecília, Emerson e Jucá bateram um bolão, jogaram com  as palavras, fizeram embaixadinhas com o conhecimento e deixaram, cada um do seu jeito, um golaço registrado no placar.

A preleção foi do Jaime que, em lugar de fazer essa pobre analogia com o futebol, nos proporcionou uma viagem ao litoral paulista, em caminho que fazia quando criança, no banco de trás do carro, e para passar o tempo contava quantos túneis havia na estrada. Nunca tinha certeza se haveria, na jornada,  um outro túnel —- alguns intermináveis para ansiedade infantil , como acontece com a gente diante desta pandemia. Lembremos que não é o primeiro túnel que enfrentamos, apesar de ser o mais longo de nossas vidas. Talvez não seja o último, e Jaime chamou atenção para isso e nos propôs pensarmos que lições aprendemos para usarmos assim que este acabar e, quem sabe, um próximo túnel se apresentar.

Cecília aproveitou-se do título de um dos seus livros, “Vida de equilibrista: dores e delícias das mães que trabalham”, para, em vez de dar uma resposta definitiva, apresentar outra pergunta provocativa: 

“Sairemos do túnel com uma prática mais equilibrada da divisão de papéis entre gêneros?”. 

A persistirem os sintomas, não. Mesmo que possamos encontrar casos simbólicos em que homens, tendo de trabalhar em casa, perceberam a necessidade de assumirem uma série de tarefas que antes eram realizadas apenas pela “mulher da casa”, pesquisa do Ibope realizada, neste ano, escancara a realidade doméstica. Ao perguntar para o casal quem organizava determinadas tarefas, o instituto identificou que, de 13 atividades descritas, em apenas duas os homens apareceram como os principais responsáveis: tirar o lixo (53%) e fazer o que precisa de manutenção na casa (69%). Cuidar dos filhos (88%), dos idosos (79%) e dos animais de estimação (59%), preparar a refeição (87%), limpar (87%) e lavar (77%), ficaram por conta das mulheres.

Emerson tem a vivência de mais de 20 anos como executivo de um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, o Bandeirantes. Pegou o gancho da Cecília para lembrar que homens e mulheres, pais e mães, tiveram um choque de realidade ao serem obrigados a ficar em casa com seus filhos e acompanharem o ensino à distância. A começar pelo fato de que, na avaliação dele, muitos dos adultos usavam a escola como uma espécie de depósito de corpos, onde  deixavam os filhos armazenados em um período do dia para poderem fazer suas atividades. Houve casos em que tentou-se repetir essa estratégia, querendo que as crianças cumprissem seu horário de expediente diante do computador, com a escola reproduzindo a grade das aulas presenciais —- não deu certo, é claro. Professores e alunos foram muito mais flexíveis nas tomadas de decisões e conseguiram se adaptar bem melhor do que os pais àquela nova situação. Para Emerson, a experiência do ensino à distância e a expansão do uso da tecnologia serão suportes para o projeto pedagógico a ser realizado assim que sairmos do túnel. No entanto, ‘vai rodar’ quem não investir nas relações socioemocionais: 

“Quando sairmos do túnel, a tecnologia sustentará uma educação mais humana para os humanos”

Emerson

Pensava cá com meus botões analógicos, se seguirmos enxergando a escola como este ‘depósito de corpos’ e terceirizando a educação dos nossos filhos, que seres humanos estaremos preparando para o futuro —- que para alguns está logo ali, na saída do túnel? Nem bem tinha absorvido essa reflexão, o Jucá entrou na jogada. Pegou a bola, colocou embaixo do braço e pediu um tempo, esse produto raro no ambiente organizacional: 

“O ambiente corporativo hoje é uma máquina de fazer loucos ou um espaço fértil para nosso desenvolvimento pessoal?”

Fernando Jucá

A pergunta abriu caminho para ele contar histórias corporativas que ilustravam luz e sombra no mundo do trabalho. Dramas de pessoas que se perderam entre o “home” e o “office” quando os dois cenários se misturaram; de gente que sem ter o “olhar do dono” no cangote do escritório, tentou mostrar produtividade trabalhando muito além da conta; mas também de gestores que perceberam que as relações humanas deveriam prevalecer, a partir do desenvolvimento de uma prática até então pouco comum: a escuta ativa. Ouvir o que outro tem a dizer, auscultar sua alma e compartilhar os sentimentos — tudo aquilo que não aprendemos em anos de ensino superior, cursos de extensão, mestrados e doutorados. Boa lição desta tragédia que vivemos em sociedade.

Como era de se esperar, na conversa que durou hora e meia não se ofereceu uma resposta definitiva. Nem mesmo que tivessem acréscimos, prorrogação, cobrança de penaltis ou jogo de volta, esta reposta seria definitiva. Porque ela não existe. A começar pelo fato de que a pandemia mais do que transformar pessoas, expressou o que as pessoas têm, pensam e são, para o bem e para o mal. Ou seja, o túnel não tem uma só saída. Existem várias. Caberá a cada um de nós fazermos a escolha certa.

E aí, concluo eu, coisa que aliás não consegui fazer enquanto estava embevecido com a fala dos meus colegas: a nós cabe criarmos na família, na escola e no trabalho ambientes eticamente saudáveis porque assim, quando aqueles que estão ao nosso entorno tiverem de decidir qual caminho seguir no fim do túnel terão a oportunidade de fazerem escolhas mais qualificadas.

E quanto ao jogo? Bem, primeiro disse que esta coluna, apesar de vir sob o selo de Avalanche, não seria sobre futebol; segundo, que a vitória mirrada de um a zero contra um time que jogou metade do tempo com um a menos, não me estimulou a qualquer texto; terceiro, confesso, com cinco minutos de bola rolando no nosso debate até esqueci de olhar para a tela em que o Grêmio estava jogando. Lendo alguns comentários esportivos quero crer que ainda termos um longo túnel a percorrer.

Avalanche Tricolor: bons motivos para comemorar

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro – Bragança Paulista, SP

Geromel Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Voltar a perder e passar mais um fim de semana dormindo na zona de rebaixamento evidentemente não justifica o título que precede esta Avalanche. Mesmo que espremendo o olho como faz o míope que insiste em não usar óculos e forçando a vista para enxergar melhorar aqui e acolá, o resultado foi mais uma vez péssimo, além de vir acompanhado daquilo que costumo chamar de “sorte de perdedor” —- se é para dar uma coisa errada, fique tranquilo, é aquela coisa que vai errar.

Resignado com os fatos em campo e chuleando para que o destino nos reserve alguma surpresa em breve, confesso, não fui dormir de cabeça quente, como dizem por aí quando o time da gente tem pouco a nos oferecer. Antes mesmo de a noite de sábado se encerrar, já estava diante da televisão mais uma vez e torcendo pelos brasileiros na Olimpíada.

A festa começou nas braçadas rápidas de Bruno Fratus, e sua medalha de bronze nos 50 metros livre da natação. Que alegria, que sorriso, que vibração … e que beijo mais gostoso aquele que deu e recebeu da Michelle. Sem contar o tipo “sincerão” nas entrevistas, que se já incomodou, também já fez rir e nos fez sentir o quanto foi significativa a vitória na piscina.

A balada se estendeu pela madrugada —- na batida do funk carioca e do soul brasileiro —, sob a maestria do DJ do torneio de vôlei olímpico. E haja repertório para sonorizar uma partida sem fim com a que deu mais uma vitória ao time masculino do Brasil. Tão inacabável quanto incrível. Mesmo que a classificação já estivesse garantida, quem quer perder um só ponto desta seleção vitoriosa? 

Rebeca Andrade Crédito: Miriam Jeske/COB

Fez frio durante todo o fim de semana e quando acordei ali pelas 4 e meia da manhã, os termômetros marcavam qualquer coisa que beirasse o insuportável, aqui em São Paulo. Um café quente e a tela do computador sintonizada nos canais olímpicos rapidinho esquentaram o início deste domingo. Antes mesmo de o céu clarear, a festa da noite e madrugada estava de volta nas corridas, saltos e corrupios de Rebeca Andrade. Que menina é esse, heim !?! Com 22 anos ainda tem jeito de guria da escola e fala marcada pela humildade, mesmo diante do feito gigante que nos proporcionou ao conquistar a medalha de ouro, na final individual do salto.

Se já havia nos feito chorar prata, agora as lágrimas foram de ouro. Enquanto me debulhava diante do computador, ela abraçava e era abraçada pelo técnico e adversárias com a serenidade de quem tinha cumprido o ritual que lhe foi destinado nos esportes: treinar, sofrer, doer, correr, saltar, girar e aterrisar para a glória olímpica. Uma maturidade para competir que contrasta com seu ar infantil e bem distante da deste torcedor veterano e atleta frustrado de múltiplos esportes.

Ah, por falar em veterano. O restante do domingo, mesmo com o sono dos maldormidos, foi de curtir a alegria de saber que tenho amigos que ainda insistem em me manterem como amigo. Uma gente querida que durante todo o dia, por telefone, presentes, mensagens e redes sociais me enviou generosos e imerecidos parabéns por ter completado 58 anos de vida. Ao lado da família — apenas o núcleo mais duro da casa, porque somos adeptos ao não-aglomerar —-, comemorei a passagem do mais difícil de todos os anos de vida, seja por  motivos que você, caro e raro leitor deste blog, tem vivenciado, também, seja pelos demônios que seguem com assento cativo no cérebro de cada um de nós.

Sou muito grato por todos que me fortaleceram mais um pouco, neste fim de semana, em que encontrei muitos bons motivos para comemorar. Agradeço a Deus por este dia.

E, como dizem os repórter descuidados com os lugares-comuns, a festa não tem hora para acabar, porque amanhã, 5h45 da manhã, tem Baile Na Favela, em Tóquio.

Avalanche Tricolor: ‘obrigado, obrigado’ !

Vitória 0x3 Grêmio

Copa do Brasil – Barradão, Salvador/BA

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Era o ano de 1986, o Grêmio com um timaço em campo; e eu um neófito repórter de campo. Naquele tempo, repórter de rádio tinha o direito de ficar ao lado do gramado. E a Guaíba de Porto Alegre, não poupava equipe. Éramos quatro ou cinco para auxiliar o narrador da partida. Conforme a jogada se desenrolava, éramos chamados para destacar aquilo que “só você viu”. Além da alegria de fazer parte daquele elenco de jornalistas esportivo —- e estar assistindo ao meu Grêmio em posição privilegiada —-, ainda tive o prazer de participar da jornada que era comandada por meu pai, Milton Ferretti Jung.

O jogo também me proporcionou um causo para contar.O único gol da partida foi aos oito minutos do segundo tempo, marcado por Osvaldo, um meio de campo com corpo atarracado, boa habilidade nos pés e inteligente ao seu posicionar, que havia feito sucesso na Ponte Preta de São Paulo, e acabou sendo campeão do Mundo pelo Grêmio, em 1983. Assim que ele completou a jogada nas redes coloradas, correu para comemorar em direção às sociais do estádio Olímpico. Agradeceu aos céus e foi acompanhado pelos demais colegas de time. No meio do caminho, estavam eu e meu microfone aberto que captou os gritos pela graça alcançada. 

Coube a mim, descrever o gol e tomei a palavra de Osvaldo para celebrar o momento. Foi então que se criou o folclore de que o “obrigado” que se ouviu na transmissão jamais foi dito por Osvaldo, mas por mim, que, supostamente, comemorava com o time o gol que daria o bicampeonato estadual. Não foi verdade, como você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, pode conferir no vídeo que me foi enviado pelo Ricardo Wortman e está publicado no canal do Edu Cesar, no Youtube. Não que não estivesse comemorando. Estava. Apenas não fui eu quem agradeci a Deus, mesmo que tivesse vontade.

Esta história completou, agora, no dia 20 de julho, 35 anos, e faço este registro porque, na noite de terça-feira, ao assistir ao Grêmio nas oitavas de final da Copa do Brasil, confesso, tive vontade de repetir o mesmo grito e agradecer pela vitoria conquistada. Um 3 a 0 tão raro nestes tempos bicudos do futebol gremista quanto os leitores desta Avalanche. De um time em reconstrução, que tenta encontrar o lugar certo para cada um dos seus jogadores, um posicionamento mais adaptado aos nossos limites e de um técnico sempre capaz de tirar 100% do potencial de cada um de seus comandados. Só assim, foi possível, assistir ao terceiro e definitivo gol que resultou de jogada armada e escalada por Scolari, com a presença de Pinares, Luis Fernando e Diogo Barbosa, que completou para as redes de cabeça.

O resultado não nos dá nenhum título, como o da partida de 1986, mas, convenhamos, nos permite respirar um pouco diante dos inúmeros tropeços que acumulamos nos últimos meses. Mesmo assim, preferi guardar o grito de “obrigado” para outros momentos, até porque Deus tem coisa muito mais importante para fazer agora.

Avalanche Tricolor: evoluindo e sem sarcasmo

Grêmio 1×1 América MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Guilherme Guedes comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio está evoluindo. 

Foi o que ouvi do comentarista Lédio Carmona, do canal SporTV, lá pelos idos do segundo tempo da partida. A despeito de sua análise ser sempre cuidadosa e equilibrada, não me contive. Pensei cá com os meus gatos: até os doentes quando morrem, evoluem. A óbito. Meu sarcasmo talvez não seja justo, especialmente com o jornalista de qualidade incontestável como o Lédio. Mas o é com o momento que estamos assistindo, na Arena.

Mesmo que o time tenha demonstrado um pouco mais de organização desde que Scolari assumiu o comando técnico e tenhamos alcançado uma consistência maior na defesa, é evidente que estamos com problemas difíceis de serem superados, neste momento. Há uma fragilidade física, há erros de fundamentos e, principalmente, há um desequilíbrio emocional que torna todas as manobras táticas mais complexas.

Na partida desse sábado à tarde, o primeiro gol teve a mão do técnico e de uma juventude que pede passagem na equipe.

A escapada de Ruan pelo meio, a velocidade e condução da bola de Vanderson, no lado direito, e a conclusão nas redes de Guilherme Guedes, chegando na esquerda, mostrou o protagonismo destes guris de talento — que temo seja desperdiçado pelo mau momento da equipe. Sem esquecer de Fernando Henrique: nosso volante faz parte dessa turma de jovens que entende do riscado, marca forte, desarma bem e distribui o jogo.

Scolari, assim que chegou, mudou a maneira do Grêmio jogar. Fechou a casinha, como costumam dizer por aí. Chegamos a formar uma linha de seis marcadores na defesa, com a fixação dos alas mais próximos da área e o recuo dos ponteiros. Hoje, sem Geromel nem Kannemann —- que falta nos faz essa dupla —-, entrou com três zagueiros e postou seus dois volantes na entrada da área. Apostou na velocidade dos atacantes e no oportunismo de Diego Souza que sucumbiu na primeira escapada. 

Douglas Costa —- e vou me apoderar da opinião do Lédio Carmona mais um vez —- fez sua melhor partida pelo Grêmio. Puxou o ataque, virou o jogo, deixou os colegas bem posicionados e tentou, sem sucesso, chutar a gol. Em uma dessas tentativas, sua vulnerabilidade física se expressou.

O resultado contra outro time que busca fugir do rebaixamento não nos ajudou em nada. Apenas estancou aquela sangria desatada da péssima arrancada no Brasileiro, no qual somamos seis derrotas, em onze jogos disputados. Empatamos hoje, depois de sair à frente. Desperdiçamos mais dois pontos na tabela. Mas ao menos não perdemos. Desde que Scolari chegou, estamos invictos no Brasileiro: uma vitória e um empate. Não é nada, não é nada, são 71% dos pontos que o Grêmio conquistou até aqui na competição. 

Pensando bem — e sem o sarcasmo destilado enquanto a bola rolava —, o Lédio tem razão: o Grêmio está evoluindo.

Avalanche Tricolor: na convalescência, tempo e paciência são nossos únicos companheiros

Grêmio 1×2 LDU (EQ)

Sul-Americana — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Às vezes se tem sintomas, e nada aparece. Outras, os sintomas sequer são percebidos, mas o resultado é cabal. A impressão é que não existe uma padrão pois depende de como cada um vai reagir diante do risco, da maneira como está protegido ou do momento em que o inimigo se apossou de você. Em um ecossistema frágil, a possibilidade de contaminação é maior. Os processos naturais não se realizam, as articulações apresentam problemas e o perigo aumenta. Falo de uma doença que foi se instalando aos poucos. Se espalhou pelo corpo. E agora, o tempo e a paciência são nossos únicos companheiros, enquanto a cura não se realiza.

No caso do mau futebol —- que é o mal que nos atinge lá pelos lados de Humaitá —- seria ilusão imaginar que um remédio aplicado em dose única eliminaria a patologia sentida desde boa parte do ano passado. Verdade que o empate no clássico, a vitória na primeira partida da Sul-Americana e os três pontos no fim de semana chegaram a nos entusiasmar. Tanto quanto sabíamos que a convalescência se deva muito mais pela mística de quem aplicava a dose do que pela performance do paciente. Scolari salva, mas não faz milagre. Faz o que pode. 

Diante da nossa debilidade, se pensarmos bem, talvez o melhor seja concentrar as forças no que é possível, por mais medíocre que o possível possa ser. Em um corpo fragilizado qualquer esforço extra se torna excessivo e pode levar a inanição quando mais se precisar de energia. Manter-se vivo na Série A e avançar o quanto der na Copa do Brasil são os objetivos a partir de agora. De preferência, eliminando do corpo as toxinas e vírus que nos consomem e renovando o organismo que nos move.

Se sairmos desta jornada de percalços mais limpos, leves e com capacidade de retomar o caminho dos títulos,  temos de erguer as mãos ao céu e agradecer aos que, pacientemente, acreditaram na nossa recuperação. Eu acredito. Porque a crença ainda é o que me faz acordar amanhã cedo e começar mais uma caminhada.

Avalanche Tricolor: sintomas positivos, nesta manhã de domingo

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O domingo começa com um sabor diferente e melhor, a despeito de estar a espera do resultado de um exame PCR que, imagino, confirmará, que narinas fechadas, tosse seca, dor de cabeça e alguma vertigem podem ser apenas sinais de mais um resfriado, comum nesta época do ano. Começa diferente porque entre todos os sintomas, não tenho na garganta aquele gosto amargo de quem dorme e acorda, rodada após rodada, na lanterna do Campeonato Brasileiro. 

Em tom de alívio, Scolari, ao fim da partida de ontem, decretou ainda na beira do gramado do Maracanã: não somos mais o último colocado.

Pode ser muito pouco para quem entrou na competição falando na busca do título, mas era tudo que queríamos — e podíamos — ouvir de melhor ao fim da décima-segunda rodada. Especialmente porque a vitória veio quando não ser derrotado já nos parecia suficiente, diante do que tem sido o desastre deste início de campanha no Brasileiro. 

Sob o comando de Scolari, não perdemos. Empatamos o Gre-Nal, mantendo a escrita; saímos em vantagem na disputa da vaga à próxima fase da Sul-Americana; e, agora, ganhamos pela primeira vez no campeonato nacional em partida também fora de casa. Três pontos que vieram no último minuto regulamentar de uma rara bola lançada na área que encontrou um jogador do Grêmio à disposição para recebê-la, Alisson, o que acabou culminando em um pênalti requerido pelo VAR. E muito bem cobrado por Pinares, que acabara de entrar em campo e iniciado a jogada que resultou na nossa vitória.

Nada pode ser mais importante do que os três pontos, mas a demonstração de que nosso sistema defensivo ficou mais consistente e chegou à terceira partida sem ser vazado também é motivo de satisfação, nesta manhã de domingo. Assim como ter visto a comemoração de um grupo que transmitia mensagens contraditórias e de aparente e perigosa cisão.  A festa do gol, com intensa participação de jogadores que haviam recém deixado o campo e a vibração de alguns atletas que perderam a posição com a chegada do técnico, demonstram que o Grêmio está unido e começa a retomar seu velho espírito guerreiro. A persistirem os sintomas, em breve, Scolari terá razões bem mais dignificantes para exaltar ao fim da partida.

Avalanche Tricolor: saudade de você!

LDU 0x1 Grêmio

Sul-Americana — Quito, Equador

Léo Pereira em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Vitória!

Que saudade de você, minha querida! 

Há quanto tempo a gente não se encontrava por aqui. 

A última que lembro foi há mais de um mês.

Gol? Não comemorava há quase 20 dias.

Que seca!

Abstinência total.

 

Fomos buscá-la da maneira mais sofrida possível.

Lá na altitude. Nos 2.850 metros de Quito.

Com o jeito Scolari de ser.

Fechado em uma linha de seis jogadores próximos da área.

Com os pontas recuados. Os meias recolhidos. 

E os atacantes voltando na intermediária.

Com uma ou outra escapada ao ataque.

 

Abrimos mão do toque de bola preciso por uma marcação precisa na bola. Trocamos a aproximação pelo chutão. Ocupamos os espaços. Reduzimos riscos. Restringimos os perigos de gol. Contamos com Chapecó, um goleiro bem aventurado. Usamos de velocidade e apostamos no talento do passe de Jean Pyerre —- jogador que demonstrou um ânimo irreconhecível.

 

Consagramos Léo Pereira. O garoto de Bauru, que surgiu em Itu, ameaçou ser moleque de Itaquera e agora se transformou em mais um guri do Humaitá. Com apenas 21 anos e 1,72 de altura, correu, marcou e se meteu em meios aos grandalhões da zaga adversária para marcar de cabeça o único e definitivo gol da partida.

Uma vitória sofrida, sem dúvida.

Mas antes sofrer com apenas 23% de posse bola, na retranca e com uma vitória, do que inanição com a bola no pé. 

Tava com saudade de você.

 Vê se não me deixa, Vitória!

Avalanche Tricolor:  Scolari e Chapecó garantem invencibilidade gremista em Gre-Nais, na Arena

Grêmio 0X0 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Felipão voltou! Felipão voltou!

Ouviríamos este grito da torcida se torcida houvesse na Arena, nessa tarde de sábado. E a volta não era apenas física, era comportamental. O time cabisbaixo das últimas rodadas, não teve vergonha de dar bico para fora quando necessário nem de trocar o domínio da bola sem sentido por um chutão para o ataque, se preciso fosse. Perder divididas seria crime de lesa pátria, e cada um, ao seu jeito, assumiu esse compromisso do início ao fim da partida.

Scolari, como prefiro chamar nosso treinador, se fez notar na forma do Grêmio se comportar, mesmo que os analistas insistissem em dizer que com apenas um treino nada teria a fazer de diferente. Fez, sim. No vestiário. Na conversa. No incentivo. No sotaque marcado e no conhecimento de quem foi campeão do mundo.

Se é verdade o que diz o ditado que “o diabo está nos detalhes” foi neles que percebi Scolari atuar: nos palavrões repetidos à beira do gramado em toda bola de ataque desperdiçada; na conversa de pai para filho encerrada com um tapa de carinho na cabeça de Ferreirinha; e na ordem para que Geromel voltasse para a defesa a qualquer custo, quando nosso capitão se lançou ao ataque para receber o cruzamento de um falta a ser cobrada a dois minutos do fim da partida. 

Scolari não estava apenas no vestiário ou dando ordens ao lado do campo. Estava redivivo na postura de Kannemann que fez, sem dúvida, sua melhor partida de todos os últimos tempos.

A força mística de nosso técnico e a influência que ele, aos 72 anos, é capaz de impor a seus comandados foram fundamentais para que o Grêmio mantivesse a escrita de não perder um Gre-Nal há 17 partidas em sua casa — é a maior invencibilidade já escrita na história desse confronto que chegou ao número de 433. Pra que ninguém esqueça, também: nos últimos 15 clássicos perdemos apenas um e, se sua memória é boa, você deve lembrar como o VAR e o árbitro nos impuseram aquele único revés.

Em um jogo de pouco brilho e muito esforço, de lado a lado, Gabriel Chapecó merece também os méritos pela invencibilidade mantida. Foi dele os lances mais incríveis, no primeiro e segundo tempos do clássico. Com 21 anos e 1,92 de altura, Gabriel Hamester Grando foi gigante ao defender com os pés a primeira estocada perigosa do adversário. Já havia desviado para escanteio um chute que se encaminhava para o gol. Mais à frente, voltou a salvar nossa cidadela. Uma delas com a mão trocada em um chute forte e com endereço certo —- que considerou ser a mais bonita do jogo, em declaração marcada por um largo sorriso, ao fim da partida, enquanto segurava nas mãos o troféu de melhor jogador do clássico.

vamos para mais de sete anos sem derrota em clássico Gre-Nal na Arena. E a dupla Geromel e Kannemann jogando junta até hoje não sabe o que é perder para o arquirrival. 

Sei que nada disso elimina o sufoco de estarmos onde estamos no campeonato, mas nos dá a esperança de que o futebol aguerrido e a alma tricolor que forjou nossa história serão redescobertos com a volta de Luiz Felipe Scolari. 

Felipão voltou! Felipão voltou!

Avalanche Tricolor: a volta de Scolari e um Gre-Nal para retomar a história

Palmeiras 2×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo/SP

arte divulgação Grêmio FBPA

Gremista nenhum em sã consciência imaginaria algo diferente do que assistimos nesta noite, em São Paulo. Nem o alinhamento dos astros seria capaz de mudar nosso destino. Era um jogo para cumprir tabela. Uma partida de transição, de um time desnorteado e desalmado, à espera de alguém capaz de resgatar a alma perdida em algum lugar qualquer do vestiário. E de apontar o norte do caminho das vitórias.

Poucos viventes desta terra —- ao menos entre aqueles que estão ao nosso alcance —- seriam tão capazes quanto Luis Felipe Scolari de assumir esse compromisso. A despeito do tempo, do que é moderno, das estratégias revolucionárias ou da fala castelhana e estranha de técnicos que tem feito sucesso nestas bandas, Scolari é a solução possível, com habilidade para trazer para dentro do clube marcas que forjaram nossa história. Ele é parte desta história.

Por curiosidade: quando sentei para escrever esta Avalanche, estava meio sem rumo e sem palavras, talvez impactado pela falta de criatividade do time em campo. Fui, então, vasculhar o que já havia escrito de Scolari em passagens anteriores e deparei com a Avalanche publicada em julho de 2014, quando se iniciava mais um ciclo do técnico no clube de seu coração:

“Logo que soube do convite feito a Felipão lembrei-me de uma camisa antiga que tinha do Grêmio, surrada pelo tempo, com o tricolor desbotado pelas inúmeras vezes que passou na máquina de lavar. Salvei-a duas ou três vezes do saco de roupas velhas que seriam dispensadas pela minha mulher até que foi definitivamente levada embora por ladrões que entraram na minha casa. De todas as camisas, medalhas e outros quetais do Grêmio roubados, há dois anos, é dela que mais senti falta. Seu valor não estava na qualidade do tecido, no quanto estava preservada ou não, mas nas lembranças impregnadas em sua malha. Nos momentos de alegria e sofrimento que havíamos passado juntos. Felipão é um pouco aquele camisa, desgastado pela vida, marcado pelas críticas, com brilho precisando de um lustre, mas sempre capaz de reavivar nossa memória pelas graças alcançadas”

Menos de um ano depois, ele deixaria o clube, após uma campanha apenas razoável e um resultado marcante: a maior goleada (4×1) que o Grêmio já havia aplicado em um clássico Gre-nal, em campeonatos brasileiros. No texto de despedida, escrevi:

“Felipão não se irá jamais do Grêmio. Ele eternizou seu nome, deixou suas marcas e troféus. Será para sempre lembrado pela forma como forjou times vencedores, mesmo quando os títulos não foram conquistados. Transformou elencos muitas vezes mal-falados pela crítica em grupos de batalhadores, talentosos e vitoriosos jogadores. Ajudou a construir o mito da imortalidade’

Como imaginei na época. Não era um adeus, era apenas um até logo. Por coincidência, Scolari volta ao Grêmio às vésperas de outro clássico, com quase nenhum tempo para ajustar as peças, mas, como sempre, com o desejo de devolver ao time o prazer da vitória.