Quintanares: Nem sabes como foi naquele dia

 

 

Poema de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

XXXII [NEM SABES COMO FOI NAQUELE DIA]

 

XXXII
Para Pedro Wayne

 

Nem sabes como foi naquele dia…
Uma reunião em suma tão vulgar!
Tu caíste em estado de poesia
Quando o Sr. Prefeito ia falar…

 

O mal sagrado! Que remédio havia?!
E como para nunca mais voltar,
Lá te foste na tarde de elegia,
Por essas ruas a perambular.

 

Paraste enfim junto a um salgueiro doente,
Um salgueiro que espiava sobre o rio
A primeira estrelinha… E, longamente,

 

Também ficaste à espera (quanta ânsia!)…
Mas a estrelinha, como um sonho, abriu,
Longe, no céu azul da tua infância!

 

Quintanares foi originalmente ao ar na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980.

Quintanares: É outono. E é Verlaine…o Velho outono

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

XXXI [É OUTONO. E É VERLAINE… O VELHO OUTONO]

É outono. E é Verlaine… O Velho Outono
Ou o Velho Poeta atira-me à janela
Uma das muitas folhas amarelas
De que ele é o dispersivo dono…

E há uns salgueiros a pender de sono
Sobre um fundo de pálida aquarela.
E há (está previsto) este abandono…
Ó velhas rimas! É acabar com elas!

Mas o Outono apanha-as… E, sutil,
Com o rosto a rir-se em rugazinhas mil,
Toca de novo o seu fatal motivo:

Um quê de melancólico e solene
─ E para todo o sempre evocativo ─
Na frauta enferrujada de Verlaine…

Quintanares foi produzido e apresentado, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980

Quintanares: Olha! Eu folheio o nosso livro santo

 

 

De Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

 

Poema XXIX [OLHA! EU FOLHEIO O NOSSO LIVRO SANTO]
Para o Sebastião

 

Olha! Eu folheio o nosso Livro Santo…
Lembras-te? O “Só”! Que vida, aquela vida…
Vivíamos os dois na Torre de Anto…
Torre tão alta… em pleno azul erguida!…

 

O resto, que importava?… E no entretanto
Tu deixaste a leitura interrompida…
E em vão, nos versos que tu lias tanto,
Inda procuro a tua voz perdida…

 

E continuo a ler, nessa ilusão
De que talvez me estejas escutando…
Porém tu dormes… Que dormir profundo!

 

E os pobres versos do Anto lá se vão…
Um por um… como folhas… despencando…
Sobre as águas tristonhas do Outro Mundo…

 

Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Sobre a coberta o lívido marfim

 

 

XXVIII [SOBRE A COBERTA O LÍVIDO MARFIM]
poesia de Mário Quintana
publicada em A Rua Dos Cataventos 1940
interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Sobre a coberta o lívido marfim
Dos meus dedos compridos, amarelos…
Fora, um realejo toca para mim
Valsas antigas, velhos ritornelos.

 

E esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos…
Tão altos sempre… cada vez mais belos!…
Nem D. Quixote teve morte assim…

 

Mas que ouço? Quem será que está chorando?
Se soubésseis o quanto isto me enfada!
eu fico a olhar o céu pela janela…

 

Minh′alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!…

 

O programa Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre 

Quintanares: Quando a luz estender a roupa nos telhados

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em A Rua dos Cataventos 1940
Narração de Mílton Jung

 

XXVII

 

Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,

 

Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…

 

E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E

 

Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!

 

Quintanares: Ninguém foi ver se era ou se não era

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos – 1940
Narração de Milton Ferretti Jung

 

XXV [NINGUÉM FOI VER SE ERA OU SE NÃO ERA]

 

Ninguém foi ver se era ou se não era.
E isto aconteceu lá no tempo da Era.
Mas, no teu quarto havia, mesmo, uma Chymera.
De bronze? De verdade? Ora! Que importa?

 

Foi quando Quem Será bateu à tua porta.
“Entre, Senhor, que eu já estava à sua espera…”
(Naquele tempo, amigo, a tua vida era
Como uma pobre borboleta morta!)

 

E Quem Será cumprimentou, falou
De coisas e de coisas e de coisas,
Bonitas umas, tristes outras como loisas…

 

E todo o tempo em que ele nos falou,
A Chymera a cismar: “Como é que Deus deixou
Haver, por trás do Sonho, tantas, tantas coisas?”

 

Quintanares foi apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: A ciranda rodava no meio do mundo

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos – 1940
Interpretação de Milton Ferretti Jung

XXIV [A CIRANDA RODAVA NO MEIO DO MUNDO]

 

A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo, cantava…

 

Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo…
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo…

 

E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo…
E quando a ciranda por fim terminava

 

E o silêncio, em tudo, era mais profundo,
Nosso Senhor esperava… esperava…
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

 

Quintanares foi apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: Outra canção

 

 

Poesia Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Não me deixem ir tão só,
Tão só, transido de frio…
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
Nem soubesse que as ouvia,
Ou se as estava sonhando,
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe na vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor…

 

Quintanares foi programa produzido, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Esta gravação é do acervo de Milton Ferretti Jung

Quintanares: Função

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em Apontamentos de História Sobrenatural
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua
uma esquina

 

Pequenino mundo sem rumo

 

Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis

 

E havia súbitas e lindas aparições como aquela das
longas tranças

 

E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua
cruel inocência do bonecas

 

E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar em minha boca

 

E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um
jogo cambiante de reflexos

 

Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada
que o arremessou

 

E eu danço, tu danças e nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente
do escuro…

 

O programa Quintanares foi originalmente apresentado na Rádio Guaíba de Porto Alegre e é reproduzido aqui no Blog do Mílton Jung.

Quintanares: Canção dos romances perdidos

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Canções (1946)
Narração de Milton Ferretti Jung

 

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…

 

O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…

 

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz…

 

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…

 

De onde fugiram todos os retratos…

 

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…

 

Quintanares foi programa apresentado originalmente na Rádio Guaíba de Porto Alegre. O áudio é do arquivo pessoal de Milton Ferretti Jung.