Uma proposta para tornar o debate público mais humanizado

 

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Foto: Pixabay

 

“Em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Mais vivo do que nunca, o dito popular traduz parte da verdade que assistimos na sociedade brasileira, expressa de forma histérica nas redes sociais —- e não apenas nas redes sociais.

 

Nesta semana, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, em conferência realizada em Salt Lake City, comentou sobre os efeitos perversos que comentários em redes sociais podem provocar nas pessoas — especialmente na forma como essas mídias estão moldando as crianças.

 

Obama diz não ler as reações às falas dele nos meios de comunicação tradicionais ou nas redes sociais, porque entende que foram planejadas para alimentar a ansiedade (“designed to feed possible anxiety”). E ao tratar do tema, fez questão de ressaltar que sua posição não se relaciona apenas a comentários tóxicos: os elogios podem fazer as pessoas pensarem que estão fazendo tudo certo, quando talvez não estejam.

 

Entendo que Obama se refira a arquitetura digital que tende a retroalimentar determinados comportamentos concentrando pessoas de grupos com o mesmo viés em torno de seus perfis — e privilegiando a opinião dos mais expressivos nas redes, não necessariamente da opinião pública.

 

 

TED@BCG - October 3, 2018 at Princess of Wales Theatre, Toronto, Ontario, Canada

 

Ao mesmo tempo, deparo com a fala de Julia Dhar, especialista em debate público, em apresentação no TED Talks, que já tem mais de 2 milhões de visualizações. Ela nos oferece pontos importantes para a reflexão, em tempos de intensa discussão, quando todos gritam e ninguém tem razão — como nos lembra o ditado popular que abre este post.

 

Apresenta em sua fala e se dedica a desenvolver em sua atividade profissional, a ideia de transformar o bate-boca em bate-papo, sem que percamos a noção de que estamos diante de um debate de ideias.

 

Defende argumentos e contra-argumentos. Avanços e recuos. Aceitação e oposição. É uma admiradora das discussões, desde que produtivas —- o que somente será possível se algumas técnicas forem aplicadas e mudanças de comportamento, aceitos.

 

Para não cairmos na armadilha que as discussões acaloradas e, muitas vezes, sem qualquer respeito ao contraditório nos proporcionam —- levando muitas pessoas a preferirem o silêncio —, Julian Dhar convida o cidadão a seguir regras aparentemente simples.

 

Sugere primeiro que se crie uma realidade compartilhada, que significa encontrar pontos em comuns, mesmo que mínimos. É preciso “envolvimento com a ideia oposta, de modo direto e respeitoso”. Isso exige que saibamos ouvir a voz de quem argumenta de forma contrária, de quem não pensa como eu. Segundo a pesquisadora Juliana Schroeder, da Universidade Berkeley, esse exercício humaniza as pessoas: facilita o envolvimento com o que pessoa tem a dizer.

 

Em seguida, Julian Dhar pede que se separe a ideia em discussão da identidade do interlocutor: “atacar a identidade da pessoa que argumenta é irrelevante, porque não foi escolha dela”. Sugere que se lide com a melhor visão da ideia, mais clara e menos pessoal.

 

Finalmente, alerta que nos apegamos às nossas ideias de maneira a acreditar que são realmente nossas e que, por extensão, somos delas. Ou seja, ao aceitarmos que somos proprietários daquela ideia também nos transformamos em propriedade dela e, assim, fica muito mais difícil nos desapegarmos. Para não sermos reféns dessa situação, Julian Dhar sugere que sejamos capazes de desenvolver o que chama de “humildade da incerteza” ou a possibilidade de estarmos errados: “é essa humildade que nos faz tomar decisões melhores”.

 

Em resumo:

  1. Crie uma realidade compartilhada — concorde com algo

  2. Separe as ideias da identidade

  3. Abrace a humildade da incerteza

 

Segundo Julian Dhar, os princípios do debate podem transformar a maneira como falamos uns com os outros; nos levar a parar de falar e começar a ouvir; parar de rejeitar e começar a persuadir; parar de nos fechar e começar a abrir nossa mente.

 

Ela propõe que ao mediarmos debates ou entrevistas façamos a seguinte pergunta: “sobre o que você mudou de ideia e por quê?”.  Antes de levarmos à frente essa proposta, quem sabe não está mais do que na hora de perguntarmos a nós mesmos: “sobre o que eu mudei de ideia e por quê?”.

 

Se jamais mudei, eis aí um problema a ser resolvido.

Tolerância e humildade, por Flávio Gikovate em 14 tuítes

 

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Flávio Gikovate morreu aos 73 anos, nessa quinta-feira. Esteve com a gente na CBN até bem pouco tempo, enquanto a doença permitiu. Fazia um programa inovador dentro de uma emissora que se dedica a transmitir notícias: tornava público seu divã e, a partir dele, atendia a centenas de solicitações de ouvintes, que abriam coração e alma para compartilhar suas angustias.

 

Mesmo internado, no Hospital Albert Einstein, seu conhecimento ainda encontrava espaço para chegar até o público que o admirava, através de seu perfil no Twitter. Nas últimas horas, escreveu em 14 tuítes sobre a intolerância, e eu tomo a liberdade de dividir com você os pensamentos do médico, psiquiatra e colega de rádio CBN.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela

 

 

Tolerantes são os que conseguem se irritar muito pouco com a parte desagradável presente em suas atividades e nas pessoas com quem convivem.

 

Ser tolerante é enorme vantagem, pois lidar bem com quem não nos agrada facilita a vida social e o encontro daqueles que consideramos legais

 

A tolerância tem a ver com a capacidade de respeitar diferenças de pontos de vista e de estilo de vida. Não ser pessoa crítica ajuda muito.

 

Por vezes tem a ver com a humildade: não se achar pessoa tão especial cria condições favoráveis para um convívio diversificado.

 

Muitos se fazem de tolerantes apenas com o intuito de seduzir e cativar seus interlocutores. São falsos e movidos por interesses duvidosos.

 

Pessoas intolerantes sempre passam uma imagem de arrogância e superioridade, de quem se impacienta e se aborrece com as “tolices” que ouve.

 

Não é raro que os mais intolerantes se considerem (e alguns sejam) mais inteligentes e cultos que seus colegas. O sucesso não passa por aí!

 

Uma pessoa humilde de verdade tem ciência de que seu saber é limitado e que a arrogância e altivez intelectual corresponde a um grave engano.

 

Quem é intelectualmente arrogante se acha portador de um saber inquestionável: ao ser contestado, não ouve o interlocutor com real respeito.

 

As pessoas que acham que sabem muito se afastam da “porosidade” psíquica: seus diálogos visam apenas fazer prevalecer seus pontos de vista.

 

A pessoa arrogante não se interessa pelo que o outro diz: ao ouvi-lo, só está se municiando de argumentos para desqualificar seu raciocínio.

 

A humildade corresponde a um estado de alma em que predomina o respeito pelas outras pessoas: pelo modo como vivem, pensam e se comportam.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela.

O palco não perdoa, lição para os candidatos a apresentador do Miss Universo 2016

 

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(texto escrito originalmente no Medium.com)

 

Concursos de miss não estão entre os meus esportes favoritos, apesar de me lembrar da família assistindo aos desfiles na televisão, durante a infância em Porto Alegre. O Rio Grande do Sul sempre teve boa fama nas passarelas e talvez por isto esses tenham se transformado em programas especiais para o orgulho gaúcho. Em 63 edições, o Estado teve 14 candidatas no Miss Universo, sendo a mais famosa delas Iêda Maria Vargas, a primeira brasileira a conquistar a coroa, em 1963. A medida que a adolescência surgia, o evento ficava mais brega e sem sentido.

 

Hoje, tenho apenas informações protocolares do Miss Universo, por isso me surpreendi com a atenção que um dos meus cunhados dedicou a transmissão feita na noite de segunda-feira, pela Fox, aqui nos Estados Unidos. Sem perder nenhum lance (sequer os relances) fez torcida especial por uma das candidatas — ou a italiana ou a americana, imagino, dadas as suas origens. Soube por ele que a brasileira, Marthina Brandt — outra gaúcha, registre-se -, ficou entre as 15 finalistas, mas não conseguiu chegar à grande final. Que pena — até porque era gremista!

 

Claro que não estou aqui para falar do potencial do Rio Grande nos concursos de beleza, mesmo que este possa ser assunto instigante para alguns dos caros e raros leitores deste espaço. Fiquei mais curioso mesmo foi com a gafe cometida pelo mestre de cerimônia, o comediante Steve Harvey, sucesso no rádio, na TV e nos palcos americanos, além de autor de dois livros.

 

A esta altura você já deve ter lido algum artigo ou visto algum meme no Twitter mais próximo sobre o engano de Harvey. Em lugar do nome da candidata das Filipinas, Pia Alonzo Wurtzbach, ele anunciou como vencedora a colombiana Ariadna Gutiérrez Arévalo, que chegou a vestir a coroa de miss, posar como miss e chorar como miss. Emoção, pelo que se soube, compartilhada com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que assistia ao evento pela TV.

 

A alegria colombiana foi interrompida pela cena mais constrangedora de todos os tempos do concurso: Harvey, com seu vozeirão, foi obrigado a pedir desculpas (“There’s. … I have to apologize.”), confessar o erro, mostrar o cartão oficial com o resultado e chamar a filipina Wurtzbach para a troca de coroa. Rainha deposta, rainha posta.

 

 

Na noite passada, Harvey não deve ter tido o sono mais tranquilo de seus 58 anos de vida e 30 de carreira. Verdade que na década de 80, por muito tempo, não tinha casa para morar e dormia após os shows dentro de um Ford 1976, enquanto, desta vez, deve ter ido para a confortável suíte providenciada pelos organizadores da festa. Mas, certamente, isto não terá sido suficiente para seu consolo.

 

Mesmo já tendo conquistado muito sucesso nos vários papéis que exerceu, a performance no palco do Miss Universo vai acompanhá-lo por anos. Será vítima de um paradigma da Era Digital que eterniza erros reais graças ao alcance do mundo virtual. O artigo de Steve Harvey no Wikipedia, em inglês, já registrava a gafe minutos após o acontecido. E, em língua portuguesa, a história ocupa mais espaço do que toda a descrição de sua bela carreira.
Steve Harvey

 

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Distante de qualquer comparação, a infelicidade de Harvey me deixou muito incomodado, pois costumo ser convidado para exercer o papel de mestre de cerimônia em diferentes eventos. Há poucas semanas, estive no Prêmio Aberje, destinado aos melhores do jornalismo corporativo, e, na véspera das férias, no Prêmio Findes, oferecido às melhores reportagens do Estado do Espírito Santo. No ano que se encerra, por mais de uma dezena de vezes, tive o privilégio de estar na apresentação de outras atividades.

 

Antes que você pergunte: não, nunca apresentei concurso de miss, ao menos profissionalmente; sequer tenho perfil para tal. Aos candidatos (a mestre de cerimônia em desfile de beleza) exige-se muita fama e talento artístico.

 

Considerando que jamais me capacitei para estar à frente de evento da mesma dimensão, também jamais me coube a possibilidade de cometer erro semelhante. Puxo da memória e não encontro gafes merecedoras de registro, talvez porque as que tenham ocorrido não se tornaram públicas. Recentemente, anunciei o vencedor antes de chamar o vídeo de apresentação, mas esta falha entra no rol das que “só o roteirista ficou sabendo”.

 

Comecei a atuar como mestre de cerimônia há 15 anos quando era âncora na televisão. Hoje, a visibilidade que o trabalho de rádio me oferece reforça o potencial de convites para a função. Mesmo assim não me considero um profissional do setor. Por isso, para seguir em frente neste artigo que busca entender o erro cometido por Steve Harvey, peço licença para recorrer ao conhecimento de um outro membro da familia, Christian Jung, esse sim especializado no assunto, pois desde 1998 integra equipe de cerimonial, no Rio Grande do Sul, e participa de atividades oficiais com chefes de estado e de governo, diplomatas e outras autoridades do setor público e privado — que exigem precisão no conteúdo e rigor na forma, pois estão submetidas a regras bastante rígidas.

 

(a propósito: o Christian assistia ao meu lado e da família aos concursos de Miss na televisão)

 

Que fique claro, desde agora: cerimônias pedem posturas diferentes conforme sua finalidade; se oficial, mais disciplina, se festiva, mais espontaneidade; as próprias características do mestre de cerimônia contratado costumam ditar a forma da apresentação, como se lê em texto publicado por Christian Jung em seu perfil no LinkedIn.

 

Qual a sua expectativa com o Mestre de Cerimônia? (leia depois o texto do Christian, no LinkedIn)

 

Quando se tem no palco uma personalidade como Harvey, espera-se o improviso bem planejado, dá-se autorização para iniciativas próprias dentro do clima da festa, permite-se o gracejo na hora certa e o “desrespeito” ao roteiro. Se o mestre vem de um escola de cerimonialistas, a intenção é que o protocolo prevaleça, com a hierarquia dos presentes sendo respeitada e a disciplina, mantida. Em ambas as situações, descontraídas ou não, deve-se ter o controle das ações, com a acompanhamento prévio dos detalhes de todo o evento, de preferência ensaiando sempre e estar pronto para os erros que, como diz o ditado, são insidiosos.

 

Planejar para o fracasso é estratégia usada tanto por grandes executivos como por renomados profissionais de diferentes áreas, pois mesmo a mais rigorosa das organizações é incapaz de garantir falha zero. Assim, traçar planos para o que possa ocorrer e para o que, tomara, jamais aconteça, é essencial. O público pode ser hostil a brincadeiras? O evento tem conotação política e gerar vaias? E quanto ao equipamento? Se o microfone falhar tem de se ter outro a mão e se o teleprompter apagar, o roteiro tem de estar impresso. Se as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo: que baita azar, hem!

 

E se o apresentador anunciar errado o nome da miss? “There’s. … I have to apologize.” Perdão, mas não resisti à brincadeira.

 

A princípio, Steve Harvey confundiu-se com a ordem dos nomes que estavam registrados na ficha entregue pelos jurados. É o que ele deu a entender. Mas por que isso teria ocorrido? Difícil fazer o diagnóstico à distância. Arrisco pensar que a segurança excessiva do apresentador tenha traído sua atenção. Mesmo sendo o ponto alto do concurso, vamos lembrar que Harvey já havia conduzido com desenvoltura toda cerimônia, que, aliás, é complexa, pois tem diversos desfiles, escolhas do júri, participação do público e entrevista das finalistas. Portanto, ele se sentia com o domínio pleno da festa. O bam-bam-bam …

 

O palco não perdoa, ensina Christian Jung em sua lista de dicas úteis para mestres de cerimônia. A segurança importante para o bom desempenho do apresentador pode se transformar em armadilha, se ele não se mantiver em posição de vigilância do início ao fim do evento. Assim que ele baixar a guarda, assim que surgir o primeiro sinal de soberba, o fracasso se apresenta e pode ser fatal, como o da noite de segunda-feira, em Las Vegas.

 

Fala,voz, ritmo, adjetivos do MC (leia depois este outro texto do Christian, no LinkedIn)

 

Com base no que diz e escreve sobre cerimônias oficiais, elenco algumas das principais recomendações do mestre de cerimônias Christian Jung, que podem servir para você em qualquer tipo de evento (desde o concurso da miss universo — já que estão aceitando currículo para o ano vem — até a festinha junina da escola dos seus filhos):

 

1.Seja humildade. Entenda que o mestre de cerimônia apresenta o evento, ele não é o evento.

 

2.Tenha disciplina e conheça o evento em detalhes.

 

3.Mantenha o foco; quanto mais atenção você dispensar ao que estiver fazendo, maior a chance de ficar concentrado por longos períodos na mesma tarefa.

 

4.Esteja atento, no cerimonial público as coisas mudam com muita velocidade; esteja firme porque da sua capacidade dependerá o bom andamento do evento.

 

5.Antecipe-se, reconheça o lugar, ajuste o teleprompter e preveja possíveis problemas; isto aumenta as chances de dar tudo certo. Mas não esqueça: quando o evento começa, tudo pode acontecer.

 

6.Ferramentas do mestre de cerimônia: roteiro, caneta, microfone e público.

 

7.Preocupe-se com o que está escrito no papel que você lê e não com o que falam de você.

 

8.Comece a fala de forma natural, despertando no ouvinte o interesse no conteúdo da apresentação.

 

9.Tem de ter voz qualificada, dicção, postura, conhecimento das regras do cerimonial e, sem dúvida, bom senso. Cerimonial vive de bom senso.

 

10.A voz não existe isoladamente, está inserida na fala, que por sua vez está inserida no contexto social. Falar implica em transmitir atitude e emoção.

 

11.Ninguém trabalha sozinho. É preciso saber o que dizer e aprender a escutar os colegas.

 

12.Existem vários formatos de solenidade e para cada um deles se imprime uma leitura ou postura diferenciada.

 

13.Descontração nem sempre cabe em ambientes cheios de protocolos e autoridades.

 

14.Excesso de protocolo e formalidades nem sempre cabem em eventos com tema, público e participantes descontraídos; dão a ideia de “cerimonial barroco”.

 

15.Mestre de Cerimônia não faz stand-up comedy!

 

Se o apresentador tivesse feito uma leitura cuidadosa, sem precipitação, do cartão com o nome das vencedoras; se os organizadores tivessem tido o cuidado de registrar de forma mais clara o nome das vencedoras; se todas essas e outras medidas preventivas tivessem sido adotadas, talvez o vexame tivesse sido evitado. Digo talvez, porque não se deve nunca esquecer a lei número 1 de Murphy:

 

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior
maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível
.

É preciso humildade no jornalismo (no futebol, também)

 

Coritiba 4 x 0 Grêmio
Brasileiro – Curitiba (PR)

 

 

Foi muito divertido, sem contar que fiquei honrado, a oportunidade de dividir o palco com a turma do Fim de Expediente, no Teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, em São Paulo, na sexta-feira. Como sempre conseguem fazer, Dan Stulbach, Zé Godoy e Teco levaram a conversa entre o bom humor e o papo sério, entretendo o público que não coube nas dependências do teatro. Foram colocadas cadeiras extras e muitos ainda tiveram de assistir ao programa no telão do lado de fora do teatro. Havia uma ocasião especial para o convite: venci a aposta que fiz com Dan nas quartas-de-final da Copa do Brasil. Aproveitaríamos o programa para entregar a camisa do tricolor gaúcho que prometi caso passássemos pelo Corinthians, o que aconteceu na quarta-feira, em Porto Alegre. Para a aposta ficar completa, Dan, corintiano, como deve saber o caro e raro leitor desta coluna, teria de vestir a camisa diante do público, o que foi cumprido, apesar da resistência dele.

 

Nosso ator chegou a preparar uma estratégia para não vesti-la. Levou a conversa por quase uma hora e somente permitiu que a camisa lhe fosse entregue nos minutos finais do programa. A número 10, de Zé Roberto (que saudade dele), estava em uma caixa que imitava a Arena do Grêmio e assim que aberta tocava o hino composto por Lupicínio Rodrigues. Dan abriu e pegou a camisa, mas no momento de vesti-la, encerrou o programa, a luz do teatro apagou e as cortinas fecharam. Só pagou a aposta porque o público bateu pé e não saiu do Eva Herz enquanto ele não voltou ao palco devidamente fardado. Perdeu mas levou no bom humor (e teve humildade).

 

Falamos muito de jornalismo durante todo o programa. Dan pediu minha opinião sobre merchandising, prática comercial usada por empresas que pagam para jornalistas fazerem publicidade de produtos, marcas e serviços. Repeti o que digo há muito tempo: sou contra, não é papel do jornalista fazer propaganda. Zé me deu a chance de falar sobre o rádio dos tempos modernos: lembrei que das cinco características exigidas, atualmente, dos meios de comunicação – mobilidade, velocidade, interação, multiplataforma e personalização – o rádio já tem três delas desde seus primeiros anos de vida. É móvel, ágil e aberto à intervenção do ouvinte desde sempre. Teco quis saber como foi migrar do CBN SP para o Jornal da CBN, há pouco mais de dois anos e meio. Expliquei, entre outras coisas, que uma das intenções foi levar os temas urbanos para o cenário nacional.

 

Já não lembro mais se foi o Dan, o Teco ou o Zé quem levantou a bola sobre a exposição pública que o rádio e o jornalismo de uma maneira geral nos proporcionam. Disse a eles que, sem dúvida, ganhamos destaque. As pessoas se aproximam. Passam a nos conhecer melhor. Dizem que gostam ou odeiam. Não ficam indiferentes. Tudo isso nos envaidece. E diante de tudo isso passa a ser fundamental o exercício da humildade. É grande o risco de nos considerarmos mais importantes do que os fatos e nos imaginarmos donos da verdade. Quando isso acontece o tombo é grande, machuca e faz vítimas.

 

Tivemos um bom exemplo disso no início da noite desse domingo. E você, acostumado a ler essa Avalanche, sabe bem do que estou falando.