O palco não perdoa, lição para os candidatos a apresentador do Miss Universo 2016

 

Steve-Harvey-Apologizes-For-Miss-Universe-Mix-Up

 

(texto escrito originalmente no Medium.com)

 

Concursos de miss não estão entre os meus esportes favoritos, apesar de me lembrar da família assistindo aos desfiles na televisão, durante a infância em Porto Alegre. O Rio Grande do Sul sempre teve boa fama nas passarelas e talvez por isto esses tenham se transformado em programas especiais para o orgulho gaúcho. Em 63 edições, o Estado teve 14 candidatas no Miss Universo, sendo a mais famosa delas Iêda Maria Vargas, a primeira brasileira a conquistar a coroa, em 1963. A medida que a adolescência surgia, o evento ficava mais brega e sem sentido.

 

Hoje, tenho apenas informações protocolares do Miss Universo, por isso me surpreendi com a atenção que um dos meus cunhados dedicou a transmissão feita na noite de segunda-feira, pela Fox, aqui nos Estados Unidos. Sem perder nenhum lance (sequer os relances) fez torcida especial por uma das candidatas — ou a italiana ou a americana, imagino, dadas as suas origens. Soube por ele que a brasileira, Marthina Brandt — outra gaúcha, registre-se -, ficou entre as 15 finalistas, mas não conseguiu chegar à grande final. Que pena — até porque era gremista!

 

Claro que não estou aqui para falar do potencial do Rio Grande nos concursos de beleza, mesmo que este possa ser assunto instigante para alguns dos caros e raros leitores deste espaço. Fiquei mais curioso mesmo foi com a gafe cometida pelo mestre de cerimônia, o comediante Steve Harvey, sucesso no rádio, na TV e nos palcos americanos, além de autor de dois livros.

 

A esta altura você já deve ter lido algum artigo ou visto algum meme no Twitter mais próximo sobre o engano de Harvey. Em lugar do nome da candidata das Filipinas, Pia Alonzo Wurtzbach, ele anunciou como vencedora a colombiana Ariadna Gutiérrez Arévalo, que chegou a vestir a coroa de miss, posar como miss e chorar como miss. Emoção, pelo que se soube, compartilhada com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que assistia ao evento pela TV.

 

A alegria colombiana foi interrompida pela cena mais constrangedora de todos os tempos do concurso: Harvey, com seu vozeirão, foi obrigado a pedir desculpas (“There’s. … I have to apologize.”), confessar o erro, mostrar o cartão oficial com o resultado e chamar a filipina Wurtzbach para a troca de coroa. Rainha deposta, rainha posta.

 

 

Na noite passada, Harvey não deve ter tido o sono mais tranquilo de seus 58 anos de vida e 30 de carreira. Verdade que na década de 80, por muito tempo, não tinha casa para morar e dormia após os shows dentro de um Ford 1976, enquanto, desta vez, deve ter ido para a confortável suíte providenciada pelos organizadores da festa. Mas, certamente, isto não terá sido suficiente para seu consolo.

 

Mesmo já tendo conquistado muito sucesso nos vários papéis que exerceu, a performance no palco do Miss Universo vai acompanhá-lo por anos. Será vítima de um paradigma da Era Digital que eterniza erros reais graças ao alcance do mundo virtual. O artigo de Steve Harvey no Wikipedia, em inglês, já registrava a gafe minutos após o acontecido. E, em língua portuguesa, a história ocupa mais espaço do que toda a descrição de sua bela carreira.
Steve Harvey

 

harvey

 

Distante de qualquer comparação, a infelicidade de Harvey me deixou muito incomodado, pois costumo ser convidado para exercer o papel de mestre de cerimônia em diferentes eventos. Há poucas semanas, estive no Prêmio Aberje, destinado aos melhores do jornalismo corporativo, e, na véspera das férias, no Prêmio Findes, oferecido às melhores reportagens do Estado do Espírito Santo. No ano que se encerra, por mais de uma dezena de vezes, tive o privilégio de estar na apresentação de outras atividades.

 

Antes que você pergunte: não, nunca apresentei concurso de miss, ao menos profissionalmente; sequer tenho perfil para tal. Aos candidatos (a mestre de cerimônia em desfile de beleza) exige-se muita fama e talento artístico.

 

Considerando que jamais me capacitei para estar à frente de evento da mesma dimensão, também jamais me coube a possibilidade de cometer erro semelhante. Puxo da memória e não encontro gafes merecedoras de registro, talvez porque as que tenham ocorrido não se tornaram públicas. Recentemente, anunciei o vencedor antes de chamar o vídeo de apresentação, mas esta falha entra no rol das que “só o roteirista ficou sabendo”.

 

Comecei a atuar como mestre de cerimônia há 15 anos quando era âncora na televisão. Hoje, a visibilidade que o trabalho de rádio me oferece reforça o potencial de convites para a função. Mesmo assim não me considero um profissional do setor. Por isso, para seguir em frente neste artigo que busca entender o erro cometido por Steve Harvey, peço licença para recorrer ao conhecimento de um outro membro da familia, Christian Jung, esse sim especializado no assunto, pois desde 1998 integra equipe de cerimonial, no Rio Grande do Sul, e participa de atividades oficiais com chefes de estado e de governo, diplomatas e outras autoridades do setor público e privado — que exigem precisão no conteúdo e rigor na forma, pois estão submetidas a regras bastante rígidas.

 

(a propósito: o Christian assistia ao meu lado e da família aos concursos de Miss na televisão)

 

Que fique claro, desde agora: cerimônias pedem posturas diferentes conforme sua finalidade; se oficial, mais disciplina, se festiva, mais espontaneidade; as próprias características do mestre de cerimônia contratado costumam ditar a forma da apresentação, como se lê em texto publicado por Christian Jung em seu perfil no LinkedIn.

 

Qual a sua expectativa com o Mestre de Cerimônia? (leia depois o texto do Christian, no LinkedIn)

 

Quando se tem no palco uma personalidade como Harvey, espera-se o improviso bem planejado, dá-se autorização para iniciativas próprias dentro do clima da festa, permite-se o gracejo na hora certa e o “desrespeito” ao roteiro. Se o mestre vem de um escola de cerimonialistas, a intenção é que o protocolo prevaleça, com a hierarquia dos presentes sendo respeitada e a disciplina, mantida. Em ambas as situações, descontraídas ou não, deve-se ter o controle das ações, com a acompanhamento prévio dos detalhes de todo o evento, de preferência ensaiando sempre e estar pronto para os erros que, como diz o ditado, são insidiosos.

 

Planejar para o fracasso é estratégia usada tanto por grandes executivos como por renomados profissionais de diferentes áreas, pois mesmo a mais rigorosa das organizações é incapaz de garantir falha zero. Assim, traçar planos para o que possa ocorrer e para o que, tomara, jamais aconteça, é essencial. O público pode ser hostil a brincadeiras? O evento tem conotação política e gerar vaias? E quanto ao equipamento? Se o microfone falhar tem de se ter outro a mão e se o teleprompter apagar, o roteiro tem de estar impresso. Se as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo: que baita azar, hem!

 

E se o apresentador anunciar errado o nome da miss? “There’s. … I have to apologize.” Perdão, mas não resisti à brincadeira.

 

A princípio, Steve Harvey confundiu-se com a ordem dos nomes que estavam registrados na ficha entregue pelos jurados. É o que ele deu a entender. Mas por que isso teria ocorrido? Difícil fazer o diagnóstico à distância. Arrisco pensar que a segurança excessiva do apresentador tenha traído sua atenção. Mesmo sendo o ponto alto do concurso, vamos lembrar que Harvey já havia conduzido com desenvoltura toda cerimônia, que, aliás, é complexa, pois tem diversos desfiles, escolhas do júri, participação do público e entrevista das finalistas. Portanto, ele se sentia com o domínio pleno da festa. O bam-bam-bam …

 

O palco não perdoa, ensina Christian Jung em sua lista de dicas úteis para mestres de cerimônia. A segurança importante para o bom desempenho do apresentador pode se transformar em armadilha, se ele não se mantiver em posição de vigilância do início ao fim do evento. Assim que ele baixar a guarda, assim que surgir o primeiro sinal de soberba, o fracasso se apresenta e pode ser fatal, como o da noite de segunda-feira, em Las Vegas.

 

Fala,voz, ritmo, adjetivos do MC (leia depois este outro texto do Christian, no LinkedIn)

 

Com base no que diz e escreve sobre cerimônias oficiais, elenco algumas das principais recomendações do mestre de cerimônias Christian Jung, que podem servir para você em qualquer tipo de evento (desde o concurso da miss universo — já que estão aceitando currículo para o ano vem — até a festinha junina da escola dos seus filhos):

 

1.Seja humildade. Entenda que o mestre de cerimônia apresenta o evento, ele não é o evento.

 

2.Tenha disciplina e conheça o evento em detalhes.

 

3.Mantenha o foco; quanto mais atenção você dispensar ao que estiver fazendo, maior a chance de ficar concentrado por longos períodos na mesma tarefa.

 

4.Esteja atento, no cerimonial público as coisas mudam com muita velocidade; esteja firme porque da sua capacidade dependerá o bom andamento do evento.

 

5.Antecipe-se, reconheça o lugar, ajuste o teleprompter e preveja possíveis problemas; isto aumenta as chances de dar tudo certo. Mas não esqueça: quando o evento começa, tudo pode acontecer.

 

6.Ferramentas do mestre de cerimônia: roteiro, caneta, microfone e público.

 

7.Preocupe-se com o que está escrito no papel que você lê e não com o que falam de você.

 

8.Comece a fala de forma natural, despertando no ouvinte o interesse no conteúdo da apresentação.

 

9.Tem de ter voz qualificada, dicção, postura, conhecimento das regras do cerimonial e, sem dúvida, bom senso. Cerimonial vive de bom senso.

 

10.A voz não existe isoladamente, está inserida na fala, que por sua vez está inserida no contexto social. Falar implica em transmitir atitude e emoção.

 

11.Ninguém trabalha sozinho. É preciso saber o que dizer e aprender a escutar os colegas.

 

12.Existem vários formatos de solenidade e para cada um deles se imprime uma leitura ou postura diferenciada.

 

13.Descontração nem sempre cabe em ambientes cheios de protocolos e autoridades.

 

14.Excesso de protocolo e formalidades nem sempre cabem em eventos com tema, público e participantes descontraídos; dão a ideia de “cerimonial barroco”.

 

15.Mestre de Cerimônia não faz stand-up comedy!

 

Se o apresentador tivesse feito uma leitura cuidadosa, sem precipitação, do cartão com o nome das vencedoras; se os organizadores tivessem tido o cuidado de registrar de forma mais clara o nome das vencedoras; se todas essas e outras medidas preventivas tivessem sido adotadas, talvez o vexame tivesse sido evitado. Digo talvez, porque não se deve nunca esquecer a lei número 1 de Murphy:

 

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior
maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível
.

2 comentários sobre “O palco não perdoa, lição para os candidatos a apresentador do Miss Universo 2016

  1. Milton, é matéria para livros, palestras, e tudo o mais que se possa falar de jornalismo. Absurdo total. Pior que perder penalidade máxima no futebol no ultimo minuto de jogo.
    Deveriam indenizar a miss enganada.
    Quanto ao concurso também sou da época em que eleição de miss e comicio politico era um bom programa. as misses perderam a função em beneficio às modelos, e os políticos deixaram de existir como antigamente.
    Belo artigo. E, parabéns ao mano e às gauchas.

  2. Você foi no ponto. E identificou as duas boas coisas a serem exaltadas no texto. Quanto a indenização, não havia pensado nesta questão que é relevante, afinal a Miss Colômbia foi exposta ao ridículo e, assim como o apresentador, levará esta imagem para sempre.

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