
Na reta final de ‘É proibido calar!’, livro que lancei ano passado, a editora pediu que eu convidasse alguém em quem confiasse e admirasse para escrever o prefácio. O primeiro nome que me veio à cabeça foi o de Miriam Leitão, mas confesso que ao mesmo tempo em que tinha certeza de que ela seria a pessoa ideal para apresentar meu trabalho, morria de medo.
O prefaciador pode ser considerado o primeiro leitor do seu livro. É a primeira pessoa de fora do projeto a ter contato com o texto. Antes dele, tem-se o autor que imerso emocionalmente no trabalho tem uma visão parcial. O editor e o corretor também participam dessa etapa inicial do processo e têm envolvimento profissional, enviam algumas recomendações e fazem os ajustes necessários.
E para “primeiro leitor” de ‘É proibido calar!’ fui escolher logo a Miriam que tem uma produção literária de altíssima qualidade, é detentora de merecido Prêmio Jabuti e tem olhar tão preciso quanto crítico.
Quanto atrevimento de minha parte, logo pensei. Que cara de pau, repetia minha consciência. Quando ela aceitou o convite e me pediu para enviar os originais, as pernas tremeram e o coração bateu mais forte. Uma sensação que se repetiria assim que Mário Sérgio Cortella aceitou escrever a orelha do livro — mas este é um outro capítulo.
O tempo entre o envio dos originais e o prefácio chegar foi marcado pela ansiedade, que só foi superada pela alegria de ler as palavras que ela havia dedicado. Emocionei-me também ao conhecer um pouco mais das histórias que Miriam vivenciou em família, a começar pela relação com o pai, tão marcante na construção de sua personalidade:
“Meu pai, ao contrário dos pais de várias amigas minhas no interior de Minas Gerais, jamais me disse que o destino da mulher era casar e ter filhos. Pelo contrário, dizia que eu me casaria apenas se quisesse, o importante era fazer um curso superior, ter uma profissão e um sonho” —- escreveu
Miriam sonhou alto e para alcançar seus sonhos estudou muito, dedicou-se como poucas pessoas e forjou uma carreira impecável no jornalismo —- ela também casou, e teve filhos, e teve netos. Fez-se mulher independente e corajosa. Enfrentou a estupidez dos ditadores. Superou seus torturadores. Lições que reforçaram seu viés humanista. Acreditou na construção de um Brasil melhor e mais justo.
Tenho o prazer de tê-la como parceira no Jornal da CBN, onde ocupa seu espaço dedicado à economia com informação apurada e análise crítica — sempre disposta a levar a conversa para além da fronteira dos números que muitas vezes contaminam o noticiário econômico. Olha o ser humano em suas várias dimensões. Em lugar das estatísticas prefere as pessoas. Em lugar de gráficos, privilegia a vida.
Foi essa mulher, jornalista, corajosa, crítica, justa e humana, que vimos ser atacada na semana passada. Ataques que partiram de gente intolerante e de autoridade pouco comprometida com a verdade dos argumentos. Ataques que são corroborados por uma turba indisposta ao contraditório e incapaz de entender o papel de um jornalista diante da verdade dos fatos. Que esqueceu que Miriam, ao longo de toda sua carreira, sempre se comportou assim, firme, forte e independente, a despeito de quem esteja no poder.
Por ser quem é e por ter enfrentado o que já enfrentou, Miriam, com certeza seguirá sua trajetória que começou a ser percorrida lá atrás, na pequena Caratinga, em Minas Gerais.
E por tudo isso, eu sempre vou escolher Miriam Leitão!










