Por Carlos Magno Gibrail
Em outras regiões da cidade e do planeta terra, o cinema ao vivo tem ajudado a restituir ao mundo a verdade do mundo. É o que vimos há uma semana, quando um jovem foi agredido no rosto por outro jovem com lâmpada fluorescente.
Até então o grupo do agressor, apoiado por pais e advogados, inventaram situações e acusações infundadas. Bastou a imagem gravada para um dos advogados de defesa conscientizar-se e sair do caso. É bem verdade que mesmo diante da cena irrefutável houve quem discutisse o real, o que comprova a mente distorcida orquestrada pela ética disforme, que criou e desenvolveu comportamento tão desequilibrado nos jovens provocadores.
A enorme repercussão do fato gravado foi do tamanho da sua gravidade, todavia o foco de homofobia, embora relevante, não é o mais importante. O contundente é a agressão em si, gerada do nada ou do tudo. Vindo de meninos com instrução e famílias constituídas.
Esta complexidade deve ser estudada, principalmente para verificar se não é a resultante daquelas escolas cujos pais exigem que os filhos sejam tratados como clientes. E, como tal, sejam os “donos” dos colégios.
Menos complexa, mas tão importante quanto à psicologia do caso é a questão do uso generalizado das câmeras sob o aspecto legal e ético.
A cidade de Londres que previne e pune o crime com a maior quantidade urbana de câmeras do mundo; pesquisadores como Paco Underhill, que formou uma teoria do varejo através das câmeras; esportes como a Fórmula1 e o Tênis, que impedem injustiças nas competições milionárias com repetição de lances duvidosos; assim como uma série de residências, condomínios e empresas que têm tido sucesso na segurança com as câmeras de gravações, são exemplos para análise desta controvertida questão da invasão de privacidade dos cidadãos.
O dinheiro na meia, o dinheiro na bolsa e depois a reza, a mini saia da Uniban e a grande quantidade de babás espancando bebês mundo afora, foram protagonistas de casos que sem elas não existiriam.
O Rodeio das Gordas por falta de imagens gravadas ainda preenche muitas telas eletrônicas de relacionamento.
A FIFA, entidade dirigente do esporte mais popular do mundo, quanto mais expande seu império mais teme as câmeras. Certamente para manter o simulacro tão bem alicerçado do poder centralizado e estimulador para as demais confederações afiliadas. A ponto dos atores principais, os futebolistas, adotarem o mesmo e progressivo papel de simuladores absolutos. Chegam a trocar os pés pelas mãos, até mesmo para vagas no supremo torneio da entidade.
As cidades, cada vez mais populosas, deveriam prevenir e punir a criminalidade urbana como prioridade, sem receios de cerceamento pelas imagens.
É hora de repensar a liberdade de gravar e ser gravado. O cinema poderá ser bem-vindo neste cenário urbano contemporâneo. Reproduzindo o cotidiano com suas tragédias, dramas, farsas e comédias. Cinema ao vivo, para todos e para tudo.
Graças a ele, a promotora da Infância e Juventude Ana Lunardelli decretou ontem a internação dos quatro adolescentes envolvidos na agressão da Avenida Paulista na Fundação Casa por tentativa de homicídio e lesão corporal.
O pedido foi motivado “pelas imagens divulgadas pela polícia”. Sem elas, os agressores, libertados, arquitetavam a defesa com a imaginação que a ausência de imagem permite.
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

