Expressividade: cuidados com os gestos e a postura ao se comunicar

 

Segue mais um trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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foto PIXABAY

 

ÊNFASE DEMAIS, FÉ DE MENOS

 

Um dos mais famosos locutores do Rio Grande do Sul é José Aldair, até hoje titular da síntese noticiosa da Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Uma das marcas na narração de Aldair era a mania de introduzir o noticiário do esporte esticando a primeira sílaba do título “esportivas”. O “es” se estendia até o som praticamente sumir para, somente depois, completar a palavra. O costume ganhou fama e havia quem ouvisse o noticiário apenas à espera do anúncio das “esportivas”. Um dia acompanhava o noticiário dentro do estúdio, sentado ao lado de José Aldair, o comentaristas esportivo Osvaldo Rola, o Foguinho, nome conhecido no Rio Grande do Sul por seus préstimos ao futebol gaúcho, tanto quanto por sua fala com o erre extremamente enrolado. Quando José Altair começou o interminável “essssssss…..”, Foguinho se assustou, imaginou que o locutor teria tido algum problema e não se fez de rogado, se aproximou do microfone e completou: “porrrrrrtivas”.

 

O preço que José Aldair pagou pelo excesso de ênfase foi o susto no momento do acontecido e o nome dele registrado para o resto dos tempos no anedotário do rádio gaúcho. Pelo sucesso dele na locução até que o preço foi baixo. O mesmo não se pode dizer de outros narradores que, exagerados, comprometem a mensagem. E suas carreiras, também. Ênfase demais ou na palavra errada prejudica o entendimento do que está sendo comunicado, porque o público perde a noção do que realmente é importante na sentença. A marcação excessiva empobrece o discurso e o torna caricato. É a “Síndrome de Alberto Roberto”, personagem humorístico de Chico Anysio que brinca com a figura dos comunicadores antigos do rádio.

 

Peço licença para um comentário sobre figura que brilhou no rádio e na televisão. Gil Gomes marcou sua presença no jornalismo com uma voz cheia de nuances e gestos exagerados. Conseguiu se comunicar. Seu domínio de cena o permitia contar uma história de violência sem ter necessidade de imagens ou entrevistas. Era praticamente um monólogo. Envolvia o telespectador — e antes já havia feito isto com o ouvinte —- apenas com a retórica e recursos da dramaturgia. Quando muito, se valia de efeitos sonoros. Espetacularizava a informação. Transformava realidade em ficção e da ficção fazia realidade. Gil Gomes fez desta capacidade seu personagem. No entanto, não é exemplo para ser seguido. Porque é único. É exceção. E para ilustrar o tema aproveito-me, mais uma vez, de frase de Iván Tubau, autor já citado neste trabalho.

“O comunicador de televisão deve interpretar sempre um personagem. É desejável, portanto, que seja ator. O comunicador de televisão deve dizer algo. É desejável que seja jornalista. O comunicador de televisão, sendo ator e jornalista, só pode interpretar bem um personagem: o mesmo”.

O telejornalismo tem aspectos da dramaturgia. Utilizam-se recursos da arte cênica para transmitir informação. No entanto, não se deve trocar os papéis. Jornalismo trabalha com a realidade. Quem o consome, crê no que se vê. Teatro usa da ficção para conquistar seu público, que aceita a encenação porque busca o entretenimento. Existem jornalistas que foram buscar nos cursos de teatro formas de interpretar a notícia. Mas, assim como na voz, o exagero nos gestos prejudica o processo de comunicação.

 

Às vezes, as mãos se movimentam tanto diante da câmera de vídeo que chamam mais atenção do que a mensagem. Sem falar na sensação do telespectador de que a qualquer momento vai receber uma tapa no rosto. Quase tomei um banho d’água durante entrevista com um empresário que, entusiasmado com a oportunidade de falar na televisão, usou de todo seu conhecimento cênico e acabou derrubando o copo que estava sobre a bancada.

 

Outro erro comum é a repetição dos movimentos, principalmente da mão. Você já deve ter visto o horário eleitoral gratuito. Se não, aproveite a próxima eleição e se divirta diante da televisão —- se possível encontre um bom candidato para votar, também. Veja quantas vezes determinados candidatos fazem um mesmo gesto durante mensagens que não duram mais de 30 sgundos. Acreditam que assim são capazes de atrair a atenção do eleitor. Prometem mais educação e com a mão fechada dão um pequeno soco no ar. Prometem mais saúde e lá vem mais um soquinho. Prometem mais transporte e a cena de pugilismo se repete. Podiam trocar os socos pela fórmula para cumprir todas promessas.

 

A gesticulação — recurso não-verbal que pode dar ênfase à informação —- quando repetitiva provoca monotonia. A mesma sensação se tem quando a apresentação é feita de forma estática. A televisão, principalmente no jornalismo, demorou a aceitar movimentos naturais de seus apresentadores. Eram quase bonecos ventríloquos.

O excesso de gestos incomoda muita gente. O excesso de gestos repetitivos incomoda muito mais. O excesso de gestos contraditórios nem se fala. O aceno, a expressão facial, a entonação da voz têm de estar em concordância com a informação. Tente dizer não e sacudir a cabeça afirmativamente. Agora, faça o contrário. Diga sim e gire a cabeça de uma lado para o outro. É estranho, não é mesmo? Tem quem faça isso sem a menor dificuldade ou sem nenhum constrangimento. Se o gesto confirma a informação, esta se reforça. Se contradiz, a mensagem se perde. Não esqueça que o impacto da comunicação não-verbal sempre é mais forte do que a verbal quando feita de forma simultânea.

Há outros casos em que os meneios de cabeça, com o objetivo de marcar expressão ou fim de frases, se sobrepõem à informação, tal os excessos cometidos. Lembro de um apresentador de telejornal que, na busca de expressividade, piscava os olhos, mexia a cabeça, reforçava a dicção e acenava tanto que me provocava irritação. Senti-me —- por favor, falo como telespectador —- vingado quando o próprio ao usar de todos esses recursos para fazer uma pergunta relacionada ao susto que os empresários haviam tido por causa de uma medida do governo federal, causou tanta estranheza na comentarista de economia que esta não se conteve: “você é que me assusta assim”.

 

Por falar em meneio de cabeça. Tem jornalista que ainda insiste em balançar a mesma afirmativamente enquanto o entrevistado fala. Quer passar a impressão de que está atento ou entendendo tudo o que está sendo dito. Quem assiste tem a ideia de que o entrevistador está é concordando com o entrevistado. Postura que não condiz com a profissão. Se é para mostrar conhecimento do assunto, faça boas perguntas: é o melhor caminho.

 

Aproveito para chamar atenção de outra mania que toma conta da tela. Alguém espalhou por aí que apresentador de programa esportivo tem de estar feliz. Com cara de quem assistiu ao time dele ser campeão pela primeira vez. Moral da história: tem uns que fazem um esforço danado para aparentar simpatia. Por favor, não estou aqui defendendo a cara fechada. Gosto tanto de um sorriso que já dediquei um capítulo anterior a favor dele. Mas em excesso, torna a apresentação falsa. “Do que é que este moço está rindo, se meu time perdeu hoje?”, se pergunta o telespectador.

Você se comunica com muito maior intensidade do que imagina. À frente da câmera de vídeo, esta situação ganha mais destaque, ainda. As lentes ampliam nossas qualidades, com certeza, mas estão prontas para revelar todos nossos cacoetes, afetações e presunções. Pessoas extramemente amáveis no dia-a-dia se transformam em arrogantes na televisão. Têm a imagem distorcida por pequenos detalhes como o de falar olhando acima da lente ou com o queixo erguido —- o que é traduzido por “nariz empinado” —- simplesmente porque a câmera não está posicionada na altura do seu rosto.

Outro erro capaz de mudar a sua imagem é a postura. Curvado demais para a frente para a ideia de agressividade. Atirado demais para trás, de desinteresse. Há situações em que postura demais também prejudica.

 

Um ex-prefeito de São Paulo, adepto do yoga e outros esportes mais relacionados à classe política, que tendem a resultar em rombos olímpicos nas contas públicas, costumava dar entrevistas sempre com o olhar neutro, as duas mãos à frente apenas com a ponta dos dedos se tocando em formato de triângulo e os pés separados o suficiente para manter uma postura de equilíbrio. Deve ter lido, antes de assumir o cargo, todos os manuais de sobrevivência para entrevistados em situação delicada que se encontram nas livrarias e decidiu aplicá-los de uma só vez. Um esforço tão evidente e exagerado que era lido pelos repórteres que o acompanhavam como sinal de intranquilidade. Sempre tive vontade de dizer a ele quando o enxergava estático diante de uma câmera: “relaxa prefeito, relaxa e fala”.

 

Expressividade é preciso. Exagero, não. O risco é que o comportamento exacerbado atinja a imagem de quem comunica. O público deixa de acreditar, perde a fé.
 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

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