Entre o que sentimos, o que somos e o que a realidade permite

Por Beatriz Breves

Foto de Jorj on Pexels.com

Quando deslocamos o foco para o sentimento de Eu, percebemos que se trata de uma estrutura fractal, ou seja, padrões que se formam e se transformam continuamente pela internalização das experiências, dos vínculos e da qualidade das relações vividas. Por isso, o Eu integra, inevitavelmente, dimensões biológicas, psíquicas e sociais, articulando-as em um movimento constante de construção e reconstrução.

Todavia, ainda vivemos presos a um paradigma reducionista que entende o biológico como a única “verdade” possível. Nesse modelo, cromossomos XX definem uma mulher; XY, um homem; e a cultura somente acrescenta comportamentos esperados. Mas a vida psíquica não cabe nesse binário. Essa é uma limitação de um olhar materialista cartesiano, que enxerga o ser humano somente pelo prisma material e, assim, impõe o determinismo biológico à identidade.

Entretanto, ao migrarmos do olhar mecanicista para o paradigma vibracional, torna-se mais fácil compreender que a identidade se manifesta em pelo menos dois planos: o da realidade materializável e o da realidade psíquica. À experiência humana inclui-se o nível microcósmico do ser, aquilo que não se vê, mas constitui grande parte de quem somos. Por esse olhar, a experiência humana é entendida como um complexo vibratório macromicro, uno, inteiro e indivisível, que só pode ser apreendido por meio de recortes. E cada recorte — biológico, psíquico ou social — revela somente um aspecto da totalidade que somos.

Assim, quando uma pessoa biologicamente classificada como um determinado sexo se sente e se reconhece no sexo oposto, ou quando alguém da espécie humana se sente e se reconhece como pertencente a outra espécie, muitos reagem descartando esse sentimento como exagero, confusão ou patologia. Isso ocorre porque o olhar social costuma se fixar exclusivamente no recorte biológico, ignorando o recorte psíquico, o modo como a pessoa se percebe, se sente e se reconhece internamente. É como se a identidade tivesse que obedecer apenas ao corpo, quando, na verdade, o corpo é apenas uma das camadas que compõem o Eu.

Esse descompasso não se aplica somente a pessoas trans ou therians, mas também àquelas que vivem uma preocupação persistente com supostos defeitos físicos mínimos ou inexistentes, como ocorre na dismorfia corporal. Abrange, ainda, quem é gordo e se percebe magro, quem é considerado bonito e se enxerga feio, quem é inteligente e se sente limitado ou mesmo situações em que alguém procura um profissional de saúde e recebe como resposta que “não tem nada, é psicológico”, reduzindo a psique a um nada. Em todos esses casos, há um descompasso entre a realidade e o que a pessoa está sentindo.

Entretanto, isso não significa abandonar referências. O ser humano precisa de referências para se orientar; sem elas, perde o senso de si. A ideia de que “a pessoa pode ser tudo” pode levar a uma perda de reconhecimento pessoal, pois aquele que pode ser tudo, paradoxalmente, torna-se nada.

Para facilitar a compreensão, podemos recorrer ao exemplo do movimento dos corpos. Desde Galileu, sabemos que todo movimento é relativo; porém, convencionou-se a Terra como sendo fixa a fim de organizar os movimentos no mundo, pois, sem esse ponto de referência, perderíamos a capacidade de descrever qualquer deslocamento que fosse realizado. Da mesma forma, o referencial biológico funciona como esse ponto fixo: os cromossomos XX e XY permanecem constantes, atravessando eras, épocas e culturas, oferecendo um parâmetro estável a partir do qual outras variações podem ser compreendidas.

Em outras palavras: mesmo não sendo possível definir a identidade de uma pessoa a partir de um único olhar, é necessário estabelecer referências de reconhecimento. E a referência biológica é socialmente pertinente. Entretanto, afirmar que ela é a única referência válida significa negar a identidade sob o prisma da realidade psíquica. A forma como uma pessoa adulta sente a si mesma e conduz suas escolhas deve ser respeitada.

Nesse contexto, é importante ressaltar dois referenciais de lógica: a lógica booleana, que opera com dois estados (0 e 1) e é adequada ao referencial biológico; e a lógica fuzzy, que admite infinitos valores entre 0 e 1, sendo adequada ao referencial psíquico, permitindo compreender que entre XX e XY existem inúmeras possibilidades de expressão. Isso se reflete na multiplicidade de termos usados por grupos como LGBTQQICAPF2K+, que buscam nomear nuances que não cabem no binário biológico.

Mas é preciso cuidado, pois nem sempre sentir significa ser. A realidade psíquica não anula a material; contudo, a realidade material, em muitas situações, anula a psíquica. Se alguém se sentir um super-herói capaz de voar e pular de uma janela, os limites da realidade biológica prevalecerão. Da mesma forma, se alguém, sentindo-se um gato, morar na rua e caçar ratos para se alimentar, não chegará a um bom lugar. Tal qual todos que nasceram um dia, mesmo que se sintam imortais, irão falecer. A realidade material impõe limites inegociáveis.

Há ainda outro aspecto importante a considerar. Em qualquer relação, de qualquer ordem, é necessário haver um fiel da balança que permita mediar conflitos de percepção, especialmente em sociedades democráticas. Nesse caso, o elemento que cumpre essa função é o biológico, por ser universal e atravessar o tempo: desde que a espécie humana existe, mulheres possuem cromossomos XX e homens, XY.

Sem esse parâmetro comum, surge um impasse. Se uma pessoa XY afirma à outra que “se sente mulher” e, por isso, deve ser reconhecida como tal, a outra pode responder: “eu não sinto você como mulher, portanto, meu sentimento não a torna mulher”. A pergunta que emerge é: por que o sentir de uma deveria prevalecer sobre o sentir da outra?

Quando não há um critério compartilhado, cada percepção subjetiva se torna absoluta e, portanto, inconciliável. Nesse cenário, o único fiel da balança possível é a biologia, justamente por ser atemporal, universal e independente das variações individuais de sentimento.

Enfim, com certa segurança, pode-se afirmar que o sofrimento surge justamente quando há uma ruptura entre o que a sociedade reconhece e o que o Eu reconhece em si mesmo. Essa fratura pode gerar um vazio profundo, um sentimento de desenraizamento que compromete a própria experiência de existir. Reconhecer a coexistência legítima dos recortes biológico, psíquico e social, respeitando os limites próprios de cada um, é fundamental para reduzir o sofrimento humano e ampliar o espaço de dignidade e compreensão mútua.

Entretanto, negar os limites impostos pela natureza em seus recortes biopsicossociais é perder referências essenciais, abrindo espaço para uma desorientação que não é somente individual, mas pode tornar-se coletiva, a ponto de já não ser possível distinguir o que é fato, o que é experiência e o que é delírio.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Violência sexual contra crianças: a escola como espaço de proteção e a urgência de ouvir as vítimas

“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”

Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.

Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.

A violência que nasce dentro de casa

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.

Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.

Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.

Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.

Escutar sem revitimizar

A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.

Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”

Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”

A palavra da vítima como prova

A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”

Um problema maior do que os números

Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.

A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como Bad Bunny transformou a latinidade em um ativo cultural de massa

A latinidade ganhou escala global, entrou no centro do entretenimento e passou a funcionar também como marca cultural. O tema foi discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir do impacto provocado pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny no mercado da música e no imaginário do público.

O caso chama atenção porque rompe uma barreira antiga no Brasil. Durante muito tempo, artistas latino-americanos de língua espanhola tiveram dificuldade de ocupar espaço amplo por aqui. Cecília observa que esse cenário mudou de patamar. “A latinidade deixa de ser algo marginal e passa a ser algo de massa, de apelo mais democrático, furando todas as bolhas”, disse. A frase ajuda a entender por que o debate vai além da música. Não se trata apenas de um artista popular, mas de um fenômeno que desloca referências culturais e reposiciona símbolos latinos no consumo global.

No comentário, Cecília lembra que os números reforçam essa mudança. O crescimento de ouvintes brasileiros de Bad Bunny e a disparada de execuções após o Super Bowl mostram como uma presença artística pode ampliar seu alcance quando reúne identidade, repertório visual e conexão geracional. Na leitura dela, o artista “reforça várias lentes do que é o latino”, combinando marca-país, vínculo com a geração Z e os millennials e até um traço político em sua forma de se apresentar.

Essa análise ajuda a entender um ponto importante do universo das marcas: elas não são feitas só de produto, nome ou logotipo. Também são construídas por símbolos, linguagem, comportamento e contexto. No caso de Bad Bunny, entram nessa conta a defesa explícita de sua origem porto-riquenha, o uso do espanhol, a estética vibrante, a dança, as gírias e a sensação de pertencimento que ele oferece ao público.

Jaime acrescenta uma camada que torna o debate mais interessante. Para ele, o sucesso da marca latina de Bad Bunny no Brasil também passou por uma espécie de chancela cultural dos Estados Unidos. “Foram os americanos, ou foi a cultura americana e mais especificamente o maior evento mundial americano, o Super Bowl, quem catapultou o Bad Bunny”, afirmou. A observação traz certa ironia: parte do público brasileiro pode ter se aproximado da latinidade depois de vê-la validada no palco mais poderoso da indústria cultural americana.

A provocação de Jaime toca num traço histórico do Brasil. Muitas vezes, o país se relaciona com a América Latina de maneira ambígua: geograficamente inserido, culturalmente próximo em vários aspectos, mas nem sempre disposto a se reconhecer plenamente como parte desse conjunto. Quando ele diz que é “como se nós tivéssemos de costas para a América Latina”, aponta para uma resistência antiga, agora tensionada pelo sucesso de um artista que transformou sua identidade em força de mercado.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso ensisna que fenômenos culturais não se explicam por uma única causa. A força de uma marca nasce do encontro entre identidade, contexto, linguagem, visibilidade e circulação social. A latinidade, hoje, parece ter deixado de ser apenas uma referência periférica para disputar espaço no centro da cultura de massa. Resta saber se esse movimento é passageiro ou se veio para ficar.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: fé e paciência

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Tetê comemora seu gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Reencontrei o padre José Bortolini na missa desta manhã de domingo. Havia algum tempo que eu não voltava à Capela da Imaculada Conceição, construída na esquina da rua onde morei boa parte da minha vida, em São Paulo. Nos últimos meses, tenho dado preferência às celebrações na comunidade de Nossa Senhora das Graças, ao pé do prédio onde moro atualmente. A fé, como o futebol, também se reorganiza conforme o endereço.

Padre José já foi personagem em outras edições desta mal-traçada crônica esportiva. Estudioso da Palavra, mestre em Sagrada Escritura e autor de dezenas de livros, ele segue, aos 74 anos, ministrando missas com uma dinâmica própria. Convive com uma doença que insiste em testá-lo, mas não lhe reduz a presença. Bortolini reaparece nesta Avalanche por outro motivo: é gremista de Bento Gonçalves.

Em muitas ocasiões, ao fim da cerimônia, trocamos impressões rápidas sobre o “nosso time”. Já houve domingos em que o sorriso antecipava a confiança para o jogo da tarde. Em outros, bastava um olhar para revelar a apreensão diante da fase da equipe. Nunca faltou fé. Nem ironia.

Neste domingo, porém, algo mudou. Assim que a missa terminou, aproximei-me disposto a decifrar quais sinais ele me transmitiria sobre o Grêmio, às vésperas da disputa por uma vaga na final do Campeonato Gaúcho. Cumprimentamo-nos. Desejamos um bom domingo. E paramos ali. Nenhuma análise tática. Nenhum palpite. Preferimos o silêncio.

Talvez seja isso que o Grêmio e Luis Castro estejam precisando: silêncio.

Silêncio para trabalhar. Silêncio para ajustar. Silêncio para reconstruir.

O time vem de temporadas marcadas por instabilidade. Sofreu gols em excesso, flertou com riscos desnecessários e alternou momentos de lucidez ofensiva com apagões defensivos. A troca de comando técnico e as mudanças no elenco indicam que há diagnóstico. Ainda falta continuidade.

Há sinais positivos. A equipe mostrou, no primeiro tempo da partida deste fim de tarde, organização na saída de bola e ocupação mais racional dos espaços pelos lados do campo. Houve triangulações interessantes e aproximação entre meio e ataque. Faltou transformar volume em finalização qualificada. No segundo tempo, o ritmo caiu. A linha defensiva voltou a apresentar desajustes no balanço, especialmente nas transições rápidas do adversário. E, diante da pressão, alguns jogadores optaram pelo passe lateral em vez do enfrentamento individual que poderia romper a marcação.

Não se trata de falta de capacidade. O elenco tem nomes capazes de entregar desempenho mais consistente. A incorporação de reforços, a saída de profissionais e a tentativa de estabelecer novo padrão de jogo exigem tempo — palavra que raramente encontra abrigo nas arquibancadas e nas redes sociais.

Enquanto a engrenagem não encaixa, convivemos com oscilações que frustram expectativas. Ainda assim, há diferença entre instabilidade e ausência de rumo. O que se percebe hoje é um processo em curso. Incompleto, irregular, mas identificável.

Ao deixar a capela, fiquei pensando que reconstruções não se fazem aos gritos. Nem no altar, nem no vestiário.

Às vezes, a fé também trabalha em silêncio.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: fui estafeta do Dr. Waldemar

José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Foto do bonde reproduzida do site São Paulo Antiga

Quando eu tinha oito anos, por volta de 1940, morávamos na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria de Figueiredo, entre o Ibirapuera e a Avenida Paulista. Minha mãe era governanta e cozinheira da família do Dr. Waldemar Mercadante, famoso médico da cidade. Meu pai era funcionário da RAE, Repartição de Água e Esgoto, atual Sabesp. 

O sobrado que habitávamos era enorme, com grandes varandas, porão, sótão com vista para o Ibirapuera, seus lagos, campos de futebol, muito verde no qual cavalos, vacas e cabras pastavam. Não tinha a estrutura de hoje, mas era lindo e despoluído.

O Dr. Waldemar tinha a rotina de solicitar que eu fosse buscar um carro de aluguel na Av. Paulista e também pegar soro no Instituto Pasteur.

Certa vez, após muitas explicações, principalmente sobre disciplina ambiental, fui incumbido de levar uma carta para um colega dele de medicina. Deu-me duas moedas para pegar o bonde. 

Lembro-me bem do bonde camarão com almofadas em vinil e lustres; motorneiro e condutores impecavelmente vestidos. Peguei o bonde na confluência da Av. Paulista com Brig. Luiz Antonio, onde erguia a estátua do índio Caçador. O bonde deslizava sobre os trilhos e dividia a rua estreita com alguns automóveis. 

Enfim, cheguei ao destino; desci perto do Trianon; localizei a mansão cuja frente era igual as demais: os portões eram enormes, feitos de bronze com bocas de onça e carrancas talhadas em ferro batido; a sinaleta era muito alta para o meu um metro de altura; subi colocando os pés entre os vãos e puxei a corrente; ouvi o badalar do sino ao fundo. Adiante, um verdadeiro bosque com árvores, matas, plantas e flores, hoje só vista na região do Parque Trianon.  E assim seguiam os meus dias de menino — fazendo as vezes de estafeta.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Luiz da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

Photo by Hasan Albari on Pexels.com

Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Os empregos em alta em 2026 e a habilidade silenciosa que conecta todos eles

Photo by cottonbro studio on Pexels.com

A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.

As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.

Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.

Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.

E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.

O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.

Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo.  Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.

O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.

Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.

Uma redação, muitas décadas e mais um Natal

Edmilson, Claudinho, Paschoal e eu na redação da CBN

Começou o plantão de fim de ano nas redações. É aquele período em que as equipes de jornalismo se dividem em duas para trabalhar em dobro e garantir alguns dias de folga no meio das festas. Em 2025, coube-me o Natal, enquanto Cássia Godoy descansa. Na semana seguinte será a minha vez de calçar as sandálias e relaxar — se é que calçar sandálias ainda é possível sem que se transforme em ato político também.

Logo na chegada à redação, na segunda-feira, tive uma feliz surpresa. Entre os poucos colegas escalados, encontrei três das antigas. Jornalistas e radialistas que me acompanham há algumas décadas: Paschoal Júnior, Edmilson Fernandes e Cláudio Antonio.

Paschoal, para quem ouve o Jornal da CBN, já foi apresentado. É o responsável pela mesa de som do programa — o que não diz tudo sobre ele. Tem participação ativa na edição do jornal, interfere nas pautas, ilustra entrevistas e reportagens, provoca à reflexão e está sempre disposto a oferecer pérolas filosóficas.

Edmilson e Claudinho respondem pela crônica política mais bem-humorada do rádio brasileiro: a Rádio Sucupira, que fecha as edições de sexta-feira do Jornal da CBN. Ed também é o chefe da madrugada e responsável pela edição e redação da abertura do Jornal. Claudinho é um maestro. As melhores sonorizações da rádio passam pelo talento dele. Em particular, destaco a parceria que mantemos há anos na edição do Conte Sua História de São Paulo.

Somos colegas desde o século passado. A expressão pode parecer exagerada, considerando que estamos apenas concluindo o ano 25 do século 21. Ainda assim, ela diz muito. As relações — e as redações — tornaram-se cada vez mais efêmeras. A troca de emprego é frequente. No jornalismo — e percebo que nos escritórios das empresas também — a turma chega novinha, motivada, mas, se em três ou quatro meses não surge um novo desafio, uma atividade diferente ou uma promoção, já pensa em cair fora, buscar novos horizontes, como costumam dizer no linguajar corporativo. Ninguém mais tem paciência.

Eu, Paschoal, Ed e Claudinho tivemos. Muita paciência. Tanto quanto a empresa teve com a gente.

Neste mês de dezembro, completei 27 anos de rádio CBN. Cheguei praticamente junto com o Ed. Paschoal e Claudinho vieram um pouco antes. Estão completando 30 anos. Somados, a foto que ilustra este texto reúne 114 anos de CBN. Tempo de muita história, reportagem, coberturas, graças e falhas. Há frustrações, também — elas existem em todos os aspectos da vida. Aprender com os defeitos, nossos e dos outros, nos tornou mais resilientes. A soma de tudo isso nos forjou e nos trouxe até este Natal.

O tempo, esse mesmo que apavora quem tem pressa demais, nunca me constrangeu. Ao contrário, me orgulha. Orgulha porque ficou. Porque sedimentou relações, ensinou limites, expôs falhas e permitiu correções. Orgulha porque mostrou que permanecer também é um gesto de coragem. Num período em que tudo parece descartável, seguir junto por décadas não é atraso. É escolha. E, olhando para essa redação quase vazia, cheia de histórias, percebo que o tempo não nos envelheceu. Deu-nos lastro.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando a brasilidade move o mercado

Brasil

Marcas brasileiras têm ocupado cada vez mais espaço ao adotar referências culturais do próprio país para se comunicar com o público. Uma transformação em relação ao mimetismo que, historicamente, nos fez reproduzir em terras tupuniquins o que se ensinava pelas bandas do Tio Sam. É esse o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo.

Jaime observa que esse movimento “não se trata de um verde-amarelismo ingênuo”, nem de alinhamento político. Ele descreve um processo mais amplo, construído ao longo do tempo, em que as marcas passaram a reconhecer que durante décadas houve “uma assimetria cultural que povoou nosso marketing e comunicação”. Segundo ele, a influência de grandes multinacionais moldou estilos que não dialogavam com a realidade brasileira. Agora, sinais concretos mostram uma virada: “Quem entra numa loja da Farm sente que está no Brasil ou no Rio de Janeiro em particular”, afirma. Ele cita também a Hering, que incorporou traços da cultura nacional em suas lojas, como exemplo dessa reaproximação.

Cecília amplia a reflexão e lembra episódios recentes quando o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnic, disse que “é preciso consertar o Brasil”. Ela aponta que esse tipo de visão desconsidera caminhos próprios construídos aqui. Em contraste, lista marcas que transformaram identidade brasileira em valor estratégico. A Dengo, no chocolate, reforça vínculos com produtores de cacau. Melissa leva um estilo “urbano, com toques tropicalistas”. No segmento de bebidas, Guaraná Jesus e Cajuína preservam raízes regionais mesmo sob o guarda-chuva de empresas globais. Há ainda casos como a Ypê, que “dialoga de uma forma muito brasileira com as consumidoras”, em um mercado dominado por gigantes internacionais.

Essa escolha não rejeita influências externas; apenas equilibra paisagens culturais. Como resume Jaime, “estamos vendo uma redução da assimetria cultural”, movimento que valoriza o repertório local e amplia a autenticidade da comunicação.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso sustenta a ideia de que marcas brasileiras ganham força quando assumem a própria origem. Cultivar comunicação, produtos e experiências inspirados em referências nacionais cria vínculos mais sólidos com consumidores e reduz a dependência de modelos importados.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.