Falta de visão prejudica tecnologia limpa, no transporte

 

Executiva da Eletra avalia os investimentos no sistema de ônibus e aponta equívocos nas políticas públicas de transporte de passageiros em entrevista exclusiva ao “Ponto de Ônibus”

Trólebus Caio Millenium II - Mercedez Benz/Eletra

Por Adamo Bazani

O Brasil erra e erra feio quando o assunto é política de transportes. A opinião é da gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira, companhia nacional especializada em fabricação de ônibus com tecnologia limpa. Para ela, há uma visão imediatista num setor que necessita de soluções emergenciais, é verdade, mas também de planejamento para que o serviço alcance níveis de excelência, economia e velocidade, além de benefícios ambientais.

“Hoje houve uma mudança de comportamento da sociedade. A questão ambiental, antes esquecida, agora é uma cobrança e as autoridades devem corresponder a isso. Os gastos com poluição são enormes e a queda de qualidade de vida é notória. Assim, na hora de optar por um sistema convencional e de tecnologia limpa, não basta ver qual é o simplesmente mais barato, mas o mais vantajoso. O dinheiro que se gasta na adoção de um sistema de trólebus ou de ônibus híbrido, retorna através de gastos menores no sistema de saúde, economia operacional maior e vida útil mais longa dos veículos”

Ieda disse ter visto exemplos claros de como a aplicação em tecnologias poluentes tem impacto não apenas ambientais, mas na estrutura das economias locais, também.

“Um dos casos que mais me chamaram a atenção foi no corredor da Avenida Santo Amaro (zona Sul da Capital Paulista). Há alguns anos, foi retirada toda a rede de trólebus e as operações começaram a ser somente com veículos a diesel. Muitos estabelecimentos comerciais que mexiam com alimento, simplesmente fecharam suas portas. Com o número maior de veículos a diesel, as pessoas não suportavam se alimentar com tanta fumaça e calor no ar. Os comércios que vendiam roupas também foram prejudicados. Donos de lojas de roupas me disseram pessoalmente que não davam conta de limpar os produtos. Passava um pano, um espanador, uma hora depois estava empoeirado. Assim, tecnologia limpa em relação a transporte público, não é somente um papo de ambientalista. Representa qualidade de vida e melhoria econômica”

A gerente da empresa afirma, no entanto, que a questão ambiental é grave, mas não tem sido vista de maneira séria pelo poder público.

“Um veículo a diesel produz por litro de combustível consumido aproximadamente 2,7 kg de carbono que são jogados na atmosfera. Isso tudo vai para o pulmão das pessoas. E nesse caso, a poluição é democrática. Ela atinge tanto o rico, dentro de seu carro, proporcionalmente mais poluidor que o ônibus diesel, como o pobre. Agora, vamos fazer a conta, se um ônibus convencional urbano roda cerca de 6 mil quilômetros por mês, e o consumo de diesel é de cerca de 1,8 km por litro, imagine quanto carbono é lançado na atmosfera. Por isso, as medidas devem ser levadas a sério, o que não acontece.

A qualidade do diesel produzido no Brasil é um exemplo disso:

“Atualmente, os motores têm de seguir o Padrão Euro III, com menos emissões. Mas nosso diesel, em todo o País, não é de qualidade. O que adianta termos motores bons com combustível ruim. É só olhar para o escapamento de um ônibus novo. Perceba a fumaça que ele solta. Nunca que este veículo está seguindo os padrões mais modernos. O que acontece, no meio ambiente e no transporte, é que se pratica a política do faz de conta. Trazem à população uma informação, uma ilusão, mas a realidade da rua, de quem respira o ar das grandes cidades, é totalmente diferente”.

Ieda Maria Alves de Oliviera ao lado do colega José Antônio do Nascimento, da Eletra

Nem a forma de concessão para explorar o serviço de transporte, escapa do olhar crítico de Ieda Maria Alves de Oliveira:

“A maioria dos contratos se dá de forma emergencial e é dado pouco prazo de concessão para o operador. Sem a certeza de que vai continuar em determinado mercado por um bom tempo, o dono de empresa de ônibus não vai investir num veículo como o trólebus, que pode durar até 30 anos, mas é mais caro. E se no final do contrato ele não consegue renovação? O que ele vai fazer com um veículo que ainda vai durar um bom tempo, mas não tem mercado de revenda? Assim, contratos por períodos curtos, de sete, dez anos, não dão estabilidade para investimentos maiores” .

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Tecnologia nacional faz transporte coletivo mais limpo

 

Inovações para o sistema de trólebus e desenvolvimento de ônibus híbridos, a eficiência energética dos veículos elétricos e a falta de política pública para que o transporte de passageiros seja menos poluente. Estes são alguns temas da série de três reportagens que você lê, a partir de hoje, no Ponto de Ônibus

Trólebus  com mais de 20 anos de uso

Por Ádamo Bazani

Mesmo com o descaso pelo qual passou o sistema de trólebus no Brasil, nos últimos 20 anos, com a extinção de milhares de quilômetros de linhas, algumas empresas de tecnologia nacionais têm investido na melhoria do sistema de transporte elétrico. Se estes avanços forem assimilados pelos planejadores de políticas públicas, podem resultar em benefícios ambientais, operacionais e econômicos. Bom para as contas públicas, assim como para as do cidadão.

As inovações que o blog teve acesso podem tornar o trólebus um veículo interessante. Aliás, o ônibus elétrico por si só deveria ser prioridade no investimento das cidades a medida que proporciona ganhos ao meio ambiente e à saúde da população. No entanto, há uma série de desculpas, tanto por parte de governos como de empresários, para não voltar a investir neste modal totalmente limpo.

O gerente de contratos da Eletra, empresa de tecnologia de tração elétrica 100% nacional, José Antônio do Nascimento, afirma que as inovações vão justamente ao encontro das demandas apresentadas por empresários e gestores: “Desenvolvemos soluções que deixam o trólebus mais barato, mais rentável e acompanhamos outras iniciativas de vanguarda quanto a rede aérea, que pode se tornar mais eficiente e  econômica”.

Algumas destas novidades estão em estudo. Outras, já em teste, foram acompanhadas pela nossa reportagem. Saiba em que pé andam os trólebus e o que pode ser tendência para o setor voltar a respirar e ajudar a população a respirar melhor, também:


Rede de Corrente Alternada –
A rede aérea de trólebus brasileira e de quase o mundo todo é de corrente elétrica contínua. Não que seja um sistema ultrapassado, mas a indústria conseguiu chegar ao princípio da rede de corrente alternada, com um tipo de fornecimento energético mais eficiente. A corrente alternada até então era aplicada somente no sistema de tração interno dos trólebus e não na rede aérea. Assim, mesmo sendo de corrente alternada, que possibilita uma maior nacionalização das peças e o uso de chassis de tração nacional, o trólebus recebia a energia em corrente contínua. A conversão era feita no veículo. A Eletropaulo desenvolveu estudos para implantação da corrente alternada na rede e percebeu que isso deixaria a operação dos trólebus mais vantajosa. Há um melhor aproveitamento energético e o equipamento das subestações ao longo do percurso é bem mais barato. O sistema foi instalado em pequenos trechos na capital paulista.


Flexibilização de Sistemas por um único veículo –
A concepção de linhas de corrente alternada é um avanço, mas que não pode vir sozinho. Os veículos devem acompanhar essa mudança. Por isso, a Eletra tem em desenvolvimento um equipamento que permite que qualquer trólebus (seja de corrente alternada – mais novos – seja de contínua – mais antigos) possa circular em linhas com redes aéreas modernas.  Assim até mesmo um trólebus com tecnologia defasada pode ser adaptado, com a instalação deste equipamento. Uma das grandes vantagens disso é a flexibilização quanto a renovação da frota. Se o sistema de rede aérea vier a mudar numa certa velocidade, os trólebus mais antigos não precisariam ser encostados. Como a vida útil de um trólebus pode ser até de 30 anos, não haveria necessidade de um veículo dentro desta faixa etária ser desativado. Pelo contrário, todo o investimento no trólebus seria recompensando até o fim de seu tempo previsto de serviço.


Eixos convencionais em veículos de sistemas antigos –
O sistema de corrente alternada apresenta melhor relação entre o motor do trólebus e o eixo de tração. Isso possibilitou que os trólebus de corrente alternada operassem com mais equipamentos nacionais e com eixo de tração (normalmente o traseiro) de um veículo articulado comum, cujas peças podem ser encontradas em qualquer revendedor. Mas o grande avanço é que, por meio da Eletra, a indústria nacional conseguiu chegar a fase final de um estudo da utilização de eixos de ônibus convencionais em veículos de sistemas antigos, de corrente contínua. Assim, não seria necessária a mudança de toda a tecnologia de tração do ônibus elétrico e seria possível nacionalizar e baratear os trólebus de qualquer geração de corrente elétrica.

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A conversa esquentou com meu sogro

 

Por Rosana Jatobá

http://www.flickr.com/photos/mikaelmiettinen/

Ele quer uma neta. E deseja que chegue logo, com a cara da mãe.
– Já tem muito homem nesta família. Precisamos de mais beleza, graça e sensibilidade.

Sem cerimônias, elenca as recomendações para a futura criança :
– Ela vai crescer ouvindo os clássicos da música e da literatura internacional. Vai falar línguas desde cedo e frequentar museus e galerias de arte.

As sábias palavras são do meu sogro: homem de bem, de bom gosto e de personalidade forte. Com inteligência de sobra, comanda a conversa, discorda de tudo e dita as próprias verdades.

A bola da vez é o aquecimento global.

-Esses ambientalistas que você defende são uns imbecis! Ignoram a história da humanidade, os ciclos naturais da Terra, e se apossam de teorias fajutas de oportunistas, como Al Gore. Quem disse que o suposto aquecimento global é resultado da ação humana?

Como não resisto a uma provocação, exponho meus humildes conhecimentos.

– Esta foi a conclusão a que chegou um dos maiores economistas do mundo, Nicholas Stern, em outubro de 2006, antes mesmo de Al Gore surgir na cena ambiental com o seu panfletário filme: ” Uma verdade inconveniente” . Stern, ex-economista -chefe do Banco Mundial, demonstrou, por meio de um relatório de 700 páginas, que o acúmulo de gás carbônico é a principal causa do aquecimento terrrestre. Mais tarde, em 2007, cerca de 3 mil cientistas corroboraram a tese e publicaram o mais extenso e completo documento sobre as mudanças climáticas provocadas pelos gases de efeito estufa, o IPCC.

– Relatório manipulado para atender a grupos interessados nas polpudas quantias destinadas às pesquisas do clima!

– Nem todos os dados estão sob suspeita. E o relatório foi ratificado por quase toda a comunidade cientifica.

-Quem ousa desafiar a postura oficial é relegado ao ostracismo. Tem muito climatologista contrário à doutrina do aquecimento global sendo boicotado e impedido de publicar seus próprios trabalhos.

-Mas a meteorologia já aponta para um cenário devastador, que tende a piorar nas próximas décadas, caso não haja uma redução das emissões.

-Como eu posso acreditar que os modelos climáticos acertarão as previsões para daqui a 50 ou 100 anos, se eles não conseguem dar conta de eventos de curto prazo?

Para uma moça do tempo, essa crítica é como uma facada….Mas tomo fôlego e continuo o debate.

-Em que dados você se baseia para contestar o relatório?

-Na “mea culpa” feita por cientistas do próprio IPCC, como o climatologista Phill Jones. Ele reconheceu que parte das informacões do relatório não passa de especulação sem base científica. E o pior: que nos últimos 15 anos o mundo não teve aquecimento algum. Mojib Latif, outro cientista da mesma cepa , acaba de desmentir a doutrina que defendeu por anos. Ao invés de aquecimento global, vamos ter resfriamento global causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte.

-Você acha que toneladas de CO2 lançadas todos os dias na atmosfera sobem impunemente? Tanta poluição não vai cobrar um preço? É natural retirar materia orgânica das profundezas da terra, sedimentada em forma de petroleo, queimá-la e lançá-la pelos ares? Já temos 375 partes por milhão de CO2 na atmosfera.

– Em meados do século dezenove, quando mal se ouvia o barulho do motor, a concentração de CO2 chegou a superar 500 ppm. E há cerca de 35 milhões de anos, esse nível passou de 1000 ppm !!!!. E nós estamos aqui pra contar a história….Você, jornalista, não pode acreditar neste “catastrofismo climático” de projeções alarmistas!

É claro que uma fera como meu sogro, Mestre pela FGV, com especialização em Standford, iria esgotar meus argumentos. O silêncio veio como um soco no estômago, seguido da inevitável dúvida:

-Será que fui ingênua o bastante pra me deixar envolver pelo discurso da moda?

Relembrei o dia em que comecei a estudar com mais afinco as mudanças climáticas, inspirada pela palestra do Al Gore na Oca do Ibirapuera; os congressos que frequentei, as entrevistas a que assisti; os fins de semana debruçada sobre livros e apostilas do curso de gestão ambiental….. Será que fui iludida, que é tudo uma farsa? Um lobby perfeito da indústria verde?

A inquietação me acompanhou por dias e dias. E só perdeu sentido quando subi ao palco de um importante auditório em São Paulo para apresentar um evento da maior rede varejista do mundo. O Wal Mart anunciava o seu Pacto de Sustentabilidade. A rede, que até pouco tempo era conhecida pela falta de preocupação com o meio ambiente e com as condições de trabalho de seus funcionários, agora exibia uma ampla plataforma de projetos de responsabilidade econômica, social e ambiental.

Na esteira do Wal Mart, milhares de empresas dão o exemplo. E ainda que a motivação seja puramente capitalista, para obter vantagens competitivas, o fato é que a estratégia de negócios está reduzindo a sobrecarga sobre o planeta.

Essas companhias não esperaram para ver se há mesmo aquecimento global ou não; ou se o fenômeno decorre dos caprichos da natureza ou dos desmandos do ser humano….

A questão ficou pequena diante da maior urgência, que é a de preservar os recursos naturais para garantir a nossa sobrevivência e a das futuras gerações. Se mantido o ritmo atual de consumo, vamos precisar de dois planetas no ano de 2050, calcula o grupo conservacionista WWF.

Desejo que a neta do meu sogro frequente as aulas de balé e os concertos de música clássica, sem precisar usar máscaras de oxigênio no percurso até as academias. Que ela caminhe pela faixa de areia fina e branca da praia, não invadida pelo mar. Que ela tenha o prazer de admirar Ipês, Paus-ferro, Pinheiros e Jatobás.

E que seja tão inteligente quanto o avô para perceber que “há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”!!

Vai contestar, meu querido sogro?


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade – e de família, também

Mapa digital informa local para descarte de eletrônico

 

E-lixo Map

O descarte de material eletrônico, que não pode ser feito no lixo comum, em breve encontrará um aliado na internet. Esté em teste o “E-Lixo Maps”, no qual é possível identificar pontos próximos da sua casa ou trabalho onde celulares, baterias, rádios, computadores entre outros tantos equipamentos podem ser entregues. O site www.e-lixo.org uniu a plataforma do Google Maps com o banco de dados dos postos de coleta de material eletrônico, na cidade.

O acesso é simples: informe o CEP, número da residência, tipo de equipamento a ser descartado e os postos mais próximos aparecerão identificados por um sinal verde. O site seria colocado no ar, oficialmente, antes do Carnaval, mas dificuldades técnicas impediram sua implantação. Ainda aparecem alguns problemas de localização, mas o serviço resolve em parte a dificuldade de se encontrar pontos apropriados para descartar aparelho de telefonde celular, bateria, cartucho de impressora, teclados, entre outros.

O serviço é resultado de parceria da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o Instituto Sérgio Motta.

Quarenta dias sem carne, vai encarar !?

 

Por Rosana Jatobá

O jejum já durava nove meses, tempo em que praticou ioga e se aventurou pela filosofia budista. Mas numa tarde fria do inverno novaiorquino, foi possuído por um impulso atávico, e correu para o Plataforma Grill, pondo fim à sua abstinência. A faca deslizou sem esforço cortando o bife de picanha. Dourada, macia e suculenta, a carne exalava o aroma característico e abrigava o tempero discreto que realça o sabor incomparável. Pediu o segundo pedaço e o terceiro. Voltou pra casa a passos lentos, saciado e feliz.

O meu amigo Hélio me contou esta experiência, indignado com o poder da memória da carne.
– Pra mim, que sou gaúcho, é mais que uma questão cultural. Tá no DNA. Não pude resistir por mais tempo…..

Pra mim, que sou baiana, talvez seja mais fácil.

Resisto à carne vermelha há um ano e cinco meses porque a considero indigesta. Mantive-me firme diante da tentação quando percebi que havia me livrado das cólicas menstruais.

Não sou de apregoar os malefícios da ingestão de carne, como aumento da incidência de câncer ou de doenças cardiovasculares. Tampouco condeno os carnívoros. Mas enfrento bravamente a enxurrada de críticas pelo meu jejum.

-“Você vai ficar fraca e doente.” , diz minha mãe. “A carne é a principal fonte de proteínas, além de ser rica em ferro, minerais e vitaminas. A abstinência pode causar anemia, deficiência de vitaminas do complexo B e de zinco”.

– Por enquanto, os exames anuais mostram que minha saúde é de ferro. Ferro do brócolis, beterraba, couve-flor, agrião, feijão, grão-de-bico, ervilha, lentilha, nozes e castanhas…

Recentemente revi dados sobre o desastre ecológico provocado pela criação de gado no Brasil, o que reforçou a minha convicção .

Nos orgulhamos de ter o maior rebanho do mundo, de sermos os maiores exportadores de carne vermelha, mas fazemos um comércio burro e predador. Hoje temos na Amazônia duas cabeças de gado pra cada morador da região, às custas da destruição do nosso mais precioso bem. Qual será o valor da biodiversidade perdida pelo desmatamento? E o do aumento das emissões de CO2 para transformar floresta em pasto? Quem paga o preço da emissão de metano – gás vinte vezes mais poderoso que o dióxido de carbono – oriundo dos arrotos e flatulências do boi? Se somarmos à conta o desperdício de água contaminada pela pecuária, lá se vão 16 mil litros pra cada quilo de carne produzida.

-Num mundo com um bilhão de famintos, você vem questionar se o pum do boi agride a atmosfera?

– Mas é justamente a criação de gado em grande escala que ameaça a segurança alimentar!

A questão da crueldade com os animais selou de vez a minha privação.

Para que a carne de vitela chegue à mesa com a maciez característica, o bezerro, ainda não desmamado, vai para um lugar escuro e é acorrentado, a fim de que não se mexa e não desenvolva músculos. É alimentado apenas com leite para que fique anêmico e a carne adquira uma cor branca. Não consegue nem andar até o corredor do abate, onde é alvo de uma pistola pneumática que o paralisa antes de ser sangrado, ainda vivo. Este é a cadeia produtiva do baby- beef!!

Mas a compaixão do homem só beneficia alguns poucos escolhidos: os bichos que adentram as fronteiras da casa e se tornam dignos de estimação.

Do contrário, prevalece o exclusivo traço do ser humano de subjugar o animal, tornando-o coisa, reduzida a seu bel prazer para atender a uma futilidade do paladar .

No início do ano visitei um dos “pueblos” do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Ao ouvir a sugestão do guia de turismo – aqui vende-se carne de lhama, tenra e saborosa!- , meu marido não hesitou. Correu ao encontro do churrasqueiro ali mesmo na pracinha e pediu o famoso espetinho de lhama com cebola.

Eu reagi:
– Amor, você não pode comer a lhama. Ontem mesmo tiramos várias fotos desse bichinho simpático e você inclusive comentou o quanto ele parecia afetuoso. Não tem pena?

O meu apelo foi em vão.
– Pena? Aqui todo mundo come lhama.

E depois de uma mordida, prosseguiu:
– Hum.. você não imagina que delícia essa carne!

De volta ao Brasil comentei o fato com a minha irmã, que também tinha uma história gastronômica exótica pra contar.
– No periodo em que morei na Austrália, me ofereceram um jantar com carne de canguru. Comi, pensando na viagem que tinha feito no dia anterior para vê-lo de pertinho. O tempo passou, mas até hoje não digeri bem a idéia do canguru na panela.

Voltar no tempo pode ser milagroso quando temos o importante desafio de escolher o alimento.

Na idade média, o povo raramente comia carne vermelha. A iguaria era consumida só em banquetes, nas côrtes e nas residências dos nobres. Eram as orgias chamadas “carnevale”, símbolo da gula, associada ao pecado. É daí que vem o nosso carnaval.

Se é tempo de quaresma , de reflexões e renovações, que tal um jejum de carne vermelha como gesto de conversão? Vamos pedir perdão à natureza, ao corpo e à alma. Vamos converter sangue em sumo. O meu amigo Hélio resistiu à tentação por 240 dias. Você é capaz de pelo menos se abster até a Páscoa?


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade – e gastronomia, também.

Enquanto não ligo meu carro na tomada

 

Por Rosana Jatobá

carro

O telefone toca na redação. É o Jô Soares, interessado em saber sobre o risco de chuva forte naquela tarde quente de verão em São Paulo.

Consulto o último boletim da meteorologia e vou ao encontro do meu amigo, no estacionamento da emissora.

Ele está vestindo uma camiseta com emblema do SuperHomem, pilotando um jipe conversível, réplica do modelo usado pelo exército americano na segunda guerra mundial para a invasão da Normandia. A intenção é dar umas voltas pela zona sul da capital paulista no brinquedo recém-comprado.

-Vá tranquilo, Jô; o radar meteorólogico indica chuva forte só no início da noite. Você ainda tem pelo menos três horas de passeio.

Ele aproveita para perguntar sobre meus projetos na área de sustentabilidade, comenta a última entrevista que dei para o programa dele, e provoca:

– Outro dia, eu te vi saindo da TV. Como uma pessoa tão envolvida com as questões ambientais pode ter um carrão daqueles, um utilitário beberrão?

E agora? Pensei. Que saia justa…
No mês anterior, tinha ido ao programa do Jô divulgar o meu programa ambiental no GNT – “Um mundo pra chamar de seu”. Na ocasião, falei pra todo o país da importância de minimizar a sobrecarga sobre o planeta e dei dicas de como adotar medidas pra reduzir a “pegada de carbono”. Agora, minha coerência estava sendo posta à prova…

– Este é o meu calo, Jô. Incomoda minha consciência, mas não consigo me livrar dele. Sempre tive carros utilitários, robustos, que me fazer sentir poderosa no trânsito de São Paulo.

E o argumento cabal:

– Só veiculos desta envergadura conseguem suportar uma blindagem, sem perder a potência. Confesso que o medo da violência é maior do que o meu desapego.

Ele pareceu convencido, o que não diminuiu meu constrangimento.

Em casa, desabafei com meu marido:

-Amor, vou trocar o carro. Não posso levantar as bandeiras ambientalistas e acelerar um motor que só roda seis quilômetros e meio a cada litro de gasolina e emite 348 gr de dióxido de carbono por quilômetro. Preciso de um carro flex, movido a etanol, o nosso combustível verde!

-O etanol tem rendimento inferior ao da gasolina. Você vai precisar de mais álcool para percorrer a mesma distância. No cano de descarga , o volume de emissão de CO2 será praticamente o mesmo entre os dois combustíveis.

– Mas se a gente considerar a cadeia produtiva , o etanol é mais eficiente no combate ao aquecimento global. Todo o gás carbônico emitido pelos veículos movidos a álcool é reabsorvido pelas plantações de cana-de-açúcar. Isso reduz em até 70% as emissões do gás. Além disso, o etanol usa o gás carbônico retirado da atmosfera pelas plantas. O petróleo joga na atmosfera o gás carbônico armazenado no solo e não o reabsorve.

– Mas você acabou de comprar este carro. Já perdeu 30% do valor original. Vai jogar mais dinheiro pela janela?

-Então vou converter o motor.

-Aí você perde a garantia. Seja racional. Você já faz a coleta seletiva do lixo aqui em casa, reduziu o consumo de sacolas plásticas, compra alimentos orgânicos e já não come carne vermelha há quase 2 anos; trocou as lâmpadas incandescentes, comprou móveis de madeira certificada e aparelhos elétricos eficientes….não seja radical, porque ninguém aguenta uma ECOCHATA!

– Ecochata, eu? Quer dizer que lutar por uma atmosfera mais limpa é ser ecochata?

O termo ecoou dentro de mim pelos dias seguintes. E me despertou para o risco de cair na armadilha mais comum na vida dos ambientalistas: seguir à risca o manual ecologicamente correto, o que nem sempre resulta em consumo consciente. É preciso bom senso para fazer as escolhas.

Para mitigar a culpa por ter um vilão na garagem, reformei a velha bicicleta, com a qual faço os percursos mais curtos no bairro, como ir à academia, à banca de frutas ou ao parque.

Mas a minha redenção está a caminho. Estou de olho no carro elétrico. Ele tem zero de emissão direta e aproveita as fontes alternativas de geração elétrica. É mais eficiente em termos energéticos, pois se reabastece na frenagem, na descida e não gasta energia em ponto morto. É mais barato, pois não requer sistemas de transmissão e refrigeração sofisticados e dispendiosos. E simplesmente não tem sistema de injeção de combustível, de lubrificação do motor, de escapamento, motor de arranque, catalisador e abafamento de ruído. O motor elétrico custa uma fração de um motor à combustão e seus acessórios. Resolvido o problema da bateria, o carro elétrico custará menos do que os carros convencionais, terá custo de abastecimento muito inferior, desempenho superior em torque e nenhuma emissão de barulho e gases poluentes.

Até parece que sou “expert” na parafernália automobilística, não é? Que nada! Toda esta propriedade ao comentar as vantagens do carro elético vem do trabalho “Carro elétrico, a revolução geopolítica e econômica do século XXI e o desenvolvimento do Brasil”, de Gustavo Antônio Galvão dos Santos, Bruno Galvão dos Santos, Rodrigo Loureiro Medeiros e Roberto Pereira D’Araújo – os dois primeiros, economistas do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social); o terceiro, professor de engenharia da Universidade Federal do Espírito Santo; e o quarto, engenheiro eletricista.

Com um veículo superpoderoso como este – quem sabe?- eu possa vestir uma fantasia de Mulher Maravilha e, a exemplo do que fez o Super Jô Soares com seu jipe retrô, eu consiga pilotar o carro dos meus sonhos, sem culpas, e sem o medo das ameaças que vêm dos céus e da terra!!


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade.

Canto da Cátia: Olheiros para os Ecopontos, também

 

ecoponto

Fiscais disfarçados de morador de rua foram usados pelas subprefeituras da Casa Verde e Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo, para flagrar depósito ilegal de entulho em locais públicos. O resultado de dois dias de ação foi a prisão de seis pessoas e o susto naqueles que agem de forma criminosa, conforme ressaltou o subprefeito Walter Abrahão Filho, da Casa Verde, que conversou com o CBN SP. No mesmo programa, ouvi da Cátia Toffoletto o relato de irregularidades e descaso em ecopontos mantidos pela prefeitura de São Paulo, locais que deveriam servir para o depósito deste material. No entanto, estes ambientes tem se transformado em “lixões” ao ar livre. Talvez esteja na hora de colocar “olheiros” também para verificar porque os administradores municipais não controlam o acesso aos ecopontos.

Ouça a reportagem da Cátia Toffoletto sobre o descaso nos ecopontos

Ouça a entrevista com o subprefeito da Casa Verde sobre a operação de combate ao lixo clandestino

Canto da Cátia: Sala de aula

 

Volta às aulas no JD Helena

A caminho da escola, os alunos do CEU Três Pontes tem à disposição um rico material pedagógico. Lama, móveis destruídos e imóveis alagados alertam para os riscos ambientais que a ação do homem gera. Ensinam que nossa forma de consumo, a maneira como exploramos a terra ou mesmo a falta de respeito das autoridades com populações mais pobres deixam suas marcas no ambiente urbano. Da geografia à história, da ciência à biologia, boa parte das matérias que estudam na sala de aula tem capítulos relacionados ao cenário fotografado pela Cátia Toffoletto, na rua Capachós, onde fica o CEU.


Ouça a reportagem de Cátia Toffoletto sobre a volta às aulas nos bairros atingidos pelas enchentes, na zona leste de São Paulo

Pode parecer irônico, mas a prefeitura teve de construir uma ponte para que os alunos consigam entrar no CEU Três Pontes.

Diesel de cana de açúçar já move motores de ônibus

 

A produção do novo combustível está em fase de teste, é mais simples que de outros biodiesel e o motor reduz em até 9% a poluição no ar.

Motor com diesel de cana de açucar em teste

Por Adamo Bazani

Quem pensa que cana de açúcar só abastece veículos com etanol está enganado. Da cana também pode ser feito diesel para caminhões e ônibus, mais barato que o derivado de petróleo e com vantagens ecológicas.

Quer outra boa notícia ? O que era apenas estudo, passou para a fase de testes. Em parceria com a Amyris Brasil, a Mercedes Benz já testou o biocombustível da cana de açúcar em motor para ônibus. A Amyris é subsidiária da americana Amyris Biotechnologies, especializada em produtos renováveis, que testa tecnologias próprias para a fabricação de combustíveis com maior benefício ambiental para transportes público. Foram investidos no projeto brasileiro mais de 100 milhões de dólares.

A obtenção do biocombustível para os ônibus a partir da cana de açúcar é mais simples e barata do que em relação a outras matérias primas, está escrito nos estudos apresentados. A produção é semelhante a do etanol. Mas no processo de fermentação da cana, através da introdução de levedura geneticamente alterada, é possível obter óleo do caldo da cana. Este óleo, derivado do processo de fermentação com a levedura, é submetido a tratamento químico, criando estrutura molecular de hidrocarbonetos, que é semelhante a do derivado do petróleo. Assim, é possível aproveitar toda a cana de açúcar, tanto para o álcool (etanol) como para o diesel.

Essa estrutura molecular é a farneceno, que possui 12 átomos de carbono, com as características do diesel, mas sem misturas agressivas à saúde e ao meio ambiente, como com o enxofre. A fumaça emitida é renovável, ou seja, é absorvida pela vegetação no processo de fotossíntese.

É possível produzir o diesel da cana nas mesmas usinas em que há produção de açúcar ou álcool, basta mudar a levedura usada na fermentação.

Os testes até agora, segundo a Mercedes Benz, foram satisfatórios. Num tanque de ônibus foram colocados 90% de diesel comercial comum (S 50) e 10% do diesel da cana de açúcar. A proporção do combustível limpo parece ser pequena, mas a montadora explica que foi o suficiente para reduzir em até 9% das emissões de materiais particulados na atmosfera.

Ainda de acordo com a Mercedes Benz, o desempenho dos motores com o diesel da cana é exatamente o mesmo dos abastecidos somente com o diesel comum. Não foram detectadas quaisquer diferenças de desempenho quando os dois tipos de abastecimento foram comparados.

A vantagem é que qualquer motor a diesel pode receber o combustível novo, sem a alteração das características de fábrica ou mudanças na frota. Além disso, os custos totais de abastecimento da frota são reduzidos com a mistura.

A intenção agora é ampliar os estudos para aumentar a proporção do diesel de cana de açúcar na mistura e reduzir ainda mais os custos com combustível e os índices de poluição.

Adamo Bazani é jornalista da CBN, busólogo e escreve às terças no Blog do Mílton Jung, sempre com a expectativa de andar em ônibus menos poluentes.

Debate sobre o uso da sacolinha plástica

 

Proibir o uso das sacolas plásticas não é solução, é preciso mudar a forma de consumo. Este é o resumo da conversa que tivemos com a consultora ambiental Patrícia Blauth, da Menos Lixo, e Francisco de Assis Esmeraldo, presidente da Plastivida – Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos. Ambos concordaram com o veto do prefeito Gilberto Kassab (DEM) ao projeto de lei aprovado na Câmara Municipal de São Paulo que obrigaria empresas a substituir os sacos plásticos por embalagens reutilizáveis ou confeccionadas com materiais de fontes renováveis ou recicláveis.

Francisco de Assis Esmeraldo que representa o instituto criado para defender os interesses dos fabricantes de plástico disse que a prefeitura deveria investir em campanhas para promover a mudança de hábito do cidadão. Enquanto isso, Patrícia Blauth defende a ideia de que o comércio torne explícito o custo destes sacos plásticos cobrando do consumidor ou oferecendo desconto a quem abrir mão do seu uso.


Acompanhe aqui o debate sobre as sacolas plásticas que foi ao ar no CBN SP

Propus o debate pelo Twitter com base na notícia publicada no jornal Valor Econômico e reproduzida no Blog com o título “Kassab atende indústria e veta proibição de saco plástico”. Alguns dos comentários que chegaram:

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