Lago morto, peixe posto na panela

 

Peixe morto na República

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Nesta quarta-feira, 24, a Prefeitura deu  início à remoção dos peixes e tartarugas do lago que está secando na Praça da República. À tarde, moradores de rua disputaram entre si, com unhas e dentes, cerca de 50 carpas, retiradas sem vida da água esverdeada e malcheirosa, segundo testemunhas. Os peixes foram encontrados dentro de dois sacos na praça, ao lado de um banheiro abadonado.

Também foi retirado muito lixo do lago: pneu, carcaça  de geladeira, guarda – chuvas e dezenas de camisinhas / preservativos.

Escravo da rua

 

Morador de rua

Os quilombolas eram escravos que fugiram dos engenhos de cana-de-açúcar e se protegiam em vilarejos distantes dos centros urbanos. Aqui, a “história dos quilombolas” protege o morador de rua que foge da realidade dormindo nas calçadas de São Paulo.

O padrastro do Deus Mercúrio

 

Vulgão adotou a estátua

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão, quando sentia solidão no Carandiru, sempre vinha à sua mente adotar uma criança abandonada. O tempo passou, ganhou a liberdade, tornou-se morador de rua e adotou uma estátua na Praça da República, onde vive há 15 anos. Toda noite, antes de dormir, afaga a cabeça da escultura “Mercúrio em Repouso”, a quem chama de meu filho e/ou Neguinho. Ele discorre sobre seu passado:

“Sou filho da Zona Leste. A minha família é do Carrão… Ninguém está livre de fracassos. Certas coisas dependem do tempo… Agora vai ficar me interrogando? Aí vou ter que interrogar o tempo, e hoje não estou com cabeça. Sou Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão. Aqui na praça ocupo meu tempo com o Neguinho. De vez em quando dou uma ensaboada nele com flanela e água. Pelo menos faço isso… Tem gente que não cuida de nada. Aos que me chamam de louco, eu pergunto: o que é loucura? Vamos falar de coisas alegres. Se é para falar de coisas tristes, os maltrapilhos estão todos no centro da praça, pitando pedra. Vamos falar de samba e mulher. Não bebo, nem puxo fumo. Isso não é uma grande coisa para quem mora na República? Minha ex-namorada era linda… uma morenona. Mas eu era um cafagestão. Até hoje não consigo entender porque tem mulher que se liga nesse tipo de homem. O que eu fazia? Eu falava que amava ela, pedia perdão pelos erros e de repente desaparecia. Ela ficava louca. Depois de um mês, eu chegava de mansinho: ô nega, você tá brava comigo? Ela se derretia, se amarrava na minha. Por Deus, ela não merecia. Quando eu estava no Carandiru, minha avó Rosária – ela já morreu e está enterrada no cemitério Carrão/Vila Formosa – ia me visitar todos os domingos. Levava macarronada, dava conselhos: ‘Negão, todo mundo gosta de você, toma jeito, sai dessa vida Negão. Vai ganhar a vida honestamente. Você tem ginga. Por que você não vira político?’ Se eu tivesse seguido os conselhos da velha, hoje eu estaria rico… No Natal não vai dar, mas no Carnaval vou procurar minha irmã, meu tio… Também vou na escola do seu Nenê. Duvido que exista ‘morochas’ mais bonitas em outro lugar do que na Zona Leste. O que tem de mestiças! Quando o sol explode, sai de baixo. As mulatas da Nenê dão gosto. As da Leandro também. Só tem mulher pavão”.

Vulgão vive momentos de recaídas e nos últimos dias tem sonhado com a sua irmã Sônia, com quem teve uma infância sofrida.

Canto da Cátia: Superpopulação de rua

 

Morador de Rua, foto Cátia ToffolettoA população de rua aumentou 88% em sete anos, na cidade de São Paulo. Hoje seria 15 mil pessoas vivendo nesta situação, de acordo com o Movimento Nacional da População de Rua. A Associação Viva o Centro calcula que dois mil moradores estejam na região central da capital. A repórter Cátia Toffoletto não precisou andar muito pela região para encontrar estas pessoas e ouvir a reclamação de comerciantes.

Ouça a reportagem da Cátia Toffoletto

Prefeitura nega fechamento de vagas

Conversei com a secretária municipal de Assistência Social Alda Marco Antonio, também vice-prefeita, que nega o fechamento de 700 vagas par atendimento dos moradores de rua. Ela explica que houve uma transferência de vagas para outras regiões. Quanto ao número de pessoas que vivem nestas condições, Alda Marco Antônio disse que nos próximos dias terá em mãos um estudo encomendado para a FIPE. No entanto, ela já identificou mudanças no perfil dos moradores de rua, muitos dos quais não aceitam seguir para os albergues da prefeitura, afirmou.

Ouça o que disse a secretária Alda Marco Antônio


Ex-secretário de Kassab nega fechamento de albergues na gestão dele

(publicado às 19:30)

O vereador Floriano Pesaro (PSDB) nega, através de comentário deixado neste post, que na gestão dele diante da Secretaria Municipal de Assistência Social, na primeira gestão do governo Serra/Kassab, tenha sido fechado algum albergue para atendimeto de moradores de rua. A informação contradiz o que disse a atual secretária Alda Marco Antônio em entrevista ao CBN SP que você ouve no link acima.

Reproduzo aqui a mensagem do vereador tucano, Floriano Pesaro:

Milton,

De 2005 a início de 2008 a Secretaria Municipal de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo reformou 5 albergues e a abriu outros 6 totalmente novos, numa expansão de cerca de 2 mil vagas. A rede de proteção social para população de rua na cidade contava com 40 albergues, 7 núcleos de serviços e convivência, 9 repúblicas, 4 hotéis sociais, 1 restaurante comunitário, 6 núcleos de inserção produtiva e 1 bagageiro. Nenhum albergue foi fechado durante esse período. Muito pelo contrário: ampliamos e modernizamos a rede. São Paulo recebe, historicamente, 1000 novos moradores de rua por ano, e, sabemos que este trabalho requer persistência. Pautamos a gestão da assistência social pelo respeito e diálogo com as organizações sociais e movimentos organizados da população em situação de rua.

Floriano Pesaro

Meu lar é o banheiro

 

Morador de banheiro

Por Devanir Amâncio

Se não é humano morar em um banheiro público abandonado, no Vale do Anhangabaú, a 50 metros da Secretaria Municipal de Bem-Estar Social, sobrevivência e criatividade se equilibram. Mulheres grávidas, crianças, adolescentes e outros visitantes dividem o teto. No entorno do maior chafariz da cidade – coberto de lodo – homens descamisados que lembram os simpáticos caiçaras de Ilha Bela. Ao lado do banheiro, latas sobre pedras e fogo; panelinhas de ferro e pedaços de madeira queimados se misturam a bananas assadas. Um cachorro meio amarelado come o tempo todo um punhado de comida: um mexido de feijão de corda, farinha de mandioca, jiló e ovo. A atração fica por conta de um tapume grafitado, muito bonito, cercando o espaço. É admirado por quem passa e pergunta: “o que tem lá dentro?”.

Nicomedes e Sérgio são personagens da nossa cidade

 

Sérgio Vaz na Época

Uma dupla satisfação neste fim de semana. Duas das pessoas que admiro pela forma como encaram a vida e pelo tanto que influenciam a dos outros (para o bem) foram destaque na mídia. Sérgio Vaz que teve seu nome apresentado na seleção dos 100 brasileiros mais influentes em 2009, pela revista Época. E Sebastião Nicomedes que conta a reconstrução de sua história na revista Mente Aberta.

De Vaz, criador e criatura da Cooperifa, lembro que aqui esteve inúmeras vezes com seus textos e provocações. Na Época, foi apresentado pela escritora e professora da faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro Heloísa Buarque de Holanda:

Sergio nasceu, foi criado e vive em Taboão da Serra, na Zona Sul de São Paulo, onde bem cedo descobriu o potencial político da palavra. poeta e leitor apaixonado, ele viu que, além de prazeroso, o trabalho com a poesia poderia ser um fator de transformação social. Sérgio pôs mãos à obra e criou a Cooperifa, um dos mais fascinantes laboratórios de tecnologia social de que temos notícia”.

Em meio ao entusiasmo que dá o tom na Cooperifa, descobre-se a palavra como poder, o livro como carta de alforria, o sarau como quilombo. Não se volta para casa incólume quando se assiste a um sarau na Cooperifa. Isso é Sérgio Vaz.

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De Tião, que morou na rua, tive o prazer de conhecer em entrevistas ao CBN São Paulo, primeiro, e com textos que encaminhava por e-mail para publicação no Blog, depois. Em Mentes Abertas, o jornalista Paulo Gratão, traça a caminhada dele desde que nasceu em Assis, a queda de um prédio em obras que o levou ao abandono, a fome que teve de enfrentar e a forma como se ergueu na arte e no aprendizado:

Entramos em uma sala, onde algumas pessoas manuseavam tinta, papel, latas e outros objetos descartados pela sociedade. Tião nos recebeu e pediu que aguardássemos, com uma seriedade de professor, enquanto mantinha a atenção voltada a um brinquedo que era construído por um de seus alunos. Todas as obras surgiram das mãos que víamos ao nosso redor. Mãos calejadas que todos os dias matam leões de fome, miséria e preconceito. Mãos que abatem as lágrimas que rolam quando a necessidade grita. Mãos que constroem a miniatura do Pátio do Colégio com jornais velhos.

Tião nos olhou com um largo sorriso e chamou-nos para o salão vazio à frente, com uma janela de fundo que vez ou outra mostrava o trem e seu evidente barulho, interrompendo a conversa, mas contribuindo para revelar muita coisa que era dita no silêncio

Tião e Sérgio são daquelas pessoas que nos ajudam sempre a acreditar que vale a pena investir no ser humano.

Crack: A situação está fora de controle

 

Por Sebastião Nicomedes
Autor do livro Marvadas, ex-morador de rua

Praça da República

Em um único dia, acompanhando o infernal mundo do crack e seus efeitos sobre a população de rua. Inacreditável, contei 35 brigas, parte em discussões verbais, parte em agressões físicas. Brigas fortes, algumas de tirar sangue. É preocupante, pelo menos metade delas podia ter chegado ao homicídio. O que seria, indiscutivelmente, mais um massacre.

Quando a cidade fecha pelas ruas do centro, aos fins de semana, em plena luz do dia, insurgem em estado de zumbis, completamente transformados e transtornados .Principalmente na região da Luz, mas não é só.

O que outrora era termo pejorativo agora é fato, realmente a Cracolândia existe, hoje espalhada pelo país afora.

Está tudo fora de controle.

A incidência do vício entre os moradores de rua, é disparadamente maior, o grau de vulnerabilidade da rua não pode mais ser considerado médio como se faz nas conferências municipal, estadual e, principalmente, nacional de assistência social.

A segurança pública falhou, mas é também um caso de saúde. No caso dos moradores de rua, é resultante das falhas de tudo, de todas as políticas existentes e até da falta de afeto. O ponto alto porém é a falta de perspectivas.

Na caminhada que fiz entre os craqueiros, encontrei pessoas amigas, muita gente que reconhecemos e tantas outras que nos conhecem. O motivo, o mesmo, perderam as esperanças na vida, não aguentam mais discussões e debates e ações paliativas vadevindas de todas as partes.

Poder público, movimentos sociais, defensores de direitos humanos, polícia, guarda municipal, a sociedade num todo. Tem que mudar os modos de discutir os problemas, as questões, debate por debate, troca de ofensas, acusações e desmentidos, não funcionam mais. As pessoas estão cansadas, os moradores de rua estão saturados e não aguentam mais tanto bate rebate.

Essa droga empesteada, ta destruindo o Brasil, ta destruindo o Rio de Janeiro e vai avassalar São Paulo feito um tornado.

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Vida de rico

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Milton e Nego no Jd Europa

O morador de rua, Costinha, mudou da Avenida Paulista para o Jardim Europa. Ele e o cão Nego, da raça labrador, estão morando há dois meses na Praça Coração de Maria. Mílton Costa, quando gesticula, lembra o ex-prefeito Jânio Quadros. ”O Nego é um grande companheiro… Seu latido é forte! Este cachorro tem uma grande história… A Paulista já era! Virou rota da pobreza. Lá, cansei de pepepê, pepepê. As pessoas olhavam para mim e dizia: coitadinho! Aqui, os pássaros cantam na madrugada. Entenda bem! O mundo dos ricos é silencioso. Os verdadeiros intelectuais se realizam na observação… A cada dia as palavras estão perdendo a sua inocência, o seu significado… O Nego sente o cheiro de caviar de longe… agora – 20.10.09, 17h – está comendo macarrão especial com peito de peru desfiado… O que ele come ou deixa de comer não interessa. Daqui a pouco vão pensar que vim pra cá atrás de esmola grossa. Vão achar que estou achacando rico. Olha minhas roupas, são todas de marcas! Não peço nada… os ricos chegam discretamente… pobre, pobre ajuda um parente e abre o gogó. Enquanto Costinha discursava, apareceu uma senhora: “senhor, senhor, o senhor gosta de caqui espanhol?”Ele está lendo um livro sobre anatomia humana.

N.E: Mílton, meu Xará, foi coadjuvante de Nego em reportagem que fez parte da série sobre animais de estimação produzida pela Tv Record e apresentada pela jornalista Abigail Costa, que escreve – quando consegue – neste blog. Lá, porém, Nego era chamado de Hans.

Foto-ouvinte: Uma casa no meio do caminho

 

Casa perigosa

Andarilhos usam às margens de uma pista de acesso do Elevado Costa e Silva, o Minhocão, em São Paulo, como moradia. De acordo com o ouvinte-internauta Rodrigo Campos a situação se agravou nos últimos dois meses com o aumento de moradores de rua nesta rampa próximo da rua Sebastião Pereira, ao lado do Largo do Arouche. Apesar de ser local de tráfego intenso e dele próprio ter encaminhado reclamação à Subprefeitura da Sé, até o momento ninguém tomou qualquer atitude, reclama Campos.