Sem palavras para Cony

 

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Ensaio escrever algumas palavras sobre Carlos Heitor Cony desde sábado quando fui informado da morte dele, ocorrida na noite anterior, no Rio de Janeiro. Cony teve o corpo cremado, nesta terçao-feira, e suas cinzas serão levadas para algum local especialmente escolhido por ele e descrito em documento registrado em cartório. Apesar do tempo e de sua passagem, a palavra certa ainda não apareceu. Escrevo uma, deleto. Substituo por outra, desisto. Recomeço. Busco uma palavra para identificá-lo e não encontro. Busca que se iniciou logo que fui convidado pelo Roberto Nonato a falar na rádio CBN, minutos após termos noticiado o falecimento de nosso comentarista.

 

O Arthur Xexéo, que dividiu com Cony o protagonismo do “Liberdade de Expressão”, no ar desde 2001, no Jornal da CBN, e também esteve comigo na conversa com o Nonato, foi direto ao ponto: o Cony era o cara mais culto que conheceu em toda sua vida. A cultura dele realmente era impressionante. Não refugava tema algum que lhe fosse oferecido para comentar no “Liberdade”. Quando muito, pedia para ser o último a falar, como se quisesse antes saber o que pensava seu companheiro de quadro – o que lhe permitiria, se fosse o caso, discordar sem constranger. Assim podia também perceber qual o melhor caminho a percorrer e, especialmente, como dar ao tema, por mais mundano que fosse, uma abordagem histórica.

 

Às vezes arriscávamos, dentro do estúdio, com a equipe do Jornal da CBN, antecipar o que o Cony nos diria sobre determinada notícia. Já estava há tanto tempo no ar com a gente que sabíamos um pouco do que pensava sobre tudo. Mas ele sempre nos surpreendia, seja pelas palavras usadas para se expressar, seja pela história compartilhada, seja pela sinceridade que marcava sua opinião. Uma opinião que não temia rótulos nem patrulha. Oferecida com humor, ironia e deboche, conforme a situação.

 

Lembro que sempre que abordávamos o poder dos bicheiros e o envolvimento deles no crime organizado, Cony preferia se ater a figura do apontador do jogo, que ficava aguardando os apostadores na calçada: um homem bom, inofensivo e amigo, era o que dizia. Ele era assim mesmo: capaz de descrever com romantismo os casos mais escabrosos do noticiário assim como analisava com crueza e sem perdão outros tantos assuntos.

 

Não tinha medo de ser contraditório: falou no “Liberdade”, quando completou 90 anos, que nas festas de aniversário, cantava apenas o “parabéns à você” e se negava a desejar “muito anos de vida”: – Ninguém merece isso, justificou-se. Por outro lado, era categórico ao dizer que, apesar de todos os males da velhice, gostaria de continuar vivo se pudesse escolher.

 

Impressionava-me era a dedicação que tinha com o trabalho. Mesmo aos 91 anos, e diante de dificuldades expostas por doenças que enfrentou nos últimos tempos, não abria mão de sua participação no “Liberdade”. Costumava dizer que estar ao vivo, na rádio, o deixava mais vivo. Declarou em entrevista – que reproduzimos nesta segunda-feira, no Jornal – o orgulho que tinha pela repercussão dos seus comentários na rádio. Logo ele que tem livros que são “campeões de audiência”.

 

Aliás, reescrever “O Beijo da Morte”, ao lado da jornalista Anna Lee, certamente era outro grande motivo para se manter vivo e atento. O livro, sucesso desde que chegou às livrarias em 2003, será relançado em breve com novos capítulos e notas suplementares, além de um novo nome: “Operação Condor”, conforme nos contou em entrevista, nessa segunda-feira, a própria co-autora, ao Jornal da CBN.

 

Cético, provocador, inteligente, contraditório, polêmico, sincero, genuíno, romântico … Temo que qualquer uma dessas e outras palavras que surjam não sejam fidedignas a estatura intelectual e humana do Cony. E talvez por isso minha busca iniciada no sábado não faça o menor sentido. Quem sou eu para querer defini-lo com palavras? Cony falava por si mesmo e seus livros e obras estarão sempre aí à disposição para quem quiser conhecê-lo melhor. Eu não perderia essa oportunidade de jeito nenhum.

 

Conhecer Cony é um privilégio para todos nós, seus leitores e admiradores.

Avalanche Tricolor: entendi o recado, Everson!

 

Avaí 2×2 Grêmio
Brasileiro – Estádio da Ressacada, Florianópolis/SC

 

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Everson Passos aqui embaixo, ao lado do Roberto Nonato, no estúdio da CBN

 

Esta Avalanche não escrevo para você, caro e raro leitor. E tenho certeza de que você entenderá. Também peço encarecidamente aos amigos que reproduzem esta Avalanche em seus blogs dedicados ao Grêmio que poupem seus leitores das minhas palavras, mesmo porque não vou falar do resultado desta noite de domingo. O que falarei aqui é algo muito particular que não gostaria de ver exposto especialmente à sanha intolerante que toma conta da sociedade contemporânea. Mas preciso escrever. Para mim sempre foi a melhor maneira de arrancar a tristeza do coração.

 

Hoje, vou dedicar esta Avalanche a um colorado. Um cara que era capaz de vestir a camisa encarnada (ou estilizada) na alegria e no sofrimento. Nos momentos extremos em que seu time vencia, especialmente quando vencia o meu, ou diante de derrotas copiosas. Ele fazia questão de mostrar-se solidário nesses instantes. Solidário a sua paixão, como muitos de nós torcedores costumamos ser.

 

Falo aqui de Everson Passos, que morreu sexta-feira, dia 27 de outubro, após ter sofrido, há três meses, um derrame cerebral que o tirou a consciência e o desconectou da vida. Foi meu colega na CBN e teimo em acreditar que chegou a trabalhar com o pai lá na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Se não o fez, com certeza conheceu meu pai enquanto atuava como jornalista no Rio Grande do Sul, pois o pai foi nosso assunto em comum em mais de uma oportunidade.

 

Ele falava pouco, resmungava muito, dizia certas verdades e nunca nos deixava ser levado pela ilusão das vitórias. E não falo aqui das coisas do futebol, não. É dá vida mesmo. O Everson tinha os dois pés no chão (a não ser quando estava montado em uma bicicleta) e nos colocava no devido lugar sempre que nos atrevêssemos devanear.

 

Chegava a ser engraçado na maneira de se portar diante dos fatos. Olhava de revesgueio, como costumamos dizer lá no Rio Grande, tinha um ar desconfiado e nas poucas palavras que proferia dizia muito.

 

Ao meu lado apresentou algumas edições do Jornal da CBN quando se revelava ainda mais rigoroso com a leitura dos textos. O mesmo rigor que usava no momento de redigir ou editar as reportagens. Um rigor que não se voltava aos colegas, mas a ele próprio.

 

Foi esse mesmo rigor que fez com que ele decidisse voltar para o Rio Grande do Sul. Deixou a rádio e São Paulo porque acreditava que tinha uma missão muito mais importante: cuidar da mãe que vivia sozinha desde a morte do pai. O destino lhe pregou uma peça. Poucos meses depois de chegar a terra natal sofreu o derrame e a mãe ficou para lhe dar carinho e apaziguá-lo até a morte.

 

E mesmo na morte, Everson não deixou de ser Everson.

 

Ao morrer com apenas 51 anos, sem precisar dizer uma só palavra, nos manda um recado ao estilo dele. Escancara a fragilidade do ser humano e nos faz ver como desperdiçamos nossos momentos com picuinhas, desentendimentos baratos entre amigos, colegas de trabalho, torcedores e mesmo irmãos, pais e mães. É como se estivesse nos dizendo: vai cuidar da sua vida!

 

Valeu, Everson! Anotei o recado.

Avalanche Tricolor: morre em Israel, o homem mais velho do mundo, “irmão-gêmeo do Grêmio”

 

Botafogo 1×0 Grêmio
Brasileiro – Nilton Santos/RJ

 

Diante da decisão gremista de não levar o Brasileiro como prioridade, preservando-se para a Copa do Brasil e a Libertadores, peço licença a você, caro e raro leitor, para abrir mão também de escrever a Avalanche deste domingo. Nesse caso, porém, você perceberá que o titular será substituído por um craque das letras (além de gremista, é lógico). Refiro-me a Airton Gontow que privilegiou este espaço – e desde já o agradeço por este carinho – com o texto que conta a incrível história de um judeu, sobrevivente dos campos de concentração, morto na sexta-feira, que descobriu, quase ao fim da vida, ser gremista ou um “irmão-gêmeo do Grêmio”, como o próprio Airton o identificou.

Por Airton Gontow

 

Yisrael

Yisrael Kristal e a camisa do Imortal em sua homenagem (foto: Bernardo Kopstein Schanz)

 

Faleceu sexta-feira, 12 de agosto, em Israel, o “Homem Mais Velho do Mundo”. Sobrevivente do Holocausto, Yisrael Kristal completaria 114 anos dentro de um mês. Kristal ganhou o certificado da organização Guinness World Records após a morte do japonês Yasutaro Koide, aos 112 anos e 312 dias. “Todos têm o seu próprio destino, não há segredos”, disse ao receber o título.

 

De família judia ortodoxa, Kristal nasceu no vilarejo de Zarnow, na Polônia, em 15 de setembro de 1903. Aos 17 anos, mudou-se para Lodz, também na Polônia, onde sua família abriu uma fábrica de doces. Em 1940, foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz, onde perdeu a mulher e os dois filhos. Após ser resgatado com 37 quilos, mudou-se em 1950 para Israel. Casou-se novamente e passou a viver em Haifa, cidade ao Norte de Israel (a terceira maior do País), onde abriu uma confeitaria.

 

Não gostava muito, como acontece com muitos dos sobreviventes do Holocausto, de falar sobre o período passado nos campos. Mas declarou ao israelense Haretz: “Dois livros poderiam ser escritos sobre um só dia ali”. Sobre como prosseguiu após a grande tragédia, afirmou: “tudo o que nos resta é continuar trabalhando o mais duro que pudermos e reconstruir o que está perdido”.

 

No ano passado, Kristal comemorou, com 100 anos (um século!) de atraso, o seu Bar-Mitzvá, cerimônia judaica que marca a passagem de um garoto para a vida adulta, aos 13 anos. Não tinha vivenciado o importante rito de passagem devido à Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918).

 

Apesar de atento ao mundo atual e de toda a tragédia vivida no passado, Yisrael era crítico do mundo moderno, especialmente da falta de atitude dos jovens. “O mundo piorou. Não gosto da permissividade. Tudo é permitido. Os jovens de antes não eram tão atrevidos como agora. Tinham que pensar sobre uma profissão e sobre como ganhar a vida. Viravam carpinteiros, alfaiates e agora tudo é feito com alta tecnologia. As coisas são fáceis, não exigem esforço e não há o trabalho manual que existia no passado”, disse ao jornal israelense.

 

Um fato curioso. Yisrael Kristal era “irmão-gêmeo” do Grêmio. A descoberta da coincidência das datas foi do jornalista gaúcho Léo Gerchmann. Ao ler as notícias sobre a “longevidade campeã” do senhor Yisrael, depois da morte de Yasutaro Koide, Gerchmann (autor de livros como “Somos Azuis, Pretos e Brancos”, ‘COLIGAY – Tricolor e de todas as cores” e “Viagem à Alma Tricolor em 7 Epopéias”) entrou em contato com Beto Carvalho, diretor de Marketing do Grêmio.

 

A equipe agiu rapidamente. Uma camiseta foi confeccionada e enviada para Israel, onde foi recebida pelo gaúcho Nelson Burd, que vive próximo a Haifa e foi de trem até a casa de Yisrael Kristal. Na época, escreveu Burd: “Foi emocionante. Ele ficou muito feliz. A filha dele, Shula, estava lá também. O Bernardo Kopstein Schanz fez as fotos. Yisrael Kristal não sabia que nós íamos até lá. A filha dele preferiu não contar, pois ele ficaria ansioso, na espera. Ele usa aparelho auditivo, precisou colocá-lo para falar com a gente…Ele ficou muito feliz, surpreso. Contamos sobre o Grêmio, a coincidência, tudo. Ele ficou radiante. A imortal coincidência o comoveu. Na verdade, a todos nós. Ele ria e chorava ao mesmo tempo. Dizia: ‘é o meu aniversário; é a minha data na camisa’”.

 

Assim como o Tricolor Gaúcho, Yisrael agora é Imortal. Kristal que não se quebra! Imortal para seus dois filhos, seus netos e bisnetos. E para todos que viram seu exemplo de vida e de superação.
O Guinness World Record ainda não informou quem será agora declarado “o homem mais velho do mundo”.

 

Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade.

Ecos do carnaval: roteiro de acidentes é lugar-comum no Brasil

 

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Vítimas de acidente são atendidas no Sambódromo (reprodução site CBN)

 

 

Perdão pelo lugar-comum. Sei que poucas coisas são tão antigas quanto a expressão “ecos do carnaval”. Leio e ouço isso desde os tempos em que a mãe pintava um pinico na minha testa e me convencia que era o suficiente para estar fantasiado para o baile de carnaval dos Gondoleiros, clube da zona norte de Porto Alegre do qual meu avô era sócio remido – e reproduzo aqui essa informação pois lembro que na infância imaginava que esta categoria de associado era destinada às famílias nobres e, portanto, tinha orgulho de contar aos amigos.

 

 

O uso da palavra “eco” é uma desculpa que costumamos usar quando queremos voltar a escrever sobre assuntos que parecem esgotados, mas ainda reverberam na nossa cabeça. É o meu caso neste momento.

 

 

Mesmo depois de três semanas seguidas de festa, o carnaval ainda nos oferece subsídios para reflexão, especialmente diante dos acontecimentos no Sambódromo do Rio de Janeiro, onde dois carros alegóricos, da Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca, estiveram envolvidos em acidentes ferindo ao menos 30 pessoas, entre as quais algumas com gravidade.

 

 

Um dos diretores da Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – Elmo José dos Santos comparou os dois acidentes na Marques de Sapucaí a desastres de avião, mas não para revelar a dimensão da tragédia: “Tudo pode acontecer. O avião não cai? O avião não foi feito para cair, mas ele também cai. Então tudo pode acontecer”.

 

 

Infeliz comparação.

 

 

Apesar do clamor popular que acidentes de avião geram, por motivos óbvios, é inegável a seriedade com que os agentes envolvidos – fabricantes, companhias aéreas, engenheiros, pilotos, autoridades entre outros – tratam a questão da prevenção. Atitudes como as que levaram a tragédia da Chapecoense são raras. Se em lugar de desdenhar da gravidade dos acontecimentos no Sambódromo, o dirigente se espelhasse na forma como o setor aéreo atua, provavelmente estaríamos aqui apenas comemorando o título da Portela (aliás, eu nem estaria aqui escrevendo).

 

 

Por coincidência, ao mesmo tempo em que nossos carros alegóricos se envolviam em acidentes, no Rio, o mundo se mostrava escandalizado com a gafe proporcionada pela organização do Oscar, o maior prêmio do cinema internacional.

 

 

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Gafe histórica no Oscal (Reprodução site CBN)

 

 

Apenas para relembrar: os apresentadores Warren Beaty e Faye Dunaway anunciaram “La la land” como melhor produção quando o vencedor na categoria havia sido “Moonlight”. A PwC – PriceWaterhouseCooper, auditoria contratada para a apuração dos votos dos 6.600 jurados do Oscar, assumiu a responsabilidade pelo erro, imediatamente. Um de seus funcionários, no mínimo descuidado, entregou o envelope trocado aos apresentadores, enquanto ainda curtia o resultado de uma selfie com Emma Stone, vencedora na categoria melhor atriz.

 

 

A retratação não foi suficiente para a PwC, uma das empresas de auditoria e consultoria mais conhecidas do mundo, presente em 157 países, cerca de 223 mil colaboradores e receita bruta de US$ 35,9 bilhões, em 2016. Sua história não resistiu ao erro humano e a organização do Oscar cancelou o contrato e a parceria que durava oito décadas. Manchou seu legado.

 

 

Aqui no Brasil, a Liesa premiou as escolas responsáveis pelos carros alegóricos acidentados ao decidir que, neste ano, não haveria rebaixamento para não prejudicar as agremiações. E, sem pestanejar, isentou de culpa o engenheiro Edson Marcos Gaspar de Andrade, que certificou o carro da Paraíso do Tuiuti. Um engenheiro pra toda obra, como destacou em manchete o jornal O Globo, ao constatar que ele tem longa ficha de serviços prestados à Liga e a nove das 12 escolas de samba do grupo principal, no Rio.

 

 

O mais triste é perceber que tanto quanto a expressão “ecos do carnaval”, o comportamento da Liga das Escolas de Samba diante dos acidentes é lugar-comum no Brasil. A maneira leniente com que a Liesa trata o assunto é a mesma que permitiu a morte de 242 jovens na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e causou o maior desastre ambiental que se tem notícia, além de ter matado 19 pessoas e deixado milhares sem abrigo, em Mariana (MG). Infelizmente, não faltariam exemplos se quiséssemos estender essa lista de tragédias. E não nos faltarão no futuro. Ao menos enquanto políticas de segurança e prevenção não se transformarem, estas sim, em lugares-comuns no Brasil.

Conte Sua História de SP: o prédio

 

Por Suely A. Schraner

 

 

A tarde trazia consigo melancolia de pôr-do-sol. Andara o dia todo.
As têmperas latejando. Britadeira batucando do outro lado da rua.
Demolira planos. Rompera ilusões. Nadara em águas revoltas. Nebulosas da memória. Mistura de vinho com Rivotril, as suas sinapses poéticas.

 

Ávidos edifícios o espreitam.

 

Pele de vidro e frita aves. Caleidoscópio lancinante. Lugarzinho inabitável. Áreas descomunais. A planta letal. A vida por um fio é que dá força para amar. Certificar o nada.

 

O desespero a um passo da felicidade.

 

Deu por si e estava diante dela.

 

“Não esperava te encontrar aqui”. “Ah, bem sabe que minha vida é nos cascos”. “Sei, nos sapatos e na cama”. “Andou chorando?”

 

Abaixa os olhos. “Cisco”.

 

Sinto que gostaria de me beijar. “Diga-me, será que desta vez conseguiremos? “O não, nós já temos. Agora, é tentar o sim”.

 

Passam despercebidos.

 

No andar, começara a sentir-se mal. “Você está doente? “Cisco”. Tá brincando! “Sinta o cheiro”. De morte? “Não amole, é cheiro de felicidade”.

 

Embolados. “Sabia que o corpo fala? Ás vezes faz bem ficar doente”. “É a vida chamando a atenção da gente”. Tem o dinheiro?

 

“Daqui dez dias”. “Dez dias não é possível. Até lá…”

 

Saem.

 

O sol se escondera detrás do prédio.

 

Espelhado e colorido.

 

Caleidoscópio onírico. Na planta ou próprio para morar. A vida alucinada. Certificação AQUA- alta qualidade ambiental. Áreas comuns generosas.

 

A felicidade a um passo do desespero.

 


O predio ou Suely Schraner é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Esta história foi reproduzida no CBN SP há dois anos, porém jamais havia sido publicada no blog. Aproveito o aniversário de São Paulo para compartilhar com você

Policial bom é policial inteligente

 

 

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No rádio e no jornal entregue em casa, encontrei números coletados pelo Instituto Datafolha, em pesquisa de opinião encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Cada publicação privilegiou um aspecto diferente do mesmo estudo.

 

 

A CBN chamou atenção para os 57% dos brasileiros que concordam com a máxima que “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, entendem que a polícia não pode ter perdão contra a bandidagem.

 

 

O Globo puxou para a manchete o fato de a maioria dos brasileiros ter medo da polícia: 59% têm receio de ser vítima de violência por parte da Polícia Militar enquanto 53%, da Polícia Civil. Esses percentuais são ainda maiores entre os jovens. Da turma que tem entre 16 e 24 anos, 67% temem a violência da PM e 60%, da Civil.

 

 

Como não ter medo da violência policial, se nós mesmos incentivamos esta violência?

 

 

A percepção do brasileiro sobre a atuação da polícia no Brasil, identificada na pesquisa, sinaliza uma contradição e, ao mesmo tempo, explica o cenário de violência no qual vivemos. A cada dia, em média, nove pessoas são mortas por policiais: 3.345 pessoas em todo o ano de 2015. Os policias são vítimas desta mesma violência: apesar de uma queda em relação a 2014, ainda foram registrados 393 assassinatos de policiais – em serviço e fora do horário de expediente -, no ano passado.

 

 

Este quadro tende a piorar se continuarmos incentivado a polícia a matar como estratégia de segurança pública.

 

 

Defende-se uma polícia violenta contra bandidos, sem que a lei precise ser respeitada, e, imediatamente, passamos a ser vítima deste discurso, pois entregamos à autoridade policial o direito de julgar e aplicar a pena de morte por conta própria. Mas só contra bandidos, lógico!

 

 

Ao propagar esta lógica – e ela está escrita em milhares de comentários nas redes sociais, em emails enviados a este jornalista e no bate papo de gente que se diz do bem – permitimos que o policial aja de forma violenta diante de qualquer atitude suspeita – seja lá o que isso possa significar. E sabemos que, no Brasil, temos os suspeitos preferenciais: preto, pobre e jovem.

 

 

Diante de um policial com esse poder só resta ter medo. E medo não é sinônimo de respeito e confiança. Menos ainda de segurança.

 

 

Em lugar de bandido bom é bandido morto, temos de defender a ideia de que policial bom é policial inteligente. E para isso é preciso oferecer às policias Civil e Militar condições de trabalho, mais tecnologia e informação, além de atuação próxima das comunidades.

 

 

Com inteligência, investiga-se e pune-se mais. Mata-se menos. Morre-se menos ainda.

Tolerância e humildade, por Flávio Gikovate em 14 tuítes

 

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Flávio Gikovate morreu aos 73 anos, nessa quinta-feira. Esteve com a gente na CBN até bem pouco tempo, enquanto a doença permitiu. Fazia um programa inovador dentro de uma emissora que se dedica a transmitir notícias: tornava público seu divã e, a partir dele, atendia a centenas de solicitações de ouvintes, que abriam coração e alma para compartilhar suas angustias.

 

Mesmo internado, no Hospital Albert Einstein, seu conhecimento ainda encontrava espaço para chegar até o público que o admirava, através de seu perfil no Twitter. Nas últimas horas, escreveu em 14 tuítes sobre a intolerância, e eu tomo a liberdade de dividir com você os pensamentos do médico, psiquiatra e colega de rádio CBN.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela

 

 

Tolerantes são os que conseguem se irritar muito pouco com a parte desagradável presente em suas atividades e nas pessoas com quem convivem.

 

Ser tolerante é enorme vantagem, pois lidar bem com quem não nos agrada facilita a vida social e o encontro daqueles que consideramos legais

 

A tolerância tem a ver com a capacidade de respeitar diferenças de pontos de vista e de estilo de vida. Não ser pessoa crítica ajuda muito.

 

Por vezes tem a ver com a humildade: não se achar pessoa tão especial cria condições favoráveis para um convívio diversificado.

 

Muitos se fazem de tolerantes apenas com o intuito de seduzir e cativar seus interlocutores. São falsos e movidos por interesses duvidosos.

 

Pessoas intolerantes sempre passam uma imagem de arrogância e superioridade, de quem se impacienta e se aborrece com as “tolices” que ouve.

 

Não é raro que os mais intolerantes se considerem (e alguns sejam) mais inteligentes e cultos que seus colegas. O sucesso não passa por aí!

 

Uma pessoa humilde de verdade tem ciência de que seu saber é limitado e que a arrogância e altivez intelectual corresponde a um grave engano.

 

Quem é intelectualmente arrogante se acha portador de um saber inquestionável: ao ser contestado, não ouve o interlocutor com real respeito.

 

As pessoas que acham que sabem muito se afastam da “porosidade” psíquica: seus diálogos visam apenas fazer prevalecer seus pontos de vista.

 

A pessoa arrogante não se interessa pelo que o outro diz: ao ouvi-lo, só está se municiando de argumentos para desqualificar seu raciocínio.

 

A humildade corresponde a um estado de alma em que predomina o respeito pelas outras pessoas: pelo modo como vivem, pensam e se comportam.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela.

Conte Sua História de SP: já vivi tantas loucuras na cidade

 

Por Ari Lopes
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Já vivi tantas loucuras na cidade
Quero contar para você
Vi carro mergulhando
Nas águas do Rio Tietê
No rio Pinheiros não foi diferente

 

Ouça o que estou te contando
Vi um corpo
Naquelas águas estava boiando

 

Flagrei uma cena
Que achei muito chata
Um homem e o cachorro
Comendo no mesmo prato

 

Imagina o que aconteceu um dia
Nesse caso fiquei muito assustado
Um homem tirou toda a roupa
Dentro do meu carro ficou pelado

 

Ir atrás de carro suspeito
Até isso eu consegui
A esposa pegou em flagrante
Seu marido com um travesti

 

Em São Paulo já vi de tudo
Até o que não quis
Um corpo cai despedaçado
Na calçada da Avenida São Luis

 

No incêndio do Joelma
Eu estava lá perto vendo
Depois de muitos anos
Só agora isso eu estou escrevendo

 

No edifício do Andraus
Vi tudo acontecer
Gente se jogando por causa do fogo
Sabendo que ia morrer

 

São Paulo que todo dia tem problema
Correria é de rotina
Peço sempre para todos
Que tenham proteção divina

 

No túnel do Anhangabaú
Já vi água até o teto
Vários carros um em cima do outro
Antes não fechou, o túnel estava aberto

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30 da manhã, no programa CBN SP, tem narração de Mílton Jung e sonorização de Cláudio Antonio

A alarmante estatística de jovens assassinados, em Porto Alegre

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Zero Hora publicou, na última segunda-feira,alarmante estatística. Como nem todos leem jornais diariamente,copiei a manchete com seus números assustadores:

 

Homicídios de crianças e adolescentes crescem 61% na Região Metropolitana

 

Na sua página 5, acrescentou que levantamento de ZH e Diário Gaúcho demonstra que, a cada três dias,um jovem com menos de 18 anos é executado. Foram 50 nos cinco primeiros meses deste ano.

 

Tento imaginar quantas famílias ficaram enlutadas em razão dessa verdadeira carnificina,mas não consigo.Na abertura da matéria dos dois jornais da RBS,há outra informação que lembra qual foi a data da primeira vítima do morticínio em 2015: 1° de janeiro. Michael Wesley Cacildo Alves,de 16 anos,foi ainda baleado e,não bastasse isso,atropelado na Avenida Doutor João Dentice,no mal afamado bairro Restinga. As mortes,claro,não param aí.

 

Outro trágico detalhe:pelo menos,notem bem: os números estampados nos dois jornais indicam que 50 crianças e adolescentes morreram só nos primeiros cinco meses do ano. Trata-se de aumento de 6l,2% em relação às 31 vítimas do mesmo período de 2014. A primeira vítima deste ano,Michael Wesley,era estudante,vivia com a mãe e a irmã,sem nunca se envolver com algo ilícito. Morreu por ter cruzado com integrantes de uma gangue da Restinga. Esse bairro é considerado o mais violento da cidade.Imagino que a polícia,por mais que tente impedir a mortandade na região maldita, não consegue e é superada pelos maus elementos. Prova disso é o número de quadrilhas 20 – conforme levantamento da Brigada Militar.Aliás, autoridades tais como os Secretários de Segurança, chefes de polícia,comandantes da BM, valem-se do que chamam de áreas conflagradas visando a sua incapacidade de produzir resultados positivos para acabar com mortes como a de Brenda (exemplo dado pelos jornais da RBS)que perdeu a vida quando ia a caminho de sua casa.É muito triste que as pessoas tenham de morar na perigosa região da Restinga.

 

É uma pena que não haja estatísticas referentes ao número de menores de 18 anos que integram gangues. Esses “meninos”,muitas vezes,juntam-se aos escolados bandidos com o propósito de aprender a assaltar alunos de colégios como o Protásio Alves,onde estudam várias vítimas desses bandidinhos e dos seus “professores”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)