Mundo Corporativo: Luiz Fernando Lucas destaca que a integridade é responsabilidade do indivíduo

No estúdio do Mundo Corporativo com Luiz Fernando Lucas Foto: Priscila Gubiotti

“Esse é o ponto em que as empresas vão começar a se destacar contratando seres humanos mais íntegros no sentido da palavra de mais completos, de mais clareza de quem são”

Luiz Fernando Lucas, advogado

Os dilemas éticos que enfrentamos no cotidiano são nossos e devem ser solucionados por nós. Cabe a cada um fazer suas escolhas diante das diversas situações que enfrenta na sua vida pessoal e profissional. Portanto, você é responsável pelo seu sucesso ou fracasso. Tem de ser pautado por essa premissa, sob o risco de perder o protagonismo e a liberdade. Nada disso, tira a responsabilidade de a empresa construir um ambiente eticamente saudável, mas é preciso entender que na “hora do vamos ver” a decisão é sua. Conversei sobre estes temas com Luiz Fernando Lucas, advogado por formação, especializado no tema da ética por convicção e autor do livro “A Era da Integridade” (Editora Gente). 

“Acredito mesmo que não as empresas, mas nós como seres humanos precisamos cada vez mais voltar aos princípios, as virtudes, aos valores”.

No programa Mundo Corporativo, Luiz Fernando explicou que a integridade é a busca pela plenitude e completude, sendo congruente entre o que se fala, pensa e faz. Essa sintonia é que diferenciará cada vez mais o profissional de seus colegas e concorrentes. De verdade, já diferencia, porque, como dito na epígrafe deste texto, às empresas  estão em busca desses talentos, que deixou de ser apenas a referência para aquele que é inovador, colaborativo ou excepcional na execução da sua tarefa:  

“Estamos indo para um momento no qual mais importante do que os hard ou soft skills são as inner skills, aquelas competências que vêm de dentro,  a sua essência”.  

RHs têm de investir em indicadores de integridade

A despeito da valorização que ética, responsabilidade e integridade têm tido, Luiz Fernando diz que os departamentos de recursos humanos ainda não usam métodos capazes de identificar esses valores nos profissionais que se apresentam como candidatos. Segundo o advogado, há vários instrumentos de avaliação de perfil psicológico e de personalidade, há indicadores financeiros e de resultados, assim como sociais e ambientais, porém ainda são incipientes do de governança corporativa. 

“A proposta é quais indicadores de valores de impacto na sociedade, por exemplo, de saúde do grupo de pessoas que estão não apenas dentro da empresa, mas como que elas estão levando bons exemplos para a sociedade”.  

O autor ressalta que vivemos na “era da integridade”, e estamos vivendo um momento de ampliação da consciência humana e que é possível escolher evoluir como espécie através da integridade e consciência. Destaca a relação entre confiança, valores e felicidade, e a importância de se fazer escolhas éticas e responsáveis diante das novas tecnologias. Além disso, chama atenção para a influência que os ambientes profissionais e pessoais que vivenciamos têm na construção desses relacionamentos éticos e responsáveis:

“Se eu tenho uma conduta ética na minha vida pessoal, eu vou contribuir com aquilo no meu grupo de trabalho e se na minha empresa valoriza-se a cultura de integridade, a ética, os valores de alguma forma, eu vou levar aquilo pro meu seio familiar, para o meu pro meu convívio social. E aqueles aprendizados vão fazer refletir sobre o impacto da minhas ações e das minhas omissões como ser humano na vida”. 

Para uma reflexão mais completa sobre integridade, assista à entrevista com Luiz Fernando Lucas, ao Mundo Corporativo, programa que teve as colaborações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira,  Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Ruy Shiosawa, da Great People, prevê a extinção das empresas

Ruy Shiosavwa em entrevista ao Mundo Corporativo Foto de Priscila Gubiotti

“.. as coisas mais simples provavelmente são as mais efetivas e poderosas. Ou seja, investimento em pessoas não é dinheiro, é investimento do seu tempo como líder, a atenção que você dá para as pessoas”. 

Ruy Shiosawa, Great People

As empresas estão em extinção? A provocação é feita pelo mesmo cara que há dois anos extinguiu a sede da sua empresa para preservar o emprego  das pessoas. Eu estou falando de Ruy Shiosawa, que era CEO da Great Place To Work quando a pandemia chegou e tomou a decisão de se desfazer dos escritórios em comum acordo com os demais profissionais da organização. Atualmente, Ruy está à frente da Great People, que reúne dez empresas que prestam os mais diversos serviços — de consultoria a produção de conhecimento — com a intenção de valorizar as pessoas e impactar a sociedade.

Você deve se perguntar, como alguém que comanda um ecossistema com tantas empresas questiona a existência delas. Esse tem sido o papel de Ruy ao longo de sua jornada profissional. Inspirar as pessoas a repensarem processos e comportamentos. Somente assim é possível desenvolver novas culturas e criar ambientes de trabalho saudáveis. 

“O que que era uma boa empresa? Opa, uma empresa grande, uma empresa segura, estável, que desse uma carreira cheia de degraus … hoje, isso dificilmente alguém fala nesses termos. Então, hoje não importa se a empresa é grande, pequena — aliás, talvez daqui a pouco não tem mais empresa, tem conexão de propósitos, de objetivos com pessoas que podem apoiar o desenvolvimento desse propósito”.

Para este “empreendedor em série”, cuidar da saúde mental dos seus profissionais foi um dos desafios que a pandemia trouxe às empresas e seus líderes. Por que se um colaborador é diagnosticado com burnout isso está ligado à empresa e deixa de ser um problema apenas da pessoa. É responsabilidade da organização criar mecanismos para detectar esses riscos. Foi, aliás, diante da necessidade de criar estratégias capazes de identificar como está a saúde mental da equipe de trabalho, que a Great People criou a Jungle — uma das dez empresas do ecossistema. Uma das soluções desenvolvidas foi, a partir do uso da neurociência, a criação de uma análise, com mais de 200 variáveis, baseada em textos escritos pelos funcionários, que permite antecipar problemas de transtorno ou fragilidade:

“A gente detectou casos de atenção da saúde mental e detectamos casos graves. O fato de ter detectado no momento adequado permitiu que isso fosse encaminhado a um especialista para ser tratar. Agora, imagina você não dá atenção para isso, o que vai acontecer é que uma hora explode uma hora tem uma crise”.

O futuro do trabalho transformou-se em presente com a pandemia, de acordo com Ruy Shiosawa, e uma das discussões que se aceleraram foi o modelo de trabalho que a empresa deve seguir: remoto, presencial ou híbrido. Para ele não existe resposta única porque isso dependerá das pessoas que compõem aquele grupo de trabalho que chamamos de empresa. 

Há realidades diversas e demandas que não são compatíveis, o que pode levar a empresa a perder talentos se não souber conjugar essas diferenças. Alguns têm família e gostariam de ter mais tempo para os filhos, outros preferem ficar na sua casa na praia, onde se sentem mais produtivos e livres, e há quem busque ambientes colaborativos e de aproximação. Os líderes têm de entender que atualmente valoriza-se muito a possibilidade de as pessoas organizarem seu próprio tempo e conciliarem vida pessoal e profissional. Portanto, é preciso flexibilidade.

“E aí qual é o ponto de atenção, como que a gente resolve isso? Liderança! Desenvolver pessoas que gostem de pessoas. E comunicação! Lembrando que comunicação é uma via de mão dupla”.

Diante disso, os métodos de feedback nas empresas ganham importância e precisam ser mais bem desenvolvidos. Chamar o profissional uma ou duas vezes por ano, cumprindo tabela proposta pelo RH, não é suficiente para entender as pessoas e desenvolver os profissionais. De acordo com Ruy, a experiência da Great People, pelo trabalho iniciado no Great Place To Work, comprova que a ferramentas do feedback é uma das mais poderosas para melhorar o ambiente de trabalho. Líderes que ouvem mais seus profissionais, através de feedbacks mais frequentes, conseguem resultados superiores do que aqueles que restringem esse canal de comunicação.

Para conhecer outras estratégias que podem engajar mais os profissionais, desenvolver as pessoas e preservar um ambiente saudável no trabalho, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo com Ruy Shiosawa, CEO da Great People.

Ops, antes de pular para o vídeo: talvez você tenha percebido que em todo o texto não tivemos uma resposta exata para a pergunta inicial sobre a extinção das empresas. Se você quiser uma certeza, sim, em breve, estarão extintas as empresas da forma como são, mantendo hierarquias rígidas, com equipes “presas” dentro de escritórios, sem promover melhores relacionamentos entre os times e líderes afastados dos problemas que impactam seus profissionais.

O Mundo Corporativo tem as colaborações de Priscila Gubiotti, Guilherme Muniz, Renato Barcellos e Bruno Teixeira.

Mundo Corporativo: viés, assédio e desrespeito têm de ser enfrentados para garantir igualdade de gênero nas empresas, defende a advogada Cláudia Securato

“Empresas que tem mais mulheres, e mais mulheres na liderança tem 30% a mais de lucro e têm mais chance de sair de uma crise”.

Cláudia Securato, advogada

“Filha única” de uma família de quatro irmãos, com uma pai “complicado” – seja lá o que isso possa significar -, e sem jamais ter acatado a ideia de que cuidar da casa é coisa de mulher. Cláudia Securato levou à advocacia o legado desse desafio que se impôs em criança. Hoje, lidera um escritório que é predominantemente feminino e se dedica a estudar o tema da igualdade de gênero – ela é sócia do Securato & Abdul Ahad Advogados. Foi esse o foco de seu mestrado de Direito na FGV, em São Paulo, e o assunto da nossa conversa no Mundo Corporativo, da CBN. Que fique claro, Cláudia está à frente de tantas outras causas jurídicas quantas forem possíveis e interessantes, assim como jamais imaginou ser advogada de uma “nota só”. Porém, especialmente depois da maternidade entendeu que havia a necessidade de ajudar às pessoas a se conscientizarem da existência das diferenças de tratamento e da importância de combatê-las: 

“Eu vi mulheres brilhantes desistindo de tudo, desistindo exatamente por sentir as discriminações, por sentir os assédios, por sentir as microagressões, por sentir que não iam conseguir lidar com essa desigualdade”.

O desrespeito não aparece necessariamente no salário que homens e mulheres com funções e responsabilidades iguais recebem. Nesse caso, a folha de pagamento da empresa deixa explícita a desigualdade. A discriminação é menos perceptível no cotidiano do trabalho, no comportamento que as pessoas dedicam, na falta de espaço para a fala da mulher e nas promoções que são realizadas. A maternidade, por exemplo, segue sendo uma barreira para muitas profissionais, especialmente as com menos escolaridade. De acordo com o IBGE, 40% das mulheres com 14 anos ou mais de estudo não têm filhos; enquanto apenas 20% das mulheres com três anos de estudo não têm filhos. A medida que têm mais conhecimento, essas mulheres preferem deixar a maternidade de lado para seguirem crescendo profissionalmente. 

Outro ponto que aflige às mulheres, de acordo com Cláudia, são os assédios sexual e moral, que mesmo coibidos por lei não deixam de se realizar nos ambientes de trabalho. Apesar de haver jurisprudência na punição a esses atos, ela diz que são centenas de juízes e desembargadores que podem dar decisões completamente diferentes conforme a queixa — centenas de juízes e desembargadores homens, faço questão de lembrar, para deixar evidente como os vieses, inconscientes ou não, pesam nessas decisões, em prejuízo às mulheres.

“Sem dúvida, existe viés de gênero e nas decisões judiciais existe inclusive um protocolo de julgamento com perspectiva de gênero que é uma recomendação do CNJ – Conselho Nacional de Justiça para que os juízes magistrados entendam e olhem com outras lentes as questões que envolvem raça, gênero, diversidade religiosa e todas as outras questões que a gente vem tratando por aí. Então, existe sim um movimento para isso, mas também não é uma obrigação. O CNJ recomenda que exista uma tela, um olho para igualdade de gênero e para raça nos julgamentos”.

O Governo Lula apresentou no dia 8 de Maio projeto de lei que reforça o direito a igualdade salarial entre homens e mulheres e pune o empregador com multa equivalente a dez vezes o maior salário desembolsado pelas empresas. Multa que dobra diante da reincidência.  Cláudia, no entanto, alerta: esse valor vai para o cofre da União e não para a mulher discriminada. Mesmo considerando que esse dinheiro deverá ser usado nos programas de amparo ao trabalho, ela defende que parte desse valor beneficie a mulher que foi vítima da desigualdade. A despeito de melhorias que a legislação precisa, Cláudia vê de forma positiva a criação, por exemplo, de um grupo de trabalho no governo, com participação da sociedade civil, que poderá avançar nos aspectos que ainda impedem que a igualdade de gênero se realize.

Alguns números que surgiram na nossa conversa e gostaria de compartilhar com você:

  • O Fórum Econômico Mundial identificou que existe uma diferença salarial entre homens e mulheres de 40%, no mundo;
  • As mulheres levarão 70 anos para alcançar a igualdade salarial, conforme estudo da Universidade de Coimbra com a OIT — a Organização Internacional do Trabalho
  • Um estudo global diz que empresas que têm mais mulheres e mais mulheres na liderança têm 30% a mais de lucro e tem mais chance de sair de uma crise (sim, eu já escrevi isso lá no alto, mas repito para não esquecer)
  • E se nada disso o convence da necessidade de juntos lutarmos por essa igualdade, pense no dinheiro que seu negócio está perdendo: mulheres são 54% da força de trabalho no Brasil e são grandes consumidoras;

Algumas dicas de como eu e você podemos participar desta transformação:

  • Olhe as pessoas que estão trabalhando com você
  • Entenda o sentimento delas no ambiente de trabalho
  • Exercite a escuta ativa (talvez você não tenha percebido, mas há microagressões se realizando aí na sua empresa)
  • Conscientize-se da necessidade de mudar este cenário

“Endereçar o tema! Eu acho que a conscientização é mais importante. A pessoa que está preocupada com isso, ela tem muito mais chance de acertar do que a pessoa que tá achando que isso é desnecessário, que a gente já tá em 2023 e não precisa mais falar disso, que as mulheres já chegaram lá. Não é verdade!”

Para saber mais, assista agora à entrevista completa do Mundo Corporativo que tem as participações do Renato Barcellos, do Bruno Teixeira, da Priscila Gubiotti e do Rafael Furugen:

Mundo Corporativo: Mell Azevedo, da i-Cherry, analisa dados e enxerga pessoas

Bastidores da entrevista online com Mell Azevedo. Foto de Pricila Gubiotti

“Essencial é fazer as perguntas certas. Olhar para os dados — antes de querer uma resposta pronta, é o que eu quero saber sobre o meu consumidor”

Mellina Azevedo, i-Cherry

Ao acessar este texto, você deixou sua digital. Em algum lugar, plataforma ou ambiente que tenha passado, seu comportamento foi registrado. O caminho que fez para nos encontrar por aqui, o tempo que permaneceu e a porta de saída que usou para deixar este espaço, oferecem informações que ajudam a entender o seu comportamento. Isso acontece sempre que você passa pela rede social, entra em um site ou usa um aplicativo. 

A quantidade de dados que a sociedade contemporânea gera é incalculável. Ops, parece que conseguem calcular sim, ao menos foi o que fez o professor Martin Hilbert, da Universidade do Sul da Califórnia, que diz ter chegado ao incrível número de 295 exabytes de informação. Era o ano de 2007 quando ele apresentou esse estudo, o WhatsApp ainda não havia chegado entre nós, o que nos faz pensar que o volume de dados atualmente é ainda muito maior (o fenômeno e os riscos que isso tudo gera estão descritos lá no meu livro Escute, expresse e fale!).

Administrar todas as informações e entregar produtos e serviços que atendam a expectativa e necessidade do consumidor é uma das funções da i-Cherry, empresa que tem como diretora de operações Mellina Azevedo, entrevistada do programa Mundo Corporativo, da CBN. A despeito dela viver “mergulhada” nos registros deixados por onde os consumidores passam, Mell (é como ela prefere ser chamada) faz questão de ressaltar que o negócio da i-Cherry são as pessoas:

“Quando a gente fala de dados, a gente está falando de pessoas. E pessoas são únicas, comportamentos são únicos, necessidades são únicas. Obviamente quando eu estou gerenciando uma estratégia de mídia, uma estratégia de SEO para uma marca, eu não estou observando o comportamento individualizado, mas eu estou observando o comportamento agrupado de pessoas que demonstram interesses, capacidades e necessidades em comum”.

A i-Cherry, da qual Mell faz parte, se apresenta como uma martech, nome que une “marketing” e “tecnologia”, e tem sido usado para definir as agências que cuidam de tudo que envolve o comportamento digital e a interação das marcas com os consumidores online. É uma forma de colocar a tecnologia à serviço do marketing através de plataformas digitais e inteligência estratégica. 

Apesar dos termos “digital”, “virtual” ou “artificial” fazerem parte do dia a dia de Mell Azevedo, voltamos a lembrar: é de pessoas que ela está falando. E para as pessoas que estão à frente de pequenas empresas e negócios, nossa convidada sugere que estes empreendedores se aprofundem um pouco mais nas informações que os clientes deixam nos diferentes canais de contato com a marca: Facebook, Instagram, WhatsApp ou Twitter, por exemplo, oferecem um retorno de informação a respeito do consumidor. Todas essas plataformas podem ser gerenciadas no Google Analytics, que é uma ferramenta acessível de análise para monitorar com eficiência o comportamento online e, claro, traçar estratégias sustentáveis — tendo, inclusive, uma versão gratuita. A Mell que sugere é a Mell que alerta: use os dados do cliente para conhecer seu comportamento sempre respeitando a LGPD — Lei Geral de Proteção de Dados.

Deixe-me voltar a relação dados x pessoas! A segunda parte da nossa entrevista seguiu essa trilha para aproveitar outro mérito revelado pela nossa entrevistada: a capacidade de liderar equipes de alta performance. Atualmente, a i-Cherry trabalha no formato “híbrido opcional”, que foi como Mell definiu o modelo implantado na empresa, em que os profissionais podem trabalhar no escritório ou em casa, conforme suas necessidades: 

“As pessoas vêm quando elas querem ou quando elas estão motivadas, quando elas têm um porquê de vir aqui. Vir ao escritório tem a ver com troca de ideias, tem a ver com aprendizagem, tem a ver com fazer com que as coisas aconteçam de forma mais rápida, mas não significa que o online não funciona. Funciona, também!”.

A medida que se tenha uma boa metodologia de trabalho, Mell entende que é possível fazer com que o “olho no olho” digital alcance os resultados esperados. Mais importante do que o meio pelo qual ocorre a interação entre os profissionais da empresa, é fazer com que essa relação seja sincera e transparente e se mantenha a equipe motivada na busca de seus propósitos. Ela ressalta que o online fez com que se ganhasse tempo com a família, uma alimentação mais saudável e uma vida com mais qualidade e, atualmente, ninguém quer abrir mão dessas conquistas.

Antes de discutir o método e os processos usados para que se tenha um time engajado, mesmo à distância, Mell diz que o líder precisa lembrar que as pessoas têm sentimentos:

“Ninguém perde o prazo de um relatório e sente muito pelo relatório ou sente muito por uma planilha que não foi entregue. Mas, provavelmente, se você falhou com o combinado que você tenha feito com um colega, que estava esperando a sua planilha para iniciar um planejamento, isso vai gerar um constrangimento consigo mesmo”.

Os métodos existem para facilitar o acompanhamento e o desenvolvimento das pessoas. Na i-Cherry, são aplicadas, por exemplo, ferramentas de desempenho individual, de feedback, de integração e de grupo focal dentro das equipes para ouvir o que pensam. Mas os recursos digitais não podem tirar a capacidade de o líder ler a equipe e entender o que funciona para cada pessoa:

“Encontrar o sentimento que motiva a equipe é importante”. 

Um dos papeis do líder, de acordo com Mell, é encontrar “pessoas incríveis” porque quando você está rodeado pelos melhores é compelido a oferecer também o seu melhor. E o faz não pela competição mas pelo desejo de pertencer aquele grupo de excelentes profissionais. 

“… e o bom profissional também é caracterizado pela vontade genuína de compartilhar conhecimento”. 

Para aprender mais com esta conversa, assista ao vídeo completo da entrevista que fiz com Mell Azevedo, diretora de processos da i-Cherry, a seguir. Antes, que a nossa equipe de incríveis no Mundo Corporativo tem o Rafael Furugen, o Bruno Teixeira, o Renato Barcellos e a Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: para Adriana Martinelli, da Bett Brasil, o futuro depende da sintonia entre educação e trabalho

Adriana Martinelli em entrevista ao Mundo Corporativo, em foto de Priscila Gubiotti

“A gente tá muito pautado hoje em dia para construir esses novos futuros em posturas diferenciadas, mas posturas que não vão conseguir fugir de processos de escuta, de processo de empatia e de um trabalho colaborativo”

Adriana Martinelli, Bett Brasil

Em um país em que sites de apostas proliferam e muitas vezes são vistos como a esperança para um futuro melhor de parcela da população — mesmo que isso seja apenas uma ilusão, triste ilusão —, preciso começar este texto fazendo o seguinte esclarecimento: Bett Brasil, nome da empresa que nossa entrevistada no Mundo Corporativo representa, é “bett” mas não tem nada a ver com aposta.  Seu nome remete a origem britânica de uma série global de eventos voltados para o setor educacional que tem versão brasileira e se realiza nesta semana, em São Paulo, com o tema “Educação e trabalho para novos futuros”. Portanto, aqui não falaremos de aposta mas de investimento no futuro. Ou nos futuros, como explica Adriana Martinelli:

“Educação e trabalho para novos futuros indica que existem vários caminhos para que a gente possa chegar lá e não só um. Mas para isso é necessário a conversa, o diálogo para que a gente consiga articular todos esses agentes e desenhar atitudes eficientes e práticas hoje, porque senão a gente nunca vai chegar na realização desse futuro”.

A diretora de conteúdo da Bett Brasil entende que a despeito do futuro que se apresente é preciso voltar a conjugar educação e trabalho, temas que se distanciaram por uma série de preconceitos e prepotências dos mais diversos setores da sociedade. O resultado desse abismo que existe entre os dois mundos é que a falta de engajamento e interesse leva 45% dos jovens a ficarem distantes do trabalho e dos estudos. 

“As pessoas estão saindo formadas das universidades e se deparam com o mundo real diferente do que foi ensinado dentro da sala de aula .. a gente ainda tem uma educação superior muito pautada em teorias, muito pautada no que está no livro; e pouca prática, pouca realidade”. 

Apesar de olharmos o ensino superior até aqui, é preciso esclarecer que a ideia de pensar educação e trabalho em trilhas comuns e não antagônicas precisaria ser considerada desde os primeiros anos das crianças na sala de aula. Não necessariamente ensinando um emprego ou uma atividade, mas preparado-as nas habilidades socioemocionais que se farão essenciais no futuro.

Outro aspecto que deve servir de reflexão aos que se dispõem a pensar na educação é o da ampliação de horizontes para os alunos que geralmente são “preparados” para o vestibular quando há uma quantidade enorme de oportunidades no ensino técnico.

Considerando isso que Adriana Martinelli falou no programa, lembro da conversa que tive com Clarissa Sadock, CEO da AES Brasil, no episódio anterior do Mundo Corporativo. A empresa ao abrir vagas para mulheres em uma usina eólica encontrou candidatas com cursos de pós-graduação e mestrados buscando emprego em funções que exigem o ensino técnico. Isso ocorre em vários setores da economia. No agronegócio, por exemplo, operadores de máquinas conseguem salários bastante superiores a advogados, engenheiros ou arquitetos.

Voltando a entrevista com a Adriana. Um ponto interessante lembrado por ela foi ensinamento de Jacques Delors, economista e político, que apresentou o que entendia ser os quatro pilares da educação, na época em que atuou na Unesco: o aprender a ser; o aprender a conviver; o aprender a conhecer; e o aprender a fazer.  

“Quando a gente começa a entender essa visão mais completa e integral do ser humano, tanto na perspectiva da educação quanto na perspectiva do trabalho, consegue talvez ajustar — eu gosto dessa palavra, principalmente em relação à proposta do novo ensino médio que ela é necessária, ajuste sempre — em relação ao nosso propósito maior”.

Tem muito mais para aprendermos e pensarmos sobre a relação educação, trabalho e futuro na entrevista que você assiste agora com a Adriana Martinelli, da Bett Brasil. 

A Bett Brasil se realiza entre os dias 12 e 19 de maio, no Transamerica ExpoCenter. No site é possível fazer a inscrição e participar gratuitamente de uma série de atividades.

O Mundo Corporativo tem as participações da Priscila Gubiotti, do Rafael Furugen, do Renato Barcellos e do Bruno Teixeira.

Mundo Corporativo: Clarissa Sadock, CEO da AES Brasil, fala de liderança feminina, inovação e gestão de pessoas

Gravação do Mundo Corporativo com Clarissa Sadock, da AES Brasil Foto de Priscilla Gubiotti

“É um grande desafio o CEO não se distanciar da empresa e dos colaboradores”. 

Clarissa Sadock, AES Brasil

Ter pessoas com formações, visões e experiências diversas é essencial para as empresas que entenderam a necessidade de se transformarem na rapidez e consistência que os mercados exigem e o cidadão espera. Talvez por isso que não devesse espantar o fato de uma das principais empresas de energia renovável do país estar sob o comando de uma mulher. A verdade, porém, é que nesse ou em qualquer outro setor da economia brasileira ainda é rara a liderança feminina, especialmente no cargo mais alto da organização.

Desde 2021, Clarissa Sadock é CEO da AES Brasil, empresa que está há mais de 20 anos no pais. Sim, você que é atento às informações logo deve ter percebido que o convite para assumir o cargo surgiu e foi aceito ainda durante a pandemia. Desafio dobrado, portanto, que, de acordo com a executiva foi superado graças a forma ágil com que as equipes se adaptaram aos novos modelos de trabalho.

“É muito interessante como a gente se adaptou a trabalhar remotamente na pandemia com uma certa naturalidade. O time operacional, sem dúvida, teve um desafio maior, porque a gente precisava manter os operadores nos centros de operação e nas usinas”.

Apesar de os resultados terem superado as expectativas, na entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Clarissa ressaltou o quanto foi importante a retomada das atividades presenciais para conversar pessoalmente com os colaboradores já que entende que é o olho no olho que nos leva ao aprendizado. Para ela faz muita falta não apenas comunicar, mas também ouvir o que está acontecendo na vida real.

“Para o CEO é muito importante estar à frente da estratégia, estar determinando o foco das prioridades da companhia, mas a gente precisa saber se aquilo ali tá funcionando, não tá funcionando, e como que a gente mexe nesse barco da melhor forma possível”.

A comunicação é uma das competências que Clarissa considera fundamental para manter as equipes engajadas, ainda mais diante do fato de que parcela dos colaboradores está trabalhando na forma híbrida. Também o é para entender as necessidades dos clientes e construir alianças com concorrentes em defesa do setor energético. Outro pilar destacado pela CEO é o da inovação:

“Nós temos um time de inovação há mais de 20 anos e tem diversos fóruns, seja local seja internacional. A gente se utiliza muito também do conhecimento global da AES Corporation”. 

Inovadora foi a decisão recente da empresa em montar uma equipe apenas de mulheres para operar o Complexo Eólico Tucano, na Bahia. Iniciativa que se repetirá em Cajuína, no Rio Grande do Norte. Clarissa não admite que foi dela a ideia de ter equipes 100% femininas, prefere colocar na conta da política de valorização da diversidade que a empresa vem desenvolvendo há alguns anos que só não teria se concretizado antes porque os times operacionais são altamente qualificados e têm baixo turnover, ou seja, não abriam-se vagas para novos e femininos talentos. 

Os planos de crescimento e expansão que pautam a AES Brasil — um dos muitos desafios apresentados à Clarissa quando ela assumiu a função de CEO — foram determinantes para que novas equipes tivessem de ser preparadas. Uma acordo com o Senai foi fechado para que as candidatas participassem de cursos e atividades de desenvolvimento profissional. Uma das surpresas de Clarissa foi verificar que apesar de ser um curso técnico, muitas mulheres com MBA e mestrado se apresentaram para as vagas, o que permitiu uma qualificação maior da mão de obra.

Assista à entrevista completa com Clarissa Sadock em que falamos também sobre transição energética:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Priscilla Gubiotti.

Mundo Corporativo: Matheus Bombig, da Invenis, conta como funciona uma empresa “sem chefe”

Matheus Bombig em entrevista ao Mundo Corporativo em foto de Priscila Gubiotti

“Nesse modelo, a gente até brinca que ao invés de você ter um chefe, você tem todas as pessoas da startup como chefe, porque todo mundo vai estar olhando a decisão que você eventualmente vai tomar”

Matheus Bombig, Invenis

Em toda a empresa, o assunto na sala do cafezinho é o mesmo: reclamar do chefe. Uns dizem que ele é muito intrometido e outros que ele é omisso; há os que falam da dificuldade dele tomar decisões e os que o criticam por centralizar tudo na sua mesa. Na Invenis, uma startup de tecnologia que atua no campo do direito, o grau de desconformidade chegou a tal ponto que quem reclamava do chefe era o próprio chefe. Isso mesmo! Matheus Bombig, um dos criadores da empresa, identificou sua dificuldade em liderar a equipe que estava iniciando suas atividades e assistia ao crescimento dos negócios e no número de funcionários. Foi quando tomou a decisão de acabar com a figura do chefe e investir em uma gestão descentralizada: 

“Eu sou empreendedor de primeira viagem … eu não sabia muito bem como lidar com isso, então fui ficando um pouco perdido em definir papéis, cargos, o que cobrar, metas do dia a dia … eu percebi que não estava sendo um bom chefe ou um bom Líder naquele momento. E entendi que talvez fosse melhor deixar as atividades na mão das próprias pessoas”.

O modelo que começou de forma improvisada, há dois anos, foi se estruturando a medida que Matheus buscou no mercado outras experiências semelhantes. Apesar de nesse processo haver uma série de rituais que podem ou não serem descentralizados, na Invenis a decisão foi por radicalizar o fim da hierarquia, tarefa que talvez tenha sido possível porque a startup ainda tem poucos profissionais atuando. 

Para Matheus, um dos desafios nesse modelo é o da tomada de decisão, especialmente diante do fim da estrutura piramidal em que o subordinado pede autorização para um líder e o líder tem de analisar e autorizar para que a execução aconteça. No modelo descentralizado, o poder de decisão está nas mãos de cada um e dentro de sua própria área. Um exemplo: quem cuida do comercial toma decisões relativas a área comercial, não pode se meter a escolher o banco em que a empresa terá conta, pois esta é tarefa do financeiro.

Antes de decidir, a pessoa que identificou um problema que exige uma solução vai se aconselhar com os colegas que podem ser impactados pela medida a ser adotada e buscar a experiência daqueles que passaram por situação semelhante. Todos têm o direito de sugerir mudanças e identificar erros. Após a consulta e de internalizar as sugestões e comentários, a decisão é anunciada para a empresa, de forma transparente.

“A gente tem algumas coisas que ainda são um pouco centralizadas. AS metas a gente centraliza, mas centraliza em todas as pessoas. Então, não são sócios que definem a meta. A gente traz uma sugestão e discute isso com o time”.

Perguntado sob o risco de o crescimento da Invenis inviabilizar a descentralização, Matheus recorreu a história de uma empresa holandesa de homecare. A Buurtzorg iniciou-se por iniciativa de um enfermeiro que criou uma equipe de 12 profissionais para atendimento de saúde nas casas. Hoje, são cerca de 12 mil funcionários que se dividem em núcleos de até 12 enfermeiros que tomam decisões soberanas para fazer o atendimento. Para ele, a ideia de criar núcleos dentro da empresa talvez seja a melhor solução para as organizações que comecem a crescer muito.

Apesar das experiências que podem ser encontradas em diversas partes do mundo, Matheus não acredita que este será o futuro das empresas em curto prazo. Entende, porém, ser um modelo mais adequado para lidar com o mundo complexo que vivemos, que exige mudanças rápidas e sem depender de autorizações. Para introduzir o modelo descentralizado não existe uma “receita de bolo”, mas Matheus sugere que se comece a pensar em alguns processos e rituais que existem na organização, usando-os como um laboratório. Conforme houver a adaptação, migra-se o modelo para outros setores.

Assista ao programa Mundo Corporativo com Matheus Bombig, da Invenis:

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscilla Gubiotti.

Mundo Corporativo: Francisco Nogueira e Nina Campos propõem análise e diversão para simplificar as relações na empresa

Francisco e Nina em entrevista no Mundo Corporativo. Foto de Priscila Gubiotti

“O palhaço traz essa verdade do lúdico da leveza das relações e a psicanálise traz a verdade do sujeito essa verdade que vai ser revelada a partir do inconsciente ..”

Francisco Nogueira, psicanalista

O bobo da corte era uma figura comum na corte dos reis e rainhas medievais na Europa. Acredita-se que sua origem remonte ao antigo Egito, onde havia uma classe de pessoas chamadas “bufões sagrados”, que eram responsáveis por entreter os faraós e suas famílias. Durante a Idade Média, os bobos da corte eram contratados pelas cortes reais para entreter os membros da realeza e seus convidados. Tinham, também, uma função social importante. Eram frequentemente os únicos membros da corte que tinham permissão para falar livremente com o rei ou a rainha, sem medo de represálias. Eles eram muitas vezes considerados conselheiros informais e podiam fazer sugestões ou oferecer críticas construtivas que outros membros da corte não se atreveriam a fazer.

Os “reis” corporativos – donos, CEOs e presidentes de empresas – talvez devessem buscar naquela referência do passado uma solução para enfrentar os desafios do presente. É o que se deduz a partir da experiência de Francisco Nogueira e Nina Campos, sócios da consultoria Relações Simplificadas, entrevistados no programa Mundo Corporativo. Ele é psiquiatra e psicanalista, enquanto ela é palhaça, no caso a palhaça Consuelo. Em dupla e na união do conhecimento e da arte de ambos, Francisco e Nina desenvolvem treinamentos em algumas das principais corporações do Brasil:

“Quantas coisas as pessoas gostariam de dizer umas as outras que elas não dizem. O palhaço dá essa licença. Então, quando eu estou de Consuelo em geral a conversa da equipe flui melhor e é mais direta. Todo mundo se sente autorizado de uma forma acolhedora a dizer o que está pensando”

Nina Campos

É verdade que quando o palhaço entra no palco corporativo, muitos o rejeitam porque afinal quem tem tempo a perder com … palhaçadas. Daí a importância de o trabalho ser complementar, tendo o psicanalista para promover o conteúdo e realizar intervenções e o palhaço (no caso a palhaça) para desconstruir as pessoas, com leveza e bom humor.

“Esse trabalho na medida em que traz leveza pode falar coisas que estão circulando na cabeça das pessoas e pode precipitar essa informação, trazer o não dito para a consciência”

Francisco Nogueira

A ideia de criar relações simplificadas, que está no nome da consultoria mantida por eles, é uma alternativa à utopia de se ter relações perfeitas que, diante de toda a complexidade do ambiente corporativo, se torna inalcançável. Porém, não se engane: almejar o simples não é fácil. Exige um desenvolvimento pessoal e uma sofisticação do ser: O problema é que muitas vezes não se percebe que estamos vivendo em lugares de sofrimento, haja vista que boa parte das pessoas que deparam com a pergunta sofre com andam as coisas no ambiente empresarial, a resposta que Francisco e Nina mais ouvem é que está tudo normal.

“A gente está perdendo essa capacidade de investigação do nosso mundo interno. As relações sofrem, as pessoas sofrem, a ansiedade aumenta, a depressão se agrava. E aí começamos a ter problemas muito sérios de saúde mental dentro das organizações. Isso vai impactar a organização, isso vai impactar as pessoas, isso vai impactar produtividade e todo mundo vai sofrer”

Francisco Nogueira

Na combinação de experiências, a despeito de a empresa estar ou não preocupada com a sua saúde mental e com as relações internas, Francisco recomenda que as pessoas façam análise, cuidem do seu mundo interno, porque isso organiza os pensamentos e ajuda a entender melhor o sofrimento do outro e a sair de um padrão de cobrança para um padrão de tolerância. Enquanto isso, Nina sugere que as pessoas divirtam-se:

“Brincar vai trabalhar o pensamento não linear que é o que as empresas mais estão procurando: a capacidade de inovar, a capacidade de criar, que vai fazer com que as nossas relações sejam mais inteiras e leves”.

Nina Campos

Para aprender mais com a experiência da palhaça e do psicanalista, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo:

O Mundo Corporativo tem as participações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Rosângela Angonese vê nas mulheres o antídoto para os líderes tóxicos

Rosângela Angonese. Foto: Priscila Gubiotti

“O líder precisa saber fazer essa escuta e buscar formar um trabalho colaborativo com as pessoas da sua equipe, eu acho que essa é a essência”

Preste atenção como seus colegas chegam ao escritório. Observe o olhar deles e o ânimo que demonstram para iniciar o trabalho. Ouça como se cumprimentam, os comentários que fazem e os diálogos que travam. Aliás, perceba a si mesmo, entenda qual é o seu comportamento no ambiente de trabalho ou meça a sua disposição em sair da cama para iniciar o expediente.  Todos esses aspectos dizem muito sobre como são os líderes da sua empresa, porque é nos colaboradores e profissionais que a forma deles agirem se reflete. Se houver tristeza, olhares sem brilho, baixa autoestima, burburinho de corredor e reclamações na sala do café, tenha certeza, você está diante de uma empresa comandada por líderes tóxicos.

Apostar que os dias desses líderes estão contados é ter muita esperança na sensibilidade dos principais executivos das empresas — aqueles que têm o poder em contratar e demitir. A despeito disso, Rosângela Angonese, especialista em comportamento organizacional, se esforça para demonstrar às empresas o quão deletério é esse modelo de liderança. No programa Mundo Corporativo da CBN, a executiva apresentou algumas das ideias que ela e seu colega Ricardo Neves defendem no livro “O fim da liderança tóxica nas organizações” (Editora Neo21).

Rosângela tem estudado o tema a partir dos movimentos que ocorrem no ambiente organizacional, e quando eu perguntei para ela se já havia sido uma líder tóxica, não titubeou na resposta: sim! E explicou:

“A gente precisa demonstrar as nossas fragilidades e dizer “poxa, eu às vezes ainda sou tóxica assim”, “às vezes ainda eu piso na bola”, “às vezes eu ultrapasso o limite”, mas o o mais legal é quando a gente se dá conta disso, refazer a conversa. Eu acho que isso é uma coisa muito importante”.

Como você leu no primeiro parágrafo, os sinais do tipo de liderança que atua na sua empresa estão expressos no escritório em que você trabalha. O chefe persiste no formato comando e controle e os funcionários absorvem a tese do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Os mais talentosos e corajosos tendem a ir embora e os que ficam carregam no mau humor e desânimo, o que impacta em sua produtividade. Se tudo isso acontece porque esses líderes não mudam suas características ou são mudados pela a empresa? 

“A meu ver, a liderança tóxica, que é aquela que não ouve, também é aquela que não ouve não só as palavras mas não ouve os sinais que estão acontecendo ao seu redor, por exemplo, como que as pessoas estão chegando no trabalho, elas estão trazendo algum problema particular, alguma questão que pode estar interferindo na sua satisfação de estar ali?”.

Os tóxicos não enxergam os sinais nos seus colaboradores nem em si mesmo. Muitos, segundo Rosângela, são incapazes de se perceber dessa forma, de entender que suas emoções estão influenciando na dinâmica e no rendimento da empresa. Apesar disso, a autora acredita que o espaço para esse modelo de liderança está se reduzindo. A começar pela fuga de talentos que tem levado às empresas a abrirem os olhos para a dificuldade em reter esses profissionais mais qualificados. Depois, aqueles que assumem os postos de comando, chegam já entendendo que há um novo comportamento sendo exigido pelas equipes de trabalho. E, finalmente, Rosângela credita às mulheres outro ponto de resistência:

“Um elemento que começa a transformar (o ambiente de trabalho) é a presença de mulheres em postos de liderança. Ela pode vir para o ambiente corporativo liderando, sendo feminina, tendo esse modelo feminino. Eu acho que isso seria um grande ganho para as organizações e para toda essa discussão da transformação do modelo da liderança”.

Aos que tem interesse genuíno de mudar sua forma de agir quando ocupam cargos de chefia, Rosângela sugere que inicie por criar um ambiente colaborativo e entenda que a era do chefe sabe tudo acabou. Ninguém mais consegue ter respostas para todas as questões que surgem ou dominar o conhecimento por completo. Para promover a inovação, as empresas precisam de múltiplos conhecimentos e isto vem de diferentes ideias e pensamentos: 

“O papel do novo líder é cuidar de gente, apoiar as pessoas, mandar menos e ouvir mais, e buscar criar um ambiente de colaboração”.

Para saber mais sobre o livro “O fim das lideranças tóxicas nas empresas” e entender as novas expectativas para as relações de trabalho, assista à entrevista completa com Rosângela Angonese, no Mundo Corporativo:

O Mundo Corporativo tem as participações de Rafael Furugen, Priscila Gubiotti, Letícia Valente e Renato Barcellos.