De comunicação e expressão

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De comunicação e expressão na voz da autora

A linguagem humana está tão distante da original, da linguagem da natureza, da vida, que não surpreende o caos que toma conta de nós. Em todas as áreas. Dentro, assim como fora.

Linguagem pressupõe: herança e lógica da fonte onde nasce, ordem, estratégia, coerência, gesto, ritmo, melodia, e tem que ter um quê de permanência. Mesmo que hoje palavras brotem de provetas, às dúzias, todos os dias, e mesmo que tenhamos dezenas de termos para uma só idéia, a idéia original não pode se perder no processo, senão instala-se o caos ali também.

mancebo rapaz
moço menino
gato bofe
guri mino
pão avião
ficante amigo
amante rapagão
cara mano
chefe irmão
deus homem

A linguagem dos deuses é a mitologia. Nós a esquecemos? abandonamos? As histórias dos mitos são a literatura do espírito, mas estamos interessados na cena inteira? Não, é mais fácil não ver.

focamos no aparente
no imediato
no que já está na rede
e perdemos o cardume dourado
que passa logo ali, do nosso lado

Arremedamos a natureza, de dentro e de fora de nós, de forma tão excepcional, que perdemos a capacidade de distinguir entre o original e o pirata. Em tudo. Padronizamos em nome do tempo; da produtividade.

medimos ideias e sentimentos
com a mesma fita métrica descartável
com que medimos o metro quadrado
de livro encadernado
na prateleira do escritório
empoeirado

No dia em que nos interessarmos em aprender que o vocábulo sociedade é símbolo para um grupo reunido de forma organizada, pelo bem de todos, num espaço/tempo determinado, e que não se refere a uma só parcela desse todo, então começaremos a nos entender. Voltaremos a olhar-nos nos olhos, a dizer o que verdadeiramente sentimos, e, nesse impulso de pura vida, nos voltaremos para a natureza e ouviremos o que ela tem a dizer. Veremos que ali que estão escritas as regras que nos levam a gozar as delícias dos jardins das mesmas: da modernidade, tecnologia, inovação, superação, conforto, beleza, saúde, desenvolvimento de mentes e corpos e etc. As delícias da Ciência e as delícias da Filosofia. A verdadeira religião.

Voltar a compreender essa linguagem, é um caminho para a harmonia. E, se começar é preciso, é também simples; há que andar, dançar, voar, amar, pedalar, plantar, colher, perdoar, aceitar, perseverar, criar, brincar, rir, rir de si mesmo, de guarda baixa, acreditar, deixar-se envolver por mitos; ouvir o que eles têm a dizer.

Tente, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

18 comentários sobre “De comunicação e expressão

  1. AMIGA MARIA LUCIA,
    BOM DIA.
    DOMINGO DE SOL.
    O HOMEM É UM ANIMAL SOCIAL,SOMOS PARTE DE UM NÚCLEO CHAMADO SOCIEDADE,NÃO É POSSÍVEL VIVER LONGE DELE.
    COMO SEMPRE SUA CRÔNICA SOCIAL DE HOJE ESTÁ MUITO BOA.
    BEIJOS
    FARININHA.

  2. Quem tem medo da própria nudez? Do que se sente diante da imagem desvestida?
    Ouvir de si tem um gosto de arrancar a melhor imagem da frente do espelho e olhar só pra o que ele mostra. Não é como escrever, quando ainda é possível retocar, reduzir, melhorar.
    Ouvir, julgar e fazer de conta que aprendeu. Um exercício diário de como ficar invisível na paisagem. Fazer couro com a maioria. Ser normal e evitar o desconforto de ser diferente, o sujeitinho problemático. Que ama, dança, canta, bebe, come e pode sorrir sem medo das rugas ou de abanar um até logo, com as mãos e os braços. Eu.

  3. farina,

    você tem razão, o domingo chegou vestido de domingo!
    Aqui onde moro, de vez em quando o motor de um carro faz coro com o canto da passarinhada que devora bananas no terraço, desde cedo.

    E a gente se encontra aqui, vencendo a corrente de acontecimentos que provocamos, ao longo da vida.

    Obrigada por vir.

    beijo,
    ml

  4. Você,

    todos nós!

    Medo de Virginia Wolf, do wolf itself, e principalmente da própria nudez. De nós, da vida, da felicidade.

    Agora, ouvir, de verdade, com os dois ouvidos acoplados à moringa, aí a porca torce o rabo. Poucos ouvem a voz alheia. Xícaras cheias!

    E, por falar em xícara…

    cheers!
    ml

  5. Malu,

    O absurdo da verdade na musica da minha vida, entra pelos ouvidos doentes e saem pelas bocas sujas. A beleza e a feiúra do meu canto, depende da mente e do coração de quem me ouve. Bem ou mal, meu som entrou na alma de quem ouviu. rsrs

    Beijos e boa semana!

  6. Suely,
    companheira escrivinhadeira,

    escrevi um versinho pra você, mas a nuvem internética disse que eu não li ou escrevi direito o código de segurança e simplesmente comeu o dito cujo, sem me dar a mínima chance.

    Aqui a quietude também impera. Doce e assustadora. Será prenúncio de vendaval?!

    Bom falar com você.

    Beijo,
    ml

  7. beto,

    você sabe que isso é benção de todos os deuses do Olimpo, não sabe? que você é privilegiado! Alguém ouviu e ouve o que você diz? Milagre! porque na verdade agrande maioria está interessada em ouvir e se deliciar com o som da própria voz.

    Falo muito e tenho sempre o ímpeto de me revelar, mas estou treinando para falar cada vez menos, porque entendi que é menos ruim calar do que ser ignorado ou incompreendido não é?

    beijo e obrigada por me ouvir,
    ml

  8. oto,

    com certeza!

    A qualidade da comunicação direcionada não é medida pela emissão, mas pela recepção.

    obrigada por ter passado por aqui.

    beijo,
    ml

  9. Desculpe, discordo de vc Malu,

    Não acredito que vc não prenda e encante através da palavra. Além de dar a palavra, vc puxa a palavra.

    Incompreendidos? Somos até quando simplesmente queremos fazer o bem. Podemos até ser julgados pelo tribunal da língua grande!

    No meu caso, quando necessário, não dispenso o tempero da arrogância.

  10. beto,

    aqui não cabem desculpas. Você só discorda de alguém quando o ouve. Cabem agradecimentos por tuas palavras gentis de incentivo, e um elogio: sabia que ouvidos atentos são qualidade rara no homem?

    E agora chega de rasgação de seda. Vamos à luta que esta é uma segundona recheio de sanduíche de uma fatia de domingo e outra de feriado. Na anterior deixei de pagar as contas e levei multa.

    beijo,
    ml

  11. Li,

    é a dança da vida onde há encontro e desencontro. A gente deveria comemorar os dois, mas fomos treinados a comemorar apenas aquele que nos dá mais prazer.

    Indo na onda, como dá prazer a nós duas, cheers!

    beijo,
    ml

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