Suicídio de Vargas por um pré-adolescente

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Em 24 de agosto de 1954, com 12 anos, já tinha um pré-conceito de Getúlio Vargas. Ao passar férias na fazenda de meu avô, em Paraty, sempre ouvia críticas ao ditador que para enfrentar as tropas paulistas em 32 tinha brutalmente confiscado todos os bens da propriedade – promissora fabricante de aguardente e exportadora de banana e café. Além disso, a atribulada eleição de 50, quando parecia que o Brigadeiro Eduardo Gomes iria ganhar, Vargas, que tinha no currículo dois golpes de Estado e demais arbitrariedades comuns às ditaduras, o acusa de repudiar os votos dos “marmiteiros” e vence. Inclusive com o apoio dos paulistas que, no passado, tinham combatido até a morte o Estado Novo de Getúlio.

 

Foi uma eleição contagiante, até para crianças, tal o barulho dos carros de som, dos jingles e dos exaltados discursos. Era impossível ficar alheio. As cidades ficavam forradas de cartazes, faixas, panfletos e cédulas. Muitas cédulas. Discutia-se política como se falava de futebol. Um clima de tensão e paixão que se prolongou pelos anos seguintes, impulsionada por temas polêmicos como o monopólio do petróleo, corrupção e golpe de Estado. Não dava para passar nas bancas de jornal e não ler as manchetes da Tribuna da Imprensa e da Última Hora. Veio o atentado a Carlos Lacerda com a morte do major Vaz para impulsionar o clima já exaltado. Gregório, o homem de confiança de Vargas foi confirmado tanto como autor intelectual do crime como corrupto. O populismo do Presidente se esvaziava e a oposição crescia a ponto de Getúlio escolher o suicídio como a única saída digna.

 

No dia 24 de agosto não houve aula, mas uma surpreendente troca de posições que nunca mais esquecerei. As cenas de aprovação e até de adoração ao Herói Morto foram marcantes. Na volta à escola a mesma mudança de valores. Lacerda é o demônio, Vargas o santo.

 

Agora, revendo o passado, chego à conclusão que tanto a proximidade do fato quanto o distanciamento são essenciais para uma boa avaliação do episódio histórico.

 

Quanto a Getúlio Vargas, daria o crédito de ter se afastado de Mussolini e se aproximado dos Estados Unidos contra Hitler. Da CLT, da CSN, e da visão industrial, assim como da perspectiva de estadista que possuía. ”O Petróleo é Nosso” foi mais obra do partido de Lacerda, a UDN, tanto que o projeto que firmou o monopólio foi do udenista Aliomar Baleeiro e o primeiro Presidente da Petrobrás foi o também udenista Juracy Magalhães. O mérito de Vargas é a ideia inicial e a assinatura final. Assim como, começo e término de sua atuação política são caracterizados por acertos e desacertos. Ainda assim foi a mais marcante da história moderna do Brasil.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Eduardo Campos e a imprevisibilidade da vida

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A queda de um helicóptero, no litoral paulista, foi a primeira notícia que chegou à redação. No Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, um dos nossos repórteres avisa que o governador Geraldo Alckmin havia abandonado às pressas a cerimônia da qual acabara de participar. Sem confirmação, surge a suspeita: Eduardo Campos estaria envolvido no acidente. Assessores diretos do líder do PSB foram procurados por telefone. Os celulares não atenderam. De Brasília, soube-se que Campos não voava de helicóptero. Era a esperança de que tudo não passaria de boato. A Aeronáutica envia a primeira informação oficial sobre o acidente: não era um helicóptero, era um Cessna, jato executivo, mesmo modelo do usado pelo ex-governador. No local do acidente, nenhuma informação  e repórteres mantidos à distância. No hospital, notícias desencontradas sobre quantas pessoas feridas estavam sendo socorridas. De volta à Brasília: deputados e colegas de partido perplexos já sinalizavam o drama. Havia pessoas chorando e assustadas ao telefone. Todos tentavam saber a verdade. A mãe de Eduardo Campos deixa o compromisso que estava, no prédio do TCU, onde é conselheira. No seu gabinete, pouco tempo depois é vista aos prantos.  O pior cenário se desenhava: Eduardo Campos, 49 anos, estava morto.

 

Eleito duas vezes Governador do Estado de Pernambuco, três vezes deputado federal, deputado estadual, ministro do Governo Lula e candidato à presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, havia transformado-se na maior novidade desta corrida eleitoral ao fechar aliança com Marina Silva, assim que a ideia da criação da Rede Sustentabilidade foi frustrada, no ano passado. Quando todos se voltavam para as estratégias da batalha publicitária que se iniciaria no rádio e na TV e ainda repercutiam sua presença no Jornal Nacional, Campos volta a nos surpreender, agora definitiva e tristemente. Uma tragédia que abortou a jovem carreira de um político que parece ter surgido para viver intensamente, pois teve pressa para ascender, assumiu compromissos e foi protagonista em todas essas etapas. Ninguém perde mais do que sua família, mas se é verdade que sua morte impacta a política e, mais diretamente, a eleição que está em andamento, muito mais nos choca por despejar sobre todos a dura lição da imprevisibilidade da vida.

Gosto pela política

 

Por Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos

 

“O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”. (Albert Einstein)

 

Não vou declarar publicamente meus votos para estas eleições gerais. Um artigo ou crônica não servem para isso. Vou declarar um conjunto de habilidades e qualidades que subsidiem a escolha dos votos para deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente da república. Acredito que as reflexões podem colaborar para afirmar a crença na boa política, levada a sério na perspectiva do bem comum, como já aprendemos com os sábios gregos. Escrevo por intuição e por conta da vivência e convivência de anos na militância política.

 

Meus votos serão ideológicos, marcados por uma posição que enfrenta as desigualdades sociais e a construção de oportunidades para a grande maioria de nossa população. Fazem parte das minhas lutas de militância e ativismo dos direitos humanos. Outros, como eu, votam ideologicamente. Foram e são influenciados por suas histórias de ativistas da política. A maioria da população, no entanto, leva em conta um conjunto de fatores que estão além ou longe da ideologia; são frutos de contextos e de experiências pessoais de favorecimento, de promessas de futuro ou de relações de amizade e cumplicidade.

 

O povo gosta de votar em políticos convincentes e bem articulados. Sabe distinguir os candidatos ingênuos dos “espertos”. Aliás, esperteza, astúcia e coerência são ingredientes que convencem e ajudam a eleger muitos políticos. O povo quer se ver bem representado, enxergando no seu candidato alguém que seja capaz de autodeterminar-se, sem ceder a pressões que o façam mudar de ideia.

 

Como muitos candidatos confundem o eleitor ao se apresentarem fora da especificidade do cargo a que concorrem! Falam que irão fazer, quando sua função será falar e representar. Outros pleiteiam cargos executivos, mas comportam-se como legisladores. Quem define que quer exercer função pública deve saber falar bem, relacionar-se com naturalidade, gostar de pessoas, demonstrar carinho e afeto nas abordagens com o eleitor, manter permanente coerência, ser ético.

 

A política exige posicionamentos, opções e virtudes, permanentemente. Quem se dispõe à vida pública deve entender que a sua vida pessoal e interpessoal, sua experiência e liderança nas organizações, suas condutas pessoais serão avaliadas e confrontadas com as propostas e soluções coletivas que o mesmo apresentar. Por isso mesmo, não é possível separar a pessoa da função e da responsabilidade do cargo que a mesma está disputando.

 

Cada político possui um “capital social”, que é muito importante para construir identidade com seu eleitor. Este capital é fruto das relações com a comunidade, com o partido ou com os seus pares (apoiadores). Muitos chamam este capital de carisma, de marca, de identidade própria ou peculiaridade. O marketing e a propaganda política, quando coerentes com a vida e a atitude dos candidatos, cumprem papel importante para subsidiar as escolhas de nossos votos nesta eleição.

 

Declaro meu gosto pela política porque a política é da nossa essência humana. Também porque ela é decisiva para a promoção da nossa cidadania. Além de votar, luto para que se ampliem as formas de toda sociedade manifestar-se e decidir sobre os rumos de nosso estado e nossa nação, a partir de uma Reforma Política. A democracia exige a superação da alienação política e o engajamento permanente de todos. As políticas públicas e sociais, os nossos direitos e os rumos da economia precisam sempre estar a serviço das pessoas e não dos interesses financeiros ou de grupos que teimam em governar como se governassem para a sua família ou para seus clãs.

Muito tédio, pouco futuro

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Quem sou eu para dar palpite sobre qualquer coisa, ainda mais sobre política. Não sou voltada para ela. Não é o meu ramo. Palpitar, palpito pouco, até porque o som da palavra ‘palpito’ é de torcer o nariz e me lembra ‘dar -ou levar- um pito’, e lembra ‘arrogância’, que sopra um apito e dá pitos, de peito inflado e olhar altivo. Altivo eu acho bonito, mas a tal da arrogância não dá para engolir. Ela é doutora em alguma coisa que ninguém sabe bem o que é, mas dá aula para o palpite, o pito e o escárnio, que acabou de chegar na turma.

 

Mesmo que nos ‘propuséssemos’ -outra para colocar na lista- a criar uma lista das tais palavras, talvez não pudéssemos -essa é bem melhor- publicá-la porque escorregaríamos -essa é divertida- nas normas criadas pelo novo desgoverno autoritário; não ao pé da letra, é claro, porque nada mais é ao pé da letra, neste país. A letra muda ao sabor dos dominantes. Hoje somos divididos, pelo Grande Pai, em Nós e Eles. Inimigos. Nós devendo desprezar Eles. Nós, claro, são os dominantes e seus apoiadores; Eles é o resto, restolho, incluindo esta que vos fala. E assim, atiçando as flamas e apontando as flechas da intolerância e podando o preconceito na forma conveniente, Nós despreza Eles, e vice-versa.

 

Povo para ser dominado e controlado deve estar dividido. Lição Um. Todos os desgovernos autoritários fazem isso, seguindo modelo ultrapassado, embolorado e falido, que ficou tatuado em seus corações-zinhos, como trauma de adolescente rebelde, hoje propulsionado por arrogância e ganância.

 

Não é mais permitido dizer, escrever ou ouvir palavras como Negrinha, por exemplo, como eu era chamada por minha tia, ou Negrão, que eu achava que era o nome dele, um amigo do meu pai. Será que ainda se pode citar o Negrinho do Pastoreio? Será que é permitido pedir uns negrinhos na doceira lá de Porto Alegre?

 

Este atual Desgoverno Federal não é um governo; é um partido político que já está no poder há doze anos -a Era Vargas durou dezesseis, e o Regime Militar, vinte e um- aparelhando a máquina, como dizem, que na verdade quer dizer comprando gente. Sim, comprando pessoas de todas as raças e credos e partidos. O pelo não importa, importa o apoio para que a centopeia desvairada possa dançar como melhor lhe convier.

 

E por falar em Regime Militar, Boi da Cara Preta -será que pode?- até ele aceitou alternância de partidos. Partido Social Democrático, Aliança Renovadora Nacional, por DEZ anos! -oi! o PT já ultrapassou a marca e quer se perpetuar no poder?! -, o Partido Democrático Social, o Movimento Democrático Brasileiro, por cinco anos!, Collor, Itamar, até que Fernando Henrique fechou o ciclo com oito anos de Governo, filiado Partido da Social Democracia Brasileira. Agora, o PT sentou na cadeira do poder e gostou.

 

Ai que tédio!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

A língua certa para não cair da cadeira

 

A história quem contou foi Gaudêncio Torquato em coluna publicada no Estadão de domingo e tem como protagonistas Jânio Quadros e Delfim Neto, que não carecem de apresentações. Na campanha à prefeitura de São Paulo, em 1985, aquela em que Fernando Henrique caiu da cadeira, o candidato Jânio levou Delfim para um dos poucos comícios na periferia e o ex-ministro tascou do alto do palanque: “A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário”. Jânio chamou Delfim no canto e apontou para o público: “Olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu de seu discurso? Ele não sabe o que é processo, não sabe o que é inflação, não sabe o que é déficit e não tem a menor ideia do que seja orçamentário. Da próxima vez, diz assim: a causa da carestia é a roubalheira do governo”.

 

Falar a língua do povo é uma das habilidades necessárias para os políticos de plantão, mas serve também para todos que trabalham em comunicação. No jornalismo, há algum tempo os veículos têm adaptado o discurso ao seu consumidor. Um texto de economia do Valor, por exemplo, jamais deve ser reproduzido na programação de rádio. Estaria se cometendo dois erros: primeiro, no jornal escreve-se para quem lê, enquanto no rádio, para quem ouve; segundo, o leitor do Valor tem mais intimidade com os temas relacionados à economia do que o ouvinte do rádio. Isso significa que quem lê o Valor não ouve rádio? Não. Apenas que o rádio fala para um público mais amplo do que o jornal e o esforço é fazer com que todas as pessoas entendam perfeitamente a mensagem transmitida. Se você é um empresário e precisa se comunicar internamente tem de definir se seu público são os acionistas da empresa ou os peões do chão de fábrica. Mantém-se o conteúdo, mas muda-se a forma.

 

Do artigo dominical de Gaudêncio Torquato, no qual compara a fala de políticos do PT e do PSDB, destaco mais algumas colaborações para quem pretende falar a língua das pessoas. “Desconforto hídrico temporário” deve ser substituído por “seca braba”; “redução compulsória do consumo de energia elétrica” é “corte de energia”; “retracionismo na empregabilidade” significa “desemprego” e “compensação pecuniária às distribuidoras pelo déficit que enfrentam devido ao racionamento” nada mais é do que “aumento de tarifas de energia”. Importante, porém, lembrar que toda mudança na linguagem deve ser coerente com nossa personalidade. Quem passou a vida falando de maneira pernóstica e antiquada não vai convencer ninguém apenas porque convida as pessoas para um “papo reto”.

 


LEIA AQUI O ARTIGO “O PETÊ E O TUCANÊS” DE GAUDÊNCIO TORQUATO NO ESTADÃO

Dos meandros da ação política

 

Por Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos

 

Não somos anjos em voo vindos do céu,
mas pessoas comuns que amam de verdade.
Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro,
pe“ssoas que unidas o mudarão”.
(Gente, de A. Valsiglio/Cheope/Marati).

 

Em uma recente sessão ordinária ocorrida na Câmara de Vereadores de Passo Fundo, ocorreu uma discussão inusitada sobre como fazer política entre os Nobres Edis: por consciência ou por demagogia. Este tema nos oportuniza uma importante reflexão sobre a ação política, da qual todos e todas fazemos parte.

 

Muitos de nós gostaríamos que os políticos fossem anjos. Se assim fosse, estaríamos imunizados de todas as situações e oportunidades que não promovem o bem comum e a prática da bondade. Mas os políticos, assim como cada um de nós, não são anjos e sim humanos, também não perfeitos. A política não é um espaço para a ação de anjos, mas espaço de disputa dos mais diferentes interesses que estão em jogo na sociedade. A disputa destes interesses é legítima, desde que os mesmos estejam sempre bem explicitados, para que todos saibam o que move os políticos quando se propõem a representar os interesses da população.
As contradições no exercício do poder estão sempre presentes nos movimentos que operam a política. Os políticos posicionam-se a partir das conjunturas e contextos de cada momento, das articulações e negociações que são possíveis para aprovar os projetos que estão em pauta, das forças sociais que estão mobilizadas em cada momento histórico. É natural que joguem com seus interesses pessoais, mas é inaceitável, numa democracia, que estes se sobreponham aos interesses coletivos.

 

As agremiações partidárias (partidos) expressam e materializam os projetos de sociedade que estão em disputa nas cidades de nosso país. Estes projetos traduzem-se em propostas concretas de como governar, de como construir as políticas públicas, de como distribuir a renda, de como construir oportunidades de desenvolvimento das nossas cidades e da própria nação. Os interesses pessoais e a defesa de projetos coletivos andam “sempre juntos e misturados” e traduzem-se em diferentes conseqüências. É preciso, no entanto, sempre contemporizar as posições e atitudes pessoais dos políticos com os projetos que os mesmos representam, observadas as circunstâncias e as intencionalidades em que ambas acontecem.

 

Os nossos políticos não representam a si próprios, mas representam interesses em disputa na sociedade. Talvez fosse mesmo melhor sermos governados por anjos, seres sobrenaturais imunes a qualquer interesse mundano. Como não é possível, cabe a cada um e cada uma avaliar o projeto com o qual cada um dos nossos representantes está comprometido. O compromisso com a vida humana, com a sociedade, com o bem comum e com as virtudes é o bem maior que deve ser resguardado, pelos políticos e pela gente.

Pensando Logicamente

 

Por Julio Tannus

 

Conforme diz J. Dewey em Reconstrução na Filosofia: “O juízo é o mais importante na lógica. Porém, o juízo não é, de forma alguma, lógico, é pessoal e psicológico”.

 

 

E eu acrescentaria: muitas vezes o juízo é politico e interesseiro. Um bom exemplo é nossa carga de impostos federais, estaduais e municipais.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung.

Reforma Política de papel

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

Não há mais possibilidade de contornar temas aflitivos que despertam indignação tanto na sociedade quanto na própria classe política. A sucessão de Comissões e adiamentos, legislatura após legislatura, a par do desperdício, impulsiona a sensação de que o desfecho pretendido jamais será alcançado. Se a um ângulo a constante exposição da matéria converteu a Reforma Política numa espécie de redenção ética de cunho salvacionista, a outro é leviano supor que a sua aprovação funcionará como um antídoto capaz de eliminar todas as mazelas públicas que vicejam no país.

 

Neste momento que o debate em torno das eleições de 2014 é tediosamente antecipado, o tema é reaquecido no Parlamento. Ao menos no papel e numa quantidade de entrevistas e artigos que são publicados pelos seus integrantes. No entanto, para que fique nítido para o leitor-eleitor do quanto isto tudo não passa de mera retórica e discurso parlamentar, convém recordar que a primeira Comissão que sistematizou os temas hoje conhecidos pelos (poucos) setores realmente interessados na matéria foi designada em 2 de junho de 1995 em função do Requerimento nº 518, aprovado em 19 de abril daquele mesmo e já longínquo ano.

 

Decorridos dezoito anos, cinco legislaturas e nenhuma audiência pública deliberativa fora de Brasília, é inequívoco que Reforma Política no Brasil não significa somente a necessidade de alteração mas de uma evolução convincente nos mecanismos de acesso e desempenho de mandatos eletivos. A sistemática atual, defasada ética e instrumentalmente, exige recomposição para viabilizar o resgate da Política como uma atividade digna e respeitável mas hoje em desalento.

 

Esta necessidade é inadiável pois infelizmente as relações entre candidatos, partidos e mandatos estão num processo de saturamento que beira a hipertrofia e os parlamentos, em sua maioria, ostentam índices anêmicos de credibilidade. No entanto, conforme apontam estudos e análises, nenhuma das alterações preconizadas pelo Congresso nacional, especialmente aquelas que são mais divulgadas e tidas como as mais relevantes, encerra uma solução definitiva em si mesma. Afinal, é razoável sustentar que há um regime de interdependência entre os itens.

 

Noutro giro, uma modificação integral jamais será executada, seja pelo fato das resistências serem muito sólidas no próprio Congresso Nacional, seja porque algumas propostas são incompatíveis à realidade brasileira e fundamentalmente porque os projetos que tramitam materializam propostas legislativas de status distintos. Dito por outras palavras: não há como deliberar sobre projetos de leis ordinárias e propostas de emenda constitucional simultaneamente sem que isto seja debatido à exaustão. Tanto assim que no tocante à corrupção por exemplo, não há mais como divinizar o eleitor quando as decisões da Justiça Eleitoral comprovam país afora que a passiva é tão praticada quanto a ativa. Porém, nenhuma proposta foi formalizada neste setor.

 

Entretanto, a aprovação do financiamento público de campanhas eleitorais mantido na companhia do bilionário fundo partidário goza de ambiente favorável. Sobre este tema, sem dúvida um dos mais polêmicos e pouco explicados, o interessante será ouvir um congressista convencer que levando-se em conta o modelo de financiamento exclusivamente estatal delineado pelo Parlamento, onde cada brasileiro custará, a princípio, R$ 7,00 por voto, caso aprovado para a eleição seguinte, tomando-se o universo de 140.646.446 eleitores neste país, seriam R$ 984.525.122,00 garantidos para as agremiações agirem “em nome do povo” juntamente com o valor destinado ao Fundo Partidário, o qual, desde a Lei nº 9.096/95, já repassou aos partidos brasileiros via Tribunal Superior Eleitoral mais de R$ 1.759.308.815,61, conforme os números daquela Corte.

 

É certo que a cada legislatura um contingente de respeitáveis e respeitados parlamentares se mobiliza visando uma reação ao sistema. Isto é elogiável. Contudo, somente a participação ativa da sociedade é que determinará alguma mudança positiva apta à qualificação do sistema. Afinal, a geografia dos debates confinou a Reforma Política à Brasília e isto, como se sabe, é um fator impeditivo às reivindicações mais pulsantes da sociedade. O eleitor, destinatário final desta situação, deve ser protagonista. Já dizia o político e jurista Assis Brasil: “O voto deve ser a voz, não o eco”.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor dos livros “Prefeitos de Porto Alegre – Cotidiano e Administração da Capital Gaúcha entre 1889 e 2012” (Editora Verbo Jurídico), “Vereança e Câmaras Municipais – questões legais e constitucionais” (Editora Verbo Jurídico) e “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Partido tem de ser punido por político corrupto, também

 

No noticiário, Demóstenes Torres aparece sempre seguido da informação de que é um senador “sem-partido”, desde que o Dem que o elegeu por mais de uma vez, afastou-o de seus quadros devido às denúncias de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A estratégia tem sido usada por vários partidos políticos quando surgem acusações de irregularidades envolvendo um de seus integrantes. A atitude é uma forma de demonstrar discordância com o comportamento dele, mas não exime o partido da responsabilidade de ter dado legenda para o político. É o que pensa o ouvinte-internauta Milton Pereira que defende a ideia de que os partidos sofram algum tipo de punição para que tenham mais responsabilidade na hora de escolherem seus candidatos nas eleições.

 

Leia o e-mail que ele enviou para milton@cbn.com.br

 

“Existe um assunto que me deixa muito intrigado, pegando o exemplo do caso Demóstenes Torres, me causa indignação saber que ele foi ou será destituído, cassado, expulso do partido e ou da política mas o partido que o elegeu ficará impune.

 

Fico indignado de saber que hoje qualquer partido recebe dinheiro do candidato, faz propaganda com o candidato, ajuda a eleger esse candidato, usa a imagem do candidato para se promover, mas quando esse é eleito e pego em situação “complicada” a única coisa que o partido faz é correr para desvincular o nome do partido do nome do político.

 

Hoje vejo a posição dos partidos como muito cômoda, pois são tantos investigados que praticamente envolve todos os partidos, mas todos continuam isentos da responsabilidade de aceitar na legenda condidatos “honestos”. Até acredito que no passado um partido envolvido com candidato desonesto era penalizado pelo simples fato de ser noticiado o envolvimento. Lembro até de partidos que desapareceram, mas hoje não mais.

 

Não seria interessante que, com o objetivo de diminuir a corrupção e forçar o partido a captar candidatos honestos e também “acompanhar” para que este permaneça honesto, o partido fosse penalizado de alguma forma?

 

Essa punição poderia ser em relação ao tempo na propaganda na TV, ou com a diminuição no recebimento de verbas partidárias, ou sobre a quantidade de cadeiras no plenário, ou até, dependendo da gravidade, a impossibilidade do mesmo apresentar candidatos para determinada região ou eleição. Lógico que a premissa para a pena seria a prova do envolvimento do político com facilitações, desvios de dinheiro, recebimento de propinas, etc.

 

Hoje, vejo uma total falta de “punição declarada” sobre o partido que, em minha opinião, é o primeiro filtro para captar candidatos honestos e interessados em atender aos interesses da população e não aos interesses exclusos dos patrocinadores da sua candidatura. Também não vejo hoje nenhuma iniciativa da mídia para exigir que os partidos respondam sobre o que estão fazendo para evitar candidatos desonestos nas suas legendas.

 

A pergunta que não sai da minha cabeça é: “não está na hora dos partidos que ajudam a eleger candidatos envolvidos com picaretagem também serem responsabilizados?”.

 

Em outros países os partidos têm essa mesma liberdade?

 

Abraços,
Milton Pereira
Empresário em São Bernardo do Campo – SP