Quintanares: Eu faço versos

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A rua dos Cataventos, 1940
Interpretação Milton Ferretti Jung

 

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos…
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

 

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos…
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

 

“Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!”
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
“Que tédio!” o coro dos Amigos clama.

 

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:
“Eu sei chorar… Eu sei sofrer… Só isto!”

 

Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: A mesma ruazinha sossegada

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

 

Para Emilio Kemp

 

É a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora…
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

 

Mas parece que a luz está cansada…
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora…

 

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos…
Mas para quê?… Se não adiantam mais!…

 

Pobres cartazes por aí a fora
Que inda anunciam: — ALEGRIA — RISOS
Depois do Circo já ter ido embora!…

 

 

Quintanares: Nem sabes como foi naquele dia

 

 

Poema de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

XXXII [NEM SABES COMO FOI NAQUELE DIA]

 

XXXII
Para Pedro Wayne

 

Nem sabes como foi naquele dia…
Uma reunião em suma tão vulgar!
Tu caíste em estado de poesia
Quando o Sr. Prefeito ia falar…

 

O mal sagrado! Que remédio havia?!
E como para nunca mais voltar,
Lá te foste na tarde de elegia,
Por essas ruas a perambular.

 

Paraste enfim junto a um salgueiro doente,
Um salgueiro que espiava sobre o rio
A primeira estrelinha… E, longamente,

 

Também ficaste à espera (quanta ânsia!)…
Mas a estrelinha, como um sonho, abriu,
Longe, no céu azul da tua infância!

 

Quintanares foi originalmente ao ar na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980.

Quintanares: É outono. E é Verlaine…o Velho outono

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

XXXI [É OUTONO. E É VERLAINE… O VELHO OUTONO]

É outono. E é Verlaine… O Velho Outono
Ou o Velho Poeta atira-me à janela
Uma das muitas folhas amarelas
De que ele é o dispersivo dono…

E há uns salgueiros a pender de sono
Sobre um fundo de pálida aquarela.
E há (está previsto) este abandono…
Ó velhas rimas! É acabar com elas!

Mas o Outono apanha-as… E, sutil,
Com o rosto a rir-se em rugazinhas mil,
Toca de novo o seu fatal motivo:

Um quê de melancólico e solene
─ E para todo o sempre evocativo ─
Na frauta enferrujada de Verlaine…

Quintanares foi produzido e apresentado, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980

Quintanares: Rechinam meus sapatos rua em fora

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em A Rua dos Cataventos
Narração de Milton Ferretti Jung

 

XXX [RECHINAM MEUS SAPATOS RUA EM FORA]

 

Rechinam meus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!

 

Tinha um surrão todo de penas cheio…
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram… esvoaçaram no ar…

 

Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
“Como é possível sem doutrinação?!”

 

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas
“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem…

 

Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Olha! Eu folheio o nosso livro santo

 

 

De Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

 

Poema XXIX [OLHA! EU FOLHEIO O NOSSO LIVRO SANTO]
Para o Sebastião

 

Olha! Eu folheio o nosso Livro Santo…
Lembras-te? O “Só”! Que vida, aquela vida…
Vivíamos os dois na Torre de Anto…
Torre tão alta… em pleno azul erguida!…

 

O resto, que importava?… E no entretanto
Tu deixaste a leitura interrompida…
E em vão, nos versos que tu lias tanto,
Inda procuro a tua voz perdida…

 

E continuo a ler, nessa ilusão
De que talvez me estejas escutando…
Porém tu dormes… Que dormir profundo!

 

E os pobres versos do Anto lá se vão…
Um por um… como folhas… despencando…
Sobre as águas tristonhas do Outro Mundo…

 

Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Sobre a coberta o lívido marfim

 

 

XXVIII [SOBRE A COBERTA O LÍVIDO MARFIM]
poesia de Mário Quintana
publicada em A Rua Dos Cataventos 1940
interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Sobre a coberta o lívido marfim
Dos meus dedos compridos, amarelos…
Fora, um realejo toca para mim
Valsas antigas, velhos ritornelos.

 

E esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos…
Tão altos sempre… cada vez mais belos!…
Nem D. Quixote teve morte assim…

 

Mas que ouço? Quem será que está chorando?
Se soubésseis o quanto isto me enfada!
eu fico a olhar o céu pela janela…

 

Minh′alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!…

 

O programa Quintanares foi ao ar originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre 

Quintanares: Quando a luz estender a roupa nos telhados

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em A Rua dos Cataventos 1940
Narração de Mílton Jung

 

XXVII

 

Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,

 

Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…

 

E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E

 

Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!

 

Quintanares: Deve haver tanta coisa desabada

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung
Publicado em Nova Antologia Poética

 

XXVI

 

Deve haver tanta coisa desabada
Lá dentro… Mas não sei… É bom ficar
Aqui, bebendo um chope no meu bar…
E tu, deixa-me em paz, Alma Penada!

 

Não quero ouvir essa interior balada…
Saudade… amor… cantigas de ninar…
Sei que lá dentro apenas sopra um ar
De morte… Não, não sei! não sei mais nada!

 

Manchas de sangue inda por lá ficaram,
Em cada sala em que me assassinaram…
Pra que lembrar essa medonha história?

 

Eis-me aqui, recomposto, sem um ai.
Sou o meu próprio Frankenstein – olhai!
O belo monstro ingênuo e sem memória…

Quintanares: Ninguém foi ver se era ou se não era

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos – 1940
Narração de Milton Ferretti Jung

 

XXV [NINGUÉM FOI VER SE ERA OU SE NÃO ERA]

 

Ninguém foi ver se era ou se não era.
E isto aconteceu lá no tempo da Era.
Mas, no teu quarto havia, mesmo, uma Chymera.
De bronze? De verdade? Ora! Que importa?

 

Foi quando Quem Será bateu à tua porta.
“Entre, Senhor, que eu já estava à sua espera…”
(Naquele tempo, amigo, a tua vida era
Como uma pobre borboleta morta!)

 

E Quem Será cumprimentou, falou
De coisas e de coisas e de coisas,
Bonitas umas, tristes outras como loisas…

 

E todo o tempo em que ele nos falou,
A Chymera a cismar: “Como é que Deus deixou
Haver, por trás do Sonho, tantas, tantas coisas?”

 

Quintanares foi apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre