Divertidas histórias do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Mílton deve conhecer, mesmo sem eu as ter relatado aqui, boa parte das histórias de rádio que, volta e meia, posto neste blog, especialmente aquelas nas quais fui um dos personagens. Às vezes, porém, ele pede que conte algumas que, por não me envolverem, talvez o meu filho não saiba. Vou relatar pequenas e até hilariantes historiazinhas.

 

Aí vai a primeira.

 

Rogério Boelke, hoje plantão titular e apresentador da Rádio Guaíba, antes de trabalhar em Porto Alegre, atuou numa emissora pelotense como repórter. Era ainda, que fique claro, um aprendiz ou, em linguagem jornalística, um foca. Certo dia,foi pautado para cobrir o roubo a uma casa. O ladrão havia entrado pelo telhado, espécie de roubo que ficou conhecida por “rififi”. Se é que alguém desconheça, o nome foi dado a esse crime, a partir de um filme francês, “Du Rififi chez les hommes”, dirigido pelo cineasta Jules Dassin e estrelado por Jean Servais. Na película, a assaltada foi uma joalheria. O roubo fictício foi imitado por criminosos ao redor do mundo.

 

Ao chegar ao local do roubo, Boelke imediatamente ligou para o técnico que se encontrava no estúdio, pedindo-lhe que o colocasse no ar porque iria dar um furo nas concorrentes. Autorização recebida, o apresentador do programa chamou o neófito repórter. Esse, alto e bom som, despejou:
– Estamos aqui pra informar que, nessa noite, uma residência foi assaltada. O ladrão entrou pelo telhado, no tipo de roubo chamado de Rin Tin Tin.

 

No estúdio,o apresentador não se conteve:
– Rogério,esse tipo de roubo é chamado de Rififi.

 

Imediatamente, Rogério tentou se recuperar do erro:
– Ah, claro, me atrapalhei. Rin Tin Tin é o cavalo do Zorro!

 

O apresentador, a custo contendo o riso, fez mais uma correção:
– Rogério, o cavalo do Zorro se chama Tornado.

 

Há controvérsias sobre o verdadeiro nome do cavalo, mas o Zorro esteve presente em tantas histórias que bem pode ter trocado de montaria mais de uma vez.

 

Contarei, em uma dessas quintas-feiras, as aventuras de um velho companheiro da Guaíba que passou boa parte de sua vida imitando o Barão de Munchhausen. Para os que não ouviram falar desse cavalheiro, o Barão é claro, terei muito prazer em o apresentar.

 


Milton ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A morte de um repórter cinematográfico

 

Última imagem gravada pelo repórter Gelson Domingos

Filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e casado com jornalista, jornalista que sou sofro quando sei que um colega de profissão foi morto à bala, vítima da troca de tiros entre policiais e bandidos. Gelson Domingos, 46 anos, foi alvo encontrado de um tiro de fuzil durante a cobertura de uma operação da PM contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estava com colete de segurança, insuficiente para impedir a morte.

Um dos meus tios, Tito Tajes, foi repórter em guerra – por favor, parentes de melhor memória, me digam em qual delas. Mesmo sendo uma das pessoas mais queridas por mim, infelizmente nunca conversamos muito sobre as aventuras dele naquela cobertura, mas imagino como difícil deve ser o campo de batalha. Minha mulher, repórter de televisão, apesar de evitar as pautas mais perigosas, invariavelmente se depara com situações complicadas. Às vezes, uma simples gravação de rua a coloca no meio de um assalto ou no caminho de um caso policial. Sem contar que, atualmente, babacas sem causa têm atacado também estes profissionais quando entram ao vivo.

Apesar de alguns anos trabalhando no conforto de um estúdio de TV e rádio – onde vivenciamos outros tipos perigosos -, antes de ser âncora estive na rua, também. Como repórter, porém, poucas vezes tive de me deparar com ações de violência. Lembro de uma perseguição na qual transmiti ao vivo a fuga de bandidos que estavam em três carros com reféns após longa e dura rebelião de presos no Presídio Central de Porto Alegre. Entre o carro de um dos chefes da quadrilha e o da polícia estava o da rádio na qual trabalhava. Deste narrei boa parte do caminho por onde os bandidos passavam. Em nenhum momento eu e motorista levamos em consideração o risco de sermos atingidos por balas disparadas de um lado ou de outro.

No trajeto da notícia nem sempre calculamos o risco real da situação. Verdade extrapolada quando nos referimos aos repórteres cinematográficos e suas câmeras sempre apontando para o alvo mais significativo. Apesar de experientes, são repórteres bem menos valorizados do que aqueles que aparecem diante das câmeras e em algumas emissoras sequer lhes é dado o direito de serem chamados como tal. Mesmo assim, motivados pelo desejo de registrar a melhor história ao público esquecem o medo, as balas e a guerra na qual estão metidos. Transformam-se em vítimas de suas próprias escolhas e do compromisso que assumem ao entrar na profissão, o que em nada exime a responsabilidade das empresas nas quais trabalham, das condições e equipamentos que lhe são oferecidos e do País em que vivemos, no qual guerras diárias são travadas nos morros e favelas expondo não apenas jornalistas, mas cidadãos que aqui sobrevivem.

Jornalismo pragmático esquece o ser humano

 

Joseíldo acabara de chegar da casa da mãe no Nordeste – este ‘país’ que teimamos em não reconhecer e discriminamos. Não teve tempo pra contar aos parentes as notícias da terra natal. Chegou, era noite, talvez tenha beijado a mulher e abraçado os filhos. E morreu. Morreram todos embaixo da lama e dos tijolos do abrigo que haviam conseguido construir com o dinheiro que juntou no trabalho de pedreiro.

Das crianças sobraram fotos gravadas no celular de um dos tios. Havia uma mochila escolar, também. Da família, tristeza, desolação e resignação.

A tragédia foi em Jundiaí, interior de São Paulo, e havia sido descrita pelos repórteres durante o dia. Chamou-me atenção, porém, o relato feito pela jornalista Abigail Costa, que você lê, esporadicamente, neste blog, e reporta as notícias no Jornal da Record (mulher deste blogueiro, também). Foi lá, conversou com amigos e parentes da família, fez questão de conhecer a história de cada uma daquelas pessoas que para maioria de nós é apenas uma estatística, no máximo a garantia de uma manchete no noticiário da noite.

Por tempos fui repórter, também. E, muitas vezes, tive de desenterrar o pé do barro para fechar reportagens no rádio e na TV. Sempre me intrigou a história privada de cada uma daquelas vítimas. Nem sempre tive sensibilidade para descrevê-la. Por isso, valorizo o repórter capaz de entender que há momentos em que a pauta tem de ser cumprida com o coração.

Na reportagem que assisti hoje, não faltou racionalidade na condução da história. Mas o destaque ficou a cargo daquilo que foi percebido pela alma, sem o sensacionalismo comum nestes momentos.

A forma com que a notícia foi contada não impediu, porém, que colegas de profissão reclamassem da cor da bota, do tamanho do anel e da estampa do lenço que encobria o pescoço da repórter. Confesso, as lágrimas não me permitiram ver estes detalhes. Eles viram.

Pensei em silêncio – que se transforma em palavras neste post: o que nos torna tão frio diante de uma tragédia humana a ponto de nos permitir perceber a superficialidade na imagem ?

Preocupa-me o fato de estarmos construindo redações pragmáticas, nas quais a forma se sobrepõe ao conteúdo. Feita de pessoas que buscam a notícia a qualquer preço. Profissionais que transformam a arte de contar histórias em um exercício burocrático. Que escrevem seus textos como se batessem ponto em uma repartição pública caquética.

Aos repórteres ainda dispostos a ouvir sugestões: não se iludam com a falsa ideia da imparcialidade; jamais transformem a isenção em insensibilidade; e nunca deixem de exercer o direito sagrado de se emocionar diante da realidade humana .

A caçamba da discórdia

 

Na caçamba

Estadão e prefeitura discutem há dois dias sobre infração de trânsito gravíssima cometida por Gilberto Kassab (DEM) ao andar, ao lado do Secretário Municipal dos Transportes (e dos Serviços), Alexandre de Moraes, sobre a caçamba de uma picape, em visita no Jardim Pantanal, zona leste de São Paulo. A assessoria do prefeito inventou até uma “autorização especial” que Kassab teria recebido da autoridade de trânsito (no caso, Moraes) para se comportar daquela maneira.

Gilberto Travesso do blog Notinhas de São Miguel, contra-atacou e reproduziu foto na qual repórteres fotográficos e cinegrafistas andavam sobre a caçamba de outra picape para registrar imagens de Kassab na mesma visita.

Faz de conta que o assunto é importante. O fato é que nos dois casos, se houve alguma irregularidade de trânsito, a multa vai para a Defesa Civil, proprietária das picapes usadas pelas equipes do prefeito e dos jornalistas.

Rádio na Era do Blog: Aos jornalistas arrogantes

 

“Os jornalistas terão de perder a sua arrogância e agir com seres humanos. A transição vai ser muito difícil para a maioria. Ainda temos muito a escrever, principalmente para investigar casos de corrupção. A internet treinou as pessoas para que elas recebessem as informações de uma forma social. Os repórteres tem de parar de encarar o seu público como um estorvo. Os jornalistas encaram os e-mails de um leitor como algo chato, principalmente quando endereçados ao editor. É hora de a voz institucional desaparecer. Os jornalistas online tem de encarar o leitor em primeira pessoa e dizer: ‘isto nós sabemos e isto nós não sabemos'”.

Joshua Benton, jornalista e diretor do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, em palestra no MediaOn