Conte Sua História de SP: o cineminha no refeitório da escola e o achocolatado de graça

 

Por Clênio Caldas

 

 

Minha história se passa nos anos de 1950, na rua Dona Júlia, na Vila Mariana, onde se localizava o então Grupo Escolar Marechal Floriano. Ali, estudávamos no curso primário sob a orientação das professoras Maria da Glória, Ana e Júlia. Foram nossas dedicadas mestras, como também educadoras conscientes e responsáveis com os garotos para as quais nossos pais nos entregavam. A classe era somente de meninos. As meninas ficavam em outra ala do prédio.

 

Foram anos tranquilos e proveitosos, prova do alto grau de conceito das escolas estaduais e do quilate dos professores que nos ensinavam com zelo e carinho.

 

Cenas pitorescas, todavia, não deixavam de ocorrer.

 

Houve o garoto que comprou o pirulito e, sem ao menos saboreá-lo, quebrou-o no pátio da escola para ver se a haste estava premiada. Foi advertido pelo rigoroso inspetor Trivino devido o desperdício cometido.

 

Lembro de alunos em pranto ao fim da aula por não notarem a presença dos pais que, atrasados, demoravam a aparecer.

 

Tinha o medo generalizado da molecada nos dias em que todos passávamos pela “revisão dentária” na temida e apavorante cadeira do dentista, em uma das salas da diretoria separada especialmente para isto.

 

Havia dias festivos e felizes, também, especialmente quando eram suspensas as aulas para que todos aproveitassem o “cineminha” no refeitório, apinhado de meninos e meninas, ávidos por assistirem às trapalhadas de “O Gordo e o Magro”. E mais: com direito a amostra grátis do achocolatado Vic Maltema, com o jingle cantado a plenos pulmões por uma gurizada alucinada de felicidade!

 

Ao deixarmos a escola, encontrávamos o Sr. Osvaldo, o guarda civil que com um sorriso singelo e terno, exalando simpatia e confiança, nos conduzia em segurança para atravessarmos a já movimentada Domingos de Morais. Lá do outro lado, pegamos o ônibus ou embarcáramos no bonde que nos levava para casa.

 

Lembrança de uma São Paulo ainda pacata mas em pleno desenvolvimento, com seus momentos singelos e deliciosos, marcados na memória, que permanecerão para sempre em um cantinho especial de muita saudade!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: o bonde passava na rua da Glória

 

 

Por Elza de Oliveira Reis

 

Último veículo da era dos românticos, o bonde, além de deixar descendentes importantes – o trolebus e o metrô – deixou também muita saudade.

 

Pela rua onde eu morava, lá vinha ele, com seus passageiros, na Pauliceia desvairada do poeta, com destino ao Cambuci, Vila Prudente e Ipiranga. E a Rua da Glória se enchia do ruído de suas rodas de aço sobre trilho e o som de sua buzina – o bater de um sino – a lembrar ao pedestre distraído – o perigo.

 

Eu, criança ainda, gostava de vê-los da janela de minha casa. Eles passavam com destino à Praça João Mendes ou se dirigiam aos bairros com a calma que a nossa cidade de então podia propiciar. Iam e vinham, com seus ilustres passageiros, belos tipos faceiros, salvos ou por salvar de bronquites, pelo Rhum Creosotado como apregoava o anúncio:

 

“Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite, quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhun Creosotado”

 

Era ainda o tempo do cavalheirismo: às mulheres, a primazia dos acentos nos bancos de madeira; aos homens, na falta de lugares para todos, a coragem de viajar de pé no estribo,de onde podiam saltar, quando havia lentidão na marcha do veículo. O cobrador passava por eles exercendo o seu ofício: cobrava e registrava o recebimento da passagem, utilizando dispositivo especial para esse fim. Ouvia-se, então, o dim-dim, dim-dim, acusando o recebimento da tarifa.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A interpretação é de Mílton Jung e a sonorização é de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: a saga deste povo soteropaulistano

 

Por José Dilson Cavalcanti

 

 

Viemos de longe, somos Pernambucanos, Paraibanos, Cearenses, Alagoanos, somos todos Nordestinos. Mas, em São Paulo, somos Baianos.

 

Lá , na terra natal, muitas vezes e a maioria das vezes, nem conhecemos nossa Capital, por isso, adotamos essa cidade como símbolo de adoração e respeito. E a tratamos como Capital do Nordeste, pois ela serve para todo mundo que nasceu lá.

 

Para trás, deixamos famílias, amores, sonhos perdidos e parte da alma natal.
Viemos buscar, nessa serra pelada de concreto e automóveis, a chance que ficou no caminho, por causa da falta d’água e do trabalho.

 

Buscamos, no final desse arco-íris, o pote de ouro prometido.

 

Viemos para ajudar nesse desenvolvimento, construindo estradas, escolas, casas, prédios, metrô, pontes e criar avenidas. Foi isso que nos coube quando chegamos, pouco estudo, vontade de trabalhar, essa mão-de-obra rápida e barata, e ajudar os que ficaram lá. Ainda assim, tínhamos que agradecer, pois tirávamos o sustento.

 

Ajudamos a construir essa cidade, inquieta, exigente, transformadora e moderna.
Trouxemos a comida, os costumes, as crenças e a musicalidade, que são a energia necessária para misturar à cultura paulista e dar sentido à nossa vida nessa cidade, que tem potencial de País.

 

Somos todos lutando por uma única causa, a causa maior e mais justa das causas, a Felicidade. Esta cidade nos acolheu, do jeito que deu, não podemos dizer que foi fácil, deu oportunidade e certa dignidade.

 

Tivemos que ser bravos e perseverantes, para podermos educar os filhos e alimentá-los. No total não dá para se queixar, caso contrário, não estaríamos aqui a viver, se emocionar, a amar.

 

Não pensamos em agradecimento, em nenhum momento, pensamos somente em sermos lembrados, uma espécie de crédito por produção.

 

Fizemos dessa Terra Prometida nossa Canaã, outra espécie de nação de alma e coração, pois foi construída com sangue, suor, determinação e amor dos nossos irmãos.

 

Somos os carpinteiros, pedreiros, serventes, peões, cozinheiras, empregadas domésticas, jogadores de futebol, músicos, atores, pessoas comuns etc…

 

Só temos a agradecer por essa cidade existir e existirmos juntos, nessa cidade.
Somos filhos dos filhos.
Somos filhos dos Baianos.
Somos todos “soteropaulistanos”

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. Tem sonorização do Claudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o primeiro dia de aula, no Rio Pequeno

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

“II Grupo Escolar do Bairro do Rio Pequeno”

 

“São Paulo, 11 de fevereiro de 1963”

 

Após nos posicionarmos em fila e ter entoado o Hino Nacional defronte ao prédio localizado na antiga Estrada Quatro ainda sem asfalto, atual Avenida José Joaquim Seabra, no Bairro do Rio Pequeno – Butantã, adentramos a sala de aula. Com o giz branco Dona Lurdinha (Maria de Lurdes Reis da Costa – nunca esqueci o seu nome) desenhara essas letras no quadro negro. Assim, numa tarde de verão, teve início o meu primeiro dia de aula naquela escola. Na verdade até então não sabia ler, mas a dedicada mestra explicou em detalhes às crianças o que traçara no quadro negro.

 

Ainda assustado com a novidade, trajando camisa branca, calça curta azul-marinho e calçando o novo Conga azul chegara a minha vez e, todo nervoso e sem jeito, apresentei-me balbuciando meu nome, confundindo-me com o Tute, apelido dado pelos meus avós paternos e o meu legitimo nome, Samuel.

 

A estrutura do prédio era todo de madeira. Dois galpões em tom azul desbotado pelo tempo, sobrepostos em pequenas colunas de tijolos à vista que comportavam duas salas de aula. O teto não tinha forro e podiam-se notar as robustas vigas cruzadas sustentando o telhado de amianto e as janelas enormes apresentavam algumas vidraças quebradas, talvez por pedradas.

 

Dispostas em fileiras carteiras duplas de madeira já desgastadas pelo tempo acomodavam a todos. À frente uma pequena mesa e uma cadeira destinada à professora, ao fundo dois armários que um dia foram envernizados completavam o mobiliário. Nota-se que o desmazelo das autoridades com a educação já se fazia presente.

 

Naquele dia nossa primeira atividade foi desenhar pequenos círculos até completar a folha. Caderno aberto sobre a carteira, lápis na mão e as “bolinhas” irregulares iam se distribuindo sobre as linhas. Então com toda a paciência do mundo nossa professorinha passou pelas carteiras elogiando a arte de cada um.

 

De repente ouve-se o tilintar da sineta tocada pelas mãos da servente, assim era denominada aquela que ainda não chegara a bedel. Hora do recreio, algazarra em profusão no enorme terreiro empoeirado a céu aberto que circundava o imóvel. Não havia muros para delimitar onde terminava a escola e começava o imenso matagal morro acima. Uns corriam para os banheiros situados nos fundos da escola, outros devoravam a lancheira. Para os que não trouxeram merenda era só descer até a pequena cozinha, única edificação de alvenaria posicionada à entrada daquela construção rústica, e apanhar um kit.

 

Enquanto os meninos corriam de um lado a outro no pega-pega, as meninas brincavam de roda ou pulavam amarelinha.

 

Novamente o tilintar da sineta, hora da segunda parte.As crianças voltaram ofegantes, suados e descabelados, alguns com os uniformes manchados por algum alimento. Eu não poderia ficar para trás, sujara a camisa branca de terra e com certeza seria repreendido pela minha mãe.

 

Agora na outra folha do caderno Dona Lurdinha pedira que desenhássemos um sol, depois uma árvore e uma casinha. Barbada, desenhar era comigo mesmo.

 

Antes que tocasse pela última vez a sineta daquele dia, ela escreveu na lousa “lição de casa”. Os meninos deveriam trazer uma folha de alguma planta qualquer, enquanto que as meninas uma flor de acordo com a preferência de cada uma.

 

Anos mais tarde após os dois galpões serem criminosamente incendiados, naquele lugar o governo construiu um belo complexo educacional com classes modernas, uma quadra e um ginásio poliesportivo coberto. Durante o dia fora batizado de Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes.À noite funcionava o Ginásio Estadual Ministro Américo Marco Antônio, onde conclui o antigo ginasial.

 

Da “lição de casa” e daquela primeira vez eu nunca me esqueci, pena que aquele dia passou como um bólido, assim como rápidos foram as semanas, os meses, os anos.

É só futebol?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Ao ler o atual post da Avalanche Tricolor do Mílton é difícil não entrar no tema para reafirmar que no futebol é só futebol.

 

Na melhor das hipóteses o ingrediente da política, se houvesse necessidade de incluí-lo, deveria ser para a melhoria do próprio futebol.

 

Infelizmente a realidade não é essa. O futebol, o esporte mais popular do mundo contemporâneo, oferece um produto apaixonante a um mercado em demanda crescente, porém os dirigentes agem pelo sistema político do proveito próprio. Um método envelhecido e envilecido.

 

Não é sem motivo que na FIFA, entidade máxima do futebol, parte de seus dirigentes estão presos. O brasileiro João Havelange, o mais ilustre de todos, e responsável pela hegemonia do futebol no mundo, ficou devendo explicações aos seus métodos nada ortodoxos de expansão.

 

Felizmente ontem, na sede de outro tricolor, o paulista, cujo centro de treinamento foi recentemente invadido, e alguns jogadores foram agredidos, em suspeitíssima ação com indícios de oposição política, surgiram propostas de profissionalização total da administração. Foi uma reunião Extraordinária para a reforma dos estatutos do clube. Desta vez com praticamente unanimidade entre situação e oposição.

 

Outros pontos importantes também foram pautados como mandato único de quatro anos, sem reeleição. Além disso, houve forte presença de empresários de renome como Abílio Diniz. Totalmente avessos a este futebol de velhacos, onde as confederações arcaicas induzem os votos e repudiam até a tecnologia para manter poder e manipulação.

 

É hora de saber se esses dirigentes amadores têm ao menos noção da grandeza das marcas que administram. O recente post de Emerson Gonçalves no Globo Esporte dá uma ordem de grandeza de SPFC e Grêmio no mercado.

 

Pela recente pesquisa do SPC englobando as capitais:
O SPFC e o Grêmio são o 3º e o 6º do ranking, com o detalhe que o Grêmio por classe AB é o 3º e o SPFC o 4º.

 

No IBOPE:
O SPFC e o Grêmio são 3º e 8º

 

No Datafolha:
O SPFC e o Grêmio são 3º e 5º

 

Administrar equipes esportivas “TOP TEN” de mercados competitivos e em crescimento é tarefa para especialistas. Quem sair na frente ficará na frente.
Será o seu time?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: o relógio da Luz e o incêndio do Museu

 

Por Lucineti da Rosa Possacos Alves

 

 

Sou nascida no Paraná. Com o falecimento do meu pai, em 1973, minha mãe resolveu tentar a vida na cidade de São Paulo, onde já estava sua irmã. Chegamos aqui, minha mãe, meu irmão e eu, com apenas três aninhos, e vivemos no Jaçanã.

 

A história que me marcou foi em um marco de São Paulo: a Estação Rodoviária da Luz. Esperávamos ansiosamente pelo mês de julho, quando tínhamos nossa tão sonhada férias, para visitarmos nosso avó que morava em Santa Cruz do Rio Pardo.

 

E lá íamos nós para estação rodoviária:  eu ficava maravilhada com tudo, principalmente com o relógio. Com todo esforço, tentava saber as horas e quando sairia nosso ônibus. Julho era muito frio e esta era mesmo a cidade da garoa.

 

Apesar de bem agasalhada, minha boquinha tremia e os dentes batiam.  Para esquentar minha mãe nos levava em um bar e tomávamos uma média bem quentinha com famoso pão na chapa.  Ali ficávamos até o momento de embarcar.

 

Como eu era a caçula, tinha a preferência da janela. E lá estava eu admirando toda a cidade, principalmente o Rio Tietê, o qual tinha receio que o ônibus caísse dentro. Logo  era vencida pelo cansaço e adormecia. Quando chegávamos  ao destino já nascia a expectativa para voltar, pois o que mais me encantava era admirar aquela região.

 

Alguns anos depois, foi inaugurada a Rodoviária  do Tietê. Fiquei sem entender nada, agarrei minha mãe e falei que estávamos no lugar errado, chorei, mas não teve jeito, era dali mesmo que teríamos que sair, só fiquei mais calma quando avistei o Rio Tietê, mas já não era mais a mesma coisa.

 

Cresci, estudei e  após alguns anos aquela região se tornou meu trajeto para o trabalho. Por 14 anos, passar pela Tiradentes  e ver aquele cenário sempre me levou a um passado simples, porém muito feliz.

 

Um momento único para mim foi quanto tive o prazer de levar meu filho, Rafael, de 5 anos, para conhecer a região e o Museu da Língua Portuguesa.

 

Hoje, trabalho em Suzano, me livrei do trânsito, mas sinto saudades da lembrança!

 

Dia desses entrei na internet e tomei aquele susto, uma grande tragédia: o incêndio no Museu, como doeu meu coração, parecia que ali iria embora um pedaço da minha história.

 

Acompanhei cada segundo daquele drama e foi um alívio quando soube que o relógio, aquele que não marcou apenas horas, mas também um pedacinho da minha vida, não tinha sido atingido. A dor ficou um pouco menor.

 

No dia seguinte por ironia do destino, tive uma reunião na Zona Sul e por ali passei: a dor invadiu minha alma e chorei, com a esperança que venha a reconstrução e esse marco da cidade nunca deixe de existir.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração do Mílton Jung. O quadro vai ao ar, aos sábados, no CBN SP.

Conte Sua História de SP: uma cidade que vai além da rua principal

 

Por Nair Kuniy

 

 

São nove horas da noite de 28 de fevereiro de 1960. O trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro chega pontualmente na Estação da Luz e dele eu desembarco junto com meus pais e mais três irmãos. Meu irmão mais velho, de dezoito anos, veio antes a fim de procurar uma casa para alugar. Estamos nos mudando para São Paulo. Eu vou completar quatorze anos daqui a três semanas e estou curiosíssima para conhecer a cidade da qual tanto ouço falar. Um primo que já mora aqui há alguns anos providenciou para os nossos primeiros dias, até a chegada do caminhão com os móveis, nossa acomodação junto à família de seu sócio. Eles têm uma pequena loja de produtos alimentícios, à Rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade, e a casa fica nos fundos da loja.

 

No caminho da estação de trem até a casa, olho pasma, pela janela do táxi, para os edifícios e as luzes da cidade. Eu venho de Vera Cruz, interior do estado. A cidade é tão pequena, que a igreja, um solitário semáforo e um edifício de três andares são as referências mais importantes. Para mim, o início e o fim de Vera Cruz estão delimitados pela extensão da rua principal. Meu primeiro pensamento ao ver tantos edifícios e luzes intermináveis é saber onde começa e onde termina a cidade de São Paulo.

 

Com o passar dos primeiros dias, as surpresas ainda se sucedem à medida que eu vou conhecendo mais um pouco o novo lugar. Bonde, escada rolante, elevador, feira livre, locais maravilhosos como o Aeroporto de Congonhas, o zoológico, o Anhangabaú, o Parque do Ibirapuera e, também, muita gente, de todas as idades e cores, em qualquer lugar que se vá, além do frio intenso e da garoa à medida que o inverno se aproxima.

 

Outro pormenor que não pode deixar de ser citado é o aviso de que devemos tomar muito cuidado com os batedores de carteiras. Eu os imagino uma espécie de prestidigitadores, pois a fama é de que suas vítimas não percebem quando são surrupiadas.

 

Outra grande surpresa é a casa em que vamos morar: na Vila Clementino, perto do Hospital São Paulo. Imensa a meu ver. Um sobrado, com um pequeno jardim na frente e um quintal todo cimentado nos fundos. Três dormitórios, duas salas, cozinha, despensa e dois banheiros. Nossa última residência, em Vera Cruz, não tinha sequer banheiro privativo. Usávamos uma fossa, compartilhada com mais duas famílias.

 

Uma das salas já está reservada para minha mãe abrir um salão de cabeleireira e por isso ela logo procura uma escola para a sua formação. Meu pai consegue um emprego de alfaiate com um patrício que tem uma bela alfaiataria na Domingos de Moraes. Meus dois irmãos mais velhos também começam a trabalhar e eu cuido da casa e da comida, com a ajuda da outra irmã menor. Até minha mãe começar a trabalhar, o que leva seis meses, o dinheiro mal dá para sobreviver e pagar o aluguel. No ano seguinte, a renda do salão já cresce o suficiente para vivermos com mais conforto e, assim, podemos retornar aos estudos e continuar até terminar a faculdade. A cultura japonesa sempre valorizou muito uma boa formação educacional e, felizmente, o Brasil é um país que permite a ascensão social daqueles que estudam e não perdem a chance de crescer profissionalmente.

 

Nair Kuniy é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP: da laje na Vila Munhoz, enxergava a Paulista

 

Por José Cássio de Goes

 

 

Morei na rua André da Fonseca, 176. Vila Munhoz. Embora pequena – não chegava sequer ao número 400 – era muito importante na região. Abrigava o posto de saúde que é hoje a UBS Vila Maria Dr. Luiz Paulo Gnecco. E ao lado, tem o parque infantil que hoje é chamado de EMEI Eduardo Carlos Pereira. Além de ser o ponto final do ônibus que fazia a linha Pq. D. Pedro II Vila Munhoz – o 2123. Era um ônibus da empresa Alto do Pari com cores verde e branco. Hoje não existe mais essa linha.

 

Morei por 40 anos, na André da Fonseca, e ainda tenho familiares lá – irmãs, sobrinho, cunhado.

 

Lembro que da laje de minha casa, eu e meu pai costumávamos observar os inúmeros prédios do centro, até os da Avenida Paulista; minha rua ficava há 800 metros do nível do mar … um mirante.

 

Certa vez, no parque infantil que chamávamos de “parquinho” apresentaram-se os palhaços Torresmo e Pururuca. Eu e meus amigos da rua nos divertimos muito. Uma cena inesquecível: em um determinado momento caía a calça do Torresmo e um coração vermelho aparecia no traseiro do calção dele… E gargalhadas quase infinitas ecoavam pelo parque.

 

Não menos importante, era a venda da Dona Maria, uma portuguesa que ficava na outra ponta da rua… onde a garotada, quando tínhamos algumas moedas, comprava pé de moleque, maria-mole, suspiro e paçoca. Hoje, no local da venda construíram sobrinhos.

 

A transformação da cidade de São Paulo e da Vila Munhoz foi e é brutal. Assim como a cidade, a minha Vila, também precisa ser mais humana, pois está contida na metrópole.

 

José Cássio de Góes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Se quiser conhecer outras histórias de São Paulo, vá agora ao meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de SP: “Vai pra Sum Paulu, fía?”

 

Por Flávia A Souza
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Contemplar diferenças. Eis o mistério e o encanto desta metrópole. Das marginais superpovoadas aos parques-oásis, das robustas pontes às estreitas ruas de favela, da plataforma incessante de modernos edifícios à arquitetura imperial remanescente, do sincretismo dos idiomas das gentes do mundo ao mundo de gente de dialetos regionais, da insegurança sem alento ao irradiante fascínio da celeridade, da ilusão camuflada ao discreto e adormecido amor sublime, do indivíduo central ao coletivo em nichos, do anonimato ao ensaio da vaidade, das perguntas evitadas às respostas contundentes, das dúvidas oscilantes às certezas insistentes.

 

Sim, contraste e esplendor. E semeio meu caminho por estas bandas.

 

“Vai pra Sum Paulu, fía?”, indagou minha família, do Centro-Oeste do Brasil, quando aqui ancorei. Vivi meus 20’s, 30’s e já me aproximo dos 40’s na capital do desenvolvimento. Culpo-me pela saturação, pois sou imigrante, dentre os tantos que catalisam os problemas desta cidade mais do que as soluções. Também me indulgencio quando emano ternura por esta terra tão intrigante e sedutora.

 

No balanço, sinto-me mais que menos. Daqui fiz o benço do meu filho, inspirada pela Abençoada missão de fazer dele um homem bom: meu presente para São Paulo, quem me traz tantos presentes, a cada fato e sentimento que vivo, com sorriso, às vezes úmido, mas sempre providente.

 

Flávia Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: lembranças de São Roque, nosso galo bom de briga

 

Por João Rodrigues Neto

 

 

Em 1969, eu com 12 e meu irmão com 11 anos passamos por um perrengue por conta da tal briga de galo. Movidos mais pela necessidade do dinheiro do que amor ao esporte, dois adolescentes, quase criança, nos metemos em treinar e levar galo pra brigar.

 

Morávamos num bairro extremo da periferia de São Paulo, em casa com grande quintal, rodeada por terrenos baldios e áreas verdes, parecido com ambiente rural. Nossos pais mantinham uma horta, pequeno pomar, e criação de galinhas. Numa grande ninhada, vingou um pintinho que logo nos primeiros dias de vida deu sinal de estar doente, o pintinho entrava em convulsão, debatia-se por alguns minutos, e depois voltava ao normal. Desenvolvia-se rapidamente tendo crescimento além do normal e sempre com o problema das convulsões, até tornar-se um belo galo, vermelhão, com forte bico e agudas esporas.

 

Minha mãe condoída com a situação resolveu preservar o animal e consagrou-o a São Roque, que ela acreditava ser o padroeiro dos animais. Assim esse galo não poderia ser molestado nem sacrificado devendo viver placidamente até sua morte natural.

 

De tanto brincar com ele, descobrimos como incitá-lo a ter as convulsões, bastava irritá-lo um pouco e o bicho danava a se debater, mas agora ficava extremamente agressivo. Com a noticia que se instalara no bairro uma rinha de galos, fomos até o local, a princípio por curiosidade, mas bastou ver as apostas para despertar nosso interesse, aí decidimos que colocaríamos o “São Roque” para brigar.

 

Dedicamos-nos a treinar o galo, todos os dias por uma hora, o bicho ficava cada vez mais agressivo. Chegou sábado, fomos à rinha e o “São Roque” deu o maior couro no Trovão, e ainda bateu dois outros galos no primeiro round, ali nascia um Campeão.

 

Outras brigas vieram, e nossa euforia só se comparava com o medo da mãe que já andava desconfiada. Naquele dia, a nossa seria a última briga da rinha, briga de campeões. Mas esse duelo não aconteceu, nossa mãe chegou e acabou com a festa.

 

A tragédia aconteceu mesmo foi na hora do jantar, após sentarmos à mesa nossa mãe colocou uma travessa com cheiroso frango (ou galo) ensopado. Ficamos petrificados com a cena, num choro convulsivo saímos da mesa, nosso herói estava ali morto, preparado ao molho pardo. Nos recolhemos tristes por ter quebrado a palavra dada à mãe, e por ter perdido nosso melhor amigo.

 

Pela manhã ouvimos o cantar de um galo, e imaginávamos ser o espírito do “São Roque” se despedindo. Meu irmão foi ao armário pegou uma vela acendeu-a e começou a rezar pedindo a Deus que levasse o “São Roque” para o céu dos Galos, onde a vida deve ser bem melhor. Minha mãe vendo aquela situação se aproximou nos pegou pelo braço, abriu a porta e nos mostrou o “São Roque” que esplendoroso cantava saudando um novo dia. O frango servido à mesa havia sido outro.

 

O “São Roque” viveu ainda por um bom tempo, até desaparecer, provavelmente indo para o céu dos Galos.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30. Tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio.