Conte Sua História de SP: 50 anos de uma incrível amizade

Por Elisabete Parra

 

 

Meu nome é Elisabete Parra, nasci em Catanduva, em setembro de 1956. Sou filha única e convivi com meus pais, avós e tios naquela cidade até meus sete anos, quando então meus pais resolveram mudar-se para São Paulo, para que eu pudesse estudar, pois a escola mais próxima do sítio que morávamos ficava a uns 4 km de distância, e não havia condução.

 

Chegamos em São Paulo em novembro de 1963. Pra todos nós e principalmente pra mim foi um choque, em todos os sentidos. Vivia numa casa simples, sem luz elétrica, mas confortável, onde não havia cercas, vizinhos próximos, somente verde e animais.

 

Fomos para a Vila Industrial na Zona Leste, morar em um quarto e cozinha nos fundos da casa do meu avô materno, numa rua de terra com muitas casas e cheia de crianças. O que me consolava é que meu pai para me agradar comprou um rádio, onde conheci as músicas do Roberto Carlos, e o sucesso da época era Calhambeque.

 

 

No inicio de 1964 fui pra escola, Escola Estadual Prof.Maria da Gloria da Costa e Silva, primeira escola de alvenaria da região. A escola ficava um pouco distante, então as mães tinham que levar e buscar as crianças a pé, e nessas idas e vindas três mulheres se conheceram, ficaram amigas e então começaram a se revezar para buscar suas filhas, entre elas minha mãe: D.Ermelinda; a D.Carmen, mãe da Rosa; e Roseli e a D.Enedina, mãe da Lala, Nice e Edna.

 

As crianças ficaram muito amigas, e os pais também. Frequentávamos as casas, comíamos juntas e conhecíamos toda a família. Brincávamos na rua, sem medo, conhecemos as primeiras paqueras, que também moravam no bairro, fazíamos bailinhos nas casas, íamos ao cinema, comprávamos nossas roupas e calçados na feira livre, participávamos das procissões da Igreja N.Sra de Fátima, no Bairro Sapopemba. Era tudo muito divertido, apesar de sermos muito pobres, não tínhamos noção disso, pois éramos muito felizes com o que tínhamos.
Essa amizade ficou tão forte, que já dura 50 anos. Desde aquela época passamos os Natais sempre juntos, pois consideramos essa a nossa grande família, família não de laços sanguineos, mas de laços fraternos, laços de amor.

 

Em setembro do ano passado, fizemos uma grande festa para comemorar meio século dessa amizade, com nossos filhos, que são amigos e se consideram primos.

 

Eu só tenho que agradecer a essa cidade que acolheu tão amorosamente aquela menina assustada, e me deu essa grande família de amor.

 


Para comemorar os 50 anos de amizade, foi produzido o vídeo que você assiste neste post. Delicie-se com a histórias das amigas eternas.

 

O Conte Sua História de São Paulo é sonorizado pelo Claudio Antonio. Você participa com textos enviados para milton@cbn.com.br.

São Paulo: a cidade viva que queremos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A nova Lei de Zoneamento que afetará os moradores da cidade de São Paulo nas próximas décadas está próxima de uma definição.

 

Mais do que uma expectativa normal de mudança aos 11,5 milhões de habitantes, ao menos para a parcela de paulistanos ciente do plano já elaborado, surge uma consciente certeza da necessidade de reformular vários pontos.

 

Em linhas gerais nota-se que a Prefeitura enfatiza o aumento de áreas verdes, a redistribuição de áreas comerciais, e as vantagens de adensamento e mobilidade.

 

Outra visão é apresentada pelos líderes de moradores diretamente afetados pelas irregularidades existentes e pelas que estarão expandidas e legalizadas se aprovada a atual proposta.

 

A AME JARDINS, em manifesto distribuído segunda-feira, chama a atenção aos Corredores das ZER zonas exclusivamente residenciais, onde serão permitidos serviços de saúde, profissionais, especializados, e de hospedagem e moradia (este inclusive dentro das ZER) e comércio de alimentação. Nos Corredores das ZPR zonas predominantemente residenciais a proposta é permitir centro de compras e confecção de vestuários e acessórios bem como fabricação de artefatos de papel, entre outras. Pontualmente chama a atenção à transformação da Rua Groenlândia e da Rua Sampaio Vidal em corredor.

 

A Chapa CIDADE VIVA* está se apresentando à eleição do próximo dia 3, no Conselho Municipal de Política Urbana. A participação no Conselho abre a oportunidade para o cidadão se manifestar e se aproximar dos processos decisórios no planejamento urbano, como ora e sempre se faz e fará necessário.

 

À AME JARDINS e CIDADE VIVA se juntam mais de 60 entidades de bairros preocupadas com a minuta da nova lei, que deverá ser apresentada em março. Com a expectativa que sejam contempladas as mudanças por elas sugeridas.

 

Até lá, ainda haverá reuniões como as de hoje na Câmara para uma “Rede de Conversa sobre a Nova Lei do Zoneamento” a convite de Friedenbach, Matarazzo, Natalini, Police, Vespoli, e Young, para arquitetos, urbanistas e lideranças comunitárias.

 

*Chapa CIDADE VIVA
André Sibinelli – SAB Sociedade amigos bairro city Boaçaba
Ângela Campo – AMADA Associação dos moradores e amigos do Sumarezinho, Vila Madalena e região.
Gabriel Oliveira e Heitor Marzagão – AMJS Associação moradores do Jardim da Saúde
José Braz – SAPP Sociedade dos amigos do Planalto Paulista
Maria Laura Fogaça – ASSAMPALBA Associação amigos e moradores pela preservação do Alto da Lapa e Bela Aliança
Nelson Barth – AABCC Associação amigos do bairro city Caxingui
Sergio Reze- AMAPAR Associação moradores e amigos do Parque Previdência

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP – 461 anos: os lampiões de gás iluminavam os vagalumes da cidade

 

Por Alayde Toledo Silva Pinto

 

 

Ah, minha querida cidade São Paulo !

 

Nasci na Rua Conselheiro Furtado, 220 no ano de 1924 em uma família católica, apostólica, romana e paulista, maioria naquela época. Todas as passagens importantes da vida eram comemoradas em família: batizado, noivado e casamento, com a participação da vizinhança.

 

As festas do Natal não estavam focalizadas nas compras e presentes. A montagem do presépio natalino, por exemplo, era um acontecimento que unia a avó ao neto: todos os personagens eram arrumados nos mínimos detalhes em chão de alpiste. Na véspera da Natal, as crianças esperavam os adultos voltarem da Missa do Galo para aguardar seus presentes, que chegariam na madrugada pelas mãos do Papai Noel.

 

Brinquedos eram artesanais, feitos à mão, bastava a imaginação infantil para lhes dar vida…os meninos construíam caveiras na abóbora moranga recortada iluminada por velas, para causar susto nas meninas. Além disso, havia concurso de pipas que todos empinavam com talento. As pequenas, por sua vez, usavam uma espécie de argila para confeccionar panelinhas e bichinhos. Crianças brincavam nas ruas e nas escolas de jogos como barra-manteiga, cabra-cega, esconde-esconde, e de pular corda. Atividades simples e ingênuas que usavam apenas imaginação, sem gastos com dinheiro ou compras…

 

Lembro-me que ganhei uma boneca do meu tamanho em um aniversário da infância. Fui passear com a boneca e o tempo mudou, trazendo chuva forte. Minha bonecona foi se desmanchando e descobri então que ela era feita de papelão, não houve tempo para salvá-la na UTI…

 

Havia clara diferença entre os gêneros com uma escala gradativa para as mulheres: criança, menina, menina-moça e mocinha, para depois senhorita ou senhora. Os meninos até se tornarem moços, usavam bermudas, calça comprida era traje somente de reuniões solenes.

 

Nas cerimônias de batizados, além do padrinho e da madrinha, havia também a madrinha “de apresentação”, geralmente uma moça mais jovem que carregava o bebê até a pia batismal. E nos casamentos, havia a “madrinha de bandeja” para apresentar as alianças.

 

As casas sempre tinham árvores frutíferas nos quintais e nos jardins, na área da frente das moradias, as grades baixas eram coloridas por rosas trepadeiras e flores perfumadas, como madressilva, dama da noite e a rara e cobiçada “Flor de Baile” que só abria à meia-noite.

 

São Paulo era uma cidade romântica nas décadas de 40 e 50, até os anos 60, podemos dizer. Nas noites calmas e agradáveis, no clima fresco e com frequente garoa, nas ruas de paralelepípedo todos circulavam a pé ou de bonde, e era usual manter amizades com os vizinhos, sem rivalidade. No passeio noturno com meus pais e meus irmãos, apreciávamos assistir ao acendimento dos lampiões a gás para iluminação das ruas e ficávamos maravilhados com os lindos vagalumes, com suas asas em tons azuis e verdes, a colorir aquela atmosfera.

 

Ah, minha querida cidade que foi a terra da garoa !

 

Premissas do passado norteiam o novo Plano Diretor

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Tomando a mobilidade como uma das metas principais a serem alcançadas, autores e apoiadores do Plano Diretor têm usado argumentos fora de conexão com a atualidade.

 

Uma das premissas é que o Plano possibilitará a criação de moradias e empregos dentro do mesmo bairro, evitando que os moradores cruzem a cidade para ir de casa ao trabalho. Por isso será permitido o adensamento residencial e comercial. Ora, hoje as pessoas mudam de emprego várias vezes no transcurso de seu período de trabalho, e continuam no mesmo endereço.

 

A outra premissa é que os corredores comerciais propostos ajudarão na diminuição da mobilidade, pois fornecerão produtos aos moradores da região, evitando que se desloquem para fazer compras. Sem contudo interferir na qualidade da região. Premissa tão falsa quanto a primeira, pois está baseada no passado. Hoje, o pequeno varejo de cadernetas de fiado, deu lugar a formatos que irão perturbar as características ambientais, além de não se sustentarem com a clientela de vizinhança. Haja vista, que serão permitidas operações de 500 a 1000m2 de área.
Ao mesmo tempo em que o Plano Diretor considerou o passado para justificar a melhoria da mobilidade, desrespeitou o passado das zonas de preservação, colocando nelas novos corredores comerciais. Estas, embora pequenas em proporção ao tamanho da cidade, pois apenas ocupam 3,8% do território de 1500km2, serão totalmente descaracterizadas. Terão redução na importante função de equilíbrio ecológico que prestam a São Paulo.

 

Uma simples examinada no mapa proposto dá a dimensão do estrago que os corredores comerciais farão dentro destas áreas preservadas. Em avenidas onde hoje estão localizadas parcialmente áreas comerciais, o Plano abre corredor comercial em toda a extensão. Em outras ruas estritamente residenciais, o Plano permitirá comércio total. Um ataque tão intenso que precisará de “Super-heróis”. Neste caso, urbanistas de méritos.

 

Por ordem alfabética: Cândido Malta, Heitor Marzagão, Ivan Maglio, Lucila Lacreta, Luiz Carlos Costa, Regina Monteiro, Sergio Reze.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Venha declarar sua paixão por São Paulo, neste sábado, na CBN

 

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Se você é apaixonado por São Paulo já está convidado a participar do programa CBN SP – especial, em homenagem aos 461 anos da cidade, que será apresentado, neste sábado, dia 24 de janeiro, a partir das 10 da manhã, no Pateo do Collegio. O Thiago Barbosa e eu estaremos recebendo convidados da área cultural, artística, esportiva e ambiental que falarão sobre suas experiências na capital paulista e as ações que desenvolvem para ajudar a cidade a crescer e melhorar a qualidade de vida.

 

Os ouvintes também terão espaço para declarar seu amor pela cidade. Desde às 9n horas da manhã, a CBN terá locais abertos para que o cidadão paulistano grave uma mensagem para São Paulo. Esses depoimentos serão publicados no site da rádio CBN para você compartilhar com os seus amigos nas redes sociais.

 

Participarão das conversas no palco central, do Pateo do Collegio, Andre Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som e responsável pela reabertura do Cine Belas Artes; Eduardo Kobra, artista plástico, criador de vários painéis de grafite da cidade, alguns representando uma São Paulo do início do século XX; Stela Goldenstein, ambientalista, diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros; e os comentaristas da CBN Juca Kfouri e Gilberto Dimenstein. Durante todo o programa vamos ouvir a música de Negra Li que estará ao vivo também declarando a sua paixão por São Paulo.

 

Ouça aqui a chamada para a festa da CBN:

 

Conte Sua História de SP: saudade de comer bisnaguinha com Diamante Negro

 

Por Giuseppe Carlo Tudisco

 

Após morar 40 anos na cidade de São Paulo, Zeppa Tudisco foi para Ribeirão Preto, no interior paulista, onde já vive há 12 anos e preserva sua saudade pela capital, como é possível perceber no texto enviado ao Conte Sua História de São Paulo:

 

 

Saudade das luzes azuis fritando as moscas nos bares bem menos freqüentados. Saudade de acabar a madrugada acabado no Sujinho. Dos jantares sociais completos. Dos amigos, sempre amigos e que sempre serão.

 

Saudade de meu pai me ensinando a comer bisnaguinha com diamante negro na padaria. Das cenas noturnas que apaixonam e assustam. Das cenas de cinema que escapavam da tela do Belas Artes e enchiam minha imaginação.

 

Saudade do dia que encontrei meu grande amor. Das horas de amor. Das batatas assadas na lareira. De ver meus filhos nascerem. Daquele cara do algodão doce do Ibirapuera. De minhas mãos soltando a bicicleta para o primeiro grande ato de liberdade independente de meus filhos.

 

Saudade de cada manhã de domingo. De cada gota de garoa que descia pelo vidro da janela. De cada riso, de cada lagrima, de cada espanto, de todo canto. Saudade de meu primeiro emprego, segundo, terceiro, quarto. Saudade do primeiro job.

 

Saudade do momento da nossa decisão de sair de São Paulo. De nossa partida pela estrada. Saudade de cada esquina, de cada encontro, de cada desencontro. Saudade de quase tudo dessa cidade. Cidade onde nasci duas vezes. Cidade que em mim sempre revive. 

 

Eita saudade de São Paulo.
Às vezes te difamo. Mas daqui sempre, sempre, sempre, te amo.

 

Zeppa Tudisco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: envie o texto para milton@cbn.com.br

Não culpem as árvores

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Na cidade de São Paulo, as chuvas tão esperadas causaram a queda de 509 árvores nos últimos três dias do ano. Tal concentração potencializou o problema, ocasionando um efeito emocional generalizado. Acirraram-se os ânimos. Tanto daqueles que entendem a função das árvores quanto dos que, por comodidade ou por interesses comerciais, não gostam de árvores.

 

Se aos efeitos não cabe discussão, pois a danificação do sistema elétrico aéreo, a interrupção do tráfego e alguma morte foram visíveis, a causa desta desastrosa queda de árvores não se restringe aos ventos de 90 km/h. Ela está na origem, quando se deveriam escolher espécies adequadas à função específica a ser utilizad, e dentro das características de cada local. E, tem mais, o controle é essencial, para que não haja interferências deixando, por exemplo, pintar o tronco de cal, ou diminuir a área do solo, ou cimentar com mureta, ou podar errado, ou demasiado, ou mesmo não podar. Cupins, formigas, lagartas e demais pragas ficaram evidenciadas em várias árvores que tombaram.

 

Entretanto há mais causa. O entrave mais significativo é o sistema elétrico com linhas aéreas. As linhas subterrâneas, mesmo com seus altos preços, resolveriam o problema definitivamente. De acordo com matéria de 2012 da Revista Planeta, de Elisa França, a engenheira Giuliana Velasco da ESALQ informou que a implantação da rede convencional custa entre R$ 54 mil e R$ 67 mil por quilômetro, a aérea compacta entre R$ 36 mil e R$ 62 mil, e a subterrânea cerca de R$ 436 mil por quilômetro.

 

A solução subterrânea, se considerarmos a redução nos custos de manutenção e as vantagens advindas quanto à liberdade e estética, pode ser viável. Pois estará liberando a plenitude das vantagens da arborização urbana, que não são poucas:

 

– Purificação do ar pela absorção de poeiras e gases tóxicos.
– Melhoria do clima, retendo a umidade do solo e do ar.
– Ajuda no sistema hídrico ao favorecer a infiltração da água no solo.
– Amortecimento de ruídos.

 

Se o curto prazo e a superficialidade predominarem também neste caso pelo menos não culpem as árvores.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: poema da cidade

 


Por Dryca Lys
Ouvinte-internauta da rádio CBN
(reprodução de texto publicado em abril de 2014, neste blog)

 

 

Eu nasci e cresci nesta cidade maravilhosa chamada São Paulo. E com seus mistérios e sua fantástica frieza aconchegante. São Paulo é uma experiência de vida, é uma chance única de encontrar vários países em um único lugar.

 

Você pode conhecer a cultura alemã, entrar em contato com a cultura indígena, se sentir no Japão, conhecer a cultura coreana, judaica entre várias e várias culturas sem sair de São Paulo. Graças a magia que existe aqui, você pode se inspirar e difundir arte. Para o aniversário da minha São Paulo, envio este poema. É o que sinto e o que vejo nesta metrópole que chamo de lar

 


Este poema é parte integrante do livro Clube de Autores

 

São Paulo

 

Existem lugares que te fazem sonhar
outros fazem você se sentir mal
mas existe um lugar que te enfeitiça
um lugar que acende seus desejos, atiça
sua vontade de estar ali presente
um lugar único que te faz voar…

 

Mesmo caminhando nos becos escuros
as ruas brilhando como diamante
a música se espalhando e de repente
as estrelas caem e você anda pela poeira sideral
todos os cantos desse lugar parecem seguros
nem sempre… Mas um tapete brilhante

 

se estende aos seus pés, você chora
sozinho, canta em meio a multidão
nos dias de chuva, a brisa aquece
seus anseios, a noite vem, incandesce
seus desejos, a noite se esconde, vai embora
nos dias de sol você vê a sua solidão…

 

Você pode estar em vários lugares, sem sair
de dentro dela, mas não há nada
melhor do que estar lá, faça
o que for, corra, vá e volte, você pode ir
mas ela esta dentro de você, a saudade
te queimará inteiro, você sempre volta para esta cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar deste quadro enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: pensei ouvir a voz de amigos do Tatuapé

 

Por Maria Dulce Brito Gomes
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1967, chegamos a São Paulo vindos de Araraquara. Meu pai, gerente do Banco de São Paulo, fora transferido para exercer um cargo de direção. E nós, quatro irmãos e mamãe, nunca imaginávamos morar na capital. Lá no interior, vivíamos em prédio do próprio banco – grande edifício dos anos 1950 com sacadas nas janelas do segundo andar e um quarto para cada filho. Tinha sala de jantar, de visitas e cozinha. Um luxo. Aqui a vida não seria mais a mesma; e se transformou radicalmente.

 

Meu pai alugara um sobradinho na Rua Bento Gonçalves, no Tatuapé, zona Leste, e para cá viemos assustados com a cidade grande. Dois quartos apenas, uma salinha e uma cozinha. Mas um quintal que nos afagava as lembranças de grandes espaços. A rua era uma descida de terra que chegava à Marechal Barbacena tão esburacada que o lixeiro recolhia o conteúdo dos nossos latões fazendo malabarismos com a carroça puxada a cavalo.

 

De manhã vinha o verdureiro. Era um alemão muito vermelho que manobrava o carroção atrelado a um enorme burro. Sr João, o verdureiro, trazia imensos caixotes de madeira repletos de couves, nabos, rabanetes, alface, limões e tudo o que ele mesmo plantava em uma das muitas chácaras da Rua Itapeti. Não havia ainda arruamento e, quando íamos ver as chácaras, era uma delícia percorrer as alamedas de brócolis, repolhos e almeirão – sem cercas, sem portões. Sr. João tinha mãos enormes, e nós, crianças, corríamos atrás da carroça pedindo ora uma banana, ora uma laranja. Ele, conduzindo o carroção, estancava o burro em frente a uma casa e distribuía as bananas despencadas ou as laranjas. Era nossa felicidade. Enchíamos os bolsos e lá íamos saborear as frutas na pracinha da Barão do Cerro Largo.

 

Certa vez, asfaltaram a Rua Bento Gonçalves. O Serviço de Águas e Esgotos implantou a rede coletora e abriu crateras imensas que demoraram a ser fechadas. Com o asfalto vieram as disputas de rua. Aos domingos, meus irmãos competiam com os amigos e os carrinhos de rolimã, fabricados, em casa mesmo, com uma tábua de caixote e uma trava horizontal. As rodas de rolimã sulcavam a frenética descida do negrume até o fim da rua e o breque era o próprio calçado que voltava irreconhecível. Eles subiam lentamente a Bento Gonçalves arrastando a geringonça para depois começarem a louca descida. Quantos arranhões, tombos, unhas despedaçadas! Nada que os impedisse de no próximo domingo estar de novo com a molecada.

 

Nos feriados, o barato era caçar passarinhos no “Matão”, como era chamado o bairro Anália Franco. Nenhuma casa ou edifício, apenas uma matinha densa repleta de pássaros: coleirinha, tico-tico, canários da terra. Era armar a arapuca e engaiolar os pobres para que cantassem no nosso quintal.

 

À tarde de domingo, nos reuníamos na sala para assistirmos à luta–livre no Canal 9. Ted Boy Marino, Fantomas, Índio, e tantos outros nos faziam gritar até à rouquidão numa torcida pelo “bonzinho” para que massacrasse o “mau”. Custamos a crer que o “sangue” era apenas groselha, como desmarcarava a farsa, meu Tio Benedito.

 

Hoje passei pela Praça Sílvio Romero, subi a Tuiuti e cheguei ao bairro Anália Franco. Só o Colégio Ascendino Reis, onde estudamos todo o ginásio e o colegial continua por lá, além da Padaria Lisboa. Antes, grandes glebas distantes, hoje, edifícios, muito progresso e luxo. Antes, o ruído das brincadeiras infantis e a presença daqueles amigos queridos: Nilson, Terezinha, Jer, Pepino, Cabeção, Batata, Camula e tantos outros. Voltei com a sensação de que ainda poderia ouvir aquelas vozes, encontrei apenas lembranças, pois algumas se calaram para sempre.

 

Maria Dulce Brito Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Já você é nosso convidado para comemorar os 461 anos de São Paulo. Envie agora seu texto para milton@cbn.com.br e participe da programação especial que está sendo organizada pela rádio CBN.

O importante em uma amizade é saber conservá-la

 

Dos amigos

 

Dos amigos que ficaram dos tempos do Rio Grande do Sul – e saiba que foram muitos tempos, pois troquei o estado natal por São Paulo apenas em 1991, por necessidades profissionais -, tem um que me acompanha desde lá, mesmo que nossos encontros e conversas sejam raros. Paulinho, que é como teimo em chamá-lo a despeito da idade e da responsabilidade que lhe permite estar há 21 anos em uma das maiores forjarias do Brasil, ficou em Porto Alegre, enquanto eu, de mala e sem cuia, me despachei para a capital paulista em história que você, caro e raro leitor deste blog, deve conhecer minimamente, pois já a relembrei várias vezes – se um dia você quiser, desconfio que não queira, dedico outro post para escrever sobre aquela decisão que foi definidora na minha vida. Desde que deixei o Sul, chegamos a passar anos nos falando por telefone e apenas no dia de nossos aniversários. O dele, curiosamente, é dos poucos que não preciso anotar na agenda para lembrar: dia 2 de janeiro – apesar de os amigos sempre terem desconfiado que ele nasceu um pouco antes,e o pai, já prevendo a carreira esportiva que o guri se dedicaria, o registrou dias depois, o que lhe renderia um ano de vantagem. Essa história, claro, sempre ficou no campo da especulação jocosa dos amigos mais próximos, mesmo porque Seu Valdemar, o pai do Paulinho, é homem de uma correção que pouco se vê por aí.

 

Mesmo que nossos contatos sejam esparsos, quase toda vez que Paulinho vem a São Paulo, por compromissos profissionais, tentamos um encontro. Nem sempre é possível devido as diferenças de agenda e esta necessidade que tenho de estar cedo na cama para madrugar no dia seguinte, na rádio. O bom das férias é que podemos esquecer o relógio e, mesmo que o avião atrase e o trânsito atrapalhe, se pode esperar os amigos até a hora em que ele chegar, como aconteceu ontem à noite, quando o recebi para jantar. Como sempre, excelente oportunidade para atualizar as notícias da vida e relembrar passagens vividas juntos, especialmente porque ele foi meu companheiro de basquete, de namoros, de viagem – a maioria das vezes para Pinhal, no litoral gaúcho, ou para Garopaba, no catarinense -, e de muitas outras coisas que costumamos fazer na adolescência e juventude. Paulinho era mais sério e metódico; eu, menos organizado, me adaptava mais aos hábitos dele; ambos casamos mais ou menos na mesma época e tivemos filhos com a mesma idade; ele se separou de uma amiga da adolescência, casou de novo e hoje tem mais uma menina. Eu estou com dois meninos. Ao contrário dos pais, os filhos pouco se conhecem.

 

Por estranho que possa parecer, especialmente àqueles que desconhecem a tolerância e para os que vivem de esteriótipos, ele é colorado e eu, você já sabe, sou gremista. Diferença clubística que mais nos aproximou do que dividiu, pois as conquistas de um e de outro serviam para nos divertir, um dia em favor de um, um dia em favor de outro. Bem verdade que houve momentos em que o melhor era aguardar alguns dias antes de conversar com o amigo, mas nada que tivesse nos separado em definitivo. Para atrapalhar ainda mais o julgamento dos descrentes, apesar dele ser torcedor do Inter, desses de comparecer na arquibancada ao lado da família, fomos colegas de basquete no Grêmio, onde joguei por 13 anos, e a preferência dele pelo co-irmão não o impedia de brigar em quadra pela vitória. Até há alguns anos, ele guardava no apartamento, em Porto Alegre, uma camisa de basquete tricolor que acabou me presenteando por entender que estaria mais bem venerada na minha casa em São Paulo. Mal imaginávamos que aquela troca de endereço seria fatal para o destino da camisa de manga de regatas com o símbolo do Grêmio no peito e o número 12 nas costas. Ao ter a casa invadida por bandidos, a camisa foi roubada (assim como todo o restante da coleção, a bandeira oficial e a medalha de campeão da Copa do Brasil; além de outros objetos como menor valor sentimental tais como computadores, televisão, roupas, etc).

 

É difícil entender o que faz duas pessoas se transformarem em amigos e, principalmente, o que as faz permanecer nesta amizade mesmo com suas diferenças e distâncias. Muitos em condições parecidas se foram sem deixar história ou saudade. Às vezes, as facilidades de acesso e busca no Facebook forjam reencontros que logo se revelam fugazes. Deve haver alguma explicação baseada na filosofia ou na psicologia, porém o mais importante em uma amizade não são os motivos que a justificam, mas a própria existência dela. Portanto, conserve-a.

 

A foto que ilustra este post é do álbum de Davi_Vazquez, no Flickr