Criadora da Cidade Limpa defende “guerra urbana” em defesa da lei

 


Por Regina Monteiro

 

São Paulo no Terraço Itália

 

Sentada em frente ao rio, eu observava o contorno dos edifícios, as cores, as formas, o horizonte. Não tem uma nuvem no céu. Alguns cisnes famintos, patos e outras aves ficavam me olhando na espreita que algum alimento fosse-lhes atirado, um jogo estimulante de informações e fechei os olhos para me sentir fazendo parte daquele cenário. E o que ouço? Os pássaros? Não! Um pequeno grupo de brasileiros falava tão alto, tão espalhafatosamente que os bichinhos saíram todos correndo de volta para a água. Praga é assim. Atrai pessoas do mundo inteiro, mas certamente o numero de brasileiros é quase imbatível se compararmos com os turistas de toda a Europa. Por que atravessamos o oceano, ficamos mais de 10 horas dentro de um avião se ainda temos cidades no Brasil que possivelmente nunca vamos conhecer? Tortura pura. Ou talvez seja o nosso desejo de conhecer cidades estruturadas, organizadas, com características especificas que nos façam sonhar.

 

São Paulo venceu um pequenino obstáculo para fazer com que as pessoas pudessem sonhar. Pelo menos começamos a enxergar um pouco das nossas cores, o contorno dos nossos edifícios, o movimento da nossa história. Políticos, moradores, comerciantes, técnicos, todos se esforçaram de forma mágica para que uma lei “pegasse” e pudesse mudar o rumo da nossa da história, da história de São Paulo.

 

Foi em 2006 que tive a oportunidade de escrever um texto de lei, que começaria a mudar a cara da nossa cidade. Como a nossa Constituição Federal garante aos municípios a tutela do meio ambiente urbano, a partir de leis específicas, entendi que o texto a ser escrito deveria restabelecer ao cidadão o direito de fruição à paisagem urbana, sem qualquer interferência que não fosse a comunicação dos serviços públicos e ao bem comum.

 

O meu querido professor de direito urbanístico José Afonso da Silva afirma que a paisagem urbana “é a roupagem com que as cidades se apresentam a seus habitantes e visitantes”. Na sua opinião, “a boa aparência das cidades surte efeitos psicológicos importantes sobre a população, equilibrando, pela visão agradável e sugestiva de conjuntos e elementos harmoniosos, a carga neurótica que a vida citadina despeja sobre as pessoas que nela hão de viver, conviver e sobreviver”. É de toda a população, portanto, o interesse de morar em uma cidade esteticamente agradável e bonita. O grande e delicioso desafio seria colocar no papel um projeto de lei que promovesse a organização do espaço público com garantias de implantação de forma harmoniosa dos elementos de infraestrutura urbana, da vegetação, do mobiliário urbano, das informações de interesse público e até a publicidade entraria na paisagem de forma digna, trazendo qualidade de vida para todos os cidadãos.

 

Primeiro tínhamos que declarar patrimônio público a nossa paisagem, ou seja, tudo que enxergássemos de uma rua ou de uma praça “seria” um direito de todos. Portanto ninguém poderia explorar financeiramente e usar a nossa paisagem sem uma contrapartida que trouxesse grandes benefícios de interesse público. As grandes peças tipo outdoors, back e frontlights foram proibidas e a publicidade exterior migrou para espaços públicos em mobiliário urbano a partir de projetos urbanísticos que identificariam as diversas regiões da cidade.

 

A segunda seria estabelecer padrões “dos letreiros” nas fachadas dos estabelecimentos comerciais, de serviços e demais instituições, que garantissem uma justiça visual, onde grandes e pequenos pudessem ser vistos por todos.

 

E por fim deveríamos estabelecer um pacto com todos os setores da sociedade que resultaria em um Plano Diretor da Paisagem Urbana, que daria rumo para as características essenciais de transformação para São Paulo.

 

E assim foi. Em setembro de 2006, foi aprovada por unanimidade (ou quase, um vereador do setor publicitário se absteve) na Câmara Municipal a lei que começou a mudar a cara da cidade, a lei que ficou conhecida como Cidade Limpa. Vencemos mais de 200 ações, fizemos centenas de reuniões com os diversos setores da sociedade, como a associação dos supermercados, dos padeiros, dos bancos, das farmácias, das grandes lanchonetes, das grandes redes de lojas, das montadoras de automóveis, dos hospitais e mais tantas que não me lembro agora. É evidente que a fiscalização começou a multar e a recolher faixas e mais faixas da rua, mas o convencimento corpo a corpo que a nossa pequena equipe fez (éramos três) creio que foi fundamental. Alguém pensa que foi fácil convencer a associação comercial e demais comerciantes que todas as lojinhas, sem exceção, deveriam diminuir suas placas com recursos do próprio bolso, tudo porque a “cidade ia ficar mais bonitinha?” ( era isso que ouvíamos dos comerciantes).

 

Nós fazíamos questão de mostrar tudo que a lei oferecia e quais eram os benefícios para a cidade em qualquer setor da sociedade, de manhã à noite, de segunda a segunda. Vários deputados e vereadores evangélicos reuniram seus pastores, e participamos de muitos cultos com fiéis cidadãos que nos ajudaram a mostrar que Jesus ouve com o coração e não com o tamanho da placa na porta da igreja. Para a lei “pegar” todos tiveram que se adaptar. Inclusive a própria prefeitura? Fizemos, conforme a lei determinava, padrões de tamanho de placa para as escolas, hospitais e demais orgãos públicos.

 

A lei pegou e todo mundo gostou. Todo o “mundo” mesmo. Estou falando do planeta terra. Fomos parar em Shanghai, na China, onde ganhou o quarto lugar como melhor prática urbana e tivemos o direito de mostrar “a lei Cidade Limpa em São Paulo” para o mundo na EXPO WORLD. Ganhou o prêmio “Emotional Branding Visionary Award” dos Estados Unidos, recebeu da Deutsche Werkbund o selo “Werkbund-Label” na Alemanha, o prêmio “Brit Insurance Design of the Year” do Museum Design of London ….

 

Agora, contra tudo o que lutamos para que a “lei desse certo”, principalmente quanto a beneficiar poucos em detrimento de muitos, a Câmara aprovou em primeira votação a desconstrução de todo trabalho para que os paulistanos voltassem a sonhar.

 

Eu apelo aos publicitários conscientes, aos comerciantes que já gastaram um bom dinheiro para adequar os seus letreiros, as associações organizadas de moradores e demais setores da sociedade que se mobilizem e entupam com e-mails os gabinetes dos vereadores, liguem para eles e demonstrem o seu repúdio absoluto a essa descabida aprovação na Câmara, para dar mais força a NÃO SIMPATIA de sua excelência o prefeito Sr. Fernando Haddad em destruir um sonho que já estava se concretizando.

 

Eu vou fazer o que for preciso para que  a população que aprova com mais de 68% a Lei Cidade Limpa se mobilize e pressione os seus vereadores para que eles não entrem nessa esparrela de aprovar o conjunto de projetos de lei que acabam com uma das coisas que São Paulo tem de mais digna no momento: sua Paisagem. Faremos uma “guerra urbana” para garantir a nossa civilidade.

 

Ainda estou em Praga, mas estou voltando.

 


Regina Monteiro é arquiteta, urbanista e idealizadora da Lei Cidade Limpa, em vigor desde 2006, em São Paulo. Escreveu este artigo a pedido do Blog do Mílton Jung que é a favor da manutenção das regras atuais em defesa da qualidade de vida do nosso ambiente urbano.

Um tratado para o Tordesilhas

 

Carlos Magno Gibrail

O estrelado e premiado restaurante Tordesilhas na capital paulista está protagonizando uma discórdia oriunda de moradores nas proximidades de seu endereço na Alameda Tietê. A especialidade da casa, focada na culinária brasileira, tem deixado a vizinhança “gordurosa”. O fato do olfato e do tato prejudicados pelas frituras, provavelmente passaria despercebido não fosse a fama do restaurante e a qualificação dos moradores.

 

Menos mal que o caso pontual esteja na mídia, pois pela tendência da ocupação do solo na cidade esta situação poderá ser cada vez mais frequente. O Plano Diretor de São Paulo está na pauta da cidade, e é preocupante se analisarmos a evolução dos anteriores, pois adensamento e uso misto das áreas urbanas vêm se acentuando através dos anos; com os argumentos de redução dos custos de habitação e de vida para o adensamento, e da melhoria da mobilidade para o uso misto. Quando na realidade precisamos também considerar a lei de mercado para os imóveis no caso do adensamento e a dificuldade da mobilidade em virtude das necessidades de deslocamento geradas pelo mercado de trabalho. Ou seja, as vantagens preconizadas não estão aparecendo, enquanto o sistema vigente está levando ao agravamento das condições. Além do que a população cresce em descompasso com eventuais melhorias.

 

O IBGE atualizou os dados censitários mostrando que São Paulo está com 11,8 milhões de habitantes, quase o dobro do Rio, a segunda maior cidade do país. Diante deste assustador número de gente, tudo indica que a convivência no uso misto do solo precisa ser encarada de forma civilizada, urbana e racional. Quem procurar morar perto de padarias, supermercados, lojas, restaurantes e demais atividades deve estar consciente dos reflexos inevitáveis destas operações. Ao mesmo tempo, os comerciantes instalados próximos a moradias devem respeitar os vizinhos, utilizando inclusive as tecnologias à disposição,para que todos possam usufruir condignamente os sentidos naturais do ser humano. Visão, audição, olfato, paladar e tato.

 

Aqui, nem o papa nem o meridiano resolverá. O tratado deverá conter o trato da liberdade de cada um indo até a liberdade do próximo. O Tordesilhas tem condição de cumpri-lo, e chamá-lo de Tratado da Tietê.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Pompeia reúne moradores, hoje, por boas ideias para o bairro

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo

 

 

Conversamos aqui no Blog Adote São Paulo, semana passada, sobre a construção do Plano de Bairro para a Pompeia, zona oeste da capital. O trabalho está em seu primeiro estágio com a coleta de ideias para, em seguida, serem colocadas em consulta pública e as mais votadas fazerem parte do documento final que ajudará a construir um bairro ainda melhor.

 

Henrique Parra, morador do bairro e um dos incentivadores da ação, destacou em mensagem quatro propostas que já foram apresentadas e podem ajudar a entender um pouco melhor o que se pretende fazer. Uma delas pede que os prédios da Pompeia passem a captar água das chuvas e, com isso, se recupere área permeável no bairro. Outra, alerta para o fato de que a futura estação Metro Pompeia está prevista para terreno muito próximo do Córrego Água Preta, que costuma alagar as ruas e avenidas vizinhas sempre que chove forte na cidade.

 

As calçadas também estão na mira dos moradores, e uma das propostas é que estas passem a ser construídas, principalmente nas ruas mais íngrimes, dando prioridade aos pedestres e não aos carros como ocorre atualmente. A quarta ideia passa pela transparência nos dados públicos, com a solicitação de que os moradores tenham acesso ao potencial construtivo do bairro: “ou seja, (queremos saber) o verdadeiro estoque disponível para se demolir (ou não) as casas existentes para a construção de edifícios residenciais e comerciais” – explica o autor em texto publicado no site Cidade Democrática.

 

Para participar desta campanha não é necessário morar na Vila Pompeia, pois esta é uma região de toda a cidade. Amanhã, dia 5 de março, às sete da noite, está marcado um encontro de co-criação, na Semente Una – Avenida Pompeia, 984. Oportunidade para levar projetos e discutir ideias com os demais participantes. Haverá mais duas reuniões, dias 12 e 18 deste mês, mas caso você tenha dificuldade de ir até lá (alguém aí tem uma boa ideia para melhorar o trânsito?) pode registrar seus pedidos no site Cidade Democrática.

Proposta democrática para o plano de bairro da Vila Pompeia

 

 

“A Pompeia Que Se Quer” é uma iniciativa de construção colaborativa de Plano de Bairro, que visa contribuir com os moradores da Vila Pompeia, ampliando seu alcance de voz e dando forma a seus desejos coletivos.

 

Tanto moradores e frequentadores da Pompeia, como quem mais tiver interesse em participar poderá criar suas propostas, comentar e apoiar outras propostas, propor atividades, participar das oficinas, mobilizar suas redes e construir a relevância dos seus temas de interesse.

 

São 4 etapas:

 

1. PROPOSTAS – Registro das ideias em propostas que também poderão ser comentadas e aprimoradas.
2. APLAUSO – Em seguida, as propostas recebem votos na forma de apoios.
3. UNIÃO – As propostas mais parecidas poderão se unir para aumentar seu poder de influência.
4. ANÚNCIO – As propostas mais apoiadas e comentadas serão premiadas de acordo com os prêmios oferecidos pela própria comunidade do bairro.

 

O conjunto das propostas (não apenas as premiadas), organizadas por temas e territórios, constituirão um documento a ser entregue pelos moradores da Vila Pompeia como uma primeira versão do Plano de Bairro da Vila Pompeia, a ser entregue ao prefeito e aos vereadores de São Paulo para apoiá-los na revisão do Plano Diretor da Cidade.

 

Programação Completa – Estão marcados três Encontros para Criação de Propostas, abertos a todos os interessados, que buscam envolver moradores, movimentos sociais, poder público e outras pessoas capazes de contribuir com ideias criativas. Também estão sendo programados Expedições Fotográficas, Manejo Comunitário da Horta e Reuniões com a SubPrefeitura.

 

Encontros de Co-Criação: 05/03, 12/03 e 18/03, sempre às 19hs, na Semente Una (Avenida Pompeia, 984).

Ministério das Cidades perdeu razão de ser

 

O Ministério das Cidades não sai do noticiário, desde que Mário Negromonte foi acusado de oferecer R$ 30 mil a políticos do seu partido para que estes retirassem assinatura de apoio a abertura da CPI da Corrupção. Além disso, há suspeitas de liberação de pagamentos irregulares para empreiteiras que doaram mais de R$ 15 milhões ao PP, partido que comanda a pasta, nas eleições de 2010. Em um caso e noutro os dados ainda não são consistentes, mas expõem uma mudança clara de prioridades dentro da pasta responsável pelo Orçamento de R$ 6,21 bilhões.

Ao surgir no início do Governo Lula, tendo o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra como ministro, a expectativa era de que, pela primeira vez, os municípios brasileiros teriam dedicação especial do Governo Federal. Justo, dado o fato de que mais de 80% da população vive, hoje, no ambiente urbano. Na época, formou-se uma equipe com alguns nomes de trabalho reconhecido internacionalmente, como o da urbanista Raquel Rolnik.

Um ano e meio depois, o Ministério foi oferecido para o PP, partido do então presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti. O nome indicado foi o de Márcio Fortes de Almeida que permaneceu até o fim do segundo mandato de Lula e apenas não seguiu com Dilma Roussef por pressão de uma das alas do PP que defendia a nomeação de Mário Negromonte.

O Ministério das Cidades não passou para as mãos do PP de graça. A pasta se transformou em carro-chefe do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e responsável pelo programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. Um filão e tanto, político e financeiro.

Criado para o desenvolvimento urbano, hoje o Ministério é um mero tocador de obras sem planejamento. Um desperdício de ideia, oportunidade e dinheiro. Muito dinheiro.

Arquitetura paulistana: Pensão da Mooca

 

Casarão abandonado

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

 
É impressionante a mistura de beleza arquitetônica e descaso na rua  do Hipódromo, região da Mooca,na zona leste. A rua  perto do prédio São Vito, em demolição, está longe do boom imobiliário que sacode a cidade, mas é possivel  ver na tradicional rua  armazéns, casinhas e casarões deteriorados com   placas empoeiradas de “aluga-se”.
 
Muitas dessas riquezas – esquecidas ou ignoradas pelos órgãos públicos –  não têm dono. É o  caso de um sobrado na esquina da Avenida Alcântara Machado com  a  própria Hipódromo, que salta aos olhos de quem passa pelo local.

O casarão não  está aberto para visitas : ali funciona uma ‘pensão’.

Critérios para construir não são respeitados, diz Whitaker

 

De aprisionamento

Na carta de Maria Lucia Solla, publicada domingo neste blog (leia aqui), a pergunta era simples: quais os critérios que a prefeitura usa para autorizar a construção de prédios ? Muitos ouvintes-internautas deixaram sua contribuição com respostas ou apenas compartilhando suas percepções sobre a maneira como a cidade está sendo ocupada e mal planejada.

No Jornal da CBN, desta terça-feira, fiz a mesma pergunta para o coordenador do Laboratório de Habitação da USP João Sette Whitaker. Para ele, a decisão de se permitir a construção de mais prédios, sejam residenciais ou comerciais, em bairros da capital, tem como base a lei de zoneamento. Os critérios são, aparentemente, simples: capacidade de infraestrutura, de incomodidade e a manutenção das características da cidade.

Complexa é a execução destas regras. O professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Urbanismo da USP e do Mackenzie disse que, no caso de São Paulo, os critérios acima não são respeitados, além do fato de a legislação ser branda com as construtoras. Cobrar compensações e usar este recurso para melhorar o ambiente urbano seria um dos caminhos para dar mais qualidade de vida ao cidadão, na sugestão dele.


Acompanhe a entrevista de José Sette Whitaker, ao Jornal da CBN

De céu e sol aprisionados

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De aprisionados” na voz e sonorizado pela autora

Senhor Prefeito,

é com o respeito de quem não tem a mínima ideia de como se administra uma cidade inteira, particularmente uma cidade como São Paulo, que venho tomar do seu tempo uns minutos para fazer uma pergunta que tem perturbado muita gente.

Preciso saber como é que o senhor faz para decidir se um prédio pode ser erguido numa região, ou se não pode. Toda edificação precisa da permissão dos administradores da cidade, certo? Seja ela uma padaria, banca de jornal, casa, edifício ou condomínio.

Pois bem, na verdade, quero saber quais são os critérios que determinam autorização ou rejeição ao pedido de construção. Essa é a minha pergunta, mas sinto que devo dar ao senhor ao menos um motivo pelo qual a estou fazendo.

Em 2001 escolhi o bairro onde moro desde então, e vou lhe dizer quais foram os meus critérios: a área tinha muito verde, poucos prédios, casas, três boas padarias e três acessos de entrada e de saída para outros bairros da cidade. Ando de carro, não uso o transporte público, portanto, era muito importante me certificar de que eu poderia me deslocar com relativa facilidade. Nessa época, ainda não tínhamos a ponte estaiada.

Dois anos depois, uma ciranda de prédios começou a cercar o meu, os outros, e as casas. Altos e truculentos. Famintos, engoliram famílias que também escolheram este bairro pelas vias dos critérios delas. Outros dois anos se passaram e os prédios continuaram a se multiplicar, feito praga, sem planejamento, uns se metendo na frente dos outros, sem o mínimo respeito, como fazem os humanos. Temos hoje, em vez de três, seis excelentes padarias, mas onde era possível sentar, no final de semana para um café da manhã relaxado, na companhia de um bom jornal ou de amigos, a gente enfrenta fila.

Mais quatro anos se passaram e hoje é quase impossível circular dentro do bairro. Tem fila para sair da garagem e entrar na outra fila nervosa que desde o nascer do sol serpenteia desordenada, regendo um coro desafinado de buzina. Olho em volta e o que vejo? Vejo muitos outros prédios em construção. Bate estaca daqui, bate estaca de lá; é a paisagem e a melodia que nos restam. Lembrando que esses prédios engolirão mais e mais famílias que vão trazer seus carros e esperam entrar e sair da região, como quem já está aqui.

Sei que esse desconforto não é privilégio deste bairro, mas se o senhor disser quais são os ditos critérios – que imagino envolvam o número de habitantes da região, as artérias que bombeiam gente que vai e que vem, capacidade de esgoto, transporte público, água, gás – a gente pode tentar se conformar, se for isso o que o senhor espera de nós. Se o senhor, mexendo na papelada, encontrar desmandos nas pastas, que tal acabar com eles e se transformar no nosso prefeito-herói?

Vou parando por aqui para não tomar o seu tempo. Há que administrar, eu sei. Agradeço por sua atenção ao meu relato e aguardo, ansiosa, pela resposta.

Atenciosamente,

Maria Lucia Solla

PS: Moro na Vila Andrade, também chamada de Panamby, Jardim Sul ou Morumbi.

Maria Lucia Solla é terapueta, professora de língua estrangeira, promove curso de comunicação e expressão e, aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Clique aqui e veja álbum sobre ocupação do bairro por prédios

Jornalista vai caçar boas idéias para sua cidade

 

Cidades para Pessoas from Natália Garcia on Vimeo.

Viajar por 12 cidades à caça de boas ideias de planejamento urbano e contribuir para que São Paulo e outros municípios brasileiros se desenvolvam oferecendo qualidade de vida aos seus moradores. É a pretensão da jornalista Natália Garcia com o projeto Cidade para Pessoas, inspirado no trabalho do planejador urbano Jan Gehl, dinamarquês que há 50 anos redesenha cidades e bairros como em Melbourbe e Perth (Austrália), Estocolmo (Suécia), Lyon (França) e Copenhaguen (Dinamarca), onde tudo começou. Foi lá que ele convenceu os moradores e autoridades de que o espaço público não pode ser privilégio de automóveis.

A etapa mais complicada da viagem talvez seja aquela que Natália está encarando agora, antes mesmo de botar o pé na estrada ou no pedal – já que pretende andar de bicicleta e a pé pelos roteiros escolhidos. O projeto que vai durar um ano custará R$ 25 mil e o dinheiro está sendo arrecado pelo sistema de crowdfunding – uma ação colaborativa em que todo o cidadão pode contribuir com pequenas quantias, através da internet. Até aqui, Natália conseguiu arrecadar pouco mais de R$ 11 mil e tem mais sete dias para chegar ao total necessário.

Cada um das cidades visitadas por Natália (conheça a lista aqui) será traduzida em quatro grandes reportagens, vídeos e posts publicados no blog Cidade para Pessoas. Todo o material coletado será licenciado em Creative Commons by-sharealike com restrições comerciais – ou seja poderão ser reproduzidos e citados em redes, blogs e material de prestação de serviço, e usados por universidades e pelo poder público desde que não haja exploração comercial.

O projeto é apenas uma etapa para chegar ao que Natália realmente sonha que é colaborar para a construção de uma cidade para as pessoas:

Eu sei o que você vai dizer: não somos a Europa. E foi essa a reação que os jornais dinamarqueses tiveram quando o Jan Gehl quis transformar uma importante avenida de carros em um calçadão para pedestres. “Não somos italianos”, dizia o jornal, “nosso clima escandinavo não convida à vida nas ruas”. Segundo as publicações, ninguém toparia andar de bicicleta em Copenhagen e tirar os carros daquela avenida faria as casas de comércio falir. Elas não só não faliram como lucraram o dobro. E hoje Copenhagem é a cidade com o maior número de usuários de bicicletas no mundo.
Dá para fazer o mesmo por São Paulo. Mas vai ser preciso colocar as pessoas à frente dos carros (trecho do Blog Cidade para Pessoas).

A colaboração para o projeto pode ser a partir de R$ 20 e deve ser feita através do site Catarse, especializado neste sistema de arrecadação.

A praça e a evolução da espécie

 

Por Carlos Magno Gibrail 

Vinícius de Morais não deve andar nada satisfeito com o que estão fazendo na sua praça. Ronie Von também, pois  de alguma maneira sempre cantou e louvou genericamente a permanência: “o mesmo banco, a mesma praça”…

Nem mesmo Toquinho, pois especificamente a reinaugurou há sete anos, após agressiva ação promocional de recuperação feita pelo então BankBoston, investindo aproximadamente meio milhão de reais em valores da época.

A verdade é que estamos presenciando mais uma vez a repetição do agressor solto e o agredido preso. Ou, o raptado beneficiando o raptor.

Para defender os usuários da Praça Vinícius de Morais, situada em invejável paisagem no bairro do Morumbi, de frente ao jardim do Palácio dos Bandeirantes, a subprefeitura do Butantã está reformando o piso da Avenida Giovanni Gronchi mudando sua inclinação para permitir uma velocidade hoje ultrapassada pelos autos. Além disso, está também colocando “guardrail” de pista de corrida, objetivando proteger os pedestres que utilizam a praça, do perigo dos veículos que ali trafegam.

É o crescente princípio dos pedestres sem calçadas em favor dos automóveis, dos muros altos cobrindo as fachadas de casas e prédios, de isolados condomínios exclusivos, de ruas sendo fechadas impedindo  seus moradores do contato externo e mesmo interno, eliminando de vez a figura do vizinho.

Em suma, os carros livres, os bandidos soltos e os civilizados cidadãos presos em suas casas e praças.

Não podemos deixar de reagir nesta fase da síndrome de Estocolmo, quando cidadãos esclarecidos defendem o benefício dos agressores, pois a fase seguinte é um Darwinismo surpreendente. Os seres mais resistentes, entenda-se mais acomodados, se habituam às condições desfavoráveis, e surgem os novos seres. Adaptados às adversas condições de sobrevivência, submissos ao novo ambiente dominado pelos automóveis e poluição ambiental crescente.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung às quartas-feiras.