Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje

Diego Felix Miguel

Foto de Jorge Acre

Prezada leitora e prezado leitor,

O título deste texto é um ditado Iorubá que escolhi para iniciar uma reflexão sobre envelhecimento, velhice e política. Utilizá-lo valoriza a sabedoria ancestral, fundamental para os temas que proponho discutir neste momento.

Confesso que, de início, tive dificuldade em entender completamente o significado desse ditado. Conversei com pessoas amigas para esclarecer melhor sua profundidade. Não pretendo ser didático em relação à Exu, já que não tenho o conhecimento necessário. Contudo, o pouco que li sobre essa entidade, despertou em mim grande curiosidade e fascínio.

Voltando ao título, este ditado nos convida a pensar sobre o tempo de maneira diferente, sugerindo que o presente pode afetar não apenas o futuro, mas também o passado. Não se trata de ficção científica, mas de honrar a história daquelas pessoas que vieram antes de nós. O compromisso com o passado e o futuro deve sempre buscar o desenvolvimento social, científico e humano.

Todas as pessoas que vieram antes de nós, seja pelos bons ou maus exemplos, moldaram o presente em que vivemos. Como reagimos a este momento é o que faz a diferença. É a pedra que podemos ou não atirar.

Envelhecimento, velhice e política: pedra ou cadeira?

As decisões que tomamos hoje influenciam diretamente como viveremos no futuro e revelam o quanto aprendemos com o passado. Que histórias honramos e qual futuro queremos construir?  Nossas escolhas afetam questões como violência, desigualdade social e a privação de direitos básicos, que agravam a vulnerabilidade de muitos.

Quando falo de decisões, não me refiro apenas ao voto ou à política eleitoral, mas ao nosso compromisso político-social diário, nas relações pessoais, profissionais e até nas redes sociais. O envelhecimento, assim como gênero, raça, classe social e tantos outros aspectos que nos diferenciam, formam nossa identidade, e, em uma sociedade machista, racista e idadista, essas condições nos tornam mais vulneráveis.

Estamos na “Década do Envelhecimento Saudável nas Américas – 2021-2030”, e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) nos alerta sobre os desafios do envelhecimento populacional para uma sociedade que não se preparou para vivenciar essa transição. A proposta não desmerece a velhice, mas valoriza a longevidade, afinal, viver mais é uma grande conquista.

A OPAS apresenta que é possível acolher as velhices em sua diversidade, com a participação social de todas as pessoas, em suas diferentes identidades, realidades e contextos, de forma representativa, para a construção de políticas públicas voltadas às demandas sociais reais. Mas, para isso, é preciso empenho, solidariedade e empatia.

Devemos refletir: estamos prontos para atirar a pedra certeira, que trará mudanças, ou preferimos repousar na cadeira da hipocrisia, ignorando as lições que o passado nos ofereceu?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Para as filhas de Madonna

Diego Felix Miguel

Prezado leitor, escrevo essas linhas informando que sou fã da Madonna, mas que esse texto não é exatamente sobre isso, e sim, sobre reflexões que nos últimos dias me tiraram o sono, no sentido literal da palavra. Portanto, tento conter meu lado apaixonado pela artista, e me debruço sobre pensamentos a cerca do envelhecimento e velhice que me inquietam. Boa leitura!

Reprodução do X

No show de encerramento da turnê *Celebration*, em 4 de maio de 2024, em Copacabana, Madonna celebrou seus 40 anos de carreira. A diva do pop não pisava no Brasil há 12 anos, e o clima pré-show no Rio de Janeiro era de réveillon, com programas especiais, documentários e entrevistas aumentando a curiosidade sobre o que viria.

Mesmo acompanhando pela televisão, era possível sentir a energia e a emoção dos fãs. Entre discos de vinil e objetos raros, todos compartilhavam histórias com carinho e devoção. Mas uma pergunta ecoava: de onde vinha essa admiração?

Cada resposta era única, mas uma, em particular, me perturbou. Um rapaz de cerca de 35 anos disse: “Ela é uma mãe para mim.” Como poderia alguém atribuir a uma artista um título tão romantizado e nobre quanto “mãe”?

Seu semblante emocionado me prendeu à tela, atento à sua história. Ele contou que Madonna fez parte de sua adolescência e, por meio de sua poética, apresentou-lhe um mundo onde ele poderia ser ele mesmo, sem medo de ser feliz. Sua declaração me inquietou profundamente. Passei a noite ansioso para assistir ao show, mesmo que pela TV.

A fala sobre o sentimento materno daquele rapaz ainda estava latente em mim na manhã seguinte.

Vou reescrever o trecho “O show, a velhice e a minha história” com base nas observações feitas anteriormente, visando torná-lo mais conciso, mas mantendo a lógica e a estrutura do pensamento.

O show de Madonna, a velhice e a minha história

Na noite de sábado, o show começou, e ao me deparar com Madonna envelhecida e com movimentos corporais mais contidos do que em outras oportunidades, fui confrontado com meu próprio processo de envelhecimento. Por alguns minutos, meus pensamentos se desviaram do show para outra questão: quando conheci Madonna?

Minha memória é vaga, mas acredito que foi aos três ou quatro anos, quando vi a capa azul-marinho do disco de vinil com uma mulher loira de perfil, demonstrando no rosto uma sensação gostosa de brisa leve e fria numa noite de calor. A combinação de cores e sua postura esbanjavam elegância.

Lembro-me de adorar ouvir o refrão “true blue, baby I love you” e de sentir vontade de dançar celebrando a energia incrível de “where’s the party, I want to free my soul”. Perdi-me nessas lembranças, e após 35 anos, compreendi que na minha primeira infância, mesmo sem entender inglês, eu só queria ter uma alma livre, como se já sentisse as dificuldades que viriam por ser quem sou.

Naquela época, Madonna já parecia velha — pelo menos na perspectiva de uma criança de três ou quatro anos — mas continuou embalando hits e videoclipes que, na minha adolescência, mostraram a possibilidade de ser quem sou, sem medo. Posso dizer que compartilho o mesmo sentimento materno que aquele rapaz expressou na entrevista.

Madonna me encorajou a ser forte, resiliente e resistente diante das ameaças do mundo, mesmo com as incertezas que permeiam essa fase da vida tão importante, quando precisamos de apoio sincero e incondicional das pessoas que integram nossa família sanguínea. Contudo, nem sempre temos esse apoio na intensidade que precisamos para nos sentir protegidos e aceitos.

Somos filhas de Madonna

Madonna tem personificado uma alma materna, especialmente ao defender corajosamente as minorias sociais—pessoas frequentemente vulneráveis, marginalizadas e até mesmo ameaçadas de morte. Sua escolha de abraçar, acolher e apoiar se destaca em contraste com muitas famílias consanguíneas que falham em transcender barreiras socioculturais e acabam se voltando contra seus próprios membros.

A dedicação da cantora às suas lutas destaca o envelhecimento e a velhice de grupos frequentemente invisibilizados pelo machismo, racismo, LGBTfobia e conservadorismo social. Em seu show em Copacabana, que refletiu sua biografia no repertório, Madonna se apresentou como uma mulher que desafia os papéis impostos, lutando por igualdade de poder, justiça social, liberdade sexual, e contra a violência e o feminicídio.

Além disso, ela traz visibilidade para questões críticas, como a violência contra mulheres trans e travestis, cujo envelhecimento é frequentemente marcado por hostilidade ou é tragicamente cortado pela morte precoce. Vivemos em um país que lidera estatísticas de violência contra a comunidade LGBTQIA+, onde pessoas trans têm uma expectativa de vida reduzida. Madonna uniu sua voz à de milhares durante a crise da AIDS nos anos 80 e 90, desafiando a marginalização e promovendo acesso a tratamentos.

Importante também é seu posicionamento contra o idadismo, ao insistir em viver plenamente em uma sociedade que muitas vezes tenta suprimir os idosos. Seja por suas escolhas estéticas ou por suas habilidades físicas adaptadas à idade, ela quebra estereótipos sobre o que idosos podem e devem fazer—como uma mulher de 65 anos que não teme expressar sua sexualidade e desejos abertamente.

Madonna nos apresenta a uma Velhice Libertária, frequentemente oculta porque desafia convenções sociais confortáveis, mas restritivas. Esta perspectiva de velhice, rica em autonomia e diversidade, alimenta minha paixão pela Gerontologia, uma ciência que nos incentiva a reconhecer a diversidade para além de nossa compreensão habitual e a questionar as zonas de conforto que limitam a expressão plena da vida.

Diego Felix Miguel, doutorando em Saúde Pública pela USP, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo e Gerente do Convita – serviço de referência para atendimento de pessoas idosas imigrantes e descendentes de italianos. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Quem acolhe as pessoas idosas que vivem com HIV?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Anna Shvets

O Dia Internacional de Luta contra a AIDS, celebrado em 1º de dezembro e instituído em 1988 pela Organização das Nações Unidas, visa aumentar a visibilidade das demandas de pessoas que vivem com HIV, contribuir para a desmistificação e promover uma compreensão mais aprofundada da infecção na sociedade, tratando-a como uma questão de saúde pública.

A intersecção do idadismo, que é o preconceito e discriminação pela idade, com a sorofobia, que é a aversão contra pessoas vivendo com HIV, representa um dos grandes desafios enfrentados por profissionais que atuam com idosos e se empenham em reforçar as boas práticas em Geriatria e Gerontologia.

Quando levamos em conta aspectos diversos que formam nossa identidade, como gênero, raça, cor, orientação sexual e etnia, torna-se evidente a iniquidade no acesso a informações e orientações eficazes sobre prevenção e tratamento digno disponíveis para todos.

A desigualdade social agrava a vulnerabilidade e expõe as pessoas idosas a várias formas de violência. Entre elas, destaca-se a solidão e a falta de uma rede de apoio que permita compartilhar, com confidencialidade, desejos e práticas sexuais sem o medo de julgamento ou de exposição vexatória em redes sociais, o que perpetua a ideia ultrapassada de uma velhice assexuada, heteronormativa e conservadora.

Por isso, esclareço o título deste artigo: “Quem acolhe as pessoas idosas que vivem com HIV?”.

A palavra “acolher” aqui não deve ser entendida como um reforço do estereótipo de que pessoas com HIV sejam dependentes e necessitem de ajuda, mas sim que a ciência mostra diariamente o quanto é possível gerir a doença e manter uma vida saudável e ativa com o tratamento adequado.

Acolhimento, neste contexto, significa o quanto estamos dispostos a eliminar preconceitos. Sabemos que qualquer pessoa sexualmente ativa pode estar sujeita a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e isso não está associado à promiscuidade, mas à necessidade de repensar os ‘juízos de valores’ baseados em visões conservadoras.

No que diz respeito a autocuidado e prevenção, o importante não é o número de parceiros(as) sexuais, mas sim como cada um cuida de si, os métodos de prevenção escolhidos e, fundamentalmente, um processo de autoconhecimento.

Devemos também atualizar nossa abordagem. O preservativo é apenas uma das várias opções de prevenção disponíveis.

Refletir sobre o impacto traumático de imagens de pessoas com infecções avançadas é crucial; abordagens que geram medo apenas reforçam estigmas e culpabilizam, perpetuando preconceitos e discriminações enraizados em nossa percepção do que é aceitável na intimidade e prazer entre pessoas.

A sorofobia cria uma desigualdade de poder ao ignorarmos a confidencialidade e ao nos fecharmos para novas realidades e práticas sexuais. Enxergar as ISTs de maneira estigmatizante apenas fortalece a noção de culpa em indivíduos que são, na realidade, vítimas de um sistema injusto.

É essencial estarmos abertos para entender a sexualidade em toda a sua complexidade, incluindo estratégias de prevenção atualizadas como a Profilaxia Pré-exposição (PrEP), Profilaxia Pós-exposição (PEP) e a Prevenção Combinada, que engloba a redução de riscos, todas disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Além disso, é importante ressaltar que pessoas que vivem com HIV têm acesso a tratamentos eficazes que garantem sua qualidade de vida e, quando estão com carga viral indetectável, não transmitem o vírus através de práticas sexuais.

O debate sobre o HIV não deve ser limitado aos profissionais de saúde ou gestores de políticas públicas; é um tema pertinente a todos nós, cidadãos que formamos a sociedade, e devemos participar ativamente dessa luta, unindo-nos contra a sorofobia.

Mais informações no site da Unaids

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e membro da Diretoria da SBGG-SP, gerente do Convita – Patronato Assistencial Imigrantes Italianos, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve a convite do blog

Dez Por Cento Mais: os velhos também fazem sexo!

Ilustração da capa do livro “Sexualidade na velhice”

Muitos de nós pensamos no futuro, seja no âmbito profissional seja no pessoal. Mas quantos de nós paramos para refletir sobre como será nossa vida sexual na maturidade? A verdade é que a maioria teme esse tema, visto que vivemos em uma sociedade que hipersexualiza a juventude e frequentemente marginaliza os desejos e necessidades dos mais velhos. A jornalista e escritora Tania Celidonio, por meio de suas pesquisas, derruba tabus e revela uma perspectiva surpreendente e inspiradora sobre a sexualidade na terceira idade. Ela foi entrevistada pelo programa Dez Por Cento Mais, no YouTube.

Tania tem uma longa trajetória no jornalismo, mas foi ao explorar as complexidades da sexualidade na terceira idade que encontrou novas paixões e desafios. Em uma pesquisa ampla, que começou com seu círculo pessoal e se expandiu através das redes sociais, ela coletou cerca de 250 depoimentos sobre o tema. Os relatos, ricos e diversos, revelam uma amplitude de sentimentos, desejos, dúvidas e certezas que muitos preferem esconder por trás de pseudônimos. A pesquisa deu origem ao livro  “Mistérios e aflições da sexualidade na velhice” (Terra Redonda).

O sexo além do desejo físico

Para começar, é preciso entender que a sexualidade não se limita ao desejo físico e ao ato em si. Conforme destacado pela psicóloga Simone Domingues, uma das apresentadoras do programa, a sexualidade envolve intimidade, parceria, entrega e afeto. Essa dimensão profunda e abrangente da sexualidade se torna ainda mais evidente com o passar dos anos, quando a conexão emocional pode se sobrepor ao desejo físico.

Além disso, a pesquisa de Tania revela que muitos idosos sentem alívio ao não ter mais a “obrigação” de desejar constantemente, e conseguem abraçar a intimidade sem o foco exclusivo no ato sexual. Esta é uma revelação esclarecedora para os mais jovens, mostrando que a sexualidade se transforma, mas não desaparece.

Por outro lado, a sociedade ainda carrega muitos preconceitos. Tania citou Simone de Beauvoir, que em 1970 observou que se os idosos demonstrassem os mesmos desejos e sentimentos que os jovens, seriam vistos com desdém ou ridicularizados. Esta percepção parece ainda ressoar em muitas sociedades contemporâneas. No entanto, a questão é: por quê? Por que a sociedade tem padrões tão diferentes para homens e mulheres à medida que envelhecem? 

O preconceito é ainda maior com mulheres

Para as mulheres, o cenário é ainda mais complexo. A menopausa pode trazer consigo uma série de desafios, desde a diminuição do desejo até questões físicas, como ressecamento. Ao contrário dos homens, cujas soluções para disfunção erétil são amplamente discutidas e medicadas, as mulheres enfrentam uma lacuna no tratamento e compreensão de suas necessidades sexuais durante o envelhecimento. 

Talvez o ponto mais revelador de toda a discussão seja o padrão social imposto sobre os idosos, especialmente as mulheres. No universo dos relacionamentos, enquanto homens mais velhos com parceiras mais jovens são muitas vezes vistos como aceitáveis, mulheres mais velhas que expressam atração por homens mais jovens enfrentam julgamentos mais duros. 

O que fica claro na entrevista é que, assim como em qualquer fase da vida, a sexualidade na terceira idade é multifacetada. Não há uma única “maneira correta” de vivenciá-la. O que é essencial é o respeito, a comunicação e a abertura para entender e aceitar as mudanças que ocorrem ao longo do tempo. É preciso desmistificar e normalizar as conversas sobre sexualidade na velhice. Afinal, como bem destacou a jornalista Abigail Costa, “sexualidade é algo tão natural para o ser humano”, e não deveríamos ter vergonha ou medo de discutir, compreender e abraçar essa verdade em todas as fases da vida.

Dica Dez Por Cento Mais

Tania Celidônio, convidada por Abigail Costa e Simone Domingues, deixou sua Dica Dez Por Cento Mais: 

“Envelhecer é difícil. Não vai ser fácil para ninguém. Eu acho que se a gente encarar com bom humor, além do realismo que vem junto fica mais fácil. Porque não é fácil segurar essa onda. A minha dica seria essa. E também apostar na diversidade, porque isso que eu falei, o grande barato para mim foi perceber que a sexualidade tem uma diversidade incrível e a gente pode aproveitar mesmo depois de velho”.

Assista à entrevista no YouTube

Um novo episódio do Dez Por Cento Mais pode ser assistido ao vivo todas as quartas-feiras, às oito da noite (horário de Brasília), no YouTube. O programa também está disponível em podcast, no Spotify. A apresentação e produção é da jornalista Abigail Costa e da psicóloga Simone Domingues.

Cidade prateada: um em cada cinco é 60+ em SP; e você está pronto para esta fase da vida?

Por Martin Henkel

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ainda não apresentou o restante dos dados do Censo 2022 com um recorte, por exemplo, da população por faixa etária. Mas a SeniorLab Mercado & Consumo 60+ , que há quase dez anos atua exclusivamente neste segmento, mergulha nos números para projetar o cenário atual no Brasil.

Cruzamos dados do Censo IBGE total por cidades com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que atualiza mensalmente a quantidade de pessoas vivas na sua base e encontramos o seguinte:

  • No Brasil, 17% da população é 60+
  • No Estado de SP, 21% é 60+
  • Na cidade de São Paulo, 20% é 60+
  • Da população 60+ da cidade de São Paulo, 59% são de mulheres
  • Da população total com 79 anos ou mais, as mulheres são 62%

Ao associar os números com a observação das pessoas interagindo na cidade fica mais fácil entender o motivo de vermos tantos grisalhos em todo o lugar e com comportamentos de consumo bem distintos dos 60+ de dez ou 20 anos atrás.

Esse consumidor que começa a ser mais disputado pelo mercado é um desafio para marcas, produtos e serviços que ainda estão entendendo e aprendendo a como se relacionar com o multivariado grupo etário que, segundo o levantamento realizado pela SeniorLab, teve uma renda total de R$ 1,3 tri no ano passado, no Brasil.

Relação de planejamento financeiro e felicidade

Na “Trilha da Longevidade Brasileira”, que consolida 29 anos da mais duradoura pesquisa de corte populacional sobre o tema no Brasil, conduzida pelo Instituto Moriguchi, um dos 14 platôs de importância para alcançar a vida longa, plena e feliz é a organização financeira

Desde manter um padrão de vida mais próximo possível da época que possuía os maiores rendimentos, passando pelos custos do envelhecimento no que diz respeito ao atendimento médico, hospitalar, medicamentos para controle de doenças comuns aos longevos e, por fim, o cuidado assistido. 

Perceber, pensar nisso, planejar-se e fazer reservas para esta fase é determinante no nível de felicidade que será alcançado.

Vale destacar que um estudo, em mais de 80 países, identificou que a sensação de felicidade das pessoas com 60 anos ou mais é bem superior a das pessoas com 30 ou 40 anos. 

A soma de toda sabedoria, do entendimento de como as coisas funcionam na vida, de ver seus filhos e netos crescendo nas suas carreiras e vidas acaba sendo a grande razão da vida. 

A nota de zero a dez que sua sensação de felicidade vai receber quando tiver seus 60, 70 anos, precisa começar a ser planejada agora. 

Conheça a Trilha da Longevidade Brasileira

Martin Henkel é  CEO da SeniorLab mercado & consumo 60+ e cofundador do Terra da Longevidade Produtos e Negócios. Escreveu este texto especialmente para o Blog do Mílton Jung.

Quem cuidará de nós?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Georgy Druzhinin

Quantas vezes tivemos a oportunidade de refletir sobre como estamos envelhecendo? Ou ainda, sobre as condições que teremos na velhice? E aqui tomo a liberdade de problematizar um pouco mais, em não limitar essa reflexão a uma visão estritamente biológica.

Com quem chegaremos na velhice e será que essa ou essas pessoas estarão dispostas ou terão condições de cuidar de nós em caso de necessidade?

O aumento da expectativa de vida é uma conquista e talvez a maior evidência do quanto crescemos cientificamente e em estruturas socioculturais que foram fundamentais para a longevidade.

Relações e cuidados na velhice

Muitas mudanças aconteceram nos últimos anos e não necessariamente foram ruins, muito pelo contrário, comprovam que evoluímos e questionamos condicionamentos que reforçam a desigualdade nas relações de poder, o preconceito e a discriminação. 

As novas composições familiares que não atendem um padrão tradicional e heterossexual, o ingresso da mulher no mercado de trabalho, a migração dos filhos motivados por novas oportunidades de trabalho e estudo, são apenas alguns exemplos desse novo contexto social, que torna diferente o olhar e a vivência sobre o cuidado na velhice. 

Desigualdade social na velhice

Infelizmente, no Brasil, não conseguimos resolver um problema que nos submete a um cenário de insegurança e vulnerabilidade: a desigualdade social; aspecto que nos últimos anos têm preocupado a Organização Pan-americana de Saúde, por considerar que na velhice podem surgir demandas complexas que necessitem de cuidados de longa duração, seja em âmbito domiciliar, em serviços de saúde ou de assistência social.

Os cuidados de longa duração, de modo geral, são os cuidados que demandam uma atenção especializada ou de auxílio de outras pessoas – em caráter de cuidadores, atuando no controle de doenças crônicas, reabilitação, residência e demais assistências que garantam a independência, a autonomia e uma maior qualidade de vida na velhice.

Políticas públicas e família

Por outro lado, políticas públicas com foco nos cuidados de longa duração caminham lentamente, e muitas vezes, com discursos que reforçam uma ideia pejorativa sobre os serviços, atribuindo à família a responsabilidade do cuidado, desconsiderando sua composição, a intensidade das relações e os vínculos afetivos constituídos ao longo da vida entre seus membros. Como mencionado na Constituição Cidadã de 1988:

“Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores,

e os filhos maiores têm o dever de ajudar

e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.

Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de

amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação

na comunidade, defendendo sua dignidade e

bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

§ 1o Os programas de amparo aos idosos

serão executados preferencialmente em seus lares.”

Cuidados de longa duração

Um exemplo disso são as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) – que antes eram conhecidas por “asilos”, e que trazem em sua história um estigma associado ao abandono, pobreza, solidão e incapacidade.

Além dos aspectos culturais que nos distanciam desses serviços, ainda nos deparamos com fatores econômicos, pois são serviços caros por demandarem um cuidado especializado.

No Mapa das ILPI do Ministério Público de São Paulo, consta que existem cerca de 2257 instituições no estado de São Paulo que acolhem aproximadamente 42 mil pessoas idosas, porém somente 498 dessas instituições são filantrópicas – a maioria de caráter religioso e 48 instituições são públicas.

Desafios do cuidado domiciliar

Ao pensarmos no cuidado da pessoa idosa em casa, também enfrentamos outros desafios, e neste sentido, darei ênfase a dois deles: como estamos vivendo mais, já é uma realidade conhecermos pessoas idosas que cuidam de outras pessoas idosas. Sejam cônjuge ou filhos que cuidam de pais – e vice e versa. Sabemos que há poucas estruturas de apoio para essas pessoas, que muitas vezes sofrem por sobrecarga de atividades e estresse.

Por outro lado, aumentaram significativamente empresas e profissionais que se dedicam ao cuidado de pessoas idosas, porém além de envolver um custo que muitas famílias não possuem condições de arcar, ainda não há a regulamentação dessa profissão, assim como, uma estrutura formal mínima pedagógica que padronizem a formação profissional.

Nos últimos anos, as questões relacionadas ao cuidado a pessoas dependentes, principalmente de pessoas idosas, estão tomando uma maior notoriedade pública, muitas dessas, que emergiram em decorrência da pandemia de covid-19 onde revelou o Brasil como um país idadista, que não valoriza as pessoas mais velhas, em especial, as que demandam de cuidados de longa duração e que vivem em ILPI, que, ainda estão invisíveis paras as políticas públicas brasileiras, conforme aponta a Carta-manifesto “Quem vai cuidar de nós quando envelhecermos?”, lançada em maio de 2023, em menção ao Decreto nº 11.460 de 30 de março de 2023, que instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial com o objetivo de elaborar a Política Nacional de Cuidados e o Plano Nacional de Cuidados, onde, de acordo com governo, serão consideradas as desigualdades sociais, com recortes relacionados a raça e classe social.

Engajamento e futuro da velhice

Pensar sobre quem cuidará de nós, caso tenhamos essa necessidade em algum momento da vida, é fundamental, assim como, nos engajarmos politicamente, enquanto sociedade civil, para garantir que num futuro próximo, possamos vivenciar a velhice de uma forma digna, com acesso garantido aos cuidados especializados.

Diego Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo

“Não sou velha, sou usada” 

Por Diego Felix Miguel

Foto de Mihuel/Pexels

Confesso que a frase que dá título a esse texto me abalou bastante e, agora, ao escrever essas linhas tento elaborar qual profundidade esse desconforto alcança relacionando-a a um contexto muito específico. 

Ela foi proferida por uma mulher transgênera de 70 e poucos anos que mora no extremo leste da cidade de São Paulo enquanto contava que para chegar no auditório onde estávamos, às nove horas da manhã, teve de acordar de madrugada e enfrentar um transporte público pouco confortável, como esperado (e naturalizado) para quem vive por aqui. Sabemos que essa é uma realidade para milhares de pessoas, principalmente aquelas que trabalham diariamente para conseguir sustentar a si e sua família; mas, naquele contexto específico, a presença dessa nobre senhora era voluntária, movida por uma força de vontade que muito me inspirou quando a conheci naquele dia.

O evento onde nos conhecemos foi organizado pela Prefeitura de São Paulo em virtude do dia 28 de junho – data que celebramos mundialmente o Dia do Orgulho LGBTQIA+  e reuniu profissionais, especialistas, líderes de movimentos sociais e autoridades, para conversar sobre questões relacionadas ao acesso de pessoas idosas LGBTQIA+ a serviços de cuidados de longa duração como Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) — pejorativamente conhecidas por “asilos –, Centros-dia — um centro com foco no cuidado de pessoas idosas que precisam de auxílio para executar suas atividades de autocuidado durante o dia — e Centros de Acolhida Especiais para Idosos — um serviço voltado às pessoas idosas que demandam de um acolhimento temporário por estarem em situação de alta vulnerabilidade social.

Sem dúvida, a organização desse seminário foi louvável, haja vista as demandas complexas que envolvem essa realidade, infelizmente quase imperceptível para a maioria das pessoas. O lugar que ocupei no evento foi o de palestrante, considerando a minha trajetória de estudo, vivência e pesquisa nessa área.

A senhora em questão, que foi a grande inspiradora dessas linhas que escrevo, estava ali ocupando um espaço seu, por direito, e que muito além que qualquer estudo ou pesquisa, pode falar com grande propriedade sobre “o que é ser uma mulher idosa transgênera que mora no extremo leste do município de São Paulo” e, em algum momento da sua vida, pode ter necessidade de acessar algum desses serviços — logo, essa foi a oportunidade de expressar seus receios e percepções sobre o atendimento. 

Pouco antes do início das atividades, ela estava sentada na primeira fila, próximo a mim, e percebi que comentava com as pessoas da organização do evento sobre tudo que enfrentou naquela manhã para chegar até ali.  De forma sabiamente majestosa, posicionou-se dizendo algo relacionado à importância da sua presença naquele lugar sem mesmo ter sido nomeadamente convidada e, diga-se de passagem, que era um espaço majoritariamente ocupado por pessoas brancas, heterossexuais, cisgêneras – em conformidade com o gênero que foi atribuído ao nascimento –, e com menos idade que ela.

Trocamos um olhar de acolhimento que me fez lembrar o real sentido de estarmos aliados, provocando inquietações para que as políticas públicas e serviços possam, de fato, ter como base a equidade, considerando as diferenças que compõem a nossa identidade e que nos condicionam a ocupar um lugar social bem específico. 

Logo nesse contato inicial, fui provocado a pensar: como tornar acessível as políticas e serviços, se não com a representatividade em suas diferentes realidades e contextos? “Nada para nós, sem nós”, um slogan conhecido na luta pela inclusão do movimento anticapacitista, contra o preconceito e discriminação de pessoas com deficiência.

Do mesmo modo, não há como falar de acesso de pessoas idosas LGBTQIA+ sem a presença delas e com a organicidade de suas falas construídas a partir de suas experiências. Não há como desconsiderar a interseccionalidade que envolve a construção identitária, a partir de ideários machistas, racistas, xenofóbicos entre tantos outros estereótipos, preconceitos e discriminações que se relacionam gerando um contexto ainda mais complexo e desafiador.  

Movido nessas reflexões, apresentei minha palestra e se formou uma mesa com os demais colegas para conversarmos sobre os aspectos que estávamos trabalhando no evento. 

A senhora foi convidada a estar com a gente no palco e, logo nos primeiros minutos de sua retórica, com uma voz embargada, num misto de emoção e empoderamento, fala repetidas vezes, com uma pausa dramática, essencial para dar ênfase à complexidade em questão: “Não sou velha, sou usada”.

À primeira vista associei essa frase a uma negação da velhice e a resistência que ainda temos em nos colocarmos na condição de velha ou velho, por conta dos mitos e estereótipos relacionados à incapacidade, improdutividade e apequenamento da pessoa idosa, fatos hoje referenciados e associados à forma de preconceito conhecida como Idadismo. 

Mesmo a comunidade LGBTQIA+ está distante da pauta do envelhecimento e velhice e, infelizmente, muitas pessoas idosas que em tempos remotos lutaram para que usufruíssemos de nossos direitos hoje, estão submetidas ao esquecimento e ao abandono, muitas dessas ainda sofrendo um apagamento de suas histórias por desconstruírem sua identidade, tentando manter minimamente sua segurança num ambiente hostil junto daqueles que não têm a menor compreensão sobre as questões relacionadas a gênero e sexualidade, principalmente as que divergem do padrão socialmente estabelecido.

Confesso que perdido em minhas ideias me senti um tanto quanto envergonhado. A questão ali não era exatamente sobre idadismo, apesar de dialogar com ele. 

Fui buscar no “google” interpretações sobre “o que é usado” e uma delas me chamou a atenção: adaptado ou condicionado (a algo); habituado, acostumado.

A partir dessa leitura, consegui identificar a profundidade do meu estranhamento com a frase: Nós, pessoas LGBTQIA+ estamos condicionados a ocupar um lugar social imposto/permitido socialmente? Ou podemos ocupar os lugares que realmente queremos?

Partindo de um lugar que experiencio, de conforto e certo privilégio, ainda, sim, sei que não é fácil transgredir um sistema que formam corpos e identidades socioculturais por um olhar heterocisnormativo – uma perspectiva que padroniza pessoas a partir de um modelo centrado na heterossexualidade e cisgeneridade.

Consigo lembrar de vários momentos que não me senti seguro com minha orientação sexual e tentei forjar uma condição que não era exatamente a minha, anulando parte da minha identidade, mesmo que de forma temporária, em troca de uma aceitação, apoio ou uma falsa sensação de segurança. Em vários momentos fui usado por essa ideia centrada numa normalidade.

Penso então que para uma mulher transgênera de uma geração bem anterior a minha, a vida não tenha sido nada fácil. Para resistir e poder seguir viva e existindo socialmente, foi usada por esse sistema, subordinada a ocupar espaços sociais que ampliaram sua vulnerabilidade e exposição à violência. Ainda assim, como num processo de resiliência e resistência absurda, com uma força muito maior do que possamos imaginar, buscou estratégias para transformar essa realidade superando uma expectativa de vida que lhe é atribuída – que não sabemos ao certo se é de 35 anos de idade, mas temos certeza que é muito menor que os 72 anos atribuídos a pessoas cisgêneras – caminhando entre as fissuras de sistemas conservadores, perversos e violentos. Marcou sua presença e deu a visibilidade necessária para sua existência e demandas. 

Estar naquele momento, ocupando um espaço de visibilidade enquanto uma mulher transgênera idosa a torna uma grande mestra, permitindo-se mais uma vez ser usada socialmente para ilustrar uma realidade que muitas pessoas ainda insistem em invisibilizar, silenciar ou relativizar. Essa senhora promoveu a geratividade, “passando o bastão” de seu legado para todos nós que estávamos ali, cúmplices de seu apelo.  

Será que nessa atenção e toda energia investida ao longo de uma vida, para ser usada e ao mesmo tempo ressignificada socialmente, ainda resta tempo para se atentar a um corpo envelhecido, uma rede de suporte social diminuída e uma invisibilidade acentuada por ser uma pessoa LGBTQIA+ e idosa? 

Para mim e para várias pessoas que ali estavam essa senhora foi a grande protagonista desse encontro, perpetuando essa inquietude de uma frase tão simples, mas ao tempo densa. E no meu caso, posso dizer sem sombras de dúvida que fui afetado, transformado por suas palavras, e que estas se tornarão eternas em minha trajetória.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: como se todos os dias fossem domingo

Por Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

Photo by Matthias Zomer on Pexels.com

Ela chegou de mansinho, sorrateiramente, sem fazer alarde, com um tanto de timidez, devo confessar. Diferentemente dessas que espontaneamente se aproximam esfuziantes e nos envolvem tornando-se logo íntima. Não tenho na memória a data exata dessa aproximação, sei que estava às vésperas de me tornar um sexagenário, na inconsciente expectativa de que em algum momento o calendário frio da existência acusaria a lenta metamorfose pela qual é destinada a quem consegue galgar os degraus desta vida terrena. O tempo da nossa passagem nesse plano, assim como conhecemos, tem o seu preço, o envelhecimento do corpo, não que o envelhecimento seja um castigo, talvez um prêmio por algo inexplicável, ou a certeza da fragilidade do ser, desafiando a saúde e a vitalidade.

Assim, a tal visita, agindo como uma síndrome matreira, invisível a olho nu, evasiva a um Raio X e, mesmo entregue à sorte de uma Ressonância Magnética, foi se aproximando e ganhando espaço sem uma causa aparente que pudesse definir sua chegada, causando medo e incertezas. Aos poucos, foi me envolvendo e ganhando terreno. Mexeu com o meu cognitivo. 

Agora, senhora de si, incomoda o meu físico, perturba o meu psicológico, por vezes deixa-me trôpego, trêmulo, limitando os meus movimentos, por mais simples que sejam.

Provavelmente, quero crer, foi num momento no qual a minha vida passava por um processo de transição, com a chegada na terceira idade, a tão aguardada aposentadoria e a expectativa de uma nova fase para curtir a vida. 

Embora ainda me sinta produtivo, quis as circunstâncias que as minhas atividades profissionais diminuíssem pouco a pouco. Pegou de jeito o meu estado emocional, sem que eu tivesse chance de escapar, por mais que desejasse. 

Fragilizado, não tive forças de reagir à invasão da qual estava me submetendo. Sequer sabia quem estava ocupando o espaço da minha intimidade. Hoje, refém dessa visita, percebo que ela, embora plenamente presente em minha vida, torna solitários alguns dos meus momentos. Limita as minhas atividades, usurpa a minha autonomia, já não sou dono dos meus passos, muito menos das minhas idas e vindas. Os caminhos se tornaram árduos e as distâncias se ampliaram. 

Mesmo assim, difícil fazer entender aos que me cercam, tenho lá minhas limitações, quero que respeitem minhas lágrimas, não que questionem o meu silêncio, por mais que tento exaustivamente explicar que não escolhi esta companhia, tampouco aponto culpados. Bem sei o quanto é difícil expulsá-la, cabe a mim, somente a mim, seguir e caminhar com ela, mesmo que a passos lentos e claudicantes e viver um dia de cada vez, viver com intensidade e alegria, como se todos os dias fossem domingo, domingo no Parkinson de diversões. 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Amigos permitem ser quem eu sou

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Charles Bernie from Pixabay 

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”

Antoine de Saint-Exupéry

            Ao longo da história da humanidade, o convívio social sofreu mudanças importantes quanto as suas funções e características. Nos primórdios, manter vínculos com outros seres humanos é o que permitia a sobrevivência da espécie, através da colaboração mútua e da proteção. Na pandemia, o uso da tecnologia, seja com aplicativos ou através de redes sociais, se tornou uma das poucas maneiras de se estar socialmente conectado.  

            Diversos estudos destacam a importância das relações sociais, especialmente as que envolvem a amizade, durante o ciclo vital, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.

Na infância, por exemplo, conviver com os amigos está diretamente relacionado com a formação do processo de socialização. Nessa fase, as relações estabelecidas envolvem afeto, diversão, colaboração mútua e resolução de conflitos.

Na adolescência, as amizades são importantes para a construção da identidade e da autoimagem. Nessa fase, talvez mais do que em qualquer outra, o bem-estar psicológico estará diretamente associado com a percepção da Cyro gostaria de fazer parte da sua redequalidade das amizades, por exemplo, se sentir aceito, valorizado pelo outro e estabelecer relações positivas, envolvendo confiança e disponibilidade.

No final da adolescência e início da vida adulta, as demandas que surgem, como ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, podem ser muito estressantes para os jovens e, nesse caso, os amigos são fontes de apoio social, auxiliando a lidar com esses desafios.

Infelizmente, na adolescência, nem sempre as relações estabelecidas são satisfatórias e muitos jovens experimentam um empobrecimento da interação social, gerando muita ansiedade. A piora do bem-estar psicológico pode favorecer o isolamento ou agravar as habilidades sociais, tornando a pessoa mais inibida, com impactos a longo prazo, como aumento da insegurança e redução da autoestima.

Na vida adulta, o trabalho, os relacionamentos afetivos mais estáveis ou filhos, podem diminuir o tempo disponível para o convívio com os amigos, mas há um aumento da qualidade das relações estabelecidas

No envelhecimento, a interação com os amigos também se modifica, se tornando menos frequente ou com encontros mais breves, porém, os amigos representam a maior fonte de proteção contra a solidão.

            A importância de se estabelecer bons relacionamentos foi evidenciada numa pesquisa realizada pela Universidade de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), sendo apontada como um dos fatores que mais influencia o nível de saúde das pessoas, incluindo a longevidade.

            Seria possível detalhar inúmeros estudos que mostram os benefícios de se ter amigos, mas todos eles podem ser resumidos em uma frase: ter amigos torna a nossa vida melhor! 

            Em geral, as relações estabelecidas com os amigos são mais recíprocas, sofrem menos julgamentos e são menos estressantes.

            Amigos nos permitem companhia, apoio e riso solto. Amigos nos acolhem quando precisamos dividir as nossas dores, o nosso choro.

            São os laços que construímos ao longo do caminho… alguns se afrouxam, se desfazem, mas outros estão ali bem firmes. 

São presentes… Desses que a gente agradece todos os dias por ter recebido. Desses que estão sempre com a gente, não nos deixam sós.

Penso nos meus amigos e na importância que eles têm para mim. Me permitem ser quem eu sou e carregam um pouco de mim dentro deles.   

            Na impossibilidade do abraço, faço brigadeiros e envio para os meus amigos. Talvez seja sobre o tempo. Talvez seja sobre a dedicação. Mas acima de tudo, é sobre eles mesmos. 

            Feliz Dia do Amigo!

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A incrível História de Adaline: a angústia da eterna juventude

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“A incrível História de Adaline”
Um filme de Lee Toland Krieger
Gênero: Romance/Drama
País:EUA

 

Na virada do século 20, Adaline, uma jovem moça, de 29 anos, sofre um acidente de carro, morre e é ressuscitada por uma descarga elétrica. Misteriosamente algo se modifica em sua química corporal e ela não envelhece mais. Como ela se tornou uma pessoa curiosa, evita se envolver com as pessoas com medo que as mesmas saibam deste seu segredo, até que conhece outro jovem e se apaixona, trazendo consequências interessantes em sua vida.

 

Por que ver: Apesar de parecer um tema batido, não se engane, pois não é. A história é bem amarrada e interessante. O filme me cativou logo no começo. Vale a pena. Atores/direção e roteiro coesos…É um filme fluido e com certeza eu o assistiria novamente.

 

Como ver: Da maneira tradicional. Com pipoca, no final da tarde de domingo.

 

Quando não ver: As vezes não sei o que escrever nesta parte, e este filme é destes que me deixam na dúvida… Me diga você quando não ver, ok?

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos e agora está te desafiando, vai amarelar?