Do prazer de ser

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça Do Prazer de Ser na voz e sonorizado pela autora

Olá,

Tem dias que eu gostaria que nem tivessem raiado, porque sou mimada e esperneio, cada vez menos, é verdade, quando alguma coisa não sai como quero que saia. Tem outros que simplesmente não é justo que acabem! E quando acabam, procuro segurar o gostinho deles o quanto posso, fico posicionando a agulha do braço da memória nos momentos mais gostosos do disco do dia, até furar.

E assim vai a vida, aceito um tanto e esperneio, brigando com outro tanto.

Não tive irmãos com quem dividir a atenção dos meus pais. Até os catorze fui filha única, aos dezenove fiquei noiva, e aos vinte casei. Não tive com quem dividir o quarto, o bife, a sobremesa. Era meu, o melhor, e era meu, o pior. Não fui treinada para competir. Faço parte da minoria. A maioria teve irmãos para treinar a vida. Sou autodidata, aprendo de ouvido, atenta, olhando à volta, entendendo a importância do outro. Aproveitei o quanto pude a privacidade com que fui premiada. Hoje, ainda me guardo, me escondo, me protejo, mas não sou mais única. Longe disso. Moro sob o mesmo teto, com dezenas de pessoas que nem conheço, e sou cercada por outras tantas, que infelizmente me põem alerta.

Para mim, um dia delicioso é feito de coisas simples. De coisas que eu gosto e que são simples porque estão à mão, não tem que sair para comprar, não tem que mandar buscar e esperar que cheguem, não dependem de viagem nacional nem internacional, mas dependem do outro, mesmo que esse outro não seja visível, não tenha um nome, um rosto. E reforço a consciência de que mesmo passando um dia inteiro sozinha, dependo, sim, de muita gente. Isso é fácil perceber quando a internet cai, quando o pão acaba na hora do café, quando a luz apaga, quando esfria a água.

E vejo passar na tela da minha vida, dias de festa e de solidão que, como a água da chuva, que é a mesma da emoção, escorrem pelo ralo do tempo, ou empoçam nas crateras do desalento e da desilusão.

Tenho alma de poeta que vive aos saltos, se esvai em lágrimas de alegria, em soluços de desilusão, que um dia se enche de fome e no outro rejeita a água e o pão. Sou feita das peças que a vida engendrou, mas uma coisa digo de boca bem cheia: nunca fugi dela, na dor nem no amor. Me ponho sempre pronta para a próxima onda depois do caldo que me fez ralar os joelhos na areia molhada. Quero tudo e me contento com nada. Às vezes me animo, parto para a luta, e volto para casa, derrotada. Noutras, distraída, o brilho de um olhar faz de mim a sua presa, me rendo ao calor de um sorriso, de uma risada solta que denuncia a entrega, e me entrego, eu, a mais um sonho, o mesmo sonho de cada dia.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung


De auto-ajuda

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De auto-ajuda” na voz e sonorizado pela autora

Olá,

esta semana me fizeram uma pergunta que me levou a faxina em mim.

‘É só ser natural, não é?’ foi a pergunta.

Quando voltei para casa, à noite, continuava estacionada no conceito. Olhei bem para mim procurando o meu natural e, depois de algum tempo de senho franzido, ri aliviada. Não encontrei; vai ver não tenho um. Vai ver se foi com a placenta, na minha chegada. Vai ver ninguém tem.

O fato é que a pergunta desencadeou em mim mais um processo de limpeza de emoções – esta fica, esta vai, o que é que esta ainda está fazendo aqui? – e dei de cara com um evento, guardado na caixa de emoções, que era hora de transferir para a de lembranças. É bom fazer isso de tempo em tempo. Dá uma limpada boa. Melhora o desempenho da gente.

Encontrei ali um fato de anos atrás, quando fui ‘informada’ de que gente do meu grupo, da minha tribo, tinha dito que não entendia como alguém tão desequilibrado quanto eu tinha escrito um livro ‘de auto-ajuda’. Fiquei sentida porque, na época, andava ainda mais mergulhada do que hoje na ilusão de que somos o que o outro pensa que somos, e que se não somos amados incondicionalmente por aqueles que a gente ama, somos infelizes.

Foquei, então, na limpeza das emoções guardadas e transferi esse evento para a caixa de lembranças. No processo, revendo a fala deles, percebi que, fora o fato de não terem dito aquilo para mim, eu só questionava o codinome ‘de auto-ajuda’, atrelado ao meu livro, porque sempre vivi, mesmo, muito mais em desequilíbrio do que no prumo. Questiono o subtítulo ‘de auto-ajuda’ aplicado a livros que falam de vida, emoção, questionamento, de por quês e porquês, e dos que dão dicas porque, afinal, de médico e louco cada um tem um pouco.

Por que não chamam de livros ‘de auto-ajuda’, os romances de Tolstoy? Por que as peças de Nelson Rodrigues não recebem o carimbo de teatro ‘de auto-ajuda’? Uma noite de música na Sala São Paulo, a disputa pelo campeonato, no estádio do time do teu coração? Por que o pãozinho com manteiga, na padaria, e um capuccino, tudo fresquinho, feito no capricho, não são chamados de café da manhã ‘de auto-ajuda’? O primeiro beijo de cada novo amor, o milésimo beijo do amor de sempre. Por que não é chamado de auto-ajuda, o fato dolorido, a situação embaraçosa?

Mas o que é auto-ajuda?

Veja, o prefixo auto- quer dizer que você pratica uma ação, e é ao mesmo tempo o alvo dela. Você é o sujeito e o objeto da ação. Você faz a coisa para você mesmo. Portanto, nenhum livro, nenhuma peça, nenhuma criação musical, nenhuma partida de futebol, nada, nadica de nada pode ser chamado de ‘de auto-ajuda’.

Se algo externo a você te provoca o desejo de se perceber, de usar a consciência pra ela não enferrujar, se te ajuda a chegar aonde quiser ou puder, como der, esse algo simplesmente para a ser uma ajuda, se você quiser se ajudar. Simples assim. Auto-ajuda é o esporte que a gente pratica quando não se boicota. E olha que já está de bom tamanho! Você não acha? Vale dar uma chegada no porão ou no sótão onde estão armazenadas emoções antigas, emboloradas, e meter a mão na massa.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapueta, professora de línguas estrangeiras e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De pai e mãe

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pai e mãe” na voz e sonorizado pela autora

Somos dependentes de deuses, da mesma forma que são dependentes de nós, os filhos. Somos dependentes, cada um na sua medida, de objetos, sensações, hábitos, entidades, crenças. Não resistimos ao invisível, intocável, inatingível, impensável. E lhes conferimos poder. Nas suas mãos depositamos a responsabilidade que deveria ser nossa.

Há deuses para todos os gostos: os que exigem algumas coisas, os que são contra outras, os que têm emoções humanas como ira, vingança, preferência; e todos têm seus inimigos também. Como nós.

Não sei como são os teus deuses, nem qual é o grau da tua dependência. Nem você sabe, mas vou enfrentar a minha, com tudo; com minhas células, meu sangue, meus músculos. Com a consciência.

Quando digo: Deus! – Criador, Pai, Mãe, Grande Ser – me dirijo a uma entidade desconhecida, raras vezes intuída, questionada, idolatrada, traduzida nas mais diversas línguas, pelos mais diversos corações.

E digo: Pai! – Mãe – dá-me força para que eu não bata o pé feito criança mimada, sempre que alguma coisa não toma o rumo que eu esperava que tomasse. Pai! – Mãe, Irmãos invisíveis, Anjos, Arcanjos, Entidades de todas as raças, de todos os credos, Devas da Natureza, Natureza – olha para mim que sou pequena, frágil, solitária e que vivo em busca do ponto de origem que mora em mim, e que é a fagulha que faz existir tudo o que deve existir. Eu sei que está ali, em algum lugar, em mim, no outro, em tudo o que é; um ponto mágico para ligar e desligar, aqui e ali, para que eu me equilibre, que possa oferecer amor, respeito, consideração, solidariedade, e para que eu aprenda a atrair para mim, o mesmo, e mais.

Pai! – Mãe, Senhor dos Mares dos Ares, da Terra, Ondinas, Fadas Silfos, Senhor da Lua e do Sol – ilumina minha consciência, para que eu, de algum modo, encontre o que procuro. Ilumina minha consciência para que ela perceba quanto ainda é pequena, e quanto espaço ainda precisa ocupar.

Mãe! – Pai, invisíveis, visíveis, faz o mesmo a todo aquele que demonstrar no coração, que busca o mesmo que eu. Mesmo que não saiba expressar esse desejo. E o mesmo a todos os outros, à minha esquerda, à minha direita, que vão lá na frente e aqueles de quem ouço os passos, ali atrás.

Você ouve? você pensa nisso? ou não…

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De pares

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pares” na voz e sonorizado pela autora

Segregar, discriminar, não adianta! porque a força da vida aproxima os opostos. Do seu jeito. Os opostos e os nem tão opostos assim. Uma coisa que seja, em você, que se oponha ao seu par em mim, pode te arrebatar, sem que haja neste planeta explicação. É Física! O planeta precisa de equilíbrio para continuar a ser.

Bizarro e perfeito dividem o palco; água e fogo, nascimento e morte se acotovelam. Casamento, divórcio, assassinato e salvamento; descarte e resgate. Interessante ver. Pobre e rico dividem sonho de ter para ser; e é assim mesmo: o ser não vive sem o ter, até que o ter se rende, inevitavelmente, ao ser. O querer e o estar-nem-aí convivem numa boa, na mesma sala.

Vaidade e insegurança são assim; não se desgrudam por nada. Nada é suficiente, porque nada não vive sem tudo. Desespero campeia na desgraça e na ânsia da pirraça. Dor e prazer, não preciso nem dizer! Dar finca o pé até que chegue o receber, e não tem ir-se-embora sem ficar, nem sem um dia chegar.

Imaginação e realidade se entrelaçam a ponto de perder a identidade. Se fizeram passar, tantas vezes, uma pela outra, que não sabem dizer: o viver, afinal, é filho de quem?

Certo e errado têm seus dias contados. Tão unidos, querendo ocupar o mesmo espaço, vão acabar se fundindo. E nesse dia, abriremos a porta para a responsabilidade, que não existe fora da consciência, e se fará luz no caminho para a verdadeira vida, quando vida e morte finalmente assumem sua atração e vivem e morrem, para sempre.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De febre e loucura

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Quero tanto falar de sentimento, de emoção, sempre; e me pergunto, às vezes, se eu não deveria reclamar de o prefeito não prefeitar como deveria ele, se eu não deveria policiar as polícias por não policiarem como policiam os policiais nos filmes de bandido e mocinho. Se acaso eu não deveria vasculhar a vida pessoal dos senadores só de birra, por eles nunca senadorarem, como manda o figurino. Penso se não deveria choramingar mais, em vez de aguentar o tranco. Me pergunto, às vezes.

E acabo rindo! De mim. Que nem sei bem quem sou; que nem percebo, tantas vezes ainda, quando erro, quando sou inconveniente. Rio de mim, sim, que tenho uma dificuldade danada para administrar a vida na matéria, na emoção e na razão. Quem sou eu para criticar qualquer coisa no outro. Quem sou eu para dizer se seus hábitos são saudáveis, se eu estou doente de novo, com uma faringite de fazer dó aos meus inimigos. Quem sou eu para criticar quem quer que seja; e como faria isso? Com que autoridade, sob a batuta de que cartilha? Do Ocidente ou do Oriente? Do norte ou do sul? Do reinado ou da democracia? Eu mediria o outro usando a minha fita métrica?

Não posso. Não quero. E vou dizer mais, quero me livrar da crítica pequena, diária. Não quero mais nada que não seja simplesmente. Não quero nada mais que não seja honestidade, comprometimento, amizade, alegria, companheirismo, generosidade e amorosidade; começando por mim. No dia a dia da minha vida. Não quero mais nada que não tenha um sabor agradável. Não quero não aceitar a vida como ela é. Não quero aceitar a minha não participação no que estiver ao meu alcance. Afinal, não dizemos que a vida é curta? No entanto, vivemos amargos, de dedo em riste, de costas para a parede, o tempo todo. Todo o tempo. E queremos a paz! Como? se a guerra tornou-se senhora dos lares, corações e mentes de todos nós? Como? se ela permeia palavras, gestos e olhares de eterna acusação porque ele não é assim, porque ela é assado. Como? se cada um de nós vive fechado num exército de uma pessoa só, e somos bilhões de exércitos? Querendo ser o senhor de tudo e de todos, acabamos nos tornando senhores muito crueis de um único vassalo, você de você, e eu de mim. E dizemos que queremos paz. Mentira; somos dependentes da guerra da picuinha diária, onde temos absoluta certeza de sermos sempre melhores do que o outro. O malandro se servindo do bacana, que sai todo pimpão achando que se está servindo do primeiro.

Então, falo de mim; de como vejo e sinto a vida; já que esta é a minha viagem, a que me foi oferecida, de algum modo, pelo Criador de tudo isto e de muito mais. Sou meu objeto de pesquisa, mas foco em mim e no outro, que ele é vivente feito eu.

A vida fica muito solitária quando acreditamos ser melhores do que todos os outros; e mesmo assim, preferimos passar mais tempo da vida atacando e nos defendendo do outro, a viver vivendo, amando, amizadeando, trabalhando, criando, ouvindo e, quase sempre sendo ouvido, dançando, passeando, aprendendo, ajudando, apoiando, compreendendo, amando, amando, amando.

Se estou ficando louca, então, me agrada, a loucura.
Confesso.
E me despeço.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De contração e expansão


Por Maria Lucia Solla

Céu de São Paulo

Ouça De contração e expansão na voz e sonorizado pela autora

Dinheiro e poder não transformam, não corrompem, mas têm o poder de revelar, como se revelavam as fotografias há pouco. Revelam nossa essência, deixam à mostra o que se instalou em nós, da educação que recebemos na família, e da influência da escola, de amigos e da vida; ao longo dela.

Poder e dinheiro fazem um raio X da personalidade e a exibem para o mundo, imprimindo seus ingredientes em cada gesto, palavra, atitude, ação e reação. Nos põem do avesso.

Quando chegam, dinheiro e poder soltam as amarras que limitam os passos, que impedem de experimentar a receita sofisticada, o par de sapatos de grife, o eletrônico da hora, que surge todo dia, toda hora. É com o aval da chegada deles que tratamos ou destratamos o outro, ao sabor de alegria e frustração. É através da lente deles que respeitamos ou desrespeitamos o vivente do lado, o da frente, de trás, e libertamos ou subjugamos, com o mesmo aval dado por eles.

Falo disso porque canso de ouvir que matéria é passagem para o inferno, que dinheiro é sujo, que muda a cabeça da gente. Canso de ouvir que fulano ficou besta depois que enricou. Ficou besta, não; já era. Só tem mais coragem e mais liberdade para ser quem verdadeiramente é.

Não há o que nos transforme, sinto pelo informe. Nada; nadica de nada. Nem melhorar, nem piorar. Fomos longe demais acreditando na cartilha passada de geração em geração, comportamental e oralmente, feito telefone sem fio, e não paramos para avaliar o passado, o hoje, o presente, o agora. Fomos longe demais, sempre correndo atrás da vida, sem alcançá-la, por medo dela. Queremos o prazer, e disseminamos frustração.

Nada fora pode nos mudar. Só o que transforma o homem, é ele mesmo, ouvindo o coração, afastando pensamento que faz o corpo contrair e acolhendo o que o faz expandir; que faz sorrir, que faz achar que vale a pena continuar.

Se quisermos, sorriremos mais e mentiremos menos; e quando isso acontecer, o sol vai acordar cedo no verão e dormir, preguiçoso, no inverno. O amor vai vencer o medo. O ser humano vai viver feito abelha e formiga, cuidando junto, do bem-comum.

Quando isso acontecer, ninguém mais vai se lembrar de que houve um tempo em que culpa e medo eram arma, quando a gente vivia se queixando do odor das flores do mal. Quando isso acontecer, o dever e o prazer terão pesos iguais. E eu sorrio só de pensar, e meu corpo se expande.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De olhos da alma

 


Por Maria Lucia Solla



Ouça ‘De olhos da alma’ na voz e sonorizado pela autora

Quanto sofrimento atinge o povo deste planeta azul! Portamos uma tarja preta no sorriso, o fogo do coração vive ameaçando apagar, e quando pensamos: agora a tristeza vai dar uma trégua e dar lugar à alegria, ela rodopia num volteio artístico, poético – que esses atributos a tristeza também tem – e nos atinge em cheio.

Uma vez, uns poucos nos exibem a dor, uns dias uns, outros dias outros; outra, é uma cidade inteira que morre e engole, no seu último suspiro, tudo o que sustentava; e nós acreditamos ser os donos da terra. Acreditamos que a tristeza, os golpes desferidos pela foice descontrolada da morte, que tudo isso vem de fora para dentro. Nos cremos mira de arma injusta; vítimas do outro, e continuamos nos afogando no mar das certezas de que: o que vem de fora é que me deixa triste, não é parte de mim e portanto me ameaça.

Mantemos os olhos da alma fechados e escancaramos os do corpo, cada um olhando para o próprio umbigo e puxando a corda na sua direção. De que adianta condenar o bullying nas escolas e continuar a praticar em todas as camadas sociais, todas as faixas etárias, o bullying analfabeto e o bullying diplomado; na rua, na família, no trabalho?

O ser humano está doente; muito doente. Apontamos os defeitos dos outros e implodimos sob o peso dos que tentamos esconder. Escondemos os sintomas, e morremos da doença. Há! Não há nada que a medicina moderna e avançada possa fazer, nada que a economia possa sanar, que a política possa forjar e os presidentes presidenciar. É trabalho de formiguinha, cada um começando a resolver os seus próprios problemas, por mais difíceis e impossíveis de resolver que possam parecer. É trabalho de coragem, abrir bem os olhos da alma e reconhecer o caminho a tomar, que pode ser diferente do meu, mas que é o teu caminho. É trabalho de coragem, olhar de frente os anseios e seguir o caminho que leva até eles. O caminho do meu equilíbrio é fundamental para o equilíbrio de todos.

Portanto, a arrumação começa dentro de casa, e não só quando vem visita. Que bom será quando reciclarmos o medo que nos faz agredir o outro, e colocá-lo em maus lençóis – para que ele caia e eu sobressaia; que bom quando transformarmos esse medo no querer a força que nasce da união; na amorosidade, no respeito, na generosidade.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De diversidade

Por Maria Lucia Solla

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Estou sempre em ebulição. Dentro de mim, ora espoucam fogos de artifício, ora pedras. Pode haver choro, riso, gemido de dor, congratulação, lagosta e champanhe, salame e tubaína; tem esperança e desesperança, compreensão e o seu inverso, mas é sempre festa; não sei o que é tédio. Isso é parte do que sou, e nessa parte eu não saberia ser diferente, nem que quisesse.

Dá uma trabalheira danada viver assim, mas esse tipo de coisa a gente não escolhe; vem de fábrica, feito carro. Um Fusca, por exemplo, não tem a imponência de um Volvo, e um Volvo jamais terá o charme divertido de um Fusca; sem contar que um nunca terá a oportunidade de experimentar o que é ser o outro.

Dito assim parece óbvio, mas não é. Esse é, na verdade, o caroço do angu, o marco zero dos problemas, pelo fato de não termos aceitado, entendido e assimilado a realidade. Vivemos exigindo que o outro se comporte segundo regras da cartilha que adotamos, que reaja como esperamos que reaja, segundo regras da nossa emoção, e que perceba a vida como nós a percebemos.

Impossível!

Somos receitas exclusivas. Não existem dois de você e nem existem duas de mim. Somos únicos, mas vivemos reclamando, porque o outro não se ajusta à nossa medida, peso e valor. Então passamos uma parte preciosa da vida focados em inútil e surreal tarefa: tentando colocar o triângulo no círculo, e o quadrado no retângulo. E pensar que é um dos primeiros brinquedos que recebemos de nossos pais, damos para os nossos filhos, que dão aos seus.

Somos separados dos nossos brinquedos de criança, e, neles ficam aprisionados muitos de nossos castelos e sonhos. Somos levados a acreditar que é preciso deixar essas coisas-de-criança para lá, e que seus vestígios devem ser bem apagados, e usamos “criancice” como termo pejorativo. Assim, confundimos maturidade com sisudez, responsabilidade com ausência de prazer.

Vivo passando a limpo meus valores, pesos e medidas, e sorrio quando me vem a lembrança da língua de Einstein que gritava, sem quebrar o silêncio: tudo é relativo! E entendo que nenhum de nós é superlativo quando desdenha a diferença que lhe serve de alimento.

Quero viver cada dia mais festa, rir, chorar, maquiar meus sentimentos no limite possível, quando não for possível mostrá-los nus; quero calibrar meu equilíbrio entre o freio do Fusca e o freio do Volvo, Quero sonhar, ser e constantemente aprender a ser, banhada pela possibilidade ofertada pela diversidade. Quero ser plena, no grito e no silêncio, na dor e no amor.

E você? Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Mara Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão, e escreve no Blog do Mílton Jung, aos domingos.

Coroas chics


Por Dora Estevam


 
Seja em SP, Milão, Florença, Londres, Paris ou qualquer outro lugar, não importa. O que importa é se mostrar ao mundo da melhor maneira possível. Se possível da maneira que agrada aos olhos de quem os vê. E, principalmente, de quem os veste.

São os coroas chiquérrimos que encontrei nas imagens de fotógrafos espertos e antenados pelo mundo e pelas pessoas. Gente normal, que circula pelas ruas livremente como cidadão comum.

Nas clicadas, o que se nota é a opção de se vestir da maneira mais clássica e chic possíveis. É aparentar a idade através da roupa e do comportamento, sem precisar esconder nada (deles próprios ou de ninguém).
 
A verdade é mostrada a olho nu. As rugas, o cabelo branco, a pele envelhecida, que num toque de classe fica maravilhoso e agradável aos olhos.
 
Veja esta foto da brasileira Costanza Pascolato, editora da Revista Vogue Brasil, na qual surge toda sorridente e muito feliz. Ela foi fotografada pelo Sartorialist. Simplesmente um dos melhores do mundo da moda pela internet.


 
A foto poderia ter vindo sozinha, mas ganhou ainda um comentário do fotógrafo: “Costanza é ótimo exemplo de como a mistura de estilo e moda funcionam, ela tem um jeito incrível de manter um estilo consistente e pessoal, e está sempre se atualizando com itens da moda.”
 
É maravilhoso encontrar pessoas que transmitem este sentimento. Ainda mais representando o Brasil.
  
Ela estava abençoada no dia da foto: a boca estava linda; os olhos, maravilhosos; o brinco, super discreto; o cabelo arrumado elegantemente; a pele envolta do pescoço no ponto certo; nem mais, nem menos. Resumindo, uma expressão fantástica captada pelo fotógrafo.

 
 
Acho que todos têm a oportunidade e a liberdade de envelhecer como quiserem, se cuidando ou não, mas quando nos deparamos com fotos de pessoas que se preparam para viver melhor os últimos anos da vida é muito empolgante.
 
Não gosto do estilo extravagante, mas o estilo mundano me desagrada. E isto vale para ambos os sexos.
 
Já sei da preferência de homens pelos jeans e camisetas, não é esta a questão, é o controle do seu jeito de se vestir, é a maneira com que você encara a terceira, a quarta idade ou mais. Vai desistir ou vai enfrentar. Os problemas chegam com a idade, mas a ideia é enfrentá-los e seguir adiante.
 
Já imaginou como seria tudo sem graça: sem a adrenalina correndo no sangue; sem o trânsito; sem ter que buscar filho na escola; sem ter que chegar atrasado (inevitável); sem ter que pegar filas enormes no cinema? Seria chato, né?
 
Então enfrente com estilo, continue tocando a vida livremente e não se preocupe em esconder a idade. Seja você mesmo e verá que tudo fluirá melhor.
 
Faça seus exercícios regularmente, cuide a sua alimentação, vá à igreja e seja alegre e simpático (a) com os seus amigos e parentes.
 
Não queira mudar algo que nem você acredita, esta não é a hora de mudar de estilo, é a hora de aprimorar o que está feito.
 
 


 
 
 
 
 
 
Esta não é a primeira vez que falo dos idosos aqui neste blog, eu gosto da ideia de envelhecer naturalmente. Mas gosto também da ideia de ser graciosa de viver longe dos produtos químicos e cirurgias. Gosto da beleza natural.
 
Lembre-se, porém, a beleza vem da sua experiência de vida e não do que você veste. Vem de dentro para o rosto. As imagens que nós vimos aqui, dão certamente força para saber que a vida pode ser interessante e que é possivel viver sempre com entusiamo. Deixe a vida acontecer.

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

De diferença

 


Por Maria Lucia Solla


Ouça “De diferença” na voz e sonorizado pela autora

não somos todos iguais

a gente só sente
a sede da gente
a sede do outro
é indecente

O que a gente quer, do primeiro ao último dia de vida, é matar a sede e a fome; cada um a sua.

tem o que sai afoito atrás de qualquer tigela
qualquer cálice qualquer panela
e tem o que nem se atreve a cogitar
da própria sede aplacar

Tem o redondo, o quadrado, o triangular, o hexagonal e quantas forem as possibilidades de forma e receita, na prateleira do universo e do seu inverso, que cantamos e choramos em prosa e verso.

tem o agitado e o modorrento
o que corre pelo prado
e o que voa
no impulso do vento

E é aí que nós vivemos, tentando encontrar a nossa turma, a mais parecida e a mais diferente possível pra preencher a fome lícita e aquela proibida.

E na sofreguidão, morremos de inanição. Temos fome, temos sede e fazemos dieta de tudo. Que ironia. Uma regra nova a cada dia.

Um brinde ao fim da tirania do bom, do belo, do bem-estar, do vintém, do que não convém, da atenção e da falta dela. Abaixo as listas de bem-ou-mal isto e bem-ou-mal aquilo. Morte às listas de isso é brega e aquilo é chique. Tem coisa mais brega?!

Eu às vezes me desidrato; outras me afogo, mas cá ou lá, brilhando ou opaca, respostas não tenho; nem chego perto. Quando me aproximo de uma, saio correndo feito o diabo da cruz, e me entrego à incerteza, que é vizinha da loucura, da arte e da beleza.

incerteza abre espaço
pra possibilidade
que nos embarca nas asas da fantasia
transformando em realidade
o que antes era massa de sonho

E é onde quero estar, dia após dia, dos abrires aos fechares dos meus olhos,

ficar contente
despir no palco da vida
o personagem carente
será que não dá pra notar
que ser
é a única maneira de doar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expresão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung,