De ORAÇÃO na comemORAÇÃO

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De ORAÇÃO na comemORAÇÃO” na voz da autora

Flores Maria Lucia Solla

Olá,

vou deixar que o ego fale de uma vez, e em primeiro lugar como é do seu feitio, para que ele se aquiete e permita que o divino fale, e que eu me cale.

vitória
e isso sem dúvida
é motivo de história

Durante duzentas semanas produzi um texto por semana. Ininterruptamente. Escrevi dos lugares mais inusitados, mas escrevi. Escrevi sorrindo, chorando, mergulhada em todo tipo de emoção.

jorrei alegria quando tinha
tristeza eu deixava fluir
quando vinha

sussurrei gritei
militei dengosei
no fundo e na superfície
me domei

e sigo me apequenando dia a dia
ante a Criatura e o Criador
na alegria e na dor

Criador que a religião quer enlatar
nas suas leis quer encaixar
nas palavras dos livros sagrados quer justificar
exclusividade vive a alardear
e que graças a Ele nada disso consegue alcançar

e termino agradecendo
a você que me vem lendo

lembrando um trecho da Oração de Cáritas, onde pedimos, na minha leitura:

Pai/Mãe,
dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos a Vós;
dai-nos caridade, fé e razão;
dai-nos simplicidade para que nossas almas reflitam a Vossa Imagem.

Comemore comigo e pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung sempre com uma oração à vida

De sentada na calçada


Pássaro por Maria Lucia Solla

Por Maria Lucia Solla

Ouça ‘De sentada na calçada’ na voz da autora

mas é real o que estou a ver
encontro e desencontro
tim tim
rindo a comer e beber
se fartando de mim

e quem está com os dois
não pode ser olhe lá
esperança e desesperança
não acreditaria se ouvisse falar

a Vida é mesmo mistério
digo rindo
e falando sério

pensava que fossem
de tribos opostas
que no mesmo ambiente
não estariam
nem de costas

no entanto parecem entrosados
os quatro
partilhando uns dos outros
copo e prato

tim tim
rindo a comer e beber
muito furtando de mim

há intimidade
é mais que um primeiro encontro
parece que vem de longe
que é sólida a amizade

riem
é só o que me falta
além do ar
desencontro abraçado
à esperança
os dois a gargalhar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de Comunicação e Expressão, escreve no Blog do Mílton jung aos domingos, e é ótima companheira para bater papo sentada na calçada.

Sobre a vida e as mãos

 

http://www.flickr.com/photos/imaginarios/

Christian Jung
Blog MacFuca

Olhando pela janela e assistindo ao movimento das pessoas circulando pelas praças. Ver uma família passeando de mãos dadas me trouxe mais uma vez reflexões sobre momentos bons e maus desta nossa vida. Na verdade, a vida não existe sem esses dois momentos. De qualquer forma tenho esse jeito emotivo alegre ou depressivo interpretativo com as coisas que me cercam. Como esta união familiar pelo contato da “Mão”.

Desde o momento que nascemos, que sentimos a claridade bater em nossos olhos, somos socorridos e recebidos pelas “mãos” de alguém, no caso um especialista (geralmente), que nos acolhe com as “mãos” de quem estudou o suficiente para estar ali pronto para nos agarrar firme.

Logo em seguida vem as “mãos” da Mãe e com elas sentimos a segurança que pro resto de nossas vidas nunca iremos esquecer.
E assim por diante uma série de “mãos” vão se seguindo e em cada fase elas se apresentam de uma forma, ainda que nunca deixem de ter o mesmo sentido para nossas vidas.

Quando crianças a mesma “mão” que acaricia, corta o bife, serve o leite com achocolatado, segura a bicicleta até que ela se equilibre no meio de nossas pernas. A “mão” que agarra firme e, as vezes, bate para ensinar. (Dizem que bater é errado, mas não me arrependo de algumas chineladas estilo bumerangue da minha mãe. Aquela chinelada que arremessada no corredor pega o sujeito lá na curva da escada. Na minha casa tinha esse corredor e a escada. Eu era um especialista em fazer a curva sem a chinelada! As vezes pegava!) Enfim, a “mão” que sustenta a nossa infância até que nos tornemos capazes de comprar o pão na padaria e, claro, devolver o troco.

Já na adolescência a “mão” que compreende a explosão hormonal. Essa que absorve os critérios da inteligência de achar que os pais nasceram ontem e que são incapazes de se tornarem “modernos“. A “mão” que pune mas não com o intuito de agredir ou de diminuir, mas a “mão” que prepara para um futuro independente onde tornará as nossas “mãos” capazes de ajudar a quem estiver mais perto. E assim vamos criando corpo, nos achando e firmando pensamentos e atitudes, criando a nossa própria história.

Ainda assim a “mão” de alguém se faz presente. Vem a fase adulta e com ela a gama de alegrias de “mãos” que se somam em nossa história como também as tristezas daquelas “mãos” que não estão mais ali.

Vem o casamento, os filhos, e aí temos as pequeninas “mãos” se esticando para crescer no nosso colo por mais baixos que possamos ser. Como é o meu caso, 1 e 60 e poucos não é lá um grande colo, mas como Pai me sinto grandão. De qualquer forma somos doutores de mãos fortes e agregadoras, reflexo das mãos que até então nos acolheram.

De mais a mais a velha “mãozinha” não deixa de aparecer. Aquela “mão” amiga na hora de empurrar o carro quando embestou de não pegar, pra trocar o pneu bem na hora da chuva, pra juntar as frutas que caíram da sacola na saída do supermercado, pra pagar uma conta. Enfim, “mãos” que estão sempre presentes em todas as horas no dia a dia.

Quando se vê…

(agora me lembrei do poema de Mário Quintana)

O Tempo!

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas!
Quando se vê já é sexta-feira…
Quando se vê já é natal…
Quando se vê já terminou o ano…
Quando se vê já se passaram 50 anos!
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Agora, é tarde de mais para ser reprovado,
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente, e iria jogando pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Seguraria o amor que esta na minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Voltando ao meu texto…

Quando se vê, nos damos conta que envelhecemos e o corpo cansado, muitas vezes desgastado por alguma doença que insiste em se instalar, nos traz a impressão que não existirão “mãos” suficientes para suprir toda a nossa fraqueza que se espalha sem pedir licença.
Porém, mesmo assim por mais capazes que pensemos que possamos ser, contamos com a nossa história para que as “mãos” se estendam.

Diretamente ligada a nossa vida,  milhares delas surgem. Reflexo do carisma, do respeito, do caráter, da compreensão, da satisfação de momentos juntos e do sorriso sempre acolhedor que aprendemos a valorizar, rostos que se tornaram felizes pela alegria que lhes ensinamos em viver.

E nos sentimos humilhados, deprimidos, fracos perante as “mãos” que nos vem acolher. Talvez por que seja muito difícil para o ser humano entender que, quem um dia criou e cuidou, nesse momento precise ser cuidado.

Mas as “mãos” estarão sempre ali para nos dar conforto.

E por mais que o nosso jeito paternal nos habite, elas se estenderão, com certeza,  firmes para nos sustentar, até que nosso espírito se sinta livre para voar e desta forma ter condições de esticar a “mão” para este Ser maior que nos criou e nunca deixou de nos observar.

Christian Jung é mestre de cerimônia, autor do Blog MacFuca – onde este texto foi publicado, originalmente – e já me deu muitas mãos na vida.

Imagem do álbum digital no Flickr de Daniel Pádua

De consciência

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De consciência” na voz da autora

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Olá,

Sou fã de carteirinha da tela mental. Aquela que vem no pacote básico do ser humano; branca como as telas de cinema, para que a gente projete o que quiser e produza a própria história. Cenário, iluminação, personagens, flashbacks, incursões no futuro, trilha sonora, efeitos especiais… a obra é nossa.

A tela mental é indispensável, por exemplo, na manutenção e treinamento da memória. Nosso cérebro armazena a informação mais facilmente se vier acompanhada ou for enriquecida com imagem: externa ou interna, vista ou criada por você. Visualização e compreensão turbinam a memorização.

Ela também é preciosa no aprendizado de idiomas. Você projeta a imagem do que ouve, associa som e imagem, e… ponto para você.

Nela podemos projetar anseios, e as imagens dão uma ideia do que seria o teu sonho transformado em realidade. O termômetro é bom; você vai perceber que enquanto pensa e assiste à projeção do teu pensamento, todos os teus corpos reagem. Fica mais fácil perceber quando se está sabotando ou envenenando através de pensamentos ou atitudes doentes. Por outro lado também vai ficando cada vez mais fácil sentir e perceber a leveza e a dança dos corpos quando se imagina algo que é bem vindo. Dá para começar a separar o joio do trigo.

Mas o que eu quero, mesmo, é convidar você a acionar a tua tela mental e comigo projetar a Vida como um jogo em 3 dimensões; um tabuleiro com pequenas depressões – quadrados vazios, como caixinhas sem tampas – a serem preenchidas. Você vai vivendo, pensando, falando, ouvindo, olhando numa e noutra direção, e escolhe que caixinha preencher, como e com o quê; desenhando assim a Vida. O tempo do jogo varia de jogador para jogador, e nunca se sabe quando vai mudar de fase e nem quando vai soar o apito final. Ao longo do jogo aparecem coringas que geralmente piscam e saracoteiam feito bagres ensaboados, e se a gente vacila, fica a ver navios.

Veja um tabuleiro não estático. Ele desliza normalmente para a esquerda, deixando à mostra um pouco do passado recente – para que se possa rever as últimas intervenções – o hoje sendo construído – desenhado, elaborado, destruído, rabiscado, ignorado – e parte do amanhã sonhado. Mas tudo pode acontecer. Tudo é possível enquanto se está jogando. Tempo é Vida.

Diferentemente dos jogos em que destreza manual e agilidade mental são predicados fundamentais, no jogo da Vida o trunfo é a consciência ampliada e afiada. Consciência da Essência e do Caminho. Capacidade de estar acordado, de ver, perceber e sentir, com todas as células de todos os corpos, a Vida que se oferece, se entrega aberta, receptiva à tua intervenção. Convidando eternamente para que você Viva.

Imagine, projete, modifique o sonho, retoque a cena e tente não perder os coringas.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung provocando imagens na nossa mente.

De considerações

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De considerações na voz da autora acompanhada por Benny Goodman

Vagafogo, Pirenópolis
Olá, no final do ano que acabou de virar a esquina, minha saúde levou uma sacudida e saiu do prumo. Até hoje, os dias têm sido de sufoco. Literalmente, uma vez que o desequilíbrio, no físico, é respiratório. Passei uma tarde no hospital e, argumentação do meu lado mais compreensão do lado da médica, voltei para casa. Mas ainda hoje quando respiro me sinto equilibrando na corda bamba esticada por brônquios, pulmões e… haja coração. Desenhei uma tabela para dar conta de acompanhar horário de antibióticos, cortisona, xarope e um medicamento que tem a responsabilidade de consertar os estragos causados pelos outros.

Minha prima quebrou um joelho jogando vôlei, no último dia do ano. Hospital, cirurgia, pinos, placas. Entra o novo ano com a tarefa de ficar quieta por noventa dias. Ela é elétrica, cheia de vida, agitada, ariana! Baita desafio, mas conheço a fera e sei que vai transformar a situação e tirar de letra a lição.

Paulinha está tentando segurar a vida como se tivesse uma pilha de pratos na cabeça, andando em terreno escorregadio. A rinite aproveitou a deixa e se instalou. A Nádia foi parar no hospital, com uma estafa das boas, que ela vem driblando como pode, há algum tempo. Com o Graciano a coisa pegou nos bichos que são o seu forte e o seu fraco. O gato foi roubado, o cachorro morreu e o enorme aquário, cheio de peixes, explodiu do nada. Não derrotado, colocou o único peixinho sobrevivente da ecatombe aquariana num pequeno aquário, e o peixinho pulou e se suicidou.

Chove, terra desliza, muita gente morre e outros tantos nascem. A Tininha trouxe à luz gêmeos:Téo e a Catarina. Vou tricotar algo bem bonito: rosa para ele e azul para ela, que é sempre bom lembrar de desafiar as convenções e colocá-las em seu devido lugar.

A vida é uma colcha de retalhos, só que quando a gente está tecendo um retalho bonito, maleável, dá gosto de costurar!

e então como viver
que cartilha obedecer
para fazer direito
é preciso aceitar o que se tem feito
e deixar que o amor escorra livre
de dentro do peito.

não dá pra ser sempre brilhante
há que levar a vida adiante
há dias de ser tansa
em que a gente literalmente dança
e há outros em que o sol entra em nossa casa
ilumina cada canto, pontas e meios
e expande o coração

Que saibamos sempre receber e reconhecer cada momento de Vida.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.



Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso do Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung, sempre a fim de receitar um bom remédio pra alma.

De dois mil e dez

 

Por Maria Lucia Solla

Maria Lucia Solla por Maria Lucia Solla

Olá,

você sabe tão bem quanto eu que o desconhecido é sempre o vilão da história. É o que nos faz pisar em ovos; o coração aos saltos. E é onde a gente fica: nesse lugar de dúvida, de suposição, de medo e atração. Atração fatal. Vive filme de terror e passa facilmente dele para o conto de fadas, sempre no mundo da ilusão. Do que seria, do que foi, do que teria sido. Até o teria sido, e muitas vezes especialmente ele, povoa nossos porões e áticos

O que se mostra a gente enfrenta, cada um do jeito que pode ou sabe, mas o que está oculto ganha poder, força e um imenso espaço na nossa vida. E a gente vai escrevendo enredos em páginas sonhadas, chorando e rindo, discutindo e trocando juras de amor. Na ficção individual.

A gente arquiteta tudo na mente. Faz novela de fazer inveja a diretores das novelas de maior sucesso na televisão. Na telinha da TV, a história do outro nos toma no máximo uma ou duas horas por dia. Na nossa, começam na mente e nos tomam por inteiro, sem propaganda. Se alastram e tomam o lugar da Vida. É como se a vida da gente fosse pirata: a gente vive a cópia do roteiro.

Assistir à novela da tv é moleza. A gente assiste de fora e vê tudo; ou acha que vê. Aí a gente se mune da pose mais empertigada e cai de pau no personagem que mais se assemelha a nós mesmos. Bota para funcionar julgômetro e condenômetro, e depois volta para a própria fantasia, que acha que é real.

E é por isso tudo que decidi penetrar os mistérios do ano que vai reinar por um ano inteiro. E faço o lexicograma da sua assinatura; do seu nome. Lexicograma é o nome do exercício divulgado por Linda Goodman, minha astróloga favorita que já deixou o planeta.

E foi no nome dele, DOIS MIL E DEZ, que encontrei algumas de suas dádivas.

Ele traz, no nome MEL que em qualquer cultura, desde os primórdios dos tempos, mantém fama de bom.

Traz notas musicais: DO, MI, SOL, Si. Fui ao teclado testar o som. Fica claro para mim que o SI deve ser sustenido. Taí um bom lugar para começar; pela música. Vou voltar a tocar. E o SI será sustenido.

Ele traz o SOL.
O rei.

Traz no nome a palavra SILO, que faz pensar em fartura de produtos agrícolas armazenados.

Traz MILO, a deusa do amor e da beleza, conhecida por Vênus.

Traz o imperativo DOE, nos convidando a doar.
Traz LEI, LEME e SELO. Começo, meio e fim.

Eu estou pronta para ele. Sem medo, sem suposições.

E você, que tal experimentar? Escreva o nome do ano: DOIS MIL E DEZ. Depois, é só procurar palavras que podem ser formadas com as letras dele. Esses são os seus mistérios. Assim DO, Si, MIL, DEZ estão ali, escancaradas, mas inúmeras outras estão misteriosamente escondidas.

Aproveite e faça o do seu nome também.
Divirta-se e VIVA!

Beijo e Feliz DOIS MIL E DEZ para todos

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

Na aeronave da vida

 

http://www.flickr.com/photos/claudio-rieper/

Publico aqui texto enviado por um dos mais ativos participantes deste blog, o comandante Armando Italo, que escreve pensando em todos aqueles que, assim como ele, dedicaram algum tempo do seu dia para comentar notícias, debater assuntos ou provocar reflexões:

Em 1o. de janeiro de 2009 embarcamos na nossa aeronave, acionamos os motores, taxiamos, alinhamos na cabeceira da pista, decolamos mais uma vez para o desconhecido.

Durante a subida, sentimos algum tipo de resistência causada pelas forças da natureza. Tivemos de “brigar um pouco” com os controles e sistemas de voo – assim como com os nossos próprios controle e convicção – em momentos cruciais. Foi necessário tomar atitudes inesperadas e ter coragem de assumir, aceitar os nossos erros, derrotas, frustrações e desafios.

Subindo em direção a imensidão do azul escuro, do infinito, ora tendo que acelerar, ora tendo que desacelerar os motores. Reduzir ou aumentar a razão de subida para que então pudéssemos em algum ponto do infinito, lá em cima, nivelar a nossa aeronave com segurança e desfrutar a paz daquele espaço, do nascer e do pôr do sol. Apreciar a chuva caindo lá embaixo em algum lugar qualquer e tudo o que existe de belo que o criador e a natureza nos proporcionam.

E assim, atravessamos em nosso voo o ano de 2009.

Temos agora de iniciar a descida da nossa aeronave da mesma forma que subimos. Em paz, harmonia, segurança, respeito a natureza, aos amigos e companheiros de voo.

Que em 2010 os nossos voos sejam melhores, mais suaves, menos
turbulentos, com menos aproximações perdidas e arremetidas !

De Feliz Natal

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Feliz Natal” na voz da autora e sonoriado por ela, também

http://www.flickr.com/photos/malugreen

Olá,

Natal é conceito; portanto contraditório, arbitrário, plural. Tem fase que aceito, tem fase que não. Nunca sei como a Festa e eu vamos nos relacionar, até o momento em que a rolha do champanhe se liberta do gargalo da garrafa, ou que sozinha em casa sinto sono e vou dormir. Meu humor não depende do formato da Festa; é o contrário. Coração em Festa dá de mil em champanhe francês.

E é na carona desse pensamento que desejo, do fundo do coração, que este Natal, do formato que tiver o conceito para você, seja reconhecido como mais uma oportunidade de reavaliação da rota da tua vida. Que seja reconhecido como marco; não um marco chato, dogmático, nova era de araque; não um marco de surto consumista e de presente cada vez mais caro, no sentido de custar muito e não de ser realmente caro.

Que seja um marco de reconhecimento; de reencontro de você com você. Um momento de se olhar, antes de olhar no espelho para se arrumar para a Festa, vendo além dos cabelos de menos e das rugas de mais. De um olhar que desvenda mistérios que, prisioneiros dos teus sonhos, estão loucos para se revelarem e serem vividos.

Um olhar que permita que você se veja de verdade. Que reconheça a luz divina que emana de você. Que te faça reconhecer a tua responsabilidade em cada respirar da Vida. Que te faça olhar em volta e reconhecer as marcas e pegadas impressas na Vida, por você.

Desejo a você e desejo a mim.

Desejo aos meus leitores, aos amigos e amores do passado, do presente e do futuro, aos filhos e netos, de ontem, de hoje, de amanhã. Aos que me antecederam na árvore brotada das raízes das famílias que me trouxeram até aqui para que eu também exercesse a oportunidade de manifestar a Vida Divina através da minha pequena centelha de vida humana.

Junto com os meus desejos, quero explicitar a minha gratidão a todos os seres que cruzaram, cruzam e cruzarão os meus caminhos. É o brilho de cada olhar cruzando o meu que me faz perceber a Vida.

Feliz Natal.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Todos os domingos cruza na nossa vida através dos textos publicados no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: Minha primeira escola

 

Por Dalila Suannes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Minha Primeira Escola” sonorizado por Cláudio Antônio

 


Assim que o sol nasceu em um dia qualquer do 1946, seu pai a pegou pela mão e foram caminhando até o colégio alemão próximo de sua casa.

Lá, o pai foi recebido com o respeito que seu fardamento impunha, e encaminhados para uma sala de aulas, aos cuidados de Dona Helga.

Ao se ver sozinha no meio de crianças estranhas, louras, se pôs a chorar, lavando, literalmente a carteira.

Tinha a sensação de que nunca mais veria sua mãe, seus irmãos, ou os amiguinhos de pega-pega, de mocinho e bandido.

Sua vida mudara.

Todos os dias, lá ia ela com a lancheira, livros e cadernos. Era a mais nova estudante da região.

Aos poucos foi se integrando, e, como era muito expansiva, alegre, tagarela, não negando a origem italiana de sua mãe, conquistou seu lugar entre os pares.

Àquela época, foi lançada uma coleção de figurinhas com foto de artistas, e, nasceria daí sua paixão pelo cinema.

Sentia-se superior às demais colecionadoras da classe, de origem germânica, por não conseguirem pronunciar o nome da diva da época, Ana Magnani.

Sentia respeito e admiração pelo diretor da escola e se encantava quando havia passeio ao Horto Florestal, no lugar das aulas.

Era o tipo de educação européia, baseada no conhecimento vivo da natureza.

Nesta ocasião saboreou, pela primeira vez, uma bebida com gosto estranho, que mais tarde soube chamar-se Coca-Cola.

Fez seu “debut” em festas infantis ao comparecer ao aniversário de uma holandesa, de sua idade, que costumava usar tranças muito loiras.

Ficou maravilhada e muito feliz ao receber uma lembrancinha da data, já que a família estava retornando para sua terra natal.

Nunca tinha visto nada igual já que para ela o grande acontecimento de reunião entre amigas era “batizado das bonecas”.

Outra colega que lá estudava, havia nascido, juntamente com seus familiares, na antiga Tchecoslováquia.

Nas festas de seu aniversário, os adultos jantavam em uma extensa mesa da sala de jantar, observado por nós, através de um janelão de vidro, já que ficávamos confinados ao quintal e de lá não poderíamos passar.

Relembrou esta cena, ao assistir o filme Amarcord.

Estas experiências marcaram sua vida.

Uma, porém, mais forte que todas.

Entre os estudantes, havia um grupo de meninos e meninas, que se vestia mais singelamente e traziam suas merendas, de pão com banha, em um saquinho de pano.

Chegavam e partiam juntos por morarem todos em uma (única) casa longe de nossa escola.

Eles eram originários dos países dos demais alunos do colégio, porem, ao contrário destes, tinham perdido tudo o que um ser humano precisa para viver, simplesmente por serem judeus.

Ela ficava mortificada com esta situação, e tinha-lhes um carinho especial, principalmente por uma garota alta, chamada Josefa.

Um dia, quando todos os alunos se enfileiravam para adentrar o prédio, e cantavam o Hino Nacional Brasileiro, não se sabe o que fez um dos meninos deste grupo, Schultz.

O fato é que Dona Helga deu-lhe uma bofetada no rosto tão forte, que ela a sentiu em sua face.

Foi para casa chorando e contou o sucedido para sua mãe que ficou muito nervosa, mas nada explicou. Talvez ela mesma não soubesse o que dizer.

A pequena teve por várias noites dificuldade em dormir.

A cena a fez acordar para a vida e entender que as pessoas não são consideradas iguais, e que no mundo existe intolerância, violência, incompreensão.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você pode participar enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

De impunidade

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça o texto “De impunidade” na voz da autora

fotodelibertinusnoflickr

Meu filho acaba de ser assaltado, sob mira de armas e ameaça de lhe tirarem, num piscar de olhos, a vida.

Teu filho, nossos filhos foram ou serão assaltados mais de uma vez, com certeza, se tiverem a graça de saírem da experiência com vida.

Não sou pacifista nem belicosa, mas quero justiça e punição exemplar para começarmos a sanar a doença virulenta que corrói esta sociedade desgovernada. Não é hora para gentileza e rapapés. O basta à loucura, e à violência desenfreada, precisa ser abrupto para que se possa mudar a direção.

Meu filho trabalha; sempre trabalhou, e muito. É capaz, é bom filho, bom amigo, excelente profissional, e tem uma garra que vi em poucos, nesta vida minha. Não basta. Nada basta!

Dirigentes, legisladores e pastores dos rebanhos desta republiqueta de bananas, de dólares nas cuecas e em Bíblias ditas sagradas, largaram a direção do barco, há muito tempo, e se sentaram à beira do caminho, sob a sombra das poucas árvores que escaparam de sua ganância desmedida, e estão contando notas e moedas de toda espécie e de toda proveniência, exatamente como os marginais que estão agora contando o dinheiro que meu filho transportava e que seria destinado à folha de pagamento de seres humanos que, como meu filho, trabalham pelo dinheiro que deveriam receber hoje.

Não sei, e nem ele ainda sabe o que vai fazer a seguir. Daqui do assento 10 C do avião da Gol, com destino a Brasília, seguro as lágrimas e tento domar meu coração, que dá pinotes circenses dentro do meu peito, que suporta a duras penas, e aliviado por profundos suspiros, a avalanche de emoções que toma conta de mim.

Faço uma prece, pensando um trilhão de coisas ao mesmo tempo. Entro em curto-circuito. Seguro meu queixo para não bater os dentes e chamar atenção.

Insisto dizendo que a ação para estancar a hemorragia de nossa sociedade precisa ser drástica e imediata. Intervenção de vida ou morte.

É preciso extirpar o tecido doente, antes que o corpo inteiro sucumba. Não adianta mais verborragiar na mesa do bar para se deliciar com o som magnífico da própria voz.

É preciso devolver a vida aos nossos filhos.
É preciso devolver-lhes a esperança e a alegria de viver.
É preciso agir; por você, por mim, pelos teus filhos e pelos meus.

Jogar na jaula de leões famintos e dar de comer às ariranhas, o criminoso reincidente.

Cansei. Incendiei. Ensandeci!

Alguém me ajuda, por favor! Perdi o sorriso, e a leveza bailarina que trazia comigo transformou-se num monstro pesado e horrendo.

Os dedos de uma de minhas mãos já não bastam para contar as vezes em que eu e meus filhos fomos atacados por seres humanos; nossos semelhantes. Perdi a conta de quantas vezes nos roubaram, desrespeitaram; riram de nós.

Chega!

Acredito que somos a face material de Deus, mas é preciso que nos unamos para que ele se manifeste; para que se faça, definitivamente a Luz. Agora, como é possível gerar Luz se nos acostumamos à treva, ao medo, ao desrespeito, à traição. À mentira desavergonhada.

Há tempo demais remamos, desesperados, pela Vida, num barco furado que faz água sem parar.

Chego à Brasília e ouço de minha amiga Cláudia que sua casa fora assaltada, que amarraram seu marido, filho e jardineiro. Machucaram seu filho e lhes roubaram computadores, instrumentos de trabalho, e tudo o que puderam carregar; numa dança regida por ameaças às suas vidas.

Acordo na manhã seguinte e, ainda à mesa do café da manhã, Cláudia, a nora da minha Cláudia desce as escadas, assustada. Desta vez era ela quem trazia o coração aos pinotes. Recebera um telefonema de seu pai que tivera a fazenda invadida por bandidos. Ele, diabético e hipertenso, foi machucado no corpo, na alma e na dignidade, que acabou em frangalhos. Fizeram-lhe cortes na cabeça, a coronhadas, e roubaram e carregaram o que puderam. Pensam vocês que os ataques foram feitos em nome da fome? Não, foi em nome da ganância e do desrespeito que campeiam livres e soltos por todos os cantos deste país, e que viraram moda, seguindo o exemplo de regentes de nossas orquestras sociais.

O primeiro violino rouba, mata, corrompe e desrespeita, e os outros seguem-lhe os acordes.

Depois de tudo isso, nosso pequeno grupo de bons amigos conseguiu manter cabeças erguidas e aproveitar a companhia uns dos outros; mas seguramente jamais seremos os mesmos. Não saímos dessas experiências, piores, mas nossas consciências esbofeteadas, abriram ainda mais seus olhos. Queremos justiça e educação. Não estamos interessados no desenvolvimento desenfreado que disputa classificação com países distantes. Queremos nosso próprio modelo. Queremos crianças que saibam que galinhas e ovos não nascem em bandejinhas de isopor, embalados em plástico. Queremos proteger o solo onde pisamos. Queremos menos prédios e menos carros, menos coisas compradas e mais amizades e amores conquistados.

Só humanos tem direito a humanidade. Só quem respeita os direitos do próximo tem direito a ter os seus, respeitados.

O que é que você acha de tudo isso?
Chega, ou ainda tem fôlego para mais?
Chega, ou ainda há tempo e espaço, neste curto espaço de tempo que é a vida?

Você ainda tem paciência para prefeito levando propina na cara dura, e para político comprando voto com o teu dinheiro e com o meu?

Você ainda suporta político sem vergonha na cara, reinaugurando obra com a cara suja de lama da campanha política prematura, para manter a boca na botija?

Não ficou, ainda, claro que tudo isso é feito à custa de sangue e lágrima dos teus filhos e dos meus?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e ministra curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.


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