De expressão na comunicação e vice-versa

Por Maria Lucia Solla

Reescrevendo, relendo, revendo

Olá,

falávamos de ciclo perfeito de renovação, e da relação entre você e a informação que recebe. O verbo que acabei de usar já desenhou o que acontece. Você recebe; porque quando não quer receber fecha a porta, muda o canal da TV, muda a estação do rádio, enfim, escolhe o que lê, o que pensa, o que ouve, o que vê, o que toca e o que te toca.

Ou ao menos tem opções à disposição.

Quando uma informação chega, por qualquer dos sentidos, é recebida à porta pelo teu interesse, que é quem decide o que entra e o que não entra. Aquilo que entra cumpre um percurso em você. Vive em você, uma vida. Vamos chamá-lo de visitante.

O ciclo de renovação é perfeito quando o visitante viaja pelo teu universo; quando vive em você. Ele aciona a mente, acende fogueiras no coração e modifica você. Para sempre. Depois de sua passagem, você jamais será o mesmo.

Mas como toda vida é ciclica, o visitante, cumprida a missão, procura a porta de saída. E é esse o segredo, Marcelo①. Quando você abre a porta e deixa que o visitante se vá, só fica o que se imprimiu em você. O que já é parte de você. Deixa de ser conhecimento; é você. E isso não ocupa espaço.

Por outro lado, se você deixar a porta de saída trancada, o visitante fica estagnado, se deteriora e adoece e envelhece você. Então, é preciso que você receba, se assim decidir, processe o pacote e devolva ao Universo, se expressando. Você, transmissor, e o outro, receptor. E nesse momento pode nascer a comunicação. Digo pode porque a expressão só é considerada comunicação, quando o outro recebe e compreende o que você expressa.

E você se expressa falando, dançando, cantando, escrevendo, pintando, cozinhando, caminhando, gesticulando. Se expressa com o olhar, com a tonalidade da voz, com o ritmo da respiração. Se expressa parado, sem dizer coisa alguma, com olhos e bocas fechados.

Você se expressa no trabalho, no esporte, em casa e fora dela. Dormindo, acordado, andando, parado, nervoso, cheiroso, suado ou relaxado.

Não há limite para a expressão, assim como não há limite para o ser.
O importante é que, ao se expressar, você esteja presente, esteja inteiro, consciente, acordado, ligado.

É vital que você se expresse

Ao se expressar, você cria espaço para que o novo possa entrar na tua vida e dar continuidade ao teu caminho de evolução.

Proponho, então, que você se expresse comigo. Não aceite simplesmente o que eu digo. Cada um de nós é único, e só podemos falar daquilo que vemos, sentimos e percebemos, do ângulo em que nos encontramos. Apenas nos parecemos porque dançamos sob a batuta de leis e regras sociais. Só isso.
Fale comigo.

①Marcelo Elias:
16 agosto, 2009 as 13:47
Prezada Maria Lucia,
Acabei de entender aquela velha história do sábio com seu aprendiz em que o sábio diz que adquirir conhecimento é como encher um copo até o ponto em que temos de esvaziar o copo para adquirirmos mais conhecimento.
Eu sempre pensava que nossa capacidade adquirir e acumular conhecimento era ilimitada e eu não precisava esvaziar o copo. Não era exatamente isso, né?
Assim sendo, essa é a ideia que estou processando no momento.
Um abraço.
4
maria lucia solla:
16 agosto, 2009 as 15:53
Marcelo
Vejo dualidade em tudo, e vejo tudo através dela.
Entendo que o conhecimento pode gerar sabedoria, mas pode gerar presunção também.
Acredito, como você, na nossa capacidade ilimitada de adquirir conhecimento, mas armazenar… não.
Quando o conhecimento se instala em você – e ele só se instala se você permite e até onde você permite – você pode dar o disco de instalação para outra pessoa, ou livrar-se dele como quiser.
E precisa baixar atualizações.
É mais ou menos como comprar a laranja, cortar ao meio, fazer um suco, tomá-lo e descartar as cascas.

Veja a leitura deste texto em gravação de vídeo feita pela autora

Maria Lucia Solla é terapeura e professora de língua estrangeira. Desde a semana passada, reescreve o livro “De bem com a vida mesmo que doa” em parceria com você leitor deste post dominical. Para ler o primeiro texto já publicado clique neste link

De Natureza e seus afins

 

Por Maria Lucia Solla

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Olá,

Criamos cada dia maior barreira entre nós e a Natureza e, separados dela, nos perdemos.
De que Natureza é Vida, e de que somos Um com ela, disso nos esquecemos.

Temos alma, repetimos prepotentes; cheios de certeza,
e essa jóia ela não tem, a tão defendida Natureza.

“Bando de naturebas.
Esquecerem-se de que aprendemos a nos unir por Reinos, eu, você e eles
e a mantermos, bem separados, cada um e todos eles?”

“Olha só com que tipo de gente você está se misturando, meu filho!
Espera só que se não me obedecer, te faço ajoelhar no milho, até o
anoitecer.”

Mas o simples mortal nunca se considera tão simples assim e acha brega o papo de voltar à Natureza e à própria essência.
Estratificamos assim a nossa existência:

Lá em baixo o inferno
onde faz calor mesmo no inverno.

Depois vem nosso planeta, a Terra
onde há riqueza, e o alimento se encerra.

Logo depois, o que brota dela
milho, feijão, boi, vaca, cão e cadela.

Em seguida viemos nós
que separados disso tudo, com orgulho,
nos sentimos cada dia mais sós.

E finalmente vem o céu,
mas o que não percebemos, de tão sutil que tudo isso é,
é que logo depois dele, vem de novo o inferno.

É que, na verdade, é o céu que nos separa dele – do mundo cruel – com um simples e tênue véu.

Disso tudo, o que ainda mais não percebemos é que todas essas camadas nos permeiam e que nós as permeamos também.

Me perdoe, mas por hoje cansei.
Permite, Vida, que eu desligue só por hoje, mente e coração!
Não aguento mais, a cada segundo, ter de aprender uma nova lição.

E você se sente assim também?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

PS 1: Quero agradecer a Mário Castello e a Stratos Giamoukoglou o enriquecimento do meu album de fotografia.

PS 2: Música: De e por Maxime Le Forestier, “Comme un arbre” do cd Essentielles

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, escreve e desvenda o véu da vida no Blog do Mílton Jung

De caqui e vida

Por Maria Lucia Solla

Maria Lucia Solla, De caqui e vida

Assista ao vídeo De caqui e Vida, apresentado por Maria Lucia Solla

Olá,

Estava lavando um caqui na pia da cozinha quando me dei conta da escuridão em que vivemos.
Me dei conta de nossa ignorância.

Depois de milhares de anos, morando aqui, a gente ainda luta contra a vida. Disputa com ela.
Se defende dela.
Morre de medo.

Tudo bem, não somos simples. Nossa máquina é complicada, mas veio de fábrica, assim.
A semente é escolhida de acordo com o terreno onde será plantada.
Planta de sombra não vinga ao sol.
Planta solar, em gruta escura e fria, nem com reza braba vingaria.

Muitos já quebraram a cabeça, queimaram as pestanas e perderam um par de parafusos, tentando desvendar os mistérios da vida, mas poucos se desprenderam do detalhe e vislumbraram o Todo.
Poucos viram além do véu.
Einsten foi um deles. Botou um linguão enorme pra fora e sorriu com um olhar zombeteiro.

Pois eu, que não pertenço a esse grupo, tive um eureka, lá na pia da cozinha; percebi o paralelo entre comer uma fruta e viver a vida que a gente , por falar nisso, mal e mal desfruta.

Peguei o caqui, lavei, e depois não sabia se devia secá-lo com um pano de prato ou com uma folha de papel toalha. Meu caqui veio do mercado, embalado e sufocado, condenado a uma cela com capacidade para 4, e dividida com outros 7 caquis.

Lavo só na água corrente?
Água não é livre de impureza. Germes bactérias…
Jesus me abana; me dá umas férias!
Mergulho em solução de água sanitária?
Nesse ponto meu plexo solar dá saltos mortais. Não, não; acho melhor não.

Ai paro e penso: caramba, que vida louca vamos levando. Sabendo que a viagem é de ida e volta, começamos chorando e seguimos esperneando.

Quando a gente percebe o corpo, dando à luz o ego, e se dá conta de que tem um veículo à disposição, para ir de lá pra cá, a gente se confunde com ele e o mantém de vidros fechados e escurecidos, e segue rezando a cartilha que alguém deixou no banco do carona.

A gente se prende ao ego a tal ponto que se rende a ele. Só se desprende da cegueira, parcialmente, na chegada ao destino, se tiver sorte. Quando estiver frente a frente com os não-olhos da morte.

Enfim, tanto conhecimento na área científica e social não basta para que a gente se dê conta do fundamental: Não sou o veículo!

Ele permite que eu me movimente e que eu interaja com o que vejo fora de mim, mas é só isso.

Simples assim.

Como a vida do caqui; do seu nascimento até o seu fim.
Sua trajetória o leva a se realizar em mim.
E a sua trajetória, para onde o leva?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos como caqui, pensa na vida e escreve no Blog do Milton Jung.

Do editor: Não me perguntem o motivo, mas a plataforma de edição do blog mudou sem aviso. Isso me atrapalha pra burro (e me faz sentir como tal). Não consigo, por exemplo, publicar no post o vídeo da Maria Lucia. Você terá de clicar lá no link para assistir à moça. E se alguém souber como publicar vídeos do You Tube no sistema de edição padrão do WordPress, agradeço a ajuda.

De salas e moradas

Por Maria Lucia Solla

Olá,

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”, são palavras atribuídas a Jesus, o Mestre.

Tudo o que foi dito e o que continua a ser dito por Mestres são Mistérios; e Mistérios são desvendados de acordo com o ritmo de cada um, a cada etapa da vida, a cada portinhola aberta na Consciência.
Tua e minha.

E é bom lembrar que não falo da consciência da mente física, aquela do Ministério da Moralidade Terrena. Falo da Consciência Mãe. Falo da Consciência que nos permite ver, sentir, falar, agir além do ego, como Mestres ou como Emissários deles.

É ela que nos permite sentir alegria, sem quê nem porquê.
É ela que nos deixa ver o brilho do Sol, lá no fundo do porão, ao despertar de uma noite de verão.
É ela que nos faz exultar ao ouvir o riso de um filho, no momento em que ele se desarma e se deixa fluir com a vida.
É ela que permite ver no olhar do ser amado, de novo, o brilho do amor que se pensava aprisionado.

E para que serviriam as palavras de um Mestre senão para nos mostrar o caminho da União, da Completude? Um Mestre não leva seus discípulos pela mão, não os aprisiona e nem exige que trilhem, todos, a mesma rota. Um Mestre desenha o mapa do Caminho de Casa.

E por que o faz? Porque essa é a sua Missão? Não; não na minha visão.

O Mestre assim o faz, pela continuidade da Vida; faz por Si.
Não o faz por você, por ser melhor do que eu.
Não o faz pelos bons ou pelos maus, pelos justos ou injustos. Essas qualidades são medidas humanas, para avaliarmos a “pequeneza” do outro e a “grandeza” do nosso ego, com maior precisão.

Não o faz pela mãe porque a maternidade a possa santificar.
Não o faz pelo pai porque o suor do trabalho o possa canonizar.
Faz para que possamos acordar e seguir nosso caminho.
Simples assim.

Se um de nós, um apenas, não tiver chegado ao Corpo do Todo, o Ciclo não se fecha, e não se fechando, um novo não poderá se abrir.

E assim os Mistérios, embriões de luz, são semeados. Pela paz, pela mansidão, pelo riso e a leveza. Não encontram terreno fértil na minha e nem na tua razão, mas  no amor verdadeiro que levamos no coração.

Se é “Assim na Terra como no Céu”, também em nós existem muitas moradas. Temos uma sala especial, uns nos outros. Você tem cuidado da sua sala na morada do outro?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, abre as portas de sua morada no Blog do Milton Jung

De luz e sombra

Por Maria Lucia Solla

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Olá,

Hoje de manhã, passeei com a Valentina pelas ruas do bairro, curtindo a claridade do dia,  parando para um papo aqui, uma curiosada ali,
um xixi discreto na beirada do meio-fio, um cocô recolhido e depositado no lixo…
Sentiu?

E tudo isso fluia, até que me dei conta de que, de novo, ainda não tinha decidido sobre o que escrever, sobre o que falar,
o que contar.

Sim, porque minha paciência para vociferar, contra a bandalheira instalada ao redor, se esgotou.
Secou.

Prefiro falar sobre a possibilidade de calibrar  senvergonhança e  falsidade,  traição,  mesquinhança,  violência e maldade,
maucaratismo, prepotência, medo e egoísmo,
subjugação, ironia peçonhenta,
posse e má-criação barulhenta.

Mas sobre o que vou falar, pensei, e um dos vincos na testa se aprofundou.
Um pouco por causa do sol, outro tanto porque a preocupação me assaltou.

As costas enrijeceram, os músculos do pescoço retesaram, gritando pela minha atenção; e eu parei.
De andar, de pensar; parei.
Simplesmente.

Me percebi nada,
vazia.
Vazia, porque estava cheia demais de mim mesma
Ironia!

Aí me livrei de mim. Me deixei ali na esquina, e segui vazia.
Foi então que fiquei plena.
De tudo, de nada, das folhas da calçada.

Baixei a cabeça, dobrando ainda mais o ego, e vi.
E me emocionei.
Vi as sombras daquilo que brilhava, para me monopolizar a atenção.

Percebi tudo, me senti plena.
Desenho do sonho sonhado,
do desejo realizado.

Saquei meu celular e registrei o que aqui revelo.

Deus não está no céu.
É mentira!

Deus não separa bem de mal, luz de sombra
bom de ruim
você de mim.

Deus é luz e sombra
É tudo e nada,
ou você vai me dizer que nisso eu estou errada?

Pense, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeura e professora de língua estrangeira, aos domingos escreve no Blog do Milton Jung e provoca nossa reflexão

Da semana que passou

Por Maria Lucia Solla

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Olá,

Mais uma semana passa voando. Zunindo. Nisso concordamos. Todos.

O tempo passa mais depressa, a cada segundo. Será que a velocidade duplicou? Triplicou? Não sei; só sei que não dá tempo de sentar para calcular. Ele passa chispando, e pronto. Perdeu a chance? Dançou. Ao menos na situação que passou.

O danado voa. E voa porque a gente pisa fundo no acelerador. A pressa é hoje um dos males que mais matam. Aleija, derruba, deforma, corrompe, elege, impede o olhar de ver, subjuga e acorrenta a liberdade. Que ironia.

Imagine você, eu, todos nós pisando fundo no acelerador. Querendo passar uns aos outros; querendo chegar. Mas,que tal sairmos do lugar?

Corremos e não saímos dali, cavando buracos fundos e mal mantendo o nariz para fora, para poder respirar. Carregamos corpos empanturrados, que definham. Sabemos muito sobre vitaminas, mas nossos corpos são cada vez menos nutridos. Todos os corpos. Físico, emocional, mental, e espiritual, para mencionar alguns.

Nossos corpos engordam, mortos de inanição. Doido isso, não é?

Artistas de todas as artes, costureiras, mecânicos, poetas, atores, garis, executivos de multi-nacionais, gerentes de loja de bairro, secretárias, professores, filósofos, escritores, jornalistas, contadores, manicures, meditantes, cabeleireiros, economistas, juristas, políticos, atletas, pais, mães, filhos, estudantes, crianças, jovens, velhos, brancos, negros, amarelos, marrons, pretos, branquelos, bronzeados, vermelhos, doutores da alegria, precisamos de vocês mais do que nunca.

A Era de Aquário chegou. Tocou a campainha da porta há pelo menos quarenta anos, e a gente ainda nem lavou o rosto e penteou os cabelos para recebê-la com a pompa merecida por uma Era.

É agora ou nunca. It’s now or never!

Andamos densos demais. Preocupados com o próprio umbigo, não percebemos a curva fechada à esquerda. Puff.

Desde o parto não temos percebido a beleza e a riqueza do nascer. Continuamos estacionados na dor da expulsão. Em vez de celebrarmos, lamentamos o tempo todo. Viciamos no chorinho do bebê, que deu tanto ibope na época.

Vamos combinar que não dá mais para adiar, ou vamos acabar fragmentando nossas vidas, como se fragmenta tudo à nossa volta. Os partidos políticos estão aí, e não me deixam mentir.

Minha intenção era falar, prosaicamente, da semana que passou voando. Viu só o que aconteceu? Fui me meter de pato a ganso com o tempo, e perdi a hora.

E você, o que tem perdido?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos escreve no Blog do Milton Jung sempre de olho no nosso tempo.

Só não vale sofrer além da conta

Por Abigail Costa

Diferenças. Elas revelam  nosso comportamento. E  sempre dão uma forcinha a mais pra que a gente pense: Campo ou cidade? Estresse ou relax? Ficar ou seguir em frente? Interessante com as pessoas discorrem sobre o assunto com métodos variados de ação e reação.

Sereno e tranquilo como alguém que medita todos os dias, esse meu amigo sempre tem uma visão mais espiritual:

– Nada foge aos olhos do nosso criador.

A voz pausada mas forte mostra segurança:

– Tudo o que acontecer tem um por quê.

– Dos nossos atos dependerá nosso futuro .

E mais  outras tantas palavras tiradas da escritura.

Claro que ele tem uma religião. Uma crença  tão forte que chega a pertencer a uma casta. Sempre aceitar com conforto o que acontece pela frente.

Já para um outro conhecido,  professor, doutor e curioso nas histórias de vida de seus pacientes. Para ele é:

– É você quem faz acontecer. Errando daqui, derrubando um obstáculo ali.

Sem a crença  divina. A auto-confiança aqui ganha um tom racional.

Quem está certo? O que busca consolo na crença? Ou o doutor,  que busca respostas nos livros?

Arrisco a dizer os dois.  Cada um com  suas diferenças, numa busca parecida. Transformar o difícil em algo novo. Que pode ser resolvido, não sofrido. E pra isso vale a leitura do livro, da bíblia. Só não vale sofrer além da conta.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira, aqui no Blog do Milton Jung fala da vida (dela e dos outros)
.

Conte Sua História de São Paulo: Cadeira da alegria

Por Cleiton Munhoz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Cadeira da alegria”

Estudo à noite. Faço matemática na USP. Saio da zona oeste em direção a leste, no Parque São Lucas. E de ônibus tenho de passar pelo Terminal Parque Dom Pedro II.

Numa sexta-feira, eu estava na plataforma, sozinho, era quase meia noite. Três jovens se aproximaram a espera do mesmo ônibus que eu tomaria. Falavam alto, riam, comentavam alguma coisa sobre a balada da qual estavam voltando. Uma delas, em especial, me chamou atenção: loira, olhos verdes, muito atraente. Das três, era a mais animada. E vinha numa cadeira de rodas.

Sempre me ressenti de ver como nossa cidade trata as pessoas com deficiência. Seja na escadaria sem rampa ou na guia sem rebaixamento ou no ônibus que não está adaptado.  Infelizmente, nossa arquitetura, salvo exceções, não facilita a vida dos deficientes físicos. Some isso ao preconceito que muitas pessoas tem contra os que chamam de “aleijado” e o quadro que temos tornaria impossível a cena que eu assistia.

Nós que “temos as duas pernas”, que encaramos escadas de degraus altos numa boa nem somos carimbados com o rótulo de “incapazes”, como será que nós vivemos? Celebramos a vida ? Nos alegramos por essa dádiva de Deus, como a jovem loira que estava ao meu lado naquela plataforma escura ? Ou será que nós ficamos reclamando por qualquer coisa pequena, sem importância, seja a fila que não anda ou a comida sem sal ?

A jovem cadeirante, aparentemente, tinha todos os motivos do mundo para amaldiçoar sua sorte. Imagine todos os preconceitos que ela deve ter sofrido por estar naquela cadeira de rodas. Imagine a frustração por querer ir a algum lugar e não ser capaz de passar por uma escada.

Não estranharia se ela fosse uma das muitas pessoas que conheço, essas que reclamam o dia inteiro. Mas não. Ela estava ali, se divertindo com as amigas, enquanto nós, mesquinhos que somos, superdimensionando qualquer barreira que surja na nossa vida.

O ônibus chegou. E embarcamos todos. Ela, seu sorriso e suas amigas desceram uns dois pontos antes do meu. Nunca mais a vi, mas nunca vou esquecer dela e do que me ensinou: seja qual for o problema que tenhamos, não podemos jamais abandonar a alegria pelo presente que Deus nos deu: a vida.

Cleiton Munhoz é o autor do Conte Sua História de São Paulo que vai ao ar, aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.  Você também participa com texto ou gravação em áudio. Envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

De Imaginação

Por Maria Lucia Solla

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Olá,

Um dia, assim de repente, descobri um você diferente.
Vi chispar do teu olhar  um brilho perigoso;
envolvente.

Teu olhar se fazia espelho que refletia meu desejo com definição digital.
Mas, assim como veio, um dia se foi. Deixou tudo opaco;
no escuro total.

Teus ouvidos eram caixas que amplificavam meus pensamentos.
Um dia, assim como gritavam, se calaram. Pobre de mim;
dos meus sentimentos!

Através do teu olhar, que me traduzia tão bem,
eu compreendia um pouco do que morava em mim.
Aquilo que me dava orgulho, e aquilo que me envergonhava,
também.

Teu olhar era a esperança do beijo que eu acreditava possível,
através do meu louco desejo.
Mas ele se fez ausência na presença, tornando o beijo
impossível.

Ele acendia a luz, quando a dor me impedia de ver.
Mas hoje permite à dor
me envolver.

Teu olhar me perguntava coisas que eu não sabia, então, responder.
Será que foi por isso que resolveu de mim
se esconder?

O olhar pode ser cúmplice, traidor, juiz e defensor.
É ladrão de pensamentos, sem dúvida. É santo;
é pecador.

Na sua passagem, fez nascer em mim um amor tão grande, que jamais conheci.
Será que fui eu que de algum modo o espantei? Não sei;
não percebi.

Só sei que hoje procuro e filosofo de lanterna na mão;
não para encontrar o homem, mas
o seu coração.

Será que de tão romântica, isso tudo eu sonhei?
Vai ver que não vi esse olhar com meus olhos;
apenas imaginei.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, aqui no Blog do Milton Jung, nos faz imaginar que a vida é uma poesia

Temos pressa de viver

Por Abigail Costa

Aprendo sempre. Independentemente do professor. Neste caso, ele só tem nove anos.

– Estou pensando em trabalhar!
– Como?
– É, trabalho. Tenho que começar agora, ou você acha que o Bill Gates não começou cedo?

O diálogo é com uma criança que se prepara para ir pra cama. A preocupação não é com a prova de matemática do dia seguinte. Mas com o futuro.

Na maioria das vezes somos assim:

Aos dez anos, imaginamos o namoro dos 15, torcendo pelos 18 e com este a carteira de motorista. Depois a pressa em sair da faculdade, de atropelar o estágio, ter a carteira de trabalho assinada. E depois ?

RG, CPF, cheque especial, compromisso, responsabilidade. E não muito raro, parar e contar para todos como o tempo passou rápido.  Como quase tudo aconteceu de repente. O quase, é um pedido de desculpa pela pressa de virar a página da vida.

Quando percebo nos outros essa vontade de pensar lá adiante, me lembro das palavras da minha mãe.

– Espera, você ainda terá muito tempo para pensar nisso, aproveita agora. A chegada é inevitável, não precisa apressá-la.

Mas temos sonhos, planos e se puder antecipar parte deles, por que não?

Enquanto me preparava para repetir os conselhos da vovó, meu futuro trabalhador pega no sono.

Sou capaz de imaginar  seus pensamentos decolando, um atrás do outro.  Viagens com roteiros conhecidos e percorridos por mim, por você, por eles.

Somos normais e iguais.  Temos pressa de viver.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira escreve sem pressa e aproveitando cada palavra, no Blog do Mílton Jung