De foco


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Foco” na voz da autora

A flor

Há que mudar o foco da luz. Do jeito que estão as coisas, o ruim recebe toda ela enquanto o bom vai morrendo.

feito planta famélica
inodora angélica

Dá para continuar? É isso que a gente vai escolher? É assim que você e eu pretendemos viver?

o flash deve iluminar a imagem que a gente quer eternizar
a imagem que escolher é a que vai dia a dia nos acompanhar

também há que alimentar o positivo para que cresça e tome espaço
pra que o negativo diminua se enredando no laço

não precisa o negativo aniquilar
basta que o deixe restrito ao seu lugar

ou você se esqueceu de como foi que cresceu
ou acha que tudo simplesmente por acaso aconteceu

que um dia você acordou
e esse ser que hoje se olha no espelho
do nada se formou

Cada dia, cada minuto do dia, precisa de atenção, de carinho e de alimento. Não dá pra acordar e dormir.

dormir e acordar
no piloto automático funcionar

Coloque dois vasos de flores na sala de casa, troque a água e livre um deles das folhas mortas;

não lhe vire jamais as costas

Com o outro, no entanto, faça diferente. Deixe que a água, antes limpa, se encha de bactérias, e deixe que elas dele se alimentem.

e o que vai acontecer
é óbvio meu amor que vai sofrer e logo em seguida morrer

é isso que eu quero dizer
se é que você quer me entender
que criamos para nós armadilhas
e nos aprisionamos em pequenezas e quinquilharias

o pior disso é que se prestamos atenção
vemos que vivemos presos ao passado
chorando pelo que foi
sem nos darmos conta da riqueza e da alegria

diferentes é claro na nova realidade
que tenta nos prender nos envolver
para que nunca nos livremos da saudade

E você, está focando o quê?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e desenvolve cursos na área de comunicação e expressão. Aos domingos, é luz própria no Blog do Mílton Jung.

De amanhã

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Amanhã” na voz da autora

Céu de São Paulo

a gente se considera importante demais achando que ego é eterno
como se só houvesse o agora o tempo moderno
e onde é que fica a História
a gente está mesmo perdendo a memória

ofende-se demais perdoa-se de menos
percebe-se menos fala-se demais
e não se divide nada
a gente está sempre ocupada
não dá atenção a ninguém
e acaba só também

fazemos tudo automaticamente
como se estivéssemos plugados todos a uma só mente

a criança quer moda
não brinca mais de roda
mais e mais
nada mais a satisfaz

ainda não foi entendido
que a Era mudou
e o homem continua menino brincando de mocinho e bandido
ainda não se tocou

a mulher por sua vez que saiu da casa do pai
pra casa do amor
Salvador
vive hoje sem um nem outro
e chora e se enche de droga
ai
e nem sabe de onde vem tamanha dor

nem pense que eu me atreva a divulgar qualquer solução
a vida está sempre sendo escrita
e só vai ficar mais bonita
com a tua e a minha ação

portanto meu amigo meu irmão
olha para o lado um pouco
para de rodar daqui para ali feito louco
e vamos nos dar a mão.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza palestras na área de comunicação e expressão. Reescreve aos domingos no Blog do Mílton Jung o livro “De bem com a vida mesmo que doa” e conta com a sua opinião.

De lotação

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Lotação” na voz da autora

Maria Lucia

Ah, mihas rosas Foto: Maria Lucia

 

é preciso abrir espaço no vaso de rosas
pra que a prometida possa caber

é preciso abrir espaço na certeza
pra que a do outro venha contigo brincar

é preciso abrir espaço na saudade
pra que a lembrança de um amor imaginado engane a realidade

é preciso abrir espaço na tristeza
pra que a fantasia empurre pelas frestas um cadinho de beleza

é preciso abrir espaços no discurso
pra que a ideia do outro se junte à tua no percurso

é preciso abrir espaço no sonho
pra que o do outro pegue carona no escuro te envolva
e mude o enredo que até então era tristonho

é preciso abrir espaço na alegria
pra que a decência seja mantida pelo siso da nostalgia

e assim me faço entender
sem muita atenção pedir
esperando que você aceite
o que me vem de redigir

e antes que eu me esqueça

é preciso abrir espaço em mim
pra que eu me encha de chegada e me esvazie de despedida
e então quem sabe eu mereça dirigida por um Querubim
alcançar a Árvore da Vida
onde estamos juntos você e eu
enfim

E você, como vai o teu vaso de rosas?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, nos oferece o prazer de assistir as ideias dela florescerem enquanto reescreve o livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”

de absinto

 

por maria lucia solla

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somos vítimas de um mal olhado com vistas grossas
mal de proporção aflitiva
que causa dano à saúde individual e à coletiva
dano que dilacera cofre público e privado
que afasta o aspirante a bom do teu lado

desmancha casamento destinado a durar mais e quiçá para sempre
e arranca de nossa mão o que a vida oferece toda faceira de presente.

mal silencioso
sorrateiro
disfarçado
matreiro

encaroça o teu angu
empana o sol e traz para o prato
o camarão empanado nu e cru

mata mais e causa muito mais dano do que gripe aviária suína vaquina e passariina
e nem se fala nele
a gente se distraí criticando botando culpa olhando para o lado de fora que não está menos feio menos violento e nem menos bolorento que o lado de dentro

ou olhando por outra lente
o lado de fora está tão violento sujo mal administrado e vilipendiado
quanto o lado de dentro
uma confusão danada
e a gente distraída vai deixando pra lá
empurrando a vida com a barriga lipoaspirada

é o mal de conto de fadas
exposto ao qual fomos paridos educados e programados
mal que frequenta mesa cama e banho
que cria um banzé tamanho
nos rouba o alimento o sono e o prazer
deixando-nos de mão amarrada sem ter nada o que fazer

percebe
para um pouco e pensa

você tem à frente uma vida imensa
um dia da tua vida não vale mais nem menos do que toda a vida intensa do teu bisavô

para um pouco o que está fazendo e vem me escutar
o que pode acontecer é não gostar e me desligar

a mulher busca marido-príncipe-encantado
que a venha resgatar das mazelas da vida e das garras do anti-herói malvado
mas exige que conserve sua porção sapo bem dosada
porque afinal de contas o sedutor é o batráquio
e nele ela está viciada

e chega o príncipe lindo cheiroso gostoso montado
num pimpante cavalo branco malhado
invocado
príncipe de cavalaria
e ela não sabe o que fazer com o cocô da montaria

cravo e rosa hoje vendem página sangrenta de jornal
e gozam sucesso póstumo na mídia virtual

ali babá e seus ladrões têm marca recorde
a cada soar de violão
a cada acorde

o que tenho a dizer é isto
apaga tudo aquilo em que acreditava até agora
aperta o reset
e te prepara para o mundo novo que já chegou

deleta
resseta
arrasta para a lixeira
ultrapassa finalmente a fronteira

e diz comigo

meu Deus meu amigo
afaste de mim o absinto
e não permita que eu deixe de sentir o que hoje eu sinto

maria lucia solla é terapeuta e professora de língua estrangeira, aos domingos escreve no blog do mílton jung de forma maíuscula mesmo quando tudo é escrito em em minúsculo

De amor que alimenta a alma

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De amor que alimenta a alma” na voz da autora

Santa

Olá,

Às vezes parece que não se tem nada a dizer. A gente puxa daqui, estica dali e se sente oca.
Carcaça.

Quando o corpo enfraquece, a gente fica sem força para lutar.
Tudo rateia, e você não sai do lugar.
A impotência que se sente, é de assustar

Não existe receita e muito menos remédio milagroso para momentos assim.
É aguentar o tranco e se agarrar à vida.
É dizer o que se tem lá dentro, para fazer que a alma se sinta de novo bem-vinda e te faça sentir vivo sempre, e ainda.

É lutar contra o desânimo porque é ele o barqueiro que leva de nós a alma, antes do tempo previsto, quando a gente está desanimada.
Quando não acredita mais em nada.

Então, é se agarrar ao sentimento de amor que alimenta o invisível, de tal forma que o visível se fortalece e revive.

É lembrar-se de que o segundo passo depois de estar desanimado é ficar desalmado.
Passa-se a ser zumbi!
E o fim triste está aí.

Na imensidão das faces da vida, quem termina assim pena até reencontrar-se com a alma e se reconciliar com ela.

Se não me reconcilio com minha alma todos os dias da vida, se não dou boas-vindas a cada novo dia; a cada nova oportunidade, ao abrir meus olhos depois do sono;
se acredito em tudo o que vejo com os olhos do corpo,
meu corpo fica girando feito bobo da corte, tonteia, falseia e cai.

Insisto na beleza da vida. Insisto na beleza do ser humano. Insisto na possibilidade de redenção – sem obrigação -, sentindo o ar que respiro e agradecendo por ele.

Preciso disso. É o meu modo. E conto para você, não com intuito de ensinar, porque mesmo sendo educadora, não acredito nele. Acredito no aprender.

Só quem sabe aprender pode abrir o seu cardápio e oferecer amostras dos limites que percorre.

Eu teria, hoje, um catatau de gente para enviar a minha gratidão. Vou escolher dois anjos que povoam a minha vida.
Duas Silvanas.
Duas mulheres que se reconciliam com suas almas e a trazem estampada no corpo inteiro.

E você? Está agarradinho à sua alma? Tem uma gratidão especial querendo explodir no fundo do teu coração?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung e se fortalece a cada frase que compõe, sempre pensando no seu apoio para reescrever o livro “De bem com a vida mesmo que doa”

De religiosidade

 

Por Maria Lucia Solla

De religiosidade 1909200
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Olá,

Passo por um processo tão monumentalmente importante que não tem como não partilhar.
Não dá para calar.
Sem susto; não vou confessar o inconfessável, não vou dizer o indizível
e muito menos revelar o invisível.

Ao contrário, vou dizer o óbvio, mais uma vez.
Vou dizer o que você já sabe, talvez.

Processo vem, processo vai e finalmente me dou conta:
o mesmo já passou pela minha vida, vezes e vezes sem conta.

Aquele repeteco do qual a gente já está cansada
e revive e revive, sem nunca terminar a empreitada;
sem colocar um ponto final na frase,
abusando de reticências e se esquecendo da crase.

Aquilo vai e volta, e a gente não sai do lugar.

E diz:

Por quê, meu Deus?!

Ou nem diz.

Como se tivesse zero-responsabilidade, a gente diz que não sabe o porquê, que não sabe o que se passa na própria vida e faz pose de sofrida.
Algo como a mão direita não saber o que faz a esquerda;
o que termina quase sempre em perda,

Pois isso tem que acabar; começando na tua vida, e se espalhando pela avenida.

Alguém corte o cordão que nos escraviza a todo tipo de religião, e nos faça exercer, de novo, a religiosidade.
Que é no fundo o que nos dá maior saudade.
Alguém proclame como Lei Universal que, a partir de hoje, esquerda, assim como direita, é termo que determina posição geográfica virtual,
e que não é, nem de longe, pecado mortal.
Alguém nos livre dos grilhões do certo ou errado conveniente,
da penitência do quiçá arrependido penitente,
e da insensatez do convicto descontente.
Alguém se dê conta e conte para o mundo
que claro não é condição de limpo
e escuro nada tem a ver com imundo.

Tudo bem. Se eu tinha isso tudo pra dizer, está dito, mas não era disso que eu falava. Falava de perceber o que acontece a cada momento da vida.
Do vício de sofrer que empana o brilho da emoção do puro perceber.
E quero falar do estar acordado,
do deixar-se permear pelo bálsamo do momento de prazer fugaz
e de se proteger do vampiro que, se deixar, de matá-lo será capaz.

Falo da situação em que tudo vira de cabeça para baixo, na vida da gente;

que te faz encarar prateleira, gaveta e caixa, cheia de tudo e de nada,
deixando a gente, num primeiro momento assustada.
Onde você dá de cara com o fantasma que morre ainda pela liberdade.
E a gente lhe dá o possível.

Dou um pouco mais de tempo a um papel amarelado
onde rabisquei sentimento com razão levemente temperado.
Um documento que me faz perceber que estava no lugar errado, na hora indevida,
quando acreditei que daquilo dependia a continuidade da minha vida.

O que teria sido dela se não tivesse havido…
…a viagem.
Qual teria sido a vantagem.

Pois está aí, meu amigo, no meio da maior confusão, a oportunidade de aprender a encarar os fatos como foram, e como são.
De olhar para si mesmo, e depois para frente, em busca de solução.

Se chorar pelo presente que poderia ser e não é, o soluço não me permite agradecer ao passado que foi, e deixá-lo ir.

Pois é aí que eu me encontro, mais uma vez.
Na gangorra da vida que me deixa tonta e me faz acreditar que eu, definitivamente,
perdi a vez.

E me esforço, me sacudo e me faço ficar acordada, mesmo sentindo dor.
Me pego pela mão e me deixo animar por gestos, palavras e suspiros de amor;
e luto para manter o equilíbrio que mora no ponto limítrofe
entre a loucura e o socialmente aceito.

É preciso acrescentar que a monumentalidade do dito processo se deve, simplesmente, à tomada de consciência. Ao perceber a oportunidade de exercer o direito à vida.

Bem-vinda !

E você, a quem dá boas-vindas?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. É bem-vinda neste espaço dominical desde sempre e recebe a você abrindo as páginas de seu novo livro, disposta a ser reescrita com sua ajuda.

De expectativa a mãos à obra

Por Maria Lucia Solla

Veja e ouça o texto De expectativa a mãos à obra apresentado pela autora

Falamos pouco de nós, mas falamos muito do outro e da sua vida, sentados no trono do eu-sei, do eu-faria-diferente, do ela-é-louca, do ele-é-babaca.

Na melhor das hipóteses, a gente faz isso porque, na vida do outro, ou participa como coadjuvante ou mero espectador. E nesse espia daqui, julga e condena dali, não dá para esquecer que de perto ninguém é normal. Nem aquele que sai muito bem na foto do jornal.

Também tem o fato de termos sido desenhados com dois olhos na frente, e do lado de fora da cabeça. Como cultivamos a ideia de que a vida é só o que vemos do nariz para frente, olhamos para fora o tempo todo.

Para a semana que entra, proponho uma boa olhada, de você para você; uma observação cuidadosa do teu dia-a-dia. Atenção à tua volta, ao teu comportamento e sua consequência. No teu ritmo, é claro, mas sem perder tempo, pois já está se esgotando a prorrogação do segundo tempo.

E, aproveitando a deixa do tempo: é mentira que tempo é dinheiro.
Tempo é vida e brilha mais, quanto mais ela for vivida.


Alerta

Se você aceitar as provocações deste livro, não espere grandes vendavais que cheguem para transformar você num outro você.

Na expectativa do vendaval você pode perder a brisa que vem com poder de transformar, gradativa mas definitivamente, o cenário da tua vida. Do jeitinho que você quiser.

Uma pequena descoberta com a consciência focada no momento vivido, e não pendurada nos fios da memória ou da expectativa; a percepção de um único comportamento teu, por menor e mais insignificante que possa parecer, transforma.

Você vai encontrar algumas sugestões de exercícios, por aqui. Se decidir fazê-los, vá anotando se há diferença no você de antes e depois deles. Fale ou escreva sobre o que conseguiu transformar, e sobre a consequência da transformação.

Perceba mais; compare menos

Agora, não dá para ignorar o outro e fechar-se em concha, pois se o outro não existisse você não saberia nada de você. A vida do outro se mostra como cardápio de possibilidades, e te provoca. E é aí que está a chance; na provocação.

O julgar o outro transforma-se em exercício do fazer escolha, do reforçar decisão ou do reverter processo.

E então você observa a tua casa de muitas moradas, o teu templo – o de dentro e o de fora -, e faz uma bela faxina. Decide o que fica e o que vai; o que entra, e o que sai.

Do ático ao porão,
ponha para funcionar um belo e forte pano de chão.

Tenho me virado como bolacha em boca de velho, como diz a dona Ruth, e tenho sangrado as unhas – as de dentro e as de fora –
limpando, escolhendo, pegando nas mãos o relicário do meu apego
e permitindo que ele vá embora.

E você,
em que estado estão as tuas casas?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, abre sua casa e suas emoções, no Blog do Mílton Jung, a espera de que você a ajude a reescrever “De bem com a vida mesmo que doa”

De vida desimportante

Por Maria Lucia Solla


Assista ao vídeo com a leitura deste texto pela própria autora

Tem gente que olha para a própria vida, compara com a de quem é notícia, e a vê pequena. Descolorida
Mas esqueça a vida pequena e veja uma grande pedra, em cena.

Vai carregada por homens que se curvam ao seu peso, e chama atenção; primeiro pelo tamanho, depois porque não é todo dia que a gente vê uma pedra dessas andando de lá para cá, na via certa ou na contramão.

Teria sido condenada a ser, para sempre, o pilar de seja lá o que for, ou teria sido condenada a, por algum tempo, deixar de ser pilar para ser arrastada para outro lugar?

A gente sempre tende a achar que tudo na vida é condenação. A tal da herança judaico-cristã do auto-flagelo e da comiseração.
Da culpa, da culpa, e da culpa.

Tudo isso é retrato do óbvio, eu sei, e é por isso mesmo que merece especial atenção, pensei.
O óbvio confunde; o óbvio distrai. Leva tua atenção embora, te conquista e te trai.
Reina soberano, feito senador sacano que se locupleta e lambuza, e do óbvio se serve e abusa

A desimportância atribuída a própria vida, acaba virando fato banal;
esporte nacional.

Como vai?
A gente vai levando… diz a canção.
Como Deus quer!
Assim, assim.
Eu mereço!

Ainda tem o esporte de achar que tudo na vida, se não é crime é castigo.
Quem foi que teve a ideia de acorrentar o prazer na masmorra de algum inferno gelado?
Sem sua intervenção, você, eu, todo mundo está condenado.
A sorrateira da culpa campeia solta, começa na mente e toma de assalto o coração.
E então, morre a esperança de redenção.

O fato é que temos, todos, a mesma importância, na tessitura da Vida. Entramos na sociedade com a única coisa que temos para oferecer: a vida. Também por isso é importante lembrar que

A DOR DE VIVER É IGUAL EM TODOS NÓS
… e a alegria também

Quantas vezes a gente perde o foco e sofre a dor do outro, ou regozija pelo sucesso alheio que parece já ter vindo pronto.
A gente segue a cartilha que encontrou esquecida
no banco do carona, depois da sua descida.

E aprende a lição alheia
que leva a tecer, do outro, a teia.
Luta noite e dia
e acaba de alma vazia.
Derrama lágrima estrangeira
e suspira suspiros quânticos
sem sentido,
de coração partido
Sem nome, só um número de RG
Com fome, cena triste de se ver

Tudo isso devido ao erro tamanho,
de ter largado, lá atrás, à beira do caminho,
o fardo da própria vida que considerou tacanho
em busca de quê? Do sonho do vizinho.

E você, sabe por onde e a quantas anda a tua vida?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, reescreve o livro “De bem com a vida mesmo que doa” em parceira com seus leitores no Blog do Mílton Jung – livro que respira em cada anotação deixada por você.

De expressão na comunicação e vice-versa

Por Maria Lucia Solla

Reescrevendo, relendo, revendo

Olá,

falávamos de ciclo perfeito de renovação, e da relação entre você e a informação que recebe. O verbo que acabei de usar já desenhou o que acontece. Você recebe; porque quando não quer receber fecha a porta, muda o canal da TV, muda a estação do rádio, enfim, escolhe o que lê, o que pensa, o que ouve, o que vê, o que toca e o que te toca.

Ou ao menos tem opções à disposição.

Quando uma informação chega, por qualquer dos sentidos, é recebida à porta pelo teu interesse, que é quem decide o que entra e o que não entra. Aquilo que entra cumpre um percurso em você. Vive em você, uma vida. Vamos chamá-lo de visitante.

O ciclo de renovação é perfeito quando o visitante viaja pelo teu universo; quando vive em você. Ele aciona a mente, acende fogueiras no coração e modifica você. Para sempre. Depois de sua passagem, você jamais será o mesmo.

Mas como toda vida é ciclica, o visitante, cumprida a missão, procura a porta de saída. E é esse o segredo, Marcelo①. Quando você abre a porta e deixa que o visitante se vá, só fica o que se imprimiu em você. O que já é parte de você. Deixa de ser conhecimento; é você. E isso não ocupa espaço.

Por outro lado, se você deixar a porta de saída trancada, o visitante fica estagnado, se deteriora e adoece e envelhece você. Então, é preciso que você receba, se assim decidir, processe o pacote e devolva ao Universo, se expressando. Você, transmissor, e o outro, receptor. E nesse momento pode nascer a comunicação. Digo pode porque a expressão só é considerada comunicação, quando o outro recebe e compreende o que você expressa.

E você se expressa falando, dançando, cantando, escrevendo, pintando, cozinhando, caminhando, gesticulando. Se expressa com o olhar, com a tonalidade da voz, com o ritmo da respiração. Se expressa parado, sem dizer coisa alguma, com olhos e bocas fechados.

Você se expressa no trabalho, no esporte, em casa e fora dela. Dormindo, acordado, andando, parado, nervoso, cheiroso, suado ou relaxado.

Não há limite para a expressão, assim como não há limite para o ser.
O importante é que, ao se expressar, você esteja presente, esteja inteiro, consciente, acordado, ligado.

É vital que você se expresse

Ao se expressar, você cria espaço para que o novo possa entrar na tua vida e dar continuidade ao teu caminho de evolução.

Proponho, então, que você se expresse comigo. Não aceite simplesmente o que eu digo. Cada um de nós é único, e só podemos falar daquilo que vemos, sentimos e percebemos, do ângulo em que nos encontramos. Apenas nos parecemos porque dançamos sob a batuta de leis e regras sociais. Só isso.
Fale comigo.

①Marcelo Elias:
16 agosto, 2009 as 13:47
Prezada Maria Lucia,
Acabei de entender aquela velha história do sábio com seu aprendiz em que o sábio diz que adquirir conhecimento é como encher um copo até o ponto em que temos de esvaziar o copo para adquirirmos mais conhecimento.
Eu sempre pensava que nossa capacidade adquirir e acumular conhecimento era ilimitada e eu não precisava esvaziar o copo. Não era exatamente isso, né?
Assim sendo, essa é a ideia que estou processando no momento.
Um abraço.
4
maria lucia solla:
16 agosto, 2009 as 15:53
Marcelo
Vejo dualidade em tudo, e vejo tudo através dela.
Entendo que o conhecimento pode gerar sabedoria, mas pode gerar presunção também.
Acredito, como você, na nossa capacidade ilimitada de adquirir conhecimento, mas armazenar… não.
Quando o conhecimento se instala em você – e ele só se instala se você permite e até onde você permite – você pode dar o disco de instalação para outra pessoa, ou livrar-se dele como quiser.
E precisa baixar atualizações.
É mais ou menos como comprar a laranja, cortar ao meio, fazer um suco, tomá-lo e descartar as cascas.

Veja a leitura deste texto em gravação de vídeo feita pela autora

Maria Lucia Solla é terapeura e professora de língua estrangeira. Desde a semana passada, reescreve o livro “De bem com a vida mesmo que doa” em parceria com você leitor deste post dominical. Para ler o primeiro texto já publicado clique neste link

De Natureza e seus afins

 

Por Maria Lucia Solla

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Olá,

Criamos cada dia maior barreira entre nós e a Natureza e, separados dela, nos perdemos.
De que Natureza é Vida, e de que somos Um com ela, disso nos esquecemos.

Temos alma, repetimos prepotentes; cheios de certeza,
e essa jóia ela não tem, a tão defendida Natureza.

“Bando de naturebas.
Esquecerem-se de que aprendemos a nos unir por Reinos, eu, você e eles
e a mantermos, bem separados, cada um e todos eles?”

“Olha só com que tipo de gente você está se misturando, meu filho!
Espera só que se não me obedecer, te faço ajoelhar no milho, até o
anoitecer.”

Mas o simples mortal nunca se considera tão simples assim e acha brega o papo de voltar à Natureza e à própria essência.
Estratificamos assim a nossa existência:

Lá em baixo o inferno
onde faz calor mesmo no inverno.

Depois vem nosso planeta, a Terra
onde há riqueza, e o alimento se encerra.

Logo depois, o que brota dela
milho, feijão, boi, vaca, cão e cadela.

Em seguida viemos nós
que separados disso tudo, com orgulho,
nos sentimos cada dia mais sós.

E finalmente vem o céu,
mas o que não percebemos, de tão sutil que tudo isso é,
é que logo depois dele, vem de novo o inferno.

É que, na verdade, é o céu que nos separa dele – do mundo cruel – com um simples e tênue véu.

Disso tudo, o que ainda mais não percebemos é que todas essas camadas nos permeiam e que nós as permeamos também.

Me perdoe, mas por hoje cansei.
Permite, Vida, que eu desligue só por hoje, mente e coração!
Não aguento mais, a cada segundo, ter de aprender uma nova lição.

E você se sente assim também?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

PS 1: Quero agradecer a Mário Castello e a Stratos Giamoukoglou o enriquecimento do meu album de fotografia.

PS 2: Música: De e por Maxime Le Forestier, “Comme un arbre” do cd Essentielles

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, escreve e desvenda o véu da vida no Blog do Mílton Jung