De Certeza e de Deus

 

Por Maria Lucia Solla

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O mundo externo, e consequentemente o interno, tem passado por poucas e boas.
Nada é. Não há certeza. Ou melhor, certeza nunca houve, mas nós nos agarramos e continuaremos a nos apegar a tristes arremedos dela.

De religiões e dogmas, desisti há muito. Era levada por ventos curiosos, mas não me entregava nunca. Mesmo babando de inveja da certeza dos que a tinham; mesmo doida por pertencer a uma tribo que me acolhesse, cedo percebi que essa acolhida custava caro demais. Preço que eu não queria pagar.

Quanto a certeza, com a dose de incoerência que todos temos no cardápio – confessemos ou não -, ainda me pego indo atrás de uma ou outra, no fim. No entanto, enquanto cobiço uns pares delas, também quero me livrar das que teimam em se agarrar em mim.

O vazio de certeza, no início, dá insegurança. Como nos primeiros passos não encontrar estendida a mão da proteção. Como pedalar pela primeira vez sem as rodinhas de trás, ou pular na piscina e não ver a cara molhada e divertida do pai acenando; dando a mão.

O homem se separou da Natureza e de Deus, e disputa, a unha, certeza por certeza. Por vezes, a tiro. Paga por ela, morre por ela. Ajoelha-se e vende a própria alma por um vislumbre dela; e no entanto, à única certeza irrefutável, que é nossa de graça, viramos as costas e nos recusamos a aceitar.

a morte do corpo material
a viagem é de ida e volta
ponto final

Hoje, só não percebe quem não quer: a vida aperta a porca, e o parafuso penetra a carne e é então que é preciso aceitar que na dor há propósito; ela nos impulsiona a encontrar a via que desemboca na harmonia, que é o modus operandi da Criação. Se não fosse assim, se Ela não fosse movida a ritmo, harmonia, equilíbrio e perfeição

os planetas se chocariam uns contra os outros em frenética dança egocêntrica
o Sol viria espiar a Terra e nos exterminaria com uma lambidas de suas régias labaredas
a lua preguiçosa apareceria de quando em quando de luz opaca e sonolenta
as estrelas sairiam em caminhada pelos céus de outras galáxias
e seríamos sem elas ainda mais tristes

Eu não estaria aqui esperneando na busca do equilíbrio e da harmonia pessoal.
Da minha sanidade mental.

E como isso tudo me remete a Deus, lembro que quando menina eu tinha certeza Dele, mas sentia pena do Deus da minha certeza, e chorava. Ouvia dizer que Ele era maior e melhor que tudo e todos, e isso me levava a pensar um Deus material, velho, barbudo, sisudo, distante e solitário. Um Deus que julgava, condenava e tinha preferências entre os humanos e suas tribos. Se não fizéssemos o que Ele determinava, nos expulsava de seu Reino e nos virava as costas. Para sempre. Isso me perturbava, trazendo ansiedade,
aos sete anos de idade.

Eu pensava um Deus eterno que sofria de solidão eterna. Sem amigos! Quem
pode ter amigos sendo melhor e maior que todos!

mas voltando a certezas confesso
escrevo para delas me livrar
não para novas conquistar

E enquanto isso você, do outro lado da tela, ouve meus ais e uis nascidos da birra de não ter o que quero, quando quero, nascidos da frustração. E eu não jorraria palavras, ipis e urras, britados da satisfação.

E sem certezas, não tenho resposta pronta nem mapa do tesouro. Não tenho a pretensão de explicar o Divino e Seus desígnios. Não tenho receita para o meu nem para o teu bem-estar. E vou vivendo.

E Deus?
Hoje, dele não tenho certeza.
Eu o sei, o sinto e o percebo nos meus momentos de lucidez.

mas quando me deixo tomar por uma ou outra certeza
sofro e o resultado é nefasto
isso acontece sem dúvida
quando eu Dele me afasto.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com fé e certeza nas suas incertezas

Assim se faz uma limonada

 

Por Abigail Costa

Tenho  me sentido meio-ácida.

Tudo bem que se botar na ponta do lápis tinha lá meus motivos para o meu lado limão. A semana começou com o meu pequeno no hospital, só isso já me deixa sem rumo. Nada me tira mais do eixo do que a febre de filho. Chego até me preparar para de vez em quando… Só que quando o termômetro bate na casa dos 38,5º, me desespero.

Alguns dias de preocupação e depois vai passando.

Família, casa, cachorros e gato. Esse conjunto de vidas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo no tema dependência.

Primeiro o filho: olhar dengoso do tipo fica-do-meu-lado-por-favor! Agora o cachorro. Acabei de dar remédio, banho…. Sim, o cão também teve febre. Coitado. Percebi que até emagreceu.

É assim, cuido, tomo conta, fico olhando se dormiu, comeu …. e me consumo. Energia gasta. Pilha quase no fim, mas me sinto uma privilegiada.

Essa acidez, prefiro lidar como um excesso de zelo. Enquanto vejo meus colegas enlouquecerem por conta do trânsito, este definitivamente não me amola. Atrasos, tiro de letra. Bem sei que de outra maneira já estaria batendo os pinos.

Chefes, se dá um jeito. Falta de dinheiro agora pra pagar as contas, deixa para o mês seguinte e se parcela.

Mas os meus problemas domésticos, estes não consigo repassar.

Tenho que estar por perto. Acompanho a chegada deles. Tem que ser eu a dar o diagnóstico, fazer o tratamento e presenciar a cura. Até chegar nos finalmentes, às vezes custa um pouco.

Falava sobre isso com um amigo. Com  simples perguntas ele me fez ver beleza nisso tudo.

“Quer preocupação mais gostosa do que essa?  Quer maior sinceridade, que a de alguém que pede ajuda só pelo olhar?”

Tem razão.

Cuidando de um,  de outro, dormindo menos, acordando mais cedo. Sabe que  nenhum cartão de crédito paga isso ? Sinto que em determinados momentos erro na dose. Mas  não abro mão da minha limonada.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung sempre pronta a deixar a vida mais doce.

De ORAÇÃO na comemORAÇÃO

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De ORAÇÃO na comemORAÇÃO” na voz da autora

Flores Maria Lucia Solla

Olá,

vou deixar que o ego fale de uma vez, e em primeiro lugar como é do seu feitio, para que ele se aquiete e permita que o divino fale, e que eu me cale.

vitória
e isso sem dúvida
é motivo de história

Durante duzentas semanas produzi um texto por semana. Ininterruptamente. Escrevi dos lugares mais inusitados, mas escrevi. Escrevi sorrindo, chorando, mergulhada em todo tipo de emoção.

jorrei alegria quando tinha
tristeza eu deixava fluir
quando vinha

sussurrei gritei
militei dengosei
no fundo e na superfície
me domei

e sigo me apequenando dia a dia
ante a Criatura e o Criador
na alegria e na dor

Criador que a religião quer enlatar
nas suas leis quer encaixar
nas palavras dos livros sagrados quer justificar
exclusividade vive a alardear
e que graças a Ele nada disso consegue alcançar

e termino agradecendo
a você que me vem lendo

lembrando um trecho da Oração de Cáritas, onde pedimos, na minha leitura:

Pai/Mãe,
dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos a Vós;
dai-nos caridade, fé e razão;
dai-nos simplicidade para que nossas almas reflitam a Vossa Imagem.

Comemore comigo e pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung sempre com uma oração à vida

De sentada na calçada


Pássaro por Maria Lucia Solla

Por Maria Lucia Solla

Ouça ‘De sentada na calçada’ na voz da autora

mas é real o que estou a ver
encontro e desencontro
tim tim
rindo a comer e beber
se fartando de mim

e quem está com os dois
não pode ser olhe lá
esperança e desesperança
não acreditaria se ouvisse falar

a Vida é mesmo mistério
digo rindo
e falando sério

pensava que fossem
de tribos opostas
que no mesmo ambiente
não estariam
nem de costas

no entanto parecem entrosados
os quatro
partilhando uns dos outros
copo e prato

tim tim
rindo a comer e beber
muito furtando de mim

há intimidade
é mais que um primeiro encontro
parece que vem de longe
que é sólida a amizade

riem
é só o que me falta
além do ar
desencontro abraçado
à esperança
os dois a gargalhar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de Comunicação e Expressão, escreve no Blog do Mílton jung aos domingos, e é ótima companheira para bater papo sentada na calçada.

Sobre a vida e as mãos

 

http://www.flickr.com/photos/imaginarios/

Christian Jung
Blog MacFuca

Olhando pela janela e assistindo ao movimento das pessoas circulando pelas praças. Ver uma família passeando de mãos dadas me trouxe mais uma vez reflexões sobre momentos bons e maus desta nossa vida. Na verdade, a vida não existe sem esses dois momentos. De qualquer forma tenho esse jeito emotivo alegre ou depressivo interpretativo com as coisas que me cercam. Como esta união familiar pelo contato da “Mão”.

Desde o momento que nascemos, que sentimos a claridade bater em nossos olhos, somos socorridos e recebidos pelas “mãos” de alguém, no caso um especialista (geralmente), que nos acolhe com as “mãos” de quem estudou o suficiente para estar ali pronto para nos agarrar firme.

Logo em seguida vem as “mãos” da Mãe e com elas sentimos a segurança que pro resto de nossas vidas nunca iremos esquecer.
E assim por diante uma série de “mãos” vão se seguindo e em cada fase elas se apresentam de uma forma, ainda que nunca deixem de ter o mesmo sentido para nossas vidas.

Quando crianças a mesma “mão” que acaricia, corta o bife, serve o leite com achocolatado, segura a bicicleta até que ela se equilibre no meio de nossas pernas. A “mão” que agarra firme e, as vezes, bate para ensinar. (Dizem que bater é errado, mas não me arrependo de algumas chineladas estilo bumerangue da minha mãe. Aquela chinelada que arremessada no corredor pega o sujeito lá na curva da escada. Na minha casa tinha esse corredor e a escada. Eu era um especialista em fazer a curva sem a chinelada! As vezes pegava!) Enfim, a “mão” que sustenta a nossa infância até que nos tornemos capazes de comprar o pão na padaria e, claro, devolver o troco.

Já na adolescência a “mão” que compreende a explosão hormonal. Essa que absorve os critérios da inteligência de achar que os pais nasceram ontem e que são incapazes de se tornarem “modernos“. A “mão” que pune mas não com o intuito de agredir ou de diminuir, mas a “mão” que prepara para um futuro independente onde tornará as nossas “mãos” capazes de ajudar a quem estiver mais perto. E assim vamos criando corpo, nos achando e firmando pensamentos e atitudes, criando a nossa própria história.

Ainda assim a “mão” de alguém se faz presente. Vem a fase adulta e com ela a gama de alegrias de “mãos” que se somam em nossa história como também as tristezas daquelas “mãos” que não estão mais ali.

Vem o casamento, os filhos, e aí temos as pequeninas “mãos” se esticando para crescer no nosso colo por mais baixos que possamos ser. Como é o meu caso, 1 e 60 e poucos não é lá um grande colo, mas como Pai me sinto grandão. De qualquer forma somos doutores de mãos fortes e agregadoras, reflexo das mãos que até então nos acolheram.

De mais a mais a velha “mãozinha” não deixa de aparecer. Aquela “mão” amiga na hora de empurrar o carro quando embestou de não pegar, pra trocar o pneu bem na hora da chuva, pra juntar as frutas que caíram da sacola na saída do supermercado, pra pagar uma conta. Enfim, “mãos” que estão sempre presentes em todas as horas no dia a dia.

Quando se vê…

(agora me lembrei do poema de Mário Quintana)

O Tempo!

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas!
Quando se vê já é sexta-feira…
Quando se vê já é natal…
Quando se vê já terminou o ano…
Quando se vê já se passaram 50 anos!
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Agora, é tarde de mais para ser reprovado,
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente, e iria jogando pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Seguraria o amor que esta na minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Voltando ao meu texto…

Quando se vê, nos damos conta que envelhecemos e o corpo cansado, muitas vezes desgastado por alguma doença que insiste em se instalar, nos traz a impressão que não existirão “mãos” suficientes para suprir toda a nossa fraqueza que se espalha sem pedir licença.
Porém, mesmo assim por mais capazes que pensemos que possamos ser, contamos com a nossa história para que as “mãos” se estendam.

Diretamente ligada a nossa vida,  milhares delas surgem. Reflexo do carisma, do respeito, do caráter, da compreensão, da satisfação de momentos juntos e do sorriso sempre acolhedor que aprendemos a valorizar, rostos que se tornaram felizes pela alegria que lhes ensinamos em viver.

E nos sentimos humilhados, deprimidos, fracos perante as “mãos” que nos vem acolher. Talvez por que seja muito difícil para o ser humano entender que, quem um dia criou e cuidou, nesse momento precise ser cuidado.

Mas as “mãos” estarão sempre ali para nos dar conforto.

E por mais que o nosso jeito paternal nos habite, elas se estenderão, com certeza,  firmes para nos sustentar, até que nosso espírito se sinta livre para voar e desta forma ter condições de esticar a “mão” para este Ser maior que nos criou e nunca deixou de nos observar.

Christian Jung é mestre de cerimônia, autor do Blog MacFuca – onde este texto foi publicado, originalmente – e já me deu muitas mãos na vida.

Imagem do álbum digital no Flickr de Daniel Pádua

De consciência

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De consciência” na voz da autora

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Olá,

Sou fã de carteirinha da tela mental. Aquela que vem no pacote básico do ser humano; branca como as telas de cinema, para que a gente projete o que quiser e produza a própria história. Cenário, iluminação, personagens, flashbacks, incursões no futuro, trilha sonora, efeitos especiais… a obra é nossa.

A tela mental é indispensável, por exemplo, na manutenção e treinamento da memória. Nosso cérebro armazena a informação mais facilmente se vier acompanhada ou for enriquecida com imagem: externa ou interna, vista ou criada por você. Visualização e compreensão turbinam a memorização.

Ela também é preciosa no aprendizado de idiomas. Você projeta a imagem do que ouve, associa som e imagem, e… ponto para você.

Nela podemos projetar anseios, e as imagens dão uma ideia do que seria o teu sonho transformado em realidade. O termômetro é bom; você vai perceber que enquanto pensa e assiste à projeção do teu pensamento, todos os teus corpos reagem. Fica mais fácil perceber quando se está sabotando ou envenenando através de pensamentos ou atitudes doentes. Por outro lado também vai ficando cada vez mais fácil sentir e perceber a leveza e a dança dos corpos quando se imagina algo que é bem vindo. Dá para começar a separar o joio do trigo.

Mas o que eu quero, mesmo, é convidar você a acionar a tua tela mental e comigo projetar a Vida como um jogo em 3 dimensões; um tabuleiro com pequenas depressões – quadrados vazios, como caixinhas sem tampas – a serem preenchidas. Você vai vivendo, pensando, falando, ouvindo, olhando numa e noutra direção, e escolhe que caixinha preencher, como e com o quê; desenhando assim a Vida. O tempo do jogo varia de jogador para jogador, e nunca se sabe quando vai mudar de fase e nem quando vai soar o apito final. Ao longo do jogo aparecem coringas que geralmente piscam e saracoteiam feito bagres ensaboados, e se a gente vacila, fica a ver navios.

Veja um tabuleiro não estático. Ele desliza normalmente para a esquerda, deixando à mostra um pouco do passado recente – para que se possa rever as últimas intervenções – o hoje sendo construído – desenhado, elaborado, destruído, rabiscado, ignorado – e parte do amanhã sonhado. Mas tudo pode acontecer. Tudo é possível enquanto se está jogando. Tempo é Vida.

Diferentemente dos jogos em que destreza manual e agilidade mental são predicados fundamentais, no jogo da Vida o trunfo é a consciência ampliada e afiada. Consciência da Essência e do Caminho. Capacidade de estar acordado, de ver, perceber e sentir, com todas as células de todos os corpos, a Vida que se oferece, se entrega aberta, receptiva à tua intervenção. Convidando eternamente para que você Viva.

Imagine, projete, modifique o sonho, retoque a cena e tente não perder os coringas.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung provocando imagens na nossa mente.

De considerações

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De considerações na voz da autora acompanhada por Benny Goodman

Vagafogo, Pirenópolis
Olá, no final do ano que acabou de virar a esquina, minha saúde levou uma sacudida e saiu do prumo. Até hoje, os dias têm sido de sufoco. Literalmente, uma vez que o desequilíbrio, no físico, é respiratório. Passei uma tarde no hospital e, argumentação do meu lado mais compreensão do lado da médica, voltei para casa. Mas ainda hoje quando respiro me sinto equilibrando na corda bamba esticada por brônquios, pulmões e… haja coração. Desenhei uma tabela para dar conta de acompanhar horário de antibióticos, cortisona, xarope e um medicamento que tem a responsabilidade de consertar os estragos causados pelos outros.

Minha prima quebrou um joelho jogando vôlei, no último dia do ano. Hospital, cirurgia, pinos, placas. Entra o novo ano com a tarefa de ficar quieta por noventa dias. Ela é elétrica, cheia de vida, agitada, ariana! Baita desafio, mas conheço a fera e sei que vai transformar a situação e tirar de letra a lição.

Paulinha está tentando segurar a vida como se tivesse uma pilha de pratos na cabeça, andando em terreno escorregadio. A rinite aproveitou a deixa e se instalou. A Nádia foi parar no hospital, com uma estafa das boas, que ela vem driblando como pode, há algum tempo. Com o Graciano a coisa pegou nos bichos que são o seu forte e o seu fraco. O gato foi roubado, o cachorro morreu e o enorme aquário, cheio de peixes, explodiu do nada. Não derrotado, colocou o único peixinho sobrevivente da ecatombe aquariana num pequeno aquário, e o peixinho pulou e se suicidou.

Chove, terra desliza, muita gente morre e outros tantos nascem. A Tininha trouxe à luz gêmeos:Téo e a Catarina. Vou tricotar algo bem bonito: rosa para ele e azul para ela, que é sempre bom lembrar de desafiar as convenções e colocá-las em seu devido lugar.

A vida é uma colcha de retalhos, só que quando a gente está tecendo um retalho bonito, maleável, dá gosto de costurar!

e então como viver
que cartilha obedecer
para fazer direito
é preciso aceitar o que se tem feito
e deixar que o amor escorra livre
de dentro do peito.

não dá pra ser sempre brilhante
há que levar a vida adiante
há dias de ser tansa
em que a gente literalmente dança
e há outros em que o sol entra em nossa casa
ilumina cada canto, pontas e meios
e expande o coração

Que saibamos sempre receber e reconhecer cada momento de Vida.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.



Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso do Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung, sempre a fim de receitar um bom remédio pra alma.

De dois mil e dez

 

Por Maria Lucia Solla

Maria Lucia Solla por Maria Lucia Solla

Olá,

você sabe tão bem quanto eu que o desconhecido é sempre o vilão da história. É o que nos faz pisar em ovos; o coração aos saltos. E é onde a gente fica: nesse lugar de dúvida, de suposição, de medo e atração. Atração fatal. Vive filme de terror e passa facilmente dele para o conto de fadas, sempre no mundo da ilusão. Do que seria, do que foi, do que teria sido. Até o teria sido, e muitas vezes especialmente ele, povoa nossos porões e áticos

O que se mostra a gente enfrenta, cada um do jeito que pode ou sabe, mas o que está oculto ganha poder, força e um imenso espaço na nossa vida. E a gente vai escrevendo enredos em páginas sonhadas, chorando e rindo, discutindo e trocando juras de amor. Na ficção individual.

A gente arquiteta tudo na mente. Faz novela de fazer inveja a diretores das novelas de maior sucesso na televisão. Na telinha da TV, a história do outro nos toma no máximo uma ou duas horas por dia. Na nossa, começam na mente e nos tomam por inteiro, sem propaganda. Se alastram e tomam o lugar da Vida. É como se a vida da gente fosse pirata: a gente vive a cópia do roteiro.

Assistir à novela da tv é moleza. A gente assiste de fora e vê tudo; ou acha que vê. Aí a gente se mune da pose mais empertigada e cai de pau no personagem que mais se assemelha a nós mesmos. Bota para funcionar julgômetro e condenômetro, e depois volta para a própria fantasia, que acha que é real.

E é por isso tudo que decidi penetrar os mistérios do ano que vai reinar por um ano inteiro. E faço o lexicograma da sua assinatura; do seu nome. Lexicograma é o nome do exercício divulgado por Linda Goodman, minha astróloga favorita que já deixou o planeta.

E foi no nome dele, DOIS MIL E DEZ, que encontrei algumas de suas dádivas.

Ele traz, no nome MEL que em qualquer cultura, desde os primórdios dos tempos, mantém fama de bom.

Traz notas musicais: DO, MI, SOL, Si. Fui ao teclado testar o som. Fica claro para mim que o SI deve ser sustenido. Taí um bom lugar para começar; pela música. Vou voltar a tocar. E o SI será sustenido.

Ele traz o SOL.
O rei.

Traz no nome a palavra SILO, que faz pensar em fartura de produtos agrícolas armazenados.

Traz MILO, a deusa do amor e da beleza, conhecida por Vênus.

Traz o imperativo DOE, nos convidando a doar.
Traz LEI, LEME e SELO. Começo, meio e fim.

Eu estou pronta para ele. Sem medo, sem suposições.

E você, que tal experimentar? Escreva o nome do ano: DOIS MIL E DEZ. Depois, é só procurar palavras que podem ser formadas com as letras dele. Esses são os seus mistérios. Assim DO, Si, MIL, DEZ estão ali, escancaradas, mas inúmeras outras estão misteriosamente escondidas.

Aproveite e faça o do seu nome também.
Divirta-se e VIVA!

Beijo e Feliz DOIS MIL E DEZ para todos

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

Na aeronave da vida

 

http://www.flickr.com/photos/claudio-rieper/

Publico aqui texto enviado por um dos mais ativos participantes deste blog, o comandante Armando Italo, que escreve pensando em todos aqueles que, assim como ele, dedicaram algum tempo do seu dia para comentar notícias, debater assuntos ou provocar reflexões:

Em 1o. de janeiro de 2009 embarcamos na nossa aeronave, acionamos os motores, taxiamos, alinhamos na cabeceira da pista, decolamos mais uma vez para o desconhecido.

Durante a subida, sentimos algum tipo de resistência causada pelas forças da natureza. Tivemos de “brigar um pouco” com os controles e sistemas de voo – assim como com os nossos próprios controle e convicção – em momentos cruciais. Foi necessário tomar atitudes inesperadas e ter coragem de assumir, aceitar os nossos erros, derrotas, frustrações e desafios.

Subindo em direção a imensidão do azul escuro, do infinito, ora tendo que acelerar, ora tendo que desacelerar os motores. Reduzir ou aumentar a razão de subida para que então pudéssemos em algum ponto do infinito, lá em cima, nivelar a nossa aeronave com segurança e desfrutar a paz daquele espaço, do nascer e do pôr do sol. Apreciar a chuva caindo lá embaixo em algum lugar qualquer e tudo o que existe de belo que o criador e a natureza nos proporcionam.

E assim, atravessamos em nosso voo o ano de 2009.

Temos agora de iniciar a descida da nossa aeronave da mesma forma que subimos. Em paz, harmonia, segurança, respeito a natureza, aos amigos e companheiros de voo.

Que em 2010 os nossos voos sejam melhores, mais suaves, menos
turbulentos, com menos aproximações perdidas e arremetidas !

De Feliz Natal

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Feliz Natal” na voz da autora e sonoriado por ela, também

http://www.flickr.com/photos/malugreen

Olá,

Natal é conceito; portanto contraditório, arbitrário, plural. Tem fase que aceito, tem fase que não. Nunca sei como a Festa e eu vamos nos relacionar, até o momento em que a rolha do champanhe se liberta do gargalo da garrafa, ou que sozinha em casa sinto sono e vou dormir. Meu humor não depende do formato da Festa; é o contrário. Coração em Festa dá de mil em champanhe francês.

E é na carona desse pensamento que desejo, do fundo do coração, que este Natal, do formato que tiver o conceito para você, seja reconhecido como mais uma oportunidade de reavaliação da rota da tua vida. Que seja reconhecido como marco; não um marco chato, dogmático, nova era de araque; não um marco de surto consumista e de presente cada vez mais caro, no sentido de custar muito e não de ser realmente caro.

Que seja um marco de reconhecimento; de reencontro de você com você. Um momento de se olhar, antes de olhar no espelho para se arrumar para a Festa, vendo além dos cabelos de menos e das rugas de mais. De um olhar que desvenda mistérios que, prisioneiros dos teus sonhos, estão loucos para se revelarem e serem vividos.

Um olhar que permita que você se veja de verdade. Que reconheça a luz divina que emana de você. Que te faça reconhecer a tua responsabilidade em cada respirar da Vida. Que te faça olhar em volta e reconhecer as marcas e pegadas impressas na Vida, por você.

Desejo a você e desejo a mim.

Desejo aos meus leitores, aos amigos e amores do passado, do presente e do futuro, aos filhos e netos, de ontem, de hoje, de amanhã. Aos que me antecederam na árvore brotada das raízes das famílias que me trouxeram até aqui para que eu também exercesse a oportunidade de manifestar a Vida Divina através da minha pequena centelha de vida humana.

Junto com os meus desejos, quero explicitar a minha gratidão a todos os seres que cruzaram, cruzam e cruzarão os meus caminhos. É o brilho de cada olhar cruzando o meu que me faz perceber a Vida.

Feliz Natal.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Todos os domingos cruza na nossa vida através dos textos publicados no Blog do Mílton Jung