De compaixão

 


Por Maria Lucia Solla

É preciso muita, muita compaixão, com os outros e com a gente também. Ouso dizer que principal e urgentemente, com a gente. No entanto, não se exerce compaixão dizendo: coitadinho, pobrezinho, que droga, que azar, que absurdo, nem para o outro e nem para gente mesmo. Compaixão vem atrelada à consciência e se não vier, não é compaixão; é pena pura. É compaixão pirata.

Pena implica ver o outro separado da gente. Quando o outro passa por um momento de dor, pensamos: essa dor é dele, e esconjuramos: vade retro, dor!

Compaixão não. Compaixão não afasta; aproxima, une, reune o que nunca esteve realmente desunido, e é por isso a sensação de êxtase que nasce da compaixão.

Nada é só do outro ou só meu. Dor, alegria, sucesso, derrota, paz ou violência. Não sou eu que digo; há Leis Universais, avalizadas pela ciência, que afirmam isso. Eu só me inquieto.

Quanta compaixão é preciso, neste mundo de meu Deus! Quanto aproximar, quanto perceber, quanto saber onde avançar e onde encolher. É preciso saber dançar, mas dançar tão bem que fique impossível pisar uns nos pés dos outros.

É preciso entender que ‘Somos Todos Um’ não é mantra religioso para arrebanhar adeptos dos ovos de ouro. Somos Todos Um é Lei da Natureza e Lei da Física: a Lei da Unicidade.

Na diversidade planetária, todos os átomos de todos os corpos são iguais; e mais: todos os átomos de todos os corpos vivos e de todos os corpos mortos também são iguais. Energia vibrando em frequência diferente. Na possibilidade infinita da diferença. E ainda nos surpreendemos com diferentes tipos, diferentes comportamentos, e sentimentos. No outro e em nós.

Outra Lei diz que essa energia, que compõe tudo, e da qual somos feitos, vibra; e vibrando se transforma. Cada um no seu ritmo, na sua cadência; corpo, mente e coração em batida frenética pela vida, desde a chegada, até a partida.

E tem mais. As Leis afirmam que tudo o que vibra precisa fluir, e para que flua, precisa estar em desequilíbrio. Assim como o copo que não pode verter o líquido se se mantiver rígido; em pé. É preciso que se curve para nos matar a sede. Resistência igual a dor. O oposto do amor

E ainda nos surpreendemos com o outro, com o comportamento do outro, e somos preconceituosos, e blablabla de manhã à noite sobre o outro, sobre a outra, Sobre a dor da gente, nossa sina, nosso isso, o dele aquilo.

Tenhamos compaixão; a dor de viver é igual em todos nós!

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

De saúde e da falta dela

 


Por Maria Lucia Solla

O assunto da saúde não se esgotou em mim, e de asas abertas aterrissei na conclusão de que os problemas não vieram para ficar; sou eu que, encantada neles, não os estou deixando ir.

Chegando lá foi fácil. Foi só olhar com atenção, que apareceu a solução. Para conquistar a saúde, e mantê-la companheira, é importante manter longe o estresse; viver expontaneamente. Entrar, aceitar, levar o que interessar. Importante deixar que a tristeza chegue, entre, cumpra a missão, e parta, retomando a estrada.

Vivemos agarrados a necessidades que nem são nossas de verdade e vamos com elas na enxurrada. Temos horror da ideia de mudar; temos medo de viver. É por isso que sofremos e esperneamos quando elas são ameaçadas: porque somos escravos delas. Não somos nós que as temos, são elas que nos possuem.

A guarda incansável delas tomam tanto tempo que nem temos tempo de sentir a segurança da própria vida; do simples existir. Nos deixamos sem tempo para amar, para exercitar a ternura no olhar. Deixamos de exercer o verdadeiro abraçar.

Por nós passa despercebida a perfeição do vai e vem da vida. Do bom que vai e vem, como faz o ruim também.

É como se uma nesga de consciência se fizesse consciente em mim. Relembrei que a vida é colcha de momento, de alento e desalento, e é assim que ela é feita; é assim que é perfeita. Tudo sempre novo de novo: encontro, desencontro, encanto, desencanto, claro, escuro, ganho perda, alto, baixo. Onde está o recomeço que eu não acho?

vi que é urgente que a gente se separe
da mágoa da dor da perda da posse e do queixume
e que faça isso ligeiro
antes que a dor se avolume

entendi que é urgente
largar mão da certeza
para arrebanhar mais saúde
mais beleza

manter domados egoísmo e ambição
para manter sadio o coração

entendi que é urgente mudar
não ser dono da verdade
e se dar conta de que sem o outro
a gente é só
metade

Saber falar e calar, reconhecer que depois de cada ação vem a reação.

e que se deve perdoar
bem antes de pedir perdão

é preciso afastar a maldade
abrir o coração de verdade
e de viver ter muita vontade

O que falta pra eu chegar lá é falar de tudo isso com mais humor, maior leveza; é de ver menos a feiúra e mais a beleza!

Quando eu mudar, a saúde com certeza vai voltar e venho aqui correndo te contar.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

O menino chora

TV italianaDireto de Ansedonia/Itália

O menino chora. Era a primeira Copa dele. Via sua seleção jogar e não tinha dúvida em dizer aos colegas que seu time era imbatível. Ninguém pode com a gente. Certo estava que para ser campeão do Mundo faltavam apenas três jogos. Primeiro, a Holanda. Depois, Uruguai ou Gana, tanto faz. E na final, qualquer um que chegasse estava bom, pois a seleção dele era a melhor.

Um dia antes do jogo, passeou de mãos dadas com o pai e foi a um café na pequena cidade italiana de Orbetelo. Ali era o único lugar com acesso a internet nas redondezas. Queria mandar um e-mail para o avô e desejar boa sorte, pois sabia que ele também estaria diante da televisão torcendo pelo Brasil. Não conseguiu. A conexão caiu. E ainda teve de ouvir o dono do bar apostar na vitória da Holanda. Pois bem !

Hoje à tarde, vestiu uma réplica da camisa azul usada por Pelé na Copa de 58 e foi para casa de uns tios pouco interessados em futebol, mas que aceitaram lhe emprestar a televisão para ver o jogo no qual a seleção brasileira confirmaria toda sua confiança. Era um aparelho de tubo, daqueles modelos mais antigos, improvisado com uma antena colada com adesivo no alto para captar melhor a imagem. O nome dos jogadores e o tempo de partida não ficavam bem definidos. Não importava, a qualidade da seleção dele era nítida.

Ficou orgulhoso quando ouviu o narrador da Rai 1 dizer que havia assistido à mais bela jogada da Copa, logo depois de dois dribles de Robinho, um cruzamento forçado pela falta que recebeu, um toque de Luis Fabiano de calcanhar e o chute colocado, com endereço certo, apenas interrompido por um esforçado goleiro. É o meu Brasil, falou baixo.

Vibrou com a enfiada de bola de Felipe Melo que ofereceu a Robinho a oportunidade de marcar o primeiro gol do Brasil. Que golaço ! Eu não disse que os caras são muito bons ! É campeão, é campeão !

A voz dele estava isolada em uma cidade que parecia viver outro mundo, não tinham vuvuzela nem foguetes nem gritos dos vizinhos, como nas partidas que assistiu no Brasil. Pouco importa, dali pra frente, era só esperar o apito final do árbitro. Mesmo que ainda houvesse todo um segundo tempo para ser disputado não havia nada capaz de acabar com o sonho do menino.

De repente, o goleiro ídolo falha, o zagueiro confiável erra, o volante valentão é expulso. E nem o cara que ele mais admira neste time está em campo para ajudar. Elano ficou fora depois de uma patada que recebeu de alguém da Costa do Marfim. Mas ainda falta muito tempo. Só um gol, o empate, a prorrogação e ganhamos nos pênaltis. A gente ganha nos pênaltis, pai ?
O jogo segue, o tempo passa, o menino com as duas mãos no rosto da sinais de sofrimento. Ainda acredita em um lance de herói, capaz de mudar tudo que está se passando naquela TV. Em todas as suas histórias o super-herói surge para restabelecer a ordem, fazer justiça. Quem sabe agora ? Não, não foi. Dá um chutão lá pra dentro !

Os tios não entendem direito por que aquela agonia. É só um jogo de futebol.

O menino começa a entender. Começa a enxergar o que até então não havia visto direito. Nosso time pode ser bom, mas o outro quer ser melhor. E quando faz melhor, nos supera. A derrota é uma realidade possível, não apenas no jogo. E tem de ser enfrentada, porque não é definitiva.

Os três minutos de acréscimo não importavam mais. Ele não conseguia mais ver a imagem na TV, a voz do locutor anunciando a desclassificação do Brasil não fazia sentido, a bola chutada de um lado ao outro era um objeto estranho. Os jogadores, também. Não se pareciam com os das figurinhas que colocou na álbum com todo cuidado.

O apito final não quis ouvir. Levantou-se sozinho e saiu caminhando pra fora da casa. Não havia vuvuzela tocando nem foguetes nem gritos. Apenas uma lágrima e a descoberta de que não somos invencíveis. Nem no futebol, nem na vida.

De todo e Todo

 

Por Maria Lucia Solla

Somos diferentes uns dos outros, diferentes a cada dia; e a equipe que nos compõe e mantem vivos tem vida mais curta que a nossa.

50 trilhões de células trabalham com um só objetivo: nos manter funcionando. E, mesmo as que nasceram ou acabaram danificadas, fazem o que podem. Estamos nas mãos delas, e elas nas nossas.

Agora, como manter satisfeito e saudável um plantel de 50 trilhões de células que vivem para nos dar vida, e que por nós morrem? Dando a nossa vida pela Vida?

As células, imagino, não têm visão global. Não veem o quadro inteiro e não intelectualizam sua função: “Agora estou transportando oxigênio para os pulmões de maria lucia, para que ela respire e continue dando a vida dela pela Vida”. Claro que não! Simplesmente fazem o que têm para fazer porque estão ali para isso.

Tem as que põem fogo na fornalha, as que transportam o combustível adequado para cada departamento, e tem as que cuidam da limpeza dá máquina. Nada pode falhar. Perfeição!

As células do coração recebem, das outras, condições para exercerem sua função. E exercem. O mesmo com as células dos intestinos, pulmões, pele, e por aí vai. Nascem, crescem, desempenham a função de manter o todo funcionando, para que esse todo cresça e desempenhe sua função, seus dons, para que um Todo maior funcione e desempenhe a Sua função…

Inimigo invade o corpo, representa ameaça, vem a equipe da defesa e dá a vida pela vida. Tua e minha.

Agora, voltando ao fato de sermos diferentes, a diferença não está na composição. As 50 trilhões de células tuas são do mesmo tipo que as minhas, só que vibram em frequência diferente. Como dois violões feitos por artesãos diferentes, de madeira nascida de árvores diferentes, têm som diferente.

nós
você eu
ele ela
preto branco amarelo vermelho
ocidente oriente
norte sul
jovem velho
feio bonito
lá cá acolá
unha cabelo pele osso
sangue suor filé mignon pescoço

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De coração


 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De Coração na voz e sonorizado pela autora

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Meu coração andou disparando além da conta, no mês passado; o que me levou a passar um dia na emergência do hospital. Ele acalmou, mas eu ainda estou processando o fato, e não tinha me dado conta disso. A gente pensa que é forte, que pode e despode quando quer, mas não é bem assim.

Na sala fria, te furam, examinam teus humores e marcam teus compassos. Invadem a festa, trocam a música, mandam embora a tua turma, escondem a comida, acendem uma luz fria e afiada na tua cara, e a você só cabe se dar conta do quanto é pequeno, na matéria.

Lá, a gente viaja no lado duro, escuro, solitário e esburacado da vida. Não fique nervoso! Não chore! quando é tudo o que você precisa e quer fazer: ficar nervoso, descontrolado, e chorar. Muito.

Chorar esperando que alguém venha apoiar tua cabeça no colo e fazer cafuné para você dormir. Chorar até que segurem tua mão, firme-firme, te olhem nos olhos e digam: vai ficar tudo bem! e você chora, esperando acreditar.

Ali, na ante-sala do purgatório, a gente se sente frágil; fica sozinho, sem roupas nem sapatos. Tiram tudo de você, em troca da promessa de vida. E você dá; sem piar. Na iminência de mais uma agulhada no braço, se entrega total e incondicionalmente. Nem questiona sobre o líquido que goteja braço adentro, invadindo tua reserva; teus segredos. Você se agarra a qualquer coisa que represente esperança de voltar a ver a turma.

Depois de tudo isso, meu caro doutor Amaral, venho aqui pedir perdão pelo sumiço. Empaquei. Não liguei para dar notícia, satisfação de como vou passando. Também não foi por desamor à vida que não fiz o último exame; laboratório confuso, informação truncada, gente atrapalhada. E eu, cansada!

Prometo que logo mais reassumo essa responsabilidade e vou buscar a tua ajuda. Agora não dá.

Aquele pedaço de vida entre parênteses, no hospital, foi mais difícil de assimilar do que eu tinha imaginado. O osso era muito mais duro de roer; muito mais do que eu podia crer.

O senhor tem esmiuçado as vias de acesso e de escape, no mapa do meu coração, e não chegou a um diagnóstico, mas posso arriscar um palpite?

meu coração tem certeza
de que ainda é maluco-beleza
mas eu te peço o favor
não diga a ele
que já não sou mais menina
e hoje mais maluca que beleza

deixa ele na fantasia e eu na incerteza
ou seria o contrário?

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão e, aos domingos, com todo seu coração, escreve no Blog do Mílton Jung


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De vida e trabalho

 


Por Maria Lucia solla

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Ouça “De trabalho e vida” na voz e sonorizado pela autora

Silvana pediu que eu falasse sobre trabalho na minha vida, para um trabalho dela na universidade.

Gostei e rapidamente me prontifiquei. Mais uma oportunidade pra eu pensar no que gosto.

É bom pensar no que se gosta. As vezes a gente se empolga e fica lá, viajando no pensamento e se deixando levar de bom-grado, por ele. Aquietando a mente do agora e despertando outra: atemporal, amoral, anônima. Livre!

mente é escrava de começos e meios
mas soberana de finais
e o quê na vida
se pode pedir mais

mas prometo me concentrar
preparar as rédeas
e a minha mente encilhar

Vem cá, mente minha, ô sua traquinas! façam um belo trabalho, você e o meu coração, e digam pra mim, de modo que eu possa colocar em palavras, o que é que eu penso, afinal, de vida e trabalho.

E assim, de bate-pronto, como plim-plim, o quadro é claro, e vejo na tela, nitidamente, o passar da minha vida:

trabalho e vida

pernas e braços
esquerda e direita
bem-me-quer malmequer
cabeça tronco e membros

como viver um sem a outra
só não vê quem não quer

trabalho é caminho
é Vida
que é não por acaso
também chamado de Lida

trabalho é levantar da cama cedo
pra treinar com o Val
é preparar o ano todo
fantasia pro Carnaval

trabalho é fazer café
pro grande amor
ou pro chefe doutor
sempre adoçado com mel
o escolhido
entre ele e o fel

é andar estudar amar

sim porque amar é trabalho também
ou você acha que é fácil
ter juntinho a você
alguém pra chamar de bem

Trabalho é forma de expressão; trabalho é o leão correr atrás do sustento da leoa e seu rebento.

E termino pedindo desculpa pela invasão do poema, mas acabo sem sentir culpa, pois não me afastei do tema.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua inglesa e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De percepção e opção

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De percepção e opção” na voz e sonorizado pela autora

ML Menina

Hoje me vem de falar de alegria e de tristeza, o que não é diferente da comida que se põe na mesa. De prato, travessa, feiura e beleza.

Alegria é como prato bem feito, equilibrado na porção, caloria e gordura. Bonito. Que alimenta e contenta.

Tristeza é prato relaxado, privado de arte; tem tudo demais, enche a pança, é certo, mas não contenta jamais.

Admito que sou exagerada e que falo pelos cotovelos e de forma figurada, mas isso não me traz problema nem nada.

Fui menina triste. Tinha tudo na matéria, mas a tristeza era tanta que você podia jurar que eu brotava da miséria.

Nem me pergunte por quê. Quem é que sabe da vida o quê?

Do porquê já confessei ignorância, mas tristeza, a seu modo, me ajudou muito na infância.

Eu me enterrava no estudo e na leitura, mas não se apoquente que eu também sabia ser contente e tinha meus momentos de alegria e de pura gostosura.

Quem é que pode dizer o que é muito, pouco ou suficiente? Só a medida que te deixa contente.

Aí fui crescendo, olhando, loucamente copiando e pouquissimamente selecionando. Fui curtindo a vida e, sendo curtida por ela.

ML Mulher

Hoje percebo o tempo que passei, instalando, do lado de fora de mim e à mercê das intempéries, meu bem-estar; e meu coração, afinado que é, se via afastado do cantar.

Ao longo do tempo busquei felicidade e emoção e disso tudo tive uma porção, mas eram momentos fugazes que me deixavam sedenta, pedindo sempre mais, quando o que havia já não havia mais.

Também carreguei no peito mágoa, que ficou ali recolhida e amarelada. Só me dou conta hoje de que ela poderia, muito antes, ter sido esquecida e apagada.

Agora, quando algo me faz entristecer, pisco muito, que esse é um cacoete, enxugo um par de lágrimas durante um par de dias, e marco o evento a lápis no calendário, em vez de gravá-lo no meu diário, e então, deixo esse algo lá, onde deve mesmo ficar.

E decido eu o que quero sentir e que pensamento pensar, em vez de por eles, por anos a fio, me escravizar.

Uma coisa é certa, tendo ou não tendo o que quero, não abro mão do meu sonho, que só faz aumentar minha capacidade de amar.

E você, está a fim de experimentar?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língiua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung.

De seu Antônio

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Seu Antônio”, escrito, falado, fotografado e sonorizado pela autora

Céu por Maria Lucia Solla

ah seu Antônio
andei pensando melhor
e cheguei à conclusão

não sou eu que tenho a vida
mas é ela que me tem

viemos aqui para ser
às vezes brincar de ter
olhar e acreditar ver
dizer e acreditar saber

mas na verdade seu Antônio
o que a gente tem
é pura e simples ilusão
e mais nada não

mesmo a dor
aquela que dói de verdade
mesmo o amor
aquele que sacode aprisiona
e te joga de cara na lona
não existe

acredita?

a vida é sonho
que quando pesadelo
dá um medo medonho
um arrepio constante
que parece frio
tem jeito de calafrio
mas que nunca é feio o bastante
pra que a gente dele desista
pra que a gente perca o rumo de vista

uma curva mais fechada aqui
um descampado ali
uma cabana com lenha no fogão
e desenho de fumaça vindo lá do galpão

isso é viver de verdade
não ter de nada e de ninguém saudade
se aninhar na cabana
tendo um anjo de proteção
de campana
e amar
amar
amar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung pra alegria de todos nós, Antônios


De Certeza e de Deus

 

Por Maria Lucia Solla

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O mundo externo, e consequentemente o interno, tem passado por poucas e boas.
Nada é. Não há certeza. Ou melhor, certeza nunca houve, mas nós nos agarramos e continuaremos a nos apegar a tristes arremedos dela.

De religiões e dogmas, desisti há muito. Era levada por ventos curiosos, mas não me entregava nunca. Mesmo babando de inveja da certeza dos que a tinham; mesmo doida por pertencer a uma tribo que me acolhesse, cedo percebi que essa acolhida custava caro demais. Preço que eu não queria pagar.

Quanto a certeza, com a dose de incoerência que todos temos no cardápio – confessemos ou não -, ainda me pego indo atrás de uma ou outra, no fim. No entanto, enquanto cobiço uns pares delas, também quero me livrar das que teimam em se agarrar em mim.

O vazio de certeza, no início, dá insegurança. Como nos primeiros passos não encontrar estendida a mão da proteção. Como pedalar pela primeira vez sem as rodinhas de trás, ou pular na piscina e não ver a cara molhada e divertida do pai acenando; dando a mão.

O homem se separou da Natureza e de Deus, e disputa, a unha, certeza por certeza. Por vezes, a tiro. Paga por ela, morre por ela. Ajoelha-se e vende a própria alma por um vislumbre dela; e no entanto, à única certeza irrefutável, que é nossa de graça, viramos as costas e nos recusamos a aceitar.

a morte do corpo material
a viagem é de ida e volta
ponto final

Hoje, só não percebe quem não quer: a vida aperta a porca, e o parafuso penetra a carne e é então que é preciso aceitar que na dor há propósito; ela nos impulsiona a encontrar a via que desemboca na harmonia, que é o modus operandi da Criação. Se não fosse assim, se Ela não fosse movida a ritmo, harmonia, equilíbrio e perfeição

os planetas se chocariam uns contra os outros em frenética dança egocêntrica
o Sol viria espiar a Terra e nos exterminaria com uma lambidas de suas régias labaredas
a lua preguiçosa apareceria de quando em quando de luz opaca e sonolenta
as estrelas sairiam em caminhada pelos céus de outras galáxias
e seríamos sem elas ainda mais tristes

Eu não estaria aqui esperneando na busca do equilíbrio e da harmonia pessoal.
Da minha sanidade mental.

E como isso tudo me remete a Deus, lembro que quando menina eu tinha certeza Dele, mas sentia pena do Deus da minha certeza, e chorava. Ouvia dizer que Ele era maior e melhor que tudo e todos, e isso me levava a pensar um Deus material, velho, barbudo, sisudo, distante e solitário. Um Deus que julgava, condenava e tinha preferências entre os humanos e suas tribos. Se não fizéssemos o que Ele determinava, nos expulsava de seu Reino e nos virava as costas. Para sempre. Isso me perturbava, trazendo ansiedade,
aos sete anos de idade.

Eu pensava um Deus eterno que sofria de solidão eterna. Sem amigos! Quem
pode ter amigos sendo melhor e maior que todos!

mas voltando a certezas confesso
escrevo para delas me livrar
não para novas conquistar

E enquanto isso você, do outro lado da tela, ouve meus ais e uis nascidos da birra de não ter o que quero, quando quero, nascidos da frustração. E eu não jorraria palavras, ipis e urras, britados da satisfação.

E sem certezas, não tenho resposta pronta nem mapa do tesouro. Não tenho a pretensão de explicar o Divino e Seus desígnios. Não tenho receita para o meu nem para o teu bem-estar. E vou vivendo.

E Deus?
Hoje, dele não tenho certeza.
Eu o sei, o sinto e o percebo nos meus momentos de lucidez.

mas quando me deixo tomar por uma ou outra certeza
sofro e o resultado é nefasto
isso acontece sem dúvida
quando eu Dele me afasto.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com fé e certeza nas suas incertezas

Assim se faz uma limonada

 

Por Abigail Costa

Tenho  me sentido meio-ácida.

Tudo bem que se botar na ponta do lápis tinha lá meus motivos para o meu lado limão. A semana começou com o meu pequeno no hospital, só isso já me deixa sem rumo. Nada me tira mais do eixo do que a febre de filho. Chego até me preparar para de vez em quando… Só que quando o termômetro bate na casa dos 38,5º, me desespero.

Alguns dias de preocupação e depois vai passando.

Família, casa, cachorros e gato. Esse conjunto de vidas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo no tema dependência.

Primeiro o filho: olhar dengoso do tipo fica-do-meu-lado-por-favor! Agora o cachorro. Acabei de dar remédio, banho…. Sim, o cão também teve febre. Coitado. Percebi que até emagreceu.

É assim, cuido, tomo conta, fico olhando se dormiu, comeu …. e me consumo. Energia gasta. Pilha quase no fim, mas me sinto uma privilegiada.

Essa acidez, prefiro lidar como um excesso de zelo. Enquanto vejo meus colegas enlouquecerem por conta do trânsito, este definitivamente não me amola. Atrasos, tiro de letra. Bem sei que de outra maneira já estaria batendo os pinos.

Chefes, se dá um jeito. Falta de dinheiro agora pra pagar as contas, deixa para o mês seguinte e se parcela.

Mas os meus problemas domésticos, estes não consigo repassar.

Tenho que estar por perto. Acompanho a chegada deles. Tem que ser eu a dar o diagnóstico, fazer o tratamento e presenciar a cura. Até chegar nos finalmentes, às vezes custa um pouco.

Falava sobre isso com um amigo. Com  simples perguntas ele me fez ver beleza nisso tudo.

“Quer preocupação mais gostosa do que essa?  Quer maior sinceridade, que a de alguém que pede ajuda só pelo olhar?”

Tem razão.

Cuidando de um,  de outro, dormindo menos, acordando mais cedo. Sabe que  nenhum cartão de crédito paga isso ? Sinto que em determinados momentos erro na dose. Mas  não abro mão da minha limonada.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung sempre pronta a deixar a vida mais doce.