A morte de um repórter cinematográfico

 

Última imagem gravada pelo repórter Gelson Domingos

Filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e casado com jornalista, jornalista que sou sofro quando sei que um colega de profissão foi morto à bala, vítima da troca de tiros entre policiais e bandidos. Gelson Domingos, 46 anos, foi alvo encontrado de um tiro de fuzil durante a cobertura de uma operação da PM contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estava com colete de segurança, insuficiente para impedir a morte.

Um dos meus tios, Tito Tajes, foi repórter em guerra – por favor, parentes de melhor memória, me digam em qual delas. Mesmo sendo uma das pessoas mais queridas por mim, infelizmente nunca conversamos muito sobre as aventuras dele naquela cobertura, mas imagino como difícil deve ser o campo de batalha. Minha mulher, repórter de televisão, apesar de evitar as pautas mais perigosas, invariavelmente se depara com situações complicadas. Às vezes, uma simples gravação de rua a coloca no meio de um assalto ou no caminho de um caso policial. Sem contar que, atualmente, babacas sem causa têm atacado também estes profissionais quando entram ao vivo.

Apesar de alguns anos trabalhando no conforto de um estúdio de TV e rádio – onde vivenciamos outros tipos perigosos -, antes de ser âncora estive na rua, também. Como repórter, porém, poucas vezes tive de me deparar com ações de violência. Lembro de uma perseguição na qual transmiti ao vivo a fuga de bandidos que estavam em três carros com reféns após longa e dura rebelião de presos no Presídio Central de Porto Alegre. Entre o carro de um dos chefes da quadrilha e o da polícia estava o da rádio na qual trabalhava. Deste narrei boa parte do caminho por onde os bandidos passavam. Em nenhum momento eu e motorista levamos em consideração o risco de sermos atingidos por balas disparadas de um lado ou de outro.

No trajeto da notícia nem sempre calculamos o risco real da situação. Verdade extrapolada quando nos referimos aos repórteres cinematográficos e suas câmeras sempre apontando para o alvo mais significativo. Apesar de experientes, são repórteres bem menos valorizados do que aqueles que aparecem diante das câmeras e em algumas emissoras sequer lhes é dado o direito de serem chamados como tal. Mesmo assim, motivados pelo desejo de registrar a melhor história ao público esquecem o medo, as balas e a guerra na qual estão metidos. Transformam-se em vítimas de suas próprias escolhas e do compromisso que assumem ao entrar na profissão, o que em nada exime a responsabilidade das empresas nas quais trabalham, das condições e equipamentos que lhe são oferecidos e do País em que vivemos, no qual guerras diárias são travadas nos morros e favelas expondo não apenas jornalistas, mas cidadãos que aqui sobrevivem.

Morte em duas rodas

 

Por Milton Ferretti Jung

O jornal gaúcho Zero Hora em sua edição de 30 de outubro do corrente ano destacou, na sua página inicial, duas notícias, uma falando sobre os exames que detectaram câncer no ex-presidente Lula, outra ressaltando as 39 vítimas de outubro, chamada para a matéria que ocupou cinco páginas e na qual reconstituiu todos os acidentes fatais sofridos por motociclistas (não me agrada a palavra motoqueiro) ou caroneiros. No topo da página 29 lia-se “A Guerra em duas rodas” e, abaixo da primeira serie de fotos das 39 vítimas, mais uma manchete forte: “Outubro sangrento”. Dessas, onze se acidentaram durante a madrugada, seis pela manhã, sete à tarde e 15 à noite. Contribuíram para a composição dessa terrível estatística 24 municípios do Rio Grande do Sul.

Lembro-me que relatei, numa dessas quintas-feiras, meu dia de escrever no blog do Mílton, passeio que fiz para uma cidade serrana e os sustos que levei no retorno a Porto Alegre ao ver motos potentes ultrapassarem em altíssima velocidade o Peugeot dirigido pelo meu cunhado. Ao olhar os jovens malucos que as pilotavam fiquei imaginando quantos deles chegariam à minha idade. Quem sabe alguns não apareceram nas fotografias publicadas por Zero Hora. Não é, porém, apenas nas estradas que alucinados motociclistas correm com seus veículos colocando em perigo não somente a própria vida, mas a de motoristas e pedestres. Nossas vias urbanas estão cada vez mais cheias de motoboys e de quem usa motocicleta para os mais diversos fins. E a maioria comete loucuras no trânsito citadino, misturando-se perigosamente a motoristas que também não lhes ficam atrás.

O Código de Trânsito Brasileiro não permite, mas ao mesmo tempo não proíbe que os motociclistas ziguezagueiem entre os veículos maiores ou os ultrapassem pela direita, geralmente em alta velocidade. Por outro lado, as lombadas eletrônicas e os radares não registram em suas câmeras a velocidade das motos. E seus pilotos se aproveitam dessa falha. Por mais rigoroso que ainda venha a ser o CTB muito pouco conseguirá mudar no comportamento dos motociclistas se não se investir para valer em educá-los, na criação de cursos de direção defensiva, em processo de habilitação que exija mais do candidatos a dirigir motos e numa fiscalização mais presente. Enquanto isso não for feito, não apenas os outubros, mas todos os meses do ano serão sangrentos.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

As motos de São Paulo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Cidade das motos

Há 10 anos o guitarrista dos Titãs, Marcelo Fromer morreu atropelado por uma moto. Hoje, isto é repetido a cada três dias, e numa recíproca macabra, diariamente, mais de um cidadão motociclista morre na cidade de São Paulo. A partir daí só a certeza de que as 900mil motos, das quais 200mil de profissionais, crescerão numericamente enquanto diminuirão os espaços. E, por sua vez, a adrenalina acionada levantará as velocidades e as atrocidades de manobras extremas.

A simplista solução restringindo o condutor ou a motocicleta, embora sugerida por alguns, evidentemente não é o caminho sustentável. É preciso ir à causa, já que o efeito é conhecido. E, não é difícil perceber, a falta do transporte coletivo de qualidade e em quantidade é o principal vilão da tragédia urbana paulistana.
Enquanto não chegam os kms de metrô, trens e demais coletivos necessários, é preciso facilitar a vida das motos. Protegê-las e normatizá-las. Não é possível manter também aqui a hegemonia do automóvel.

As faixas exclusivas e o controle de velocidade, acenadas como impraticáveis, precisam ser examinadas e desenvolvidas.

Sabemos que a tecnologia pode tudo quando quer. A faixa exclusiva foi indeferida porque o STF entendeu que a União não pode legislar nacionalmente no trânsito local.

Discriminar as motos trará aumento do problema pela inevitabilidade, pois seu preço acessível tornará cada vez mais atrativa sua utilização, quer para transporte, quer para negócio. Se quisermos voltar a dirigir autos sem o sobressalto atual dos ataques de motoqueiros alucinados e, também, sem o preconceito de motoristas assustados, é bom adiantarmos as soluções.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Santa palmadinha

 

Por Milton Ferretti Jung

O Executivo – leia-se Governo Federal – encaminhou ao Congresso Nacional, em julho de 2010, mais um projeto capaz de gerar polêmica. Trata de assunto muito delicado e sujeito a diversas interpretações. Refere-se à proibição de que os pais castiguem seus filhos corporalmente. Não faz muito, a proposta foi debatida em audiência na Comissão Especial sobre este assunto. A previsão é de que o projeto seja votado em dezembro. Para Daniel Issler, juiz auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça, a iniciativa é elogiável. Fez, porém, uma ressalva: ”Ninguém de bom senso irá defender que a violência seja aceitável como forma de educação. A violência não é pedagógica, mas a educação está muito longe de ser simples”. Acrescentou que são necessários ajustes. Concordo inteiramente com o que ele disse, em especial, o que está na última frase do trecho entre aspas.

Vou escrever acerca da minha experiência pessoal nesta questão, primeiro como filho, depois como pai e com o que sei do comportamento dos meus filhos em relação aos deles, que são quatro, dois em São Paulo e mais dois em Porto Alegre. Não fui, na minha infância, um carinha dos mais comportados, tanto que acabei sendo internado aos doze anos e permaneci por um período e meio num colégio distante 120 quilômetros da casa paterna. Naquele tempo, internar os filhos mal comportados era prática comum, embora aumentasse consideravelmente os gastos dos pais com a educação. Antes disso, lembro de ter recebido petelecos da minha mãe. Meu pai apenas ficava brabo. Logo, o maior castigo que sofri, foi o internato. Já no que diz respeito aos meus filhos, geralmente era a mãe deles que se encarregava dos “castigos”. Um vez, quando o Beira-Rio iria ser inaugurado, o comandante deste blog foi flagrado por mim balançando uma bandeirinha do Inter. Gremistão doente,fiquei furioso. E dei um tapa na bunda do Mílton. Nunca lhe perguntei se ainda lembra do ocorrido. Envergonho-me até hoje sempre que o incidente me vem à cabeça.

Duvido que os meus filhos tenham necessitado “castigar” os meus netos, todos muitíssimos comportados e cumpridores dos seus deveres. Não fiz por merecer, em matéria de comportamento, os filhos e os netos que tenho. Tenho certeza, por outro lado, que não fui um mau pai. A propósito de castigos corporais, escrevo para finalizar, que aos pais cabe não confundir educação com castigo violento ou humilhante. Espero que o projeto, se aprovado, não impeça santas palmadinhas e evite, isto sim, todo e qualquer exagero. É conveniente não esquecer que a educação começa em casa.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Menos armas na mão e na direção

 

Por Milton Ferretti Jung

Li ,nas últimas semanas,  duas notícias que me chamaram especial atenção, ambas tratando de assuntos rio-grandenses. Que me desculpem os leitores de outros estados se pareço puxar brasa para o meu assado. Creio que os assuntos, embora tratem de questões locais, possam interessar, de alguma forma ,a quem me acompanhar. A primeira dessas notícias dá conta de que o Rio Grande do Sul lidera a adesão à Campanha Nacional do Desarmamento. Os números são alvissareiros. Garantem que um de cada 4 mil gaúchos entregou armas entre os meses de maio e setembro. Os paulistas, por exemplo, tiveram contribuição menor: um por 7,7 mil. Para o estado, que era um dos mais apegados às armas no país, é uma melhora considerável, com certeza. É claro que algumas alterações no Estatuto do Desarmamento, favoreceram a mudança de atitude do povo gaúcho. Os pontos de coleta aumentaram, não é mais necessário que a arma tenha registro ou número de identificação, o proprietário pode permanecer no anonimato e quem se dispõe a ficar desarmado recebe, ainda por cima, entre R$100 e R$300 por arma recolhida. Assalta-me, porém, uma dúvida crucial. As pessoas de bem (ou do bem, como se diz hoje em dia) concordam como desarmamento. As do mal, principalemnte aquelas que lidam com drogas, bem pelo contrário, enriquecem os seus arsenais com armamento pesado. Terão as autoridades, ditas competentes, capacidade para impedir que os bandidos se reforcem com armas dos mais diversos e poderosos calibres? Esta dúvida, evidentemente, já foi exposta por muita gente boa…e preocupada.

E chego à segunda boa notícia, esta bem mais recente, porque publicada nessa  terça-feira, mas  sem chamada na capa do jornal que a divulgou, embora merecesse. A Polícia Rodoviária Federal, diante do crescimento dos acidentes na estradas e vias urbanas gaúchas, principalmente nos malditos feriados prolongados, apelidados bestamente de “feriadões”, começou a se valer da tecnologia para aumentar a vigilância sobre os motoristas. A BR-116, com trânsito pesado nos 36 quilômetros que separam Porto Alegre de Novo Hamburgo, passou a ter vigilância total por meio de 24 câmeras e quatro viaturas  equipadas com geradores de imagens. Trata-se da Central de Controle Operacional (CCO), colocada na confluência das BRs 290 e 116. Não preciso dizer que, com este equipamento de alta qualidade técnica, não haverá pontos cegos no trajeto. Os maus motoristas, abundantes no Rio Grande do Sul, que se preparem. O trecho fiscalizado custou R$2 milhões de reais. Por enquanto, portanto, é pequeno. Que a PF faça dele, porém, bom proveito. Talvez, graças ao CCO, o número de acidentes, muitos fatais, se torne consideravelmente menor.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Lei anacrônica livra Edmundo de homicídio no trânsito

 

Por  
Milton Corrêa da Costa
 

Cel da reserva da PM do Rio e estudioso em segurança de trânsito

Um dia após a ocorrência de mais uma tragédia, dentre as muitas que acontecem rotineiramente no trânsito brasileiro, que matou, na Zona Norte do Rio, um bebê de um ano e oito meses,  deixando com fratura exposta em uma das pernas a mãe da criança, ambos atropelados numa calçada – a liberdade condicional do motorista culpado já está garantida em lei- surge a notícia ( coluna de Ancelmo Gois, de ‘O GLOBO’, de 15/09)  que, por decisão  do Supremo Tribunal Federal, o ex-futebolista Edmundo, acusado de triplo homicídio no trânsito, além de lesão corporal, teve extinta a punibilidade por prescrição da pretensão punitiva.. Os crimes prescreveram. Ou seja, agora é cidadão livre e quites com a Justiça.

Em 1995, no bairro da Lagoa, no Rio, o ex-atleta, ao volante de uma caminhonete, momentos após deixar uma boate no local, envolveu-se em um grave acidente de trânsito onde três moças morreram e outras três resultaram feridas. Edmundo foi salvo pelo air bag do seu carro, não sendo submetido, na ocasião, a exame etílico pós acidente. Acaba de ser beneficiado pela benevolência da lei, pelos intermináveis recursos judiciais e pela morosidade da justiça brasileira. O mesmo arcabouço de impunidade que deixou  o jornalista Pimenta Neves (matou fria e covardemente a ex-namorada), mais de dez anos fora do cárcere, sendo somente recolhido às grades meses atrás.

Por falar em tragédia e impunidade registre-se aqui a recente, oportuna e elucidativa matéria especial de ‘O GLOBO”, sobre a Lei Seca, com o título ” UM SOPRO DE RESPONSABILIDADE”. Apesar de opiniões conflitantes de estudiosos e juristas, a respeito da legalidade e aplicação da norma, ficou comprovada, sem dúvida, a importância da edição de tal lei na preservação de vidas e na prevenção de tragédias. O triste relato de vítimas do trânsito, atreladas à cadeira de rodas e a constatação da redução de atendimentos de vítimas, em emergências de hospitais públicos, como comprova a matéria, já são o bastante para provar a extrema importância e necessidade da Lei 11705/08, de autoria do deputado federal (RJ) Hugo Leal. É cristalino o fato de que o direito individual de não se submeter ao teste do bafômetro não pode sobrepujar-se ao interesse maior coletivo que visa, neste caso, a incolumidade dos usuários da via pública e a defesa da vida como finalidade precípua. Infelizmente alguns motoristas continuam bebendo e dirigindo. Matando, morrendo ou mutilando. É preciso frear o ímpeto dos homicidas em potencial do volante. Antes que as tragédias ocorram e se tornem notícia.

A pergunta que fica é: quantos homicidas do volante, já condenados, cumprem pena hoje no Brasil e recolhidos ao cárcere? Bem poucos,  talvez nenhum. Se você, portanto, tem intenção um dia em matar alguém, é melhor que pegue um carro e o faça. As penas dos crimes de trânsito são mais brandas, a liberdade condicional está garantida, há inúmeros recursos à sua disposição, a Justiça é morosa e ainda há a possibilidade da prescrição, sem falar no habeas corpus. Um atestado legal de benevolência e desrespeito às  vítimas da barbárie do trânsito e aos seus familiaraes. Se você ainda socorrer a vítima, também não se imporá a prisão em flagrante. Está expresso no Artigo 301 do Código de Trânsito Brasileiro. É o incentivo a matar no trânsito. Tudo legalizado. É a chamada impunidade misericordiosa brasileira no país do direito penal mínimo. Edmundo agora vai dormir o sono da tranquilidade, os familiares das vítimas o da indignação.


Mulher no volante, assalto constante

 

Sempre que chego a uma terça-feira sem ter encontrado assunto capaz de agradar, como o Milton sempre diz,”os caros e raros leitores do blog”, fico preocupado. Gosto de entregar o texto bem antes da quinta-feira. Quem me conhece, está cansado de saber que sou cheio de preocupações, herança genética, com certeza. Meu pai passou a vida preocupado comigo e com meus irmãos. Ainda bem que foi a única coisa desagradável que herdei dele. Em compensação (se é que esta palavra cabe para o que vou escrever a seguir), quando eu era menino e papai demorava para chegar em casa, depois da sua faina diária, eu me postava diante da janela da sala e apenas me tranqüilizava ao vê-lo estacionar o Citroën negro na frente do portão da garagem.

Esta – a de entregar o texto com razoável antecedência- é, porém, uma das minhas menores preocupações. Afinal, se algum dia não descobrir assunto que valha a pena digitar, não temo ser demitido. Por motivos óbvios. Já uma das maiores refere-se à segurança da minha família nestes tempos cada vez mais difíceis de serem vividos. Maria Helena, minha mulher, acha que trato a questão da segurança com cuidados exagerados. Preocupa-me, faz muito, vê-la sair de carro sozinha. Sempre que possível, prefiro acompanhá-la, dirigindo o automóvel. Pois não é que, nesse domingo, dia 11 de setembro, data de má memória para o mundo civilizado, Zero Hora estampou a seguinte manchete: ”MEDO FEMININO. Roubo de veículos assombra gaúchas”

A seguir, numa “cartola”, Francisco Amorim, autor da reportagem, escreveu: “A cada quatro horas, uma mulher tem o carro roubado. Esta, entre outras estatísticas de Porto Alegre e do Estado, assusta as gaúchas ao volante”. E não é para menos, digo eu. Recentemente li neste blog a história de uma mulher, em São Paulo, que parou o carro num semáforo, e foi surpreendida por uma vozinha que lhe pedia passasse seus pertences. Para seu espanto, era um pivetinho que a “ameaçava”. Perto do local, meninos mais velhos esperavam o resultado do assalto. O aprendiz de ladrão não teve sucesso, mas estava apenas sendo treinado para futuros e exitosos roubos. Desfecho fatal, porém, ocorreu em Porto Alegre, lembra o jornal, com uma fotógrafa de eventos, ao sair de um banco do qual retirara 150 reais. Ela se dirigia ao seu carro, falando com o marido pelo celular, quando foi empurrada para dentro do veículo e, em seguida, friamente assassinada pelos assaltantes. A estatística mostra que quase 1,4 mil mulheres foram atacadas em Porto Alegre (é daqui que envio meus textos), entre janeiro e julho deste ano, foram vítimas de assaltos. Diante deste número, sabendo que os ladrões imaginam encontrar mais facilidade para assaltar mulheres ao volante e que as autoridades pouco podem fazer para evitar a ação dos criminosos, como não ficar terrivelmente preocupado com a situação? Invejo aqueles que não ficam.

Ladrão troca celular pelas mãos em saidinha de banco

 

Três ladrões foram presos acusados de participarem de uma quadrilha que praticava a “saidinha de banco”, assalto cometido logo após as pessoas sacarem dinheiro em agências e caixas eletrônicos, em São Paulo. De acordo com a polícia, eles se passavam por clientes e identificavam as vítimas sinalizando com as mãos. A prática revela que, rapidamente, estes bandos mudaram a estratégia para assaltar, depois que lei municipal proibiu o uso de telefone celular dentro das agências, em São Paulo.

Sugeri, durante o Jornal da CBN dessa quarta-feira, que, na próxima vez, os vereadores paulistanos aprovem lei proibindo o uso das mãos nas agências bancárias. Ouvintes-internautas foram além na ironia pelo Twitter:

@rovira_jesse: “vai surgir lei obrigando os bancos a contratar especialistas em Libra”

@Guilhermeolsen: “vamos proibir o uso dos bancos”

@aladiaamorim: “Antes do celular ladrões se comunicavam com cara, boca e gestos, agora voltou isso, não é novidade não, lamentável”

A autora do projeto, vereadora Sandra Tadeu (DEM), não gostou da brincadeira, foi a plenário e pediu que a imprensa respeite os vereadores. Pelo Twitter, três deles encaminhado a mim, comentou:

@miltonjung Fico feliz ao saber que, em menos de um mês, minha lei que proíbe o uso de celulares em bancos já começa a fazer efeito!

@miltonjung Vi hj na imprensa q bandidos buscam outras maneiras p/ praticar a saidinha d banco. Foram devidamente descobertos pela policia

@miltonjung Isso prova q a iniciativa d proibir os celulares é correta, já q os bandidos usavam sim os aparelhos p/ falar c/ comparsas

Engana-se a vereadora mais uma vez (a primeira foi ao propor a lei). Nunca se negou o uso de celular pelos assaltantes. O que sempre se disse é que sua proibição prejudica o cidadão, tira-lhe um direito e não reduz o risco de assaltos. A retomada do método (antigo, como disse uma ouvinte-internauta) é prova disso.

Em lugar de impedir o uso do telefone, deveria usar sua autoridade e cobrar por ações efetivas no combate a violência.

O Nascimento da Excelência

 


Por Cesar Cruz
Ouvinte-internauta da CBN

Imagino que deva ser uma experiência única presenciar o momento exato em que um prodígio, um gênio, dá o seu primeiro passo em direção à imortalidade. Fico imaginando quem foi o felizardo a presenciar as pinceladas iniciais de um Van Gogh, a primeira criação de um Da Vinci, ou os acordes prematuros do pequeno Beethoven… Ah, eu daria dias da minha vida para presenciar algo assim! Mas a verdade é que gênios são raros. A iniciação dos comuns, como eu e você, é o que mais nos interessa.

Nós, os comuns, temos que começar bem cedo a praticar se quisermos alcançar algum nível de excelência em nossos ofícios. Os atletas começam muito cedo; dizem que os ginastas, aos 4 anos, já ensaiam suas primeiras cambalhotas nos ginásios. E é justamente com essa precocidade que estão sendo treinados alguns segmentos profissionais atualmente.

Veja, por exemplo, a prematuridade dos meliantes no quesito iniciação. É de se tirar o chapéu! É dessa forma que precisamos preparar os nossos filhos para o futuro!

O que aconteceu à minha mulher num dia desses é um bom exemplo a ser seguido.

Ao parar o carro em um semáforo da Rua do Lavapés, no Cambuci, ela ouviu um aviso de assalto:

— Aí tia, seguinte: isso é um assalto, eu não quero machucar a senhora, é só entregar tudo.

Minha mulher olhou na direção da janela e não havia ninguém ali. De onde teria vindo aquela voz? Observou com mais atenção e percebeu que na porta repousavam duas mãozinhas e uma carinha miúda, apoiada pelo queixo.

— Que foi, menino?

Segundo a Vanessa, o pequeno meliante teria quando muito uns 5 anos, e com ele não havia nada que pudesse ser apresentado como arma. As sobrancelhas apertadas no centro da testa e o olhos espremidinhos, eram o resultado do esforço do menino em intimidá-la.

O garotinho repetiu exatamente a mesma frase, no mesmo uníssono monótono, sem pausas, como num mantra:

—Aí-tia-seguinte-isso-é-um-assalto-eu-não-quero-machucar-a-senhora-é-só-entregar-tudo.

— Não tenho nada não, menino! — disse ela, firme.

— Então me dá o rádio.

— Imagina!

— E aquela lupa ali? — e apontou um dedinho pros óculos de sol no console.

— De jeito nenhum!

A inadequada máscara de bandido já começava a se diluir, e, sem se dar conta, o pequeno assaltante voltava a ser uma simples criança.

— E aquilo ali? — agora curioso e pedinte.

— Não meu bem, aquilo ali é pra titia trabalhar.

A essa altura minha mulher já tinha assumindo aquela universal maternidade que todas as mulheres parecem ter com as crianças. Então se inclinou, pegou algo no porta-luvas e deu na mãozinha do menino

— Toma essa balinha.

O semáforo abriu e ele correu. Pelo retrovisor ela pôde vê-lo enfiando a bala na boquinha e saltitando até a calçada, naqueles pulinhos típicos dos meninos pequenos. Fora se reunir com os maiores, de 12, 15 anos que observaram toda a sua iniciação e certamente teriam comentários técnicos a fazer, sugerir pequenos ajustes, propor mais firmeza…

Apesar de tragicômico, o episódio reserva-nos uma grande lição: os profissionais do futuro já estão praticando desde pequenos, e em simuladores reais! É por isso que os nossos policiais, que entram na Academia já adultos e em poucos meses já são colocados nas ruas, nunca se mostram aptos a combatê-los.

Quanto à minha mulher, foi para casa agradecendo a Deus por ter sido vítima de um simples treinamento. Mas aquele que cair nas mãos do pequeno aprendiz daqui a alguns anos, certamente não terá a mesma sorte.

Guerra e paz no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

SOS MORUMBI

À guerra desencadeada pelos bandidos na área do Morumbi e demais localidades limítrofes, os moradores resolveram responder com a paz que dificilmente se vê nestes momentos.

A manifestação que acompanhei foi dentro de um tom que jamais tinha presenciado em protestos de mais de 3000 pessoas. Do som, das palavras, das atitudes, era civilidade total. Nem a tentadora passada na frente do Palácio dos Bandeirantes, que poderia atingir o duplo objetivo de acordar o governador, foi realizada. Para evitar exatamente problemas de segurança.

Aqueles 90 minutos pareceram virtuais ao ver jovens, adultos, velhos, crianças numa interação de cordialidade extrema, inclusive com policiais, funcionários da prefeitura e corpo médico. Até os pequenos apitos não geraram um apitaço, e o som mais alto foram de aplausos à causa defendida.

Ter ido valeu principalmente porque a mídia não deu a perspectiva que constatei, pois ao lado de reportagens superficialmente descritivas vimos alguns preconceitos.

Helena Sthephanowitz na Rede Brasil Atual intitula a sua matéria como o “Protesto de ricos contra gente diferenciada”. Gente diferenciada segundo ótica própria da autora são os moradores de Paraisópolis.
O jornalista Paulo Sampaio, do Estadão, dentre tantas unanimidades encerra sua reportagem com uma desnecessária opinião de alguém de passagem: “Era para ser um panelaço, mas a patroa não sabe onde estão as panelas, e a empregada está de folga”.

O movimento era contra a violência, e preconceito também o é, de forma que parece que a carapuça serviu mais além.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung