Pena de morte nivela o Estado ao criminoso, diz filósofo Renato Janine Ribeiro

 

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O Brasil é pioneiro na abolição da pena de morte, apesar de a Constituição Federal ainda prever essa punição em caso de crimes cometidos em tempo de guerra. A mesma Constituição impede a pena capital em qualquer outra situação ao tratá-la como cláusula pétrea – e aí virá o constituinte a discutir se estas têm sentido. Quem sou eu para me meter com os especialistas? Deixo a discussão jurídica aos estudiosos da lei.

 

Dos tempos em que vigorou no Brasil, a pena morte cabia apenas aos escravos. Gente rica, por mais bárbaro que fossem os crimes cometidos, jamais seria enforcada. Exceção feita ao fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, acusado de matar família de colonos, na metade do século 19. Foi condenado e morto. Justiça? Não, vingança. Em entrevista à BBC Brasil, o jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu”, disse que Coqueiro tinha inimigos políticos na região, que exerciam influência na política, no judiciário e também na imprensa. Mais tarde surgiram indícios de sua inocência. Como escrevi: era tarde.

 

Com a Proclamação da República – e sem escravos para punir – veio o fim da pena de morte, que voltaria a ser prevista no Regime Militar, no código escrito pelos milicos em 1969. Ainda bem, jamais levada a cabo.

 

O fuzilamento do traficante brasileiro Marco Archer na Indonesia trouxe a discussão de volta e as diferenças ficaram evidentes nos debates públicos proporcionados pela internet. Texto que escrevi no fim de semana, originalmente no Blog do Milton Jung, me aproximou de muitas opiniões e revelou personalidades. Nem todas com argumentos muito firmes, mas sempre determinadas: a favor ou contra. No que escrevi, parece-me, não ficou dúvida: sou contra a pena de morte. Quanto aos argumentos que usei, julgue você mesmo.

 

Volto ao assunto, hoje, porque entrevistei, sobre o tema, no Jornal da CBN, o filósofo Renato Janine Ribeiro que definiu a defesa da pena de morte como “a solução para os ignorantes”. Para ele, boa parte da argumentação dos que se dizem a favor da punição está construída sobre o ódio e não se sustenta. Não que o pensamento do respeitado filósofo precise do meu respaldo, mas sempre disse que toda sociedade que age com ódio, erra. Não devemos ser movidos pela vingança, apenas pelo desejo de justiça.

 

“A ideia de matar pessoas quais quer que sejam os crimes é uma ideia fácil de vender para um público assustado pelo aumento da criminalidade”, disse Janine, ao comentar a política de combate ao tráfico de drogas, promessa de campanha eleitoral, do presidente da Indonésia, que fez até um plano de metas: cinco execuções por mês. Está cumprindo. Janine mostra que a pena de morte não tem qualquer influência nos índices de violência. Nem para o bem nem para o mal. Além disso, impõe duas situações dramáticas: a impossibilidade de corrigir um erro judiciário e o nivelamento do Estado ao criminoso. Considera ser esta uma saída simplista com a qual se deixa de discutir a violência e a criminalidade dos pontos de vista da miséria social, da ética e da moral:”para problemas difíceis sempre se tem uma solução fácil e errada”.

 

Ouça aqui a entrevista completa do filósofo Roberto Janine Ribeiro, ao Jornal da CBN

Elefante Branco: amor, violência, drogas e religião em uma favela logo ali

 

Por Biba Mello

 


FILME DA SEMANA

“Elefante Branco”
Um filme de Pablo Trapero
Gênero: Drama
País:Argentina, França, Espanha

 

 

Elefante Branco, pois a história se passa em uma favela no entorno de um hospital imenso que nunca ficou pronto. Dois padres se desdobram para melhorar a qualidade de vida dos mais pobres que ali habitam. Amor, violência e drogas permeiam a narrativa.

 

Por que ver: É um filmaço! Meu querido Ricardo Darìm está no elenco ajudando a excelente história. Minha sogra detesta filmes violentos, mas este em especial a prendeu do início ao fim.É um filme violento e crível: “favela movie” ao estilo “tropa de Elite”.

 

Como ver: eu vi com a minha sogra… Ela adorou uma pegação que rola no meio do filme…Quente sem ser apelativa…Meu marido não estava, perdeu um filme que tenho certeza que adoraria.Vimos tomando um vinho tinto…Encorpado como o filme…Denso…

 

Quando não ver: com aquele amigo/a socialista radical, vai ficar dando lição e tentanto te converter…Com seu filho menor de idade…Meio barra pesada… Se bem que as vezes é bom esta galerinha ter contato com a realidade dos menos afortunados…Fica a seu critério.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Toda semana oferece boas dicas de filmes para o Blog do Mílton Jung

Com o sapato errado, no lugar errado, mas com a camisa certa

 

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Confesso que foi a camisa do Grêmio, vestida pelo rapaz que faz pose diante da Baia de Guanabara, que primeiro me chamou atenção na reportagem publicada no site da NPR – a rede de rádios públicas dos Estados Unidos, que ouço quase que diariamente pelo aplicativo no meu celular. O interesse tricolor me levou, porém, para uma história bastante curiosa protagonizada pelo estudante Robert Snyder, que faz doutorado em epidemiologia, na Universidade da California, e esteve por seis vezes no Brasil, algumas para se divertir e outras para pesquisar como doenças afetam algumas das comunidades mais pobres.

 

Entrevistado pela jornalista Linda Poon, que relata histórias de vida que mudam o mundo, Snyder lembra do dia em que estava no lugar errado, na hora errada e, descobriu mais tarde, com o sapato errado. Ele conta que foi assaltado por um casal de crianças durante passeio domingo à noite, no Rio de Janeiro, que o ameaçou com uma faca e levou carteira, dinheiro e celular. Foi ao posto de polícia mais próximo, mas pediram para ele atravessar a cidade onde havia uma delegacia especializada em turistas, onde ouviu a recomendação de uma policial que o atendeu: “na próxima vez dá um soco na cara dele”.

 

O que mais impressionou o estudante americano, porém, foi o motivo que o teria tornado alvo dos assaltantes: o calçado. Descobriu que para ter um pouco mais de tranquilidade nos passeios deveria usar as tradicionais sandálias Havaianas em lugar do seu tamanco de plástico Birkenstock: quando você não está vestindo uma Havaiana, especialmente no Rio, as pessoas logo sabem que você não é de lá – disse à repórter. O mais irônico é que ao ser assaltado, Snyder contribuiu para as estatísticas que fazem parte de sua pesquisa, pois violência, assalto e homicídio têm sério impacto sobre a saúde pública de uma comunidade e são motivos de análise no estudo.

 

Apesar do assalto, Snyder dá sinais de que gosta de estar por aqui. Nas favelas em que realiza seu trabalho, aprendeu que estes não são locais homogêneos como costumava pensar à distância, e encontram-se muitas pessoas felizes e orgulhosas da vida que tem: “há uma ideia de capital social, as pessoas se dão muito bem e cuidam uma das outras”.

 

Destaca para a repórter que a palavra que todos que vão para o Brasil devem saber é saudade que não tem uma boa tradução para o inglês mas descreve o sentimento de quem se preocupa com você ou seu país. Brinca ao dizer que dos Estados Unidos tem saudade da manteiga de amendoim que quase não encontra por aqui e quando encontra é muito cara, por isso sempre que retorna para lá faz estoques extras para a viagem.

 

A repórter pede uma recomendação aos turistas que pretendem visitar o Brasil: compre uma Havaiana e você vai ser capaz de se misturar com as pessoas.

 

Pela bela camisa que está vestindo, percebe-se que Snyder está por dentro das boas coisas que o Brasil tem.

 

Leia a reportagem completa no site da NPR

Trazer polícia do interior para a capital, é despir um santo para cobrir outro

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Perdoem-me,mas sou obrigado a tratar,novamente,de um assunto que já foi por mim abordado durante a Copa do Mundo,época que por diversas razões ainda não caiu no esquecimento da maioria. Era de se imaginar que não fosse um período lembrado efemeramente pelos brasileiros. Da Seleção Brasileira,então,seria melhor que não fosse lembrada,pelo menos,nos próximos quatro anos. Isso,porém,desta vez,é impossível:teremos de disputar a fase Eliminatória. Antes de seguir com o texto desta quinta-feira,esclareço por que,na primeira linha do parágrafo inicial,anunciei que vou tratar de uma questão que interessa apenas aos gaúchos,tanto os de Porto Alegre quanto os do Interior.

 

Ocorre que estão voltando a falar ou,mais do que isso,a agir,visando a transferir Policiais Militares do interior para Porto Alegre,a exemplo do que fizeram no período do Mundial. Lembro que,quando surgiu a ideia,passou pela minha cabeça um velho ditado:vão despir um santo para vestir outro. Agora,entretanto,já existe decisão judicial que proíbe o remanejo de soldados de Pelotas para reforçar o policiamento na Capital gaúcha. O Interior começa a reagir. Isso é ótimo. E,por favor,sou porto-alegrense honorário,título que me foi conferido pelos vereadores de Porto Alegre. Moro aqui desde que completei,em Caxias do Sul,uma semana de vida. Logo,alguém poderia pensar que estou tratando de uma questão com parti pris. Estou convicto de que os que moram nos municípios interioranos têm direito de contar com um contingente de brigadianos que,no mínimo,não os deixe nas mãos de bandidos,principalmente,os assaltantes de bancos,episódios com um sem número de episódios relatados e,pior,vividos por gente do Interior.

 

Se alguém duvida,que tome nota destes números assustadores:homicídios cresceram 76%;roubos de residência aumentaram 14%;roubo de veículos subiram 22% e roubos de todas as espécies chegaram a 19%. Isso depois que despiram o santo interiorano para vestir o porto-alegrense. Em reunião realizada no último dia 12,a Diretoria da Federação das Associações do Rio Grande do Sul ficou decidido que a FAMURS os prefeitos devem procurar a promotoria de suas cidadese acionar o Ministério Público para assegurar a presença normal de PMs em seus municípios. Aliás,dado colhidos na época da Copa do Mundo,quando foram remanejados para Porto Alegre deixaram claro o aumento da violência no Interior. Está na hora de se pensar e,mais do que isso,por em prática,o aumento do contingente de brigadianos,especialmente oferecendo aos interessados em vestir a farda da nossa Polícia Militar salários que combinem melhor com os perigos enfrentados por esses soldados. Que isso não fique apenas nos projetos,mas que esses sejam postos em prática por quem for eleito Governador do Rio Grande do Sul e por seus acólitos..

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Atropelando o bom senso e a língua portuguesa

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Invejo os colunistas de jornais diários que necessitam encontrar a cada dia assuntos capazes de satisfazer aos seus leitores e sempre descobrem um tema. Houve uma época na qual eu escrevia aos domingos sobre futebol,dividindo com Ibsen Pinheiro meia página do Correio do Povo. Ele tratava do Internacional e eu,do Grêmio. Quem não está a par da rivalidade que reina absoluta no futebol do Rio Grande do Sul talvez desconheça que os meios de comunicação gaúchos devem cuidar para não fazer diferença entre os dois times. Hoje,o meu compromisso com o blog do Mílton me permite escrever sobre assuntos variados,inclusive futebol. Nem por isso,entretanto,fico menos agoniado quando chega a terça-feira,dia em que entrego o meu trabalhinho para o âncora deste blog.E não há nada a me inspirar. Não é,felizmente,o caso de hoje.

 

Chamou-me a atenção matéria publicada pela Zero Hora dessa segunda-feira. Trata de trânsito,assunto com o qual preenchi muitos dos meus textos de quinta. O jornal começa assustando quem tem de enfrentar,especialmente,as rodovias deste país,ao lembrar que,”em uma década,meio milhão de pessoas tiveram as vidas interrompidas em ruas e estradas do Brasil,enquanto outros 2 milhões ficaram feridos”.Os dados foram compilados pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na proporção para cada 100 mil habitantes,o Brasil ganha – acho melhor dizer que perde – de goleada para os Estados Unidos,Finlândia,China e Reino Unido. As estatísticas não tratam de quantos desses acidentes fatais tiveram caminhões como participantes. É incompreensível que,em uma terra como a nossa as ferrovias sejam as filhas desprezadas. Por quê? Seria interessante que essa pergunta fosse feita para a candidata à reeleição,Dona Dilma,em cujo governo nada foi feito em prol do transporte ferroviário,muito menos poluente e pouco sujeito a acidentes. Pelo menos,não se encontra,entre os maquinistas,bêbados e drogados.

 

Os números que acabei de repetir,retirados da reportagem sobre acidentes de trânsito,deveriam preocupar,por exemplo,os nossos senadores. Mas não é o que ocorre. Pelo jeito,resolveram imitar os linguistas e assemelhados,eis que estão estudando modificar,novamente,as regras ortográficas que,segundo imagino,não é assunto para curiosos. Ou eles são doutos em ortografia? O último acordo ortográfico,droga contestada por professores de português,que retirou o hífen de várias palavras,ainda nem foi assimilado pelos viventes de todas as idades,e já querem nos impor mudanças ainda mais estúpidas do que a última. Os portugueses,simplesmente,não ligaram para a reforma,eis que ainda chamam meninos de putinhos e insistem em meter um “c” em facto,além de outras idiossincrasias que vão impedir por “saecula seaculorum” que falemos todos a mesma língua,sem tirar nem por.

 

Imaginem que o “H” desapareça,o “G”fique com som de “GUE”,o “CH” seja substituído por “X”e outras asneiras que as alterações trarão no seu bojo. A vontade que eu tenho é de “EZECUTAR”os nossos senadores e todo e qualquer defensor de nova reforma ortográfica. Como cantaria Roberto Carlos,”quero que vá tudo pro inferno”!!!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Pot-pourri II: da pena de morte aos carros em alta velocidade

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Volto a cumprir o meu compromisso das quintas-feiras com o Mílton usando expediente que utilizei não faz muito:o pot-pourri. Ocorre que três notícias presentes na mídia nos últimos dias prenderam,especialmente,minha atenção.

 

O assassinato do menino Bernardo

 

Confesso que não sabia o que pensar da pena de morte para punir quem comete crimes hediondos. Trata-se de uma questão que divide as opiniões do povo brasileiro. A gota de água que me fez descer do muro foi o assassinato de Bernardo Boldrini,um menino de 11 anos,que morava em Três Passos-RS. Jamais imaginei que pessoas de classe alta,supostamente por ganância – pai cirurgião e dono de um mini-hospital,madrasta enfermeira,mancomunada com uma assistente social – tenham cometido crime tão torpe e cruel quanto esse. Espero que a polícia faça a sua parte,mas o jornal Zero Hora publicou nessa terça-feira,dia em que entrego o meu texto, que o exame da substância capaz de produzir a morte do garoto ou facilitar a decomposição do seu corpo,estava parado. Seja lá como for,passei a ser defensor da pena de morte,pelo menos, quando a vítima for menor de idade e fique comprovado, sem sombra de dúvida,a torpeza e crueldade do crime. Não acredito,entretanto,que esse tipo de penalização venha a ser adotado no Brasil.

 

Os malefícios da Copa do Mundo

 

Li com algum espanto que,aqui no Rio Grande do Sul,dois mil PMs (ou brigadianos,como são chamados em meu estado natal),vindos do Interior,vão reforçar a segurança,em Porto Alegre,durante a realização da Copa. A Famurs – Federação das Associações de Municípios – convocou reunião para esta quarta-feira (não sei o que ficou decidido porque entrego na terça-feira o meu texto para o blog). Não faz muito tempo,pequenos e até médios municípios gaúchos,viviam sendo assaltados por ladrões de bancos. Muitas dessas cidades se ressentiam da falta de policiamento capaz de impedir os constantes roubos. As cidadezinha nem sequer contam com guarda municipal. A diminuição da segurança é notada inclusive quando PMs trabalham como salva-vidas,na chamada Operação Golfinho,que dura o verão inteiro.A Famurs tem razão para reclamar. Afinal,estão despindo um santo para vestir outro. Ah,esta Copa do Mundo!

 

O trânsito e os seus crimes

 

Não tinha previsto escrever novamente sobre trânsito. Aliás,o que costuma acontecer nas rodovias que cortam o Rio Grande nos feriados prolongados,como o da Páscoa,por exemplo,lamentavelmente,é coisa que se repete. Refiro-me aos acidentes fatais. Na quinta-feira passada,escrevi sobre um sujeito que,pela terceira vez,foi flagrado dirigindo contramão na Freeway,sendo que na última que cometeu a irregularidade colidiu com outro veículo. Passou-se uma semana desse evento e já se tem notícia do carro de um deputado que,dirigido pelo próprio ou por um subalterno,corria a 164 km/h na BR-386,velocidade registrada pelo radar,cuja foto está na Zero Hora.A caminhonete,uma Ranger,tem quatro multas,todas por excesso de velocidade. Edson Brum,esse o nome do deputado,diz que o veículo possui multas,mas é um carro do seu gabinete e que pode ser dirigido por um motorista. Pois, que seja.O interessante é que a PRF,no caso desse feriado,não teve como saber quem era o condutor da Ranger porque o movimento na rodovia era intenso e questões de segurança precisavam ser respeitadas. E não seria desrespeito à segurança dos outros veículos correr a 164km/h?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Não é crime lutar

Por Nei Alberto Pies
Professor e ativista de direitos humanos.

 

“A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos”

(Hannah Arendt, filósofa)

 

Há tempo que a criminalização daqueles e daquelas que lutam por melhores condições de dignidade humana vem sendo denunciada no Brasil e no mundo. É inaceitável, numa democracia, que a violência instituída seja aceita como normal e necessária. O Estado, instituído como guardião dos direitos, viola os mesmos quando reprime, violentamente, através das ações policiais, aqueles e aquelas que, pacificamente para buscar educação, terra, trabalho, saúde, segurança, lazer.

 

Ordem, associada ao progresso, parece mover o imaginário daqueles que tem a ilusão de uma democracia ideal. A democracia acontece nas contradições, na dureza da cidadania cotidiana, difícil de ser construída. Nem todos estão convencidos de que a democracia pode conviver com uma “certa desordem”. Como já escreveu Juremir Machado da Silva, “não existe democracia sem caos, confusão, entropia. A democracia é o sistema do dissenso. Na verdade, a democracia é um equilíbrio instável de ordem e desordem. Em alguns momentos, a desordem é mais importante do que a ordem. Tudo, claro, depende do grau de ordem e desordem”.
A criminalização é a face perversa do Estado e da sociedade que não permitem que a cidadania seja exercida na perspectiva dos “sujeitos de direitos”. Quem luta por seus direitos, e pelos direitos dos outros, é ligeiramente taxado, acusado e condenado sumariamente. Os estigmas e preconceitos sociais atribuídos àqueles que lutam anulam a vivência de uma cidadania plena e ativa.

 

O diálogo, em busca dos consensos possíveis, constitui a ordem democrática, muito antes das leis e das imposições arbitrárias. Quando perdemos a capacidade de escutar, de sentar à mesa para negociar, não chegamos a consensos e acordos que, mesmo que provisórios, são sempre necessários para qualquer perspectiva de avanço dos direitos em questão.

 

A democracia nasce das palavras, da retórica e da persuasão. Por isso mesmo, manifestar-se não pode significar só gritaria, de um lado, e repressão, de outro. Sempre é preciso colocar os pleitos à mesa, estar aberto para ouvir e dialogar. Quem responde pelo Estado, bem como quem marcha nas ruas, precisa colocar-se em movimento, para construir soluções e encaminhamentos provisórios. Ninguém sai de uma manifestação com os direitos já conquistados, mas toda manifestação pode indicar avanços para a materialização dos mesmos. Nesta perspectiva, temos todos muito que aprender. Como escreve Marcos Rolim, “a democracia que temos já não tem política. Nela, o futuro se ausentou porque as palavras não autorizam expectativas. Será preciso reinventá-la, entretanto, antes de desesperar. Porque o desespero é só silêncio e o melhor do humano é a palavra”.

A morte de Santiago não pode se resumir às palavras

 

 

O cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, está morto. Foi vítima de um rojão disparado por uma das pessoas que participaram do protesto contra o reajuste das tarifas do ônibus no Rio de Janeiro. Hoje seu nome está na boca de todo brasileiro minimanente informado, é usado para defender e atacar ideologias, é explorado pelos mais diversos e opostos grupos políticos representados no país. Autoridades se pronunciam, entidades de classe criticam com veemência a violência. Inúmeras manifestações de solidariedade foram feitas até agora. Jornais, televisão, as nossas rádios estão tomadas por reportagem que tratam da morte de Santiago. Palavras, por enquanto, apenas palavras. E palavras são substituídas por outras já na próxima notícia que teremos de contar. Portanto, são efêmeras. Se não servirem para contaminar a sociedade brasileira, levar a ações efetivas pela justiça social, à punição daqueles que cometem crimes, à mudança de comportamento dos que receberam a delegação popular para promover as políticas públicas, serão sempre apenas palavras. Você pode não concordar com nada que este jornalista diz, você pode se indignar com as reportagens que assiste, criticar quem pensa diferente de você (ou aparenta pensar diferente de você). Mas se impor pela violência, seja arremessando um rojão contra um profissional, seja estrangulando um garoto com tranca de bicicleta, seja colocando fogo em ônibus, é apostar na barbárie. A morte de Santiago, como disse a companheira dele, Arlita Andrade, não pode ser em vão. Que ao menos sirva para que se repense as atitudes que adotamos e se busque a cultura da paz e da tolerância.

Avalanche (Extra): a noite em que o torcedor venceu

 

 

Aos raros e caros leitores desta coluna, sempre dedicada ao Grêmio, peço licença para falar sobre fatos que não aconteceram na Arena nem com o tricolor gaúcho, mas que têm muito a ver com o momento que estamos vivendo. No post anterior já havia descrito a falta de paciência de alguns torcedores e a necessidade de darmos oportunidade de os times se reestruturarem, de seus técnicos terem tempo para construirem a estratégia que será usada na temporada e dos preparadores físicos programarem os jogadores para resistirem a maratona de jogos. Ou seja, deixar o pensamento imediatista de lado.

 

Volto ao tema, porém, para destacar a vitória que se conquistou nas arquibancadas do lendário estádio do Pacaembu, em São Paulo, na noite de ontem, quando o Corinthians perdeu para o Bragantino por 2 a 0. A vitória que me refiro não tem nada a ver com o placar do jogo ou desempenho dos atletas corintianos que estão visivelmente incomodados com a absurda agressão que sofreram por parte de brutamontes ligados às torcidas organizadas, no Centro de Treinamento Joaquim Grava, no sábado passado. Mas, curiosamente, foi protagonizada por parte dos torcedores do Corinthians.

 

Caso você não tenha acompanhado o noticiário, resumo aqui os fatos. Integrantes de torcidas organizadas decidiram protestar contra o time, foram ao estádio com fitas tapando a boca para demonstrar a desconformidade e se negaram a incentivar a equipe, permanecendo em silêncio. Se a manifestação ficasse por aí, nada a declarar. É direito deles. Porém, as organizadas tinham a pretensão de calar os demais torcedores e, mais uma vez de forma agressiva, tentaram intimidá-los com ameaças. A polícia militar foi obrigada a intervir para impedir agressões físicas, entrou em confronto com os mais exaltados e prendeu algumas pessoas. Torcedores comuns, que vestem a camisa do seu time e não das torcidas organizadas, reagiram com gritos de incentivo demonstrando que esses grupos não são donos do clube como imaginam ser. Gritaram mais alto do que a intolerância e deram exemplo a todos os demais torcedores brasileiros, muitos dos quais já desistiram de ir ao estádio incomodados com a ditadura das organizadas – atitude, ressalto, justificável, pois é cada vez mais arriscado assistir a um jogo na arquibancada.

 

Muito provavelmente as facções continuarão a ocupar seus espaços, a maioria das vezes patrocinados por dirigentes e até jogadores. Mas ao menos ontem à noite o torcedor comum teve voz e venceu.

A falta de educação é mais violenta do que o MMA

 

 

O artigo publicado na quarta-feira, neste blog, assinado por Carlos Magno Gibrail, entra na discussão sobre o MMA, provocada pelo acidente com Anderson Silva. Para começo de conversa, deixo registrado que não me satisfaz assistir às lutas, assim como não gosto de acompanhar muitas outras modalidades esportivas, algumas, inclusive, olímpicas. Na madrugada do domingo, estava mais preocupado com a viagem de férias do que em ver aquela turma agindo com violência no ringue (que agora chamam de octógono). Somente soube da lesão de Anderson Silva quando já estava no aeroporto e a foto da perna redobrada foi suficiente para sentir dor e lamentar o acontecido. Não gosto do esporte, mas admiro Silva pelas conquistas e pela imagem serena que transmite, diferentemente de muitos brutamontes do MMA.

 

Em contrapartida, gostava de lutas de boxes, em especial quando Cassius Clay estava no ringue. Lembro que, ainda guri em Porto Alegre, tive a oportunidade de ver Éder Jofre treinando no ginásio que ficava quase no quintal da minha casa. Eu e meu irmão menor, o Christian, ganhamos do pai, pares de luva de boxe de brinquedo. Protagonizamos grandes embates sobre o tapete da sala de TV que delimitava o espaço do nosso ringue imaginário. Penso que não nos tornamos mais violentos nem alimentamos inimizades. Talvez um ou outro tenha jogado a toalha para reclamar com a mãe um golpe baixo. Desde o fenômeno Mike Tyson nunca mais tive motivação para assistir às lutas na TV. As luvas de brinquedo foram abandonadas.

 

É válida a discussão sobre os benefícios e limites do MMA, pois ganhamos sempre que o debate visa preservar a integridade física do ser humano, mas soa ridícula a tentativa de proibir a exibição dos eventos na TV sob a alegação de que as cenas geram violência. Não bastasse o fato de as lutas serem transmitidas tarde da noite em apenas um canal de TV aberta, portanto, tendo o cidadão o direito de escolher pelo programa que bem quiser. É a mesma lógica que move grupos a pedirem o fim de personagens sórdidos nas novelas e restrições à venda de vídeo game sob a alegação de que causam más influências. Tenta-se resolver os problemas complexos da vida em sociedade com pensamentos simplistas.

 

No Canadá, não muito distante de onde estou, as jogadas brutas e as agressões físicas fazem delirar os fanáticos do hóquei no gelo, nem por isso vivem em uma sociedade mais violenta do que a nossa. O que faz mesmo diferença é o fato de os canadenses estarem em sexto lugar no Pisa com escore 524, enquanto nós aparecemos em 53º lugar com 412, abaixo da média internacional que é 493. Ou seja, a solução não está na proibição do MMA, mas na educação.

 

N.B: A propósito, Carlos, inclua no seu cardápio esportivo hóquei na grama feminino: as meninas fazem frente à Sharapova.