Avalanche Tricolor: vitória da maturidade

 

Juventude 0 x 1 Grêmio
Campeonato Gaúcho – Caxias do Sul

 

16937539878_052b881a26_z

 

Caxias do Sul sempre foi uma espécie de parque de diversões. E não leia esta frase de forma invertida, não! Falo das lembranças de família e de juventude. Não me refiro ao futebol.  Foi lá que passei boa parte das férias na minha infância. Costumávamos dividir os 30 dias regulamentares de descaso do meu pai entre a praia e a serra. Também gostávamos de visitar a cidade dos Ferretti durante a Festa da Uva e assistíamos ao desfile na janela da casa de uma das tias de Caxias, na avenida principal. Na adolescência, passei a ir para lá com os amigos, pois éramos muito bem recebidos pela turma do basquete e batíamos bola na sede campestre do Recreio da Juventude. Gostávamos mesmo das festas à noite. Depois, foi a vez das namoradas caxiense que me faziam subir à serra gaúcha. Boas lembranças de uma época em que não cobravam maturidade nas minhas decisões!

 

Quando o assunto era futebol, porém, a coisa ficava mais complicada. Jogar contra o Caxias ou o Juventude, assistir aos jogos nas arquibancadas do Centenário e do Alfredo Jaconi e cobrir as partidas no gramado dos dois times da cidade costumavam provocar alguns surpresas desagradáveis. Além de torcidas aguerridas, as equipes da casa sempre foram bastante competitivas e o Grêmio, apesar de algumas vitórias históricas, enfrentou muitas dificuldades. Por tudo isso, o jogo dessa tarde de domingo trazia momentos marcantes à memória, para o bem e para o mal. Era de se esperar dificuldade maior do que a que encontramos. Digo isso não para desmerecer o adversário. Pelo contrário: enalteço aqui a maturidade do time gremista.

 

Fizemos um gol cedo, em lance que teve o mérito de Brain Rodriguez e o talento de Giuliano. Nosso gringo acreditou em bola que estava quase perdida pela lateral. Pouco antes já havia dado um carrinho e encarado os zagueiros na linha de fundo. Mesmo que siga sem marcar com a frequência que um centroavante precisa, mostrou-se muito mais participativo nesta tarde. E graças a isto, recuperou a bola e deu de bandeja para Giuliano, permitindo que este completasse o contra-ataque com bom domínio e chute preciso, no ângulo. Aliás, um dos únicos chutes que demos a gol. Nem precisava mais. A vitória simples, fora de casa, nos colocaria em excelentes condições de chegar à final do Campeonato Gaúcho.

 

No restante da partida, o Grêmio soube como poucas vezes acabar com o jogo sem correr riscos, exceção a um ou outro lance adversário. Segurou a bola, trocou passes à exaustão, não se precipitou, cavou faltas, dominou o jogo nos 90 e poucos minutos de disputa. Ao contrário de outras oportunidades, em que passamos sufoco e não conseguíamos manter a bola entre os nossos, fiquei impressionado com a personalidade de nossos jogadores. E, além do golaço de Giuliano, foi o que mais me agradou nesta tarde em que Caxias do Sul voltou a me dar alegrias.

Avalanche Tricolor: foi gol de Pará!

 

Grêmio 1 x 0 Vitória
Campeonato Brasileiro – Arena Grêmio

 

Para_Fotor

 

Fiquei tentado a escrever esta Avalanhe após a rodada do fim de semana, a espera do que poderia acontecer conosco na tabela de classificação. Voltei atrás em nome da coerência, pois nada mudaria minha intenção de torcer intensamente por nossas vitórias a despeito de nossas chances na competição. Como bem lembrou Ramiro, ainda suado e ao lado do gramado, ao fim do jogo, ao se ver diante do microfone de um repórter que fez daquelas perguntas que nós jornalistas costumamos disparar apenas com a intenção de ouvir uma resposta qualquer, disputávamos ontem uma das sete últimas decisões que nos faltam e a vencemos. Nos restam seis até o fim da competição e temos de vencê-las, disse nosso volante. Sendo assim, independentemente do que façam nossos adversários nos próximos jogos, nada importa se não cumprirmos o papel que nos é reservado: lutar bravamente contra o inimigo e nossas carências – foi assim em todas nossas conquistas até aqui, não seria diferente nesta temporada.

 

A ansiedade em escrever a você, caro e raro leitor desta Avalanche, não se dá apenas por uma questão de coerência, como explicado no parágrafo acima, mas por satisfação. Queria já ter iniciado este texto aos 44 minutos do primeiro tempo quando Fellipe Bastos (que descubro agora tem dois “Ls”no nome), mais um dos nossos volantes, da intermediária e com visão e lançamento precisos, encontra o obstinado Pará entrando na área pelo lado direito, onde muitas vezes ele aparece sem jamais ser visto por seus companheiros, que, na maioria das vezes, sempre dão preferência aos colegas supostamente mais habilidosos no trato da bola. A bola chegou pelo alto na certeza de que a canela de nosso lateral iria intervir na sua trajetória, talvez escapasse um pouco mais à frente em direção à linha de fundo e ele, como sempre faz, correria acreditando na possibilidade de alcancá-la para colocá-la de volta em jogo e com chances, quem sabe, de um dos seus incrédulos companheiros concluir em direção ao gol. Ledo engano.

 

Pará chegou na passada certa, olhou para a bola e para a área, posicionou o corpo e com rara categoria bateu chapado, com o lado do pé, forte e confiante, a ponto de surpreender seu marcador que, em gesto de desespero, tentou desviar o curso da bola dando-lhe, na verdade, o destino merecido, o gol. Gol de Pará – digam o que disserem os documentos oficiais assinados por esse árbitro de olhar caricato. Ele correu de braços abertos para comemorar a conquista com Luis Felipe Scolari que o sustentou na lateral direita quando a lógica o escalaria do lado equerdo para substituir Zé Roberto, suspenso por ter recebido três cartões amarelos. Pará sorriru abraçado aos seus colegas porque sabe que lutou muito para estar ali naquele momento. Lutou na vida e brigou no treino da semana, porque nada dava certo lá do lado esquerdo. Provou na bola e no temperamento que tinha de estar ali na entrada da área, pelo lado direito, no momento em que o lançamento fosse feito por nosso volante, não porque era a melhor opção, mas porque era a única disponível no momento.

 

Já escrevi aqui nesta Avalanche como me sinto em relação ao futebol de Pará e porque o admiro mesmo diante de todas as críticas que possa receber. Foi quando, em agosto do ano passado, Pará fez o único gol de sua vida com a camisa do Grêmio – o segundo de sua carreira -, na cobrança de falta contra o Flamengo, na Arena Mané Garrincha. “Tivesse sido um jogador de futebol, eu teria sido o Pará”, foi assim que abri aquele post que você pode ler, se ainda tiver paciência, clicando neste link. E o teria sido com muito orgulho porque poucos se dedicam tanto a uma causa como ele, o que se revela seja na comemoração com a bola que foi despachada pela lateral e impediu qualquer perigo ao nosso gol seja no gol contra resultado de seu cruzamento, como nesse sábado à noite. Pará, assim como na partida anterior foi responsável pela assistência que nos levou ao gol de empate contra o Coritiba, volta a ser protagonista em campo. E se dependermos dele para chegarmos a Libertadores, tenho certeza de que lá estaremos mesmo que a vaga somente seja conquistada na última rodada (e com um gol meu, ou melhor, um gol de Pará, mais um!)

Avalanche Tricolor: obrigado por nos fazer acreditar que sempre é possível

 

Grêmio 1 x 0 Atlético PR
Campeonato Brasileiro – Arena Grêmio

 

15202959172_8a4afc760d_z_l

 

Poderia começar esta Avalanche agradecendo a Barcos que sozinho dentro da área, em meio a forte marcação adversária, matou a bola no peito, deixou-a correr para o chão e, de virada e de direita, a despachou para dentro do gol. Lance típico dos grandes atacantes. Lance que se espera de um goleador como o Pirata. Uma espera que, às vezes, pode levar mais de 90 minutos, como na noite desta quarta-feira. Quem se importa de esperar. Se esperamos até o fim é porque temos esperança. E Barcos dentro da área é sempre a nossa esperança, mesmo que antes a bola tenha escapado-lhe do pé, tenha sido chutada para fora ou sequer tenha sido alcançada pois ele ficou preso entre os zagueiros.

 

Poderia agradecer a Fernandinho que pela segunda partida seguida deu assistência para o gol salvador. Assim foi contra o Flamengo. Assim foi contra o Atlético do Paraná. E que sempre seja assim. Hoje, ele já havia corrido muito, às vezes mais do que devia; havia carregado a bola, nem sempre pelo caminho mais fácil; havia desperdiçado oportunidades raras contra uma defesa bem estruturada. E esses desperdícios podem ser fatais. Mas Fernandinho também não desiste. Sempre tem a esperança de que é possível fazer mais. Estava na intermediária quando o ponteiro do relógio (eles ainda têm ponteiros?) passava dos 46 minutos do segundo tempo e a paciência do torcedor parecia ter acabado. Desde lá, mandou a bola pelo alto e a colocou no peito de Barcos – o resto você já leu no parágrafo anterior.

 

Poderia agradecer, também, a Marcelo Grohe. Se nos últimos jogos, comemoramos vitórias (e mesmo empates), muito disto cabe ao nosso goleiro que tem feito defesas fundamentais, como quando, com uma só mão e à queima roupa, conseguiu evitar o gol na cabeçada do adversário, ainda no primeiro tempo. Marcelo sempre espera o momento certo para agir. Assim como esperou a hora de se transformar em titular absoluto e admirado do Grêmio.

 

Quero, porém, agradecer mesmo é a Luis Felipe Scolari. Nosso técnico completou apenas um mês no comando do time, reconstruiu uma equipe, mostrou coragem ao fazer substituição no primeiro tempo (ainda que sua coragem não tenha sido retribuída pelo substituto), usou de todos os artifícios para manter o time com a cabeça no lugar apesar do desespero do torcedor e, mais uma vez, aos gritos, ao lado do campo, orientou o caminho do gol. Nem mesmo os erros constantes de alguns dos seus escolhidos, tiraram-lhe a esperança de que a vitória chegaria. No momento de maior tensão, pediu calma a cada um dos jogadores e transmitiu-lhes a certeza de que seriam retribuídos.

 

Felipão nos trouxe de volta a certeza de que, independentemente da qualidade do futebol apresentado, o time jamais deixará de lutar e acreditar. Nos fez recuperar a esperança, o espírito da Imortalidade que marca a nossa história.

 

Por isso e muito mais: obrigado, Felipão!

Avalanche Tricolor: merecíamos a alegria da vitória

 

Flamengo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã

golluanflaxgremiobudamendesgetty_l

 

Eu merecia,

Felipão merecia,

Nós merecíamos!

 

Desculpe-me pela falta de humildade, mas foi exatamente esta a sensação que tive ao ver a bola sendo desviada para dentro do gol flamenguista, aos 48 minutos do segundo tempo. Uma jogada que se iniciou sob o comando de Luis Felipe Scolari. Não apenas porque foi ele quem colocou em campo, já no quarto final da partida, os dois protagonistas da jogada, mas, também, porque, ao lado do campo, pouco mais à frente de Pará, que se preparava para cobrar a lateral, Felipão gritava e gesticulava para Fernandinho se deslocar para a direita, onde a bola foi lançada. Com o jogo de corpo, o meio-campista deixou o primeiro marcador caído no gramado e com mais três toques de pé esquerdo se livrou de dois adversários e passou para Luan. A tarefa do jovem atacante não seria mais simples do que a de Fernandinho, pois entre ele e o gol haveria mais quatro defensores a serem batidos. E o foram graças ao talento de Luan, que sabemos existir mas nem sempre nos é entregue. Desta vez, ele tocou cinco vezes a bola antes do chute final, todas com o pé direito, fazendo com que ela fosse para lá e para cá, confundindo os marcadores e deixando o goleiro distante de uma defesa.

 

Desde a volta de Luis Felipe tem sido evidente a melhora de desempenho da equipe, a forma organizada com que os jogadores se posicionam e a existência de uma lógica de jogo. Méritos que nem sempre resultaram em placares favoráveis. Sofremos com jogadas desperdiçadas dentro da área, escolhas erradas de passes e chutes, muitos em momentos cruciais, e até gols perdidos embaixo do travessão. Coisas do futebol, eu sei, mas que não faziam jus ao trabalho que se construía no Grêmio. Provocavam frustrações e escondiam a nossa verdade, gerando cobranças injustas e ironia desproporcional. Foi assim nas três derrotas sofridas no período de um mês no qual Felipão comanda o time. Sim, caro e raro leitor, Felipão só está há um mês no comando e mudou claramente nossa forma de ser e jogar. Neste tempo, e mais uma vez peço—lhe desculpas por me despir da humildade, mesmo diante do revés, previ que iniciaríamos nossa Avalanche (no dia 22/08) e decretei seu início (no dia 24/08). A vitória fora de casa, na noite desse sábado, comprovaria esta tese calçada no sentimento gremista que compartilhamos e na razão que nosso jogo jogado demonstrava.

 

Chegamos a ter essa arrancada ameaçada, a começar pela injúria proferida por alguns dos nossos torcedores que tomaram atitude injustificável e provocaram abalo incalculável à nossa reputação. O preço que estamos pagando é caro e a forma agressiva com que torcedores adversários se dirigiram aos nossos, no Rio de Janeiro, revela o cenário que enfrentaremos a partir de agora (atitude intolerável assim como foram os intolerantes que atacaram Aranha e nos prejudicaram). Todo o drama vivenciado nestes poucos mais de sete dias tinha tudo para impactar o desempenho da equipe, provocando intranquilidade no momento em que o time se reconstrói. Nos desafiavam, também, ameaças muito mais íntimas do futebol, como um adversário embalado pela sequência de vitórias, que jogava em casa, com apoio de quase 60 mil vozes e treinado por um técnico (que não me deixou saudades) sedento de vingança; assim como desfalques importantes como o de Barcos, vice-goleador do Campeonato Brasileiro. Em campo, contudo, fomos maiores e maduros, mesmo os mais jovens. Fizemos o primeiro tempo melhor do que o adversário e tivemos o segundo marcado pela intensidade da nossa defesa e a organização estratégica de Felipão. Foi, então, que o dedo do técnico apontando para Fernandinho conduziu-nos à vitória. Merecida vitória.

 

A imagem deste post é do site Gremio.net

A Avalanche Tricolor começou

 

Grêmio 2 x 1 Corinthians
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Gremio x Corinthians

 

Todo jogo vale três pontos. Toda partida é importante. Todos os adversários têm de ser respeitados, temidos e vencidos da mesma maneira. Tudo isso é verdade, especialmente em competição tão longa e disputada em pontos corridos como é o Campeonato Brasileiro. Você, caro e raro leitor deste Blog, porém, há de convir: existem vitórias que se tornam especiais seja pelo momento seja pela forma seja pelo adversário. A desta tarde de domingo é especialíssima, pois atende a todos os quesitos.

 

Antes de continuar esta Avalanche, cabe uma explicação aos que me leem de Porto Alegre: eu sei que ganhar o clássico Gre-Nal é sempre importante para nosso histórico, contudo, desde que vim para São Paulo, vencer o Corinthians causa-me praticamente a mesma sensação. Não digo isso por comparar a rivalidade existente entre os clubes, apesar de Grêmio e Corinthians terem protagonizados clássicos decisivos que ficaram para a história do futebol brasileiro. Nossas rixas com o co-irmão gaúcho são mais intensas, sem dúvida. Porém, aqui em São Paulo, onde moro desde 1991, não tem uma esquina em que não se encontre um corintiano. Você pega o ônibus, para na padaria, chega no trabalho, olha para um lado, vira a cara para o outro, mas não tem como escapar. Na rádio CBN, onde trabalho desde 1998, eles ficam aguardando no corredor e quando vou ao ar, estão prontos para tocar uma flauta. É a Cátia Toffoletto, é o Márcio Atalla, é o Dan Stulbach, é o Zé Godoy, é deus e o diabo contra você. Ou seja, é vencer ou se aborrecer.

 

A vitória tornará a semana mais tranquila para os gremistas que moram em São Paulo, mas acima disso mostrou que o time que vinha sendo reconstruído por Luis Felipe Scolari começa a dar resultado. Na partida anterior, contra o líder Cruzeiro, já havia escrito da minha satisfação pela maneira com que jogamos na casa do adversário. Lamentava apenas a falta de um matador. Hoje, ele estava em campo e atendia pelo nome de Barcos, que se consagra como o maior goleador estrangeiro na história do Grêmio com seus 36 gols – sete no Brasileiro. O argentino se beneficia agora da excelente performance de Dudu, nosso jovem e atrevido atacante que inferniza os marcadores; e se precisarem dele para roubar a bola lá atrás, é só chamar. O time é bem mais do que os dois jogadores. No gol, Marcelo Grohe com 26 anos – um jovem, portanto – tem merecido todos os elogios do torcedor e foi emocionante vê-lo aclamado pelas arquibancadas ao fim da partida. Na defesa, Felipão se esforça para colocar em campo a melhor escalação: confia muito em Rhodolfo e resolveu muito bem e de maneira corajosa o lado esquerdo com Zé Roberto, que marca e chega ao ataque com a categoria de sempre. O técnico investe em dois ou três volantes, conforme a necessidade, e permite que talentos, como o de Luan, se sobressaiam. Mostra ao elenco que não basta ter nome para ficar no time; tem de jogar bem, acertar passe, dedicar-se ao máximo, marcar e atacar quando possível.

 

A volta para o segundo tempo, neste domingo, foi avassaladora, com o primeiro gol em menos de 30 segundos e o segundo, em seguida. Sinal de que o trabalho no vestiário foi competente. É o velho Felipão de volta, disposto a provar que ainda tem muito carvão para queimar (e claro que isso me enche de satisfação pois sou, aqui em São Paulo, quase um torcedor solitário deste treinador que teve seus méritos esquecidos desde os maus resultados do Mundial). Mas disse, lá no primeiro parágrafo que, além da forma e do adversário, há vitórias especiais porque chegam no momento certo. Com apenas duas rodadas para a virada da competição e alguns adversários diretos tentando escapar na frente, era preciso uma reação logo, apesar de entender a dificuldade de se reconstruir uma equipe em pleno campeonato. A vitória neste momento, com muito futebol e suor, marca a arrancada que eu chamo de avalanche, Avalanche Tricolor.

 

A foto deste post é da página oficial do Grêmio

Avalanche Tricolor: os embalos de sábado à noite

 

Vitória 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Salvador

 

16758845_l

 

Convenhamos, nove da noite de um sábado, não é hora de jogar bola. Se disser lá em casa que vou bater uma bolinha com os colegas no sábado à noite, na melhor das hipóteses me mandam dormir no sofá. Na agenda oficial das boas relações familiares, é obrigatório compromisso com a mulher e os filhos (apesar de que estes a medida que crescem, dão graças a Deus que você não os convida para o que se chama – ao menos no meu tempo, chamava-se – programa de índio). Todos sentados em torno de uma boa pizza, talvez um cineminha, quem sabe à visita na casa de amigos para os quais você nunca tem tempo ou, outra opção, abrir a sua casa para esses mesmos amigos. Qualquer um desses programas atende às expectativas da turma. Agora, jogar futebol? No sábado à noite? Só para os caras-de-pau, descasados ou desiludidos da vida.

 

Todo esse introdutório para ver se consigo explicar o fato de tanta gente reunida no nosso time, sábado à noite, em Salvador, não conseguir jogar o futebol que há tanto tempo esperamos. Havia uns garotos na lateral, no meio de campo e depois no ataque que pareciam estar com a cabeça na balada da qual tiveram de abrir mão para jogar bola. Uns mais velhos até se esforçaram no início, talvez imaginado que resolvendo a fatura de cara o jogo se encerraria mais cedo e eles poderiam voltar para casa para abraçar as esposas. Ninguém parecia muito convencido de que a coisa mais importante que tinham a fazer naquele momento era disputar uma partida de futebol. Até o juiz, diante da quantidade de erros que cometeu, parecia compartilhar do mesmo sentimento.

 

De minha parte, foi difícil ter de convencer a família a ficar em casa no sábado e jantar um pouco mais cedo para que eu estivesse de prontidão, diante da televisão, às nove da noite, e depois assistir a mais um resultado frustrante do Grêmio. Cheguei a imaginar que a mudança de técnico geraria aquela animação extra que faz os jogadores se desdobrarem em campo, à medida que se sentem ameaçados de perder a vaga, tentando provar ao novo comandante que os maus resultados não tinham nada a ver com ele. O gol marcado no primeiro tempo mais uma vez iludiu nossa esperança que foi sendo dilapidada a cada ataque que desperdiçávamos. As bolas que chutávamos para fora pareciam avisar que seria alto o preço a ser cobrado mais adiante. Não precisamos esperar muita bola rolando no segundo tempo para essa realidade se concretizar, infelizmente.

 

Como sou um torcedor eternamente otimista, não será o mau resultado na noite de sábado que me impedirá de acreditar na recuperação, a começar pelo fato de que entre mortos e feridos, nesta rodada, sobraram todos. Nossos principais adversários estão a algumas vitórias seguidas de distância e uma boa sequência a partir de agora já nos coloca de volta na disputa do título. Claro que para tanto precisaremos do olhar clínico e das palavras mobilizadoras de Luis Felipe Scolari que começa, nesta semana, a trabalhar com o time. Terá de encaixar as peças nos lugares certos, reestruturar estrategicamente o time e dar uma boa dose de confiança a cada um desses jogadores. Fazer destes que aí estão um time de vencedores. A tarefa não será nada fácil, nem tanto pelas características técnicas, pois temos jogadores qualificados, mas, porque, além da insegurança, o primeiro desafio pode ser definitivo. Que Felipão traga de volta, já na próxima tarde de domingo, a alegria dos embalos de sábado à noite.

Avalanche Tricolor: cabeça no lugar e bola no chão

 

Vitória 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Barradão

 

 

Foi na pequena tela do Iphone que assisti à partida de sábado à noite, em Salvador. Estava em São Paulo, na casa de um amigo para comemorar mais um ano de vida. Acompanhei por um desses aplicativos de internet que atualizam o resultado com descrições que, se não ajudam muito a entender o jogo, ao menos nos mantêm informados do placar. É uma sensação curiosa, pois com nova informação a cada minuto, sempre fica a esperança de que naqueles 60 segundos anteriores – e talvez somente naqueles – seu time tenha acertado a troca de passe, os jogadores de meio tenham se movimentado com maestria para confundir os marcadores, um dos laterais tenha aparecido na linha de fundo para cruzar a bola no pé do atacante que, com um drible desconcertante, tenha superado o zagueiro e chutado de forma indefensável para nos colocar em vantagem. Assim que o novo texto surge na telinha e o placar permanece imóvel, a esperança anterior se frustra e uma nova surge, pois não se consegue ter ideia clara de quem domina as ações, qual o desempenho de seus jogadores nem o quanto o juiz atrapalha. Portanto, nunca se deixa de acreditar que o gol vai sair daqui a pouco.

 

Soube mais tarde (e fui conferir o lance em um site) que nosso ala Pará, com boa visão, virou o jogo para seu colega na ala esquerda, Alex Telles, escorar a bola para Barcos que estava acossado pelo zagueiro. O nosso volante mais avançado, Riveros, se deslocou em direção ao meio da área e chamou atenção da defesa, abrindo espaço para Kleber aparacer do lado direito livre, no ponto onde o passe feito por Barcos alcançou. O atacante poderia ter chutado forte, mas fez a melhor escolha e atravessou a bola na pequena área, onde já estava Alex Telles pronto para concluir em gol. Foi o que fez, mas o auxiliar, de quem não sei o nome (nem quero saber), viu irregularidade onde não havia e impediu que o Grêmio abrisse o placar ainda no primeiro tempo, o que poderia mudar a história contada pelo redator que atualiza as informações no serviço pelo telefone.

 

Das poucas vantagens de não assistir às imagens da partida ao vivo está o fato de não ficarmos influenciados pelo desempenho ruim de alguns jogadores e menos ainda incomodados com os passes errados que, me informaram, foram 101, somados os dois times. Nossa visão fica menos catastrófica do que a maioria, mesmo porque, convenhamos, nada do que está acontecendo foge da normalidade. Empatar fora de casa diante do bom momento do adversário não chega a ser um desastre, apesar da sequência ruim nos últimos três jogos. Campeonato com a extensão do Brasileiro sempre terá percalços, haja vista o que aconteceu na rodada desse fim de semana com alguns dos principais candidatos ao título (nós, inclusive). Portanto, só nos cabe por a cabeça no lugar, a bola no chão, precisar mais o passe, enxergar o companheiro livre e acertar o chute no gol. (se o juiz não atrapalhar, melhor ainda).

Avalanche Tricolor: chuta este mau humor para escanteio

 

Grêmio 1 x 0 Vitória
Brasileiro – Arena

 

 

(um bate-papo comigo mesmo)

 

Deixa de ser mal-humorado! Esta é a quarta rodada do Campeonato Brasileiro e, além do teu time, só tem mais dois invictos. Foram duas vitórias em casa e um empate fora. A receita perfeita em competição de pontos corridos. Tem um jogo a menos e está empatado com os líderes que disputaram quatro partidas. Tem concorrente que já está até com a sombra da zona do rebaixamento! Sem contar os que sequer deixaram seus técnicos esquentar o banco por muito tempo. E o que o é que foi aquele golaço do Elano. Que baita cobrança de falta. Parecia ter ajeitado a bola com a mão. Pensando bem, foi o que fez com o pé.

 

Está reclamando, então, do quê? Seu mau humorado!

 

Eu sei, nós bem que gostaríamos de assistir aos nossos atacantes convertendo em mais gols as bolas que recebem, de ampliar o placar sem nos expormos a riscos e de ganhar as partidas com mais facilidade. Mas, neste “salve-se quem puder” do Brasileiro, talvez tenhamos que nos contentar mesmo com esta luta diária, ou melhor, com esta disputa dura rodada a rodada. E tirar este nariz torcido com alguns jogadores e com o técnico que, convenhamos, jamais ganharia o título de Simpatia do Ano.

 

Está na hora de retomarmos à alegria, apesar dos pesares, e torcer para que o Padre Reus do meu pai (leia o texto anterior) nos ajude.

 

Até a próxima!

Avalanche Tricolor: Esperar contra toda esperança

 

Vitória 0 x 3 Grêmio
Brasileiro – Salvador


Esperar contra toda esperança. Ouvi a frase do padre Anderson agora há pouco, durante a homilia das seis da tarde. Com voz de locutor de rádio – ele o é -, repetiu duas, três vezes, fazendo ecoar esta ideia na minha cabeça. Os caros e raros leitores deste blog, em especial desta Avalanche, sabem que teimo em não misturar religião e futebol, pois creio que Ele tenha coisa mais importante para fazer em meio a tantas coisas que nós desfazemos aqui na Terra.

Mesmo levando em consideração o feliz momento de nosso time, não irei fugir desta regra que me impus. Mas achei apropriado reproduzir a frase, afinal a esperança é algo inato ao ser humano. Desistir dela é abrir mão do direito de viver. E quando dá o acaso de você torcer para um clube com uma história de imortalidade, isto tudo se torna muito claro.

Superando todas as expectativas, atropelando os prognósticos e adversários e surpreendendo até mesmo a esperança dos seus torcedores, o Grêmio sobe rapidamente na tabela de classificação. Começa a vislumbrar o topo, apesar de sabermos que nossas metas são bastante humildes. Já falei por aqui que temos de olhar, única e exclusivamente, o jogo seguinte, os próximos três pontos, independentemente do que estiver acontecendo ao nosso redor.

Contudo, quando a vitória ocorre da forma como a que assistimos neste sábado à tarde, é sinal de que alguma coisa está mudando. Não pela dificuldade de se vencer quatro jogos seguidos fora de casa. Nem mesmo porque fizemos uma partida fenomenal. Exatamente pelo contrário.

Em campo, havia apenas cinco titulares. Dos zagueiros aos volantes, todos estavam no banco na partida anterior. No meio de campo e no ataque, a vida não era mais simples. Renato fez malabarismo para escalar o time e, confesso, tive dificuldade de enxergar como eles se colocariam no gramado. Havia o sério risco de termos apenas um amontoado de jogadores.

As coisas tinham tudo para dar errado, mesmo após o primeiro gol de Maylson, outro que tem estado mais tempo na reserva do que no time titular. Quantas vezes neste campeonato, jogando muito melhor do que hoje, saíamos na frente para ceder o empate no fim, às vezes até mesmo tomar uma virada.

E não faltaram chances ao adversário. Mas sempre havia uma gremista no caminho. Muitos à frente de Vítor, quando este próprio não fazia das suas impedindo o gol adversário. O passe saía desconcertado, a bola não ficava em nossos pés, mas o “inevitável” gol de empate não acontecia.

O tempo passava, a marca dos 40 minutos do segundo tempo chegava. Momento crucial, hora ideal para que o destino voltasse a nos preparar mais um revés. Foi assim durante toda a primeira fase deste campeonato.

Pois não é que ao chegarem os acréscimos, fomos nós que ampliamos o placar. Mais uma vez o predestinado Diego – não por acaso – Clementino e Edílson levaram à vitória elástica.

Sem dúvida, tem muita coisa mudando no nosso destino neste Campeonato Brasileiro. Mas é melhor não pensar muito nisso, não. Fiquemos aqui, apenas a saborear cada pontinho conquistado, cada colocação alcançada, refletindo sobre o que nos falam e as mensagens que nos enviam.

É hora mantermos nossa santa humildade sem jamais esquecer, porém, da nossa Imortalidade.

Avalanche Tricolor: Jogão de bola

 

Grêmio 1 x 1 Vitória

Brasileiro – Olímpico Monumental


No aeroporto, as primeiras camisas tricolores desfilavam no saguão. No caminho para casa, voltaram a aparecer, cada vez em maior número. Na padaria da esquina, de onde se avista o estádio, casais de namorados de mãos dadas seguiam para o jogo. Faltavam ainda duas ou três horas para o início da partida. Sentado a mesa, enquanto o café era servido, lembrava das muitas caminhadas que fiz entre minha casa de infância e o Olímpico. Boa parte delas acompanhada de meu pai. Naquela época, creio que as namoradas não gostavam de futebol como as de hoje.

Hoje, porém, meu caminho era outro. Segui na direção contrária a do estádio. Deixei para trás aqueles torcedores que andam apressados a espera de uma vitória. Dei as costas para o que foi meu destino, quase obrigação, durante a infância, a adolescência e parte da minha vida adulta. Não que não tivesse vontade de ir ao estádio, ocupar as cadeiras azuis e geladas que me abrigaram durante muitos anos, cantar e cantar com todos que lá estivessem, sempre acreditando que a arrancada vai se iniciar.

Minha obrigação era outra neste sábado de temperatura amena em Porto Alegre. Obrigação e desejo. Iria dividir a sala de estar com meu pai e meu irmão, sentaríamos diante da televisão de tela enorme para assistir ao Grêmio jogar. Confortáveis, iríamos falar da família, de boas lembranças e da saúde que nos permite viver e recordar. Falaríamos do Grêmio, também, por que não ? E foi o que fizemos durante mais do que os 90 minutos de bola rolando. Mesmo porque nosso prazer de estarmos juntos outra vez jamais será refém do tempo destinado ao futebol. Nem da alegria que, por ventura, este possa nos proporcionar.

Foi um ótimo jogo este que joguei ao lado deles. E não falo do futebol, é óbvio.