O sofrimento dos outros

 

 

Por Abigail Costa

Ouvi numa entrevista com uma médica:

– O sofrimento mais forte do doente não é o diagnóstico.

No começo, o recebimento da doença é compartilhado por todos. Famílias, amigos. Cada um querendo ajudar de um jeito. Vale a presença física, os telefonemas, os livros de auto-ajuda, a caixa de chocolates.

Mas numa doença crônica como o câncer, o tratamento é demorado, doloroso. Uma rotina entre idas e vindas ao hospital. Outras tantas em direção à clínica. Sem contar os tratamentos complementares. Sessões de yoga, acupuntura,  reik. Uma busca voraz pelo equilíbrio.

E, assim, todos os dias vão se passando. Os meses começando e terminando. Completa-se um ano. E os amigos e a família já não tão unidos como antes.

O sofrimento até então entre as pessoas próximas vai ganhando um isolamento natural.

A médica completa:

– Primeiro, a mulher perde o seio; depois os amigos e por fim o marido.

Confesso que isso me assustou. A pergunta é inevitável:

– Como deixar sozinha uma pessoa num momento tão sofrido ?

A resposta lógica me fez parar de culpá-los. O afastamento não é por maldade. Alguns enxergam no sofrimento dos outros o próprio sofrimento. E fogem.

Como dizer para sim mesmo: esse sofrimento eu não quero para mim.

Uma posição que dispensa julgamentos.

Abigail Costa é jornalista, escreve toda terça-feira aqui no blog e transcreve o que aprende nas conversas diárias com suas fontes de informação e conhecimento.

7 comentários sobre “O sofrimento dos outros

  1. Me emocionei muito e achei que o texto reflete a pura realidade.
    Tive câncer em 2002 e realmente o sofrimento é imenso mas,hoje olho apenas para o futuro maravilhoso que virá!
    Atualmente,muitas pessoas que passam pela dor do diagnóstico e pelo duro tratamento de quimioterapia.me procuram e consigo de alguma forma ajudá-las com a experiência que tive
    Gostaria de parabenizar a Abigail Costa pelo lindo texto!

    Claudia Talerman

  2. Abigail,

    bem lembrado.
    Tenho um amigo que fez essa lição de casa,
    brilhantemente. O inimigo corria pelo corpo todo,
    escolhendo onde se instalar. E ele lutou. Fez poesia.
    Riu e chorou muito. Exercitou suas emoções até quase
    arrebentar as cordas do coração. Tem vencido. E nós, seus amigos, com ele. Somos todos espelhos. Rimos e
    choramos com ele, Crescemos todos.

    Beijo,
    ml

  3. Querida Abigail, chorei… pois passei por essa situação, uma vez que estou a 03 anos em tratamento. Muitos amigos que desistiram de participar comigo nesta luta deixaram uma marca em mim. Ainda luto até hoje contra este sentimento de abandono. O texto é a mais pura realidade, a médica é uma pessoa sensível, consegue enxergar tb esta solidão em seus pácientes.Sofremos com doença e tudo que envolve ela. E ainda assim temos que sacudir a poeira e dar a volta por cima. O mais importante é que novos e fortes amigos a gente tb conquista, nos dias de quimio nos grupos de apoio. Abraços apertados.
    Rosario

  4. mais que nunca, suas palavras de hoje mexeram bastante comigo…
    há pouco mais de um ano perdi meu sogro; de câncer. o devastador linfoma. realmente, o diagnóstico não doeu muito. ele veio junto a pesquisas de médicos, tratamentos e busca para entender a doença pela net.
    mas a quimio fez o tempo parar e voar ao mesmo tempo. dez meses após o diagnóstico o perdemos. e durante o tratamento perdi a conta de orações e novenas que fiz pedindo que os anjos o levassem para evitar o sofrimento que via no rosto dele. ele era muito especial!!!!!!!!
    mas quando acataram meu pedido, foi muito, mas muito doído! e por mais que não queiramos abandoná-los, o sofrimento o faz sozinho.

    um beijo minha querida!

  5. “O afastamento não é por maldade. Alguns enxergam no sofrimento dos outros o próprio sofrimento. E fogem”.
    De alguma maneira exergamos nessas pessoas tão valentes uma força que muitas vezes nos deixa pequenos perto delas. Mas quem pode julgar! Muitas vezes, ao final de um trabalho, também tenho a imprenssão que estou deixando órfão meus personagens, que os estou abandonando. Não importa o lado em que se está. Precisamos pensar positivo. Levar situações como essa para o público é tão importante quanto um abraço. E uma outra pessoa pode assumir o papel de quem se afastou, mesmo que temporariamente.
    Um forte abraço prá você!

  6. Ayn Rand defende em sua filosofia que o grande conflito das relações humanas está em baseá-las no autroismo utópico. E, que isso na verdade, só gera mágoas mútuas. Ela acredita que as relações devem ser baseadas no ego do homem. Egoismo como sentimento qualificado.
    “Eu não quero para mim o sofrimento dos outros”. É uma atitude egoísta, mas sensata.
    Feliz de quem sabe estar sozinho em sua dor.
    Privilegiado é o sofredor que tem um bom ouvinte para suas tristezas.

    Hoje por volta do meio dia, quando ela sentou na minha mesa, para requerer o passaporte, seu perfume já me deu bom humor.
    Quando foi embora, após alguns minutos de uma boa conversa, eu estava diferente.
    Estava mais:
    Crédulo, pelo seu relato de compaixão pelo sofrimento de desconhecidos;
    Otimista, por que a dezessete anos mantem interesse e atenção em uma única pessoa;
    Confiante,( tanto que estou expondo escritos meus)ao saber que através da pré-disposição ao trabalho, pode-se construir uma vida honesta.

    Parabéns pelo trabalho e muito obrigado Abigail Costa.

    Ass: Alessandro, gaúcho de vinte e dois anos a procura de intendimento e sentido nessa “vida de maeu Deus”.

  7. Abigail,já não é novidade,lida muito bem com as palavras,o que não surpreende a quem acompanha suas reportagens. Fez ,mais uma vez,ótimas colocações ao tratar de um assunto delicado e que exige sensibilidade de quem escreve. Parabéns!

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