Gays, lésbicas e as marcas

 

Por Laura Bacellar

Eu sou uma mulher branca de classe média, curso superior completo, casa e automóvel próprios, profissional autônoma, moradora de um bairro razoável em São Paulo, quase 50 anos. Recebo em casa, pelo telefone, por email, em folhetos, pelo celular ofertas e anúncios os mais variados, de forma constante e insistente. Bancos e cartões de crédito e fornecedores de internet concorrentes dos que já sou cliente, imobiliárias onde procurei uma sala anos atrás, concessionárias onde pedi informações, supermercados onde vou, restaurantes que entregam na minha região, lojas de roupa onde já comprei e toda sorte de negócios com que entro em contato direto ou através de listagens me procuram querendo que eu consuma seus produtos ou serviços.

Em anos e anos desse assédio, nenhum deles jamais falou comigo como lésbica, que eu sou.

Acho isso impressionante. No burburinho da concorrência, da necessidade de fazer negócios e atrair novos clientes, ninguém pensa nunca em dirigir-se ao segmento nada pequeno – 10% da população! – de homossexuais existentes em todos os locais e culturas e nichos. Como eu, esses milhões de gays e lésbicas espalhados pelo país são já consumidores de uma infinidade de produtos, mas ninguém nos vê nem fala com conosco.

Por exemplo, entre a infinidade de cartões de crédito existentes, não há um único associado a uma causa lgbt. Eu não tenho assim razão para adquirir outro além dos que já tenho, nem trocá-los. Seria seis por meia dúzia, não valeria o esforço. A mesma coisa os bancos, não conheço um único que ofereça qualquer atrativo para correntistas homossexuais. Ao contrário, o Itaú, por exemplo, tem homofobia embutida no sistema porque sua previdência privada não aceita a indicação de uma pessoa do mesmo sexo que o contribuinte e que seja declarada companheira.

Dá para aguentar isso? Um banco vir me dizer que não aceita que eu tenha uma companheira?

Banco do Brasil e Caixa Econômica são melhores porque internamente reconhecem uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, estendendo benefícios aos companheiros de seus funcionários homossexuais. Lindo, mas e para os clientes? Nada, nenhum reles seguro de vida que dê desconto para casais do mesmo sexo ou poupança premiada ou qualquer coisa do gênero.

Mas não é só na área financeira que reina a falta de imaginação, é em todo lugar. As concessionárias estão loucas fazendo todo tipo de promoção para desovar carros, mas você já viu um folheto sequer que mostre duas mulheres ou dois homens sorridentes ao lado de um veículo 0 km? Pois é, eu também não. Uma concessionária que oferecesse veículos 4×4 ou picapes para mulheres e aceitasse financiar pela renda conjunta de duas iria faturar horrores, eles não sabem o que estão perdendo…

E lojas de lingerie e roupa íntima, alguém já pensou em como bem atender lésbicas e gays? Se eu quiser comprar algo interessante para minha companheira, vou ter que inventar uma história longa para não criar constrangimento na loja onde for, porque as atendentes sempre perguntam para quem é e tenho certeza de que não estão preparadas para ouvir a verdade. Nessas lojas vira e mexe eu ouço absurdos do tipo “seu marido vai adorar”… E uma marca é igual à outra em me ignorar como lésbica, jamais há fotos ou indicações que alguém notou que a população feminina não é apenas heterossexual.

Os exemplos se estendem ao infinito. Alguém já pensou em fazer uma casa de repouso inclusiva da diversidade? E uma casa de chá chiquérrima gls? Os fabricantes de roupas esportivas femininas olham as lésbicas como target? As lojas de ferramentas? Os fabricantes de calçados confortáveis?

Entre as 150 deliveries que me enchem de folhetos, alguma já pensou em arriscar nomes de pizza (ou sanduíches ou sushis) sugestivos, que cativassem um público atento a sentidos duplos como o gls?

Tudo pode ser oferecido com um olho atento para gays e lésbicas, mas produtos maiores – como imóveis – ou que envolvam mais sentimentos – como chocolates para presentes – têm um potencial enorme de se diferenciarem da concorrência caso estabeleçam uma comunicação minimamente eficiente conosco. É pura falta de imaginação não o fazerem, ou preconceito mesmo.

Pode ter certeza de que eu iria considerar com atenção triplicada as ofertas feitas por um negociante que me enxergasse e teria muita simpatia por uma marca que simpatizasse comigo.

Laura Bacellar é editora de livros responsável pela Editora Malagueta http://www.editoramalagueta.com.br e autora do livro O mercado gls, com Franco Reinaudo (São Paulo, Ed. Ideia e Ação, 2008).

6 comentários sobre “Gays, lésbicas e as marcas

  1. Não são só as empresas que ainda tem seu retrato em branco e preto nesse país. O completo descaso para com famílias homoafetivas com união estável constituida diante do processo de adoção nem sequer é mencionado na nova legislação. Um casal verdadeiro, com condições financeiras, psicológicas, com condições plenas e desejo imenso de adotar um filho, completando assim o ciclo familiar, é deixado de lado, num silêncio sem fim e simplesmente vai ficando para o final da fila da adoção.
    É muito difícil raspar o ranço de mediocridade e preconceito dos formadores de opinião em nosso brasil.
    Enquanto isso, as pessoas que formam opinião, que são aquelas capazes de mover as ideias por aqui, como artistas, pensadores e grandes nomes brasileiros, estão preocupados com seus shows, livros, filmes, empresas, discursos e umbigos.

  2. Sra. Branca de carro próprio moradora de bairro razoável, a senhora se desviou do caminho da “decência“, não se casando tendo filhos é quem sabe até em vias de ser avó. Ou seja, tinha tudo para ser uma “cidadã normal” de classe média. Classe esta, de preferência nacional. Não importa seus sentimentos, seus desejos, seu caráter, sua produtividade, seu consumismo; vc é homossexual! Preconceituoso eu? Jamais! Acho linda a parada Gay, não agrido homossexuais e acho sacanagem as chacotas sofridas por eles; simpatizo muito com eles! Quer vir em minha casa no aniversário das crianças? Desculpe, veja bem amiga, não é por mim, tenho medo que as outras pessoas não gostem e não se sintam a vontade com sua presença e de sua companheira. Afinal, é um aniversário de criança e virão muitas famílias “normais“. Te adoro! Xau!

    Infelizmente, do Capão Redondo ao Morumbi “AA” negro ou branco, hetero ou homo; os rótulos estão acima do ser e do sentimento humano!

  3. O ponto de vista é ótimo assim como a argumentação, porém revela um traço preocupante: seja quem for e a que grupo econômico ou social pertencer, o indivíduo parece primeiro ter o referencial de relevância, respeito e a própria existência através da relação de consumo, da posse em si. Entretanto, vejo como um passo secundário. As minorias querem respeito somente nas relações de consumo? Não deveriam e não é o ponto de partida mais sensato.
    Primeiro deve vir o reconhecimento por parte do Estado, em todas as suas áreas de atuação e responsabilidade, de que há grupos cujos deveres são idênticos aos da maioria, porém sem a correspondência em termos de direitos, o que implica nas observações feitas por Laura Bacellar.
    Portanto, o problema apontado sobre a “exclusão social” através do consumo não é a raiz do problema, mas meramente um dos reflexos de uma razão mais severa que é o vácuo legal corrente, seja por omissão, seja por má formulação de textos.
    É ilusão dizer que a correção das disparidades legais por parte do Estado automaticamente garantirá ou estimulará outros setores da sociedade a seguir um novo princípio, porém serve de ponto de partida, precedente e garantia constituída ao estipular novas normas sociais e econômicas.
    Questionar meramente as relações de consumo é prejudicial e limitado. É preciso começar por direitos e leis para proporcionar garantias mínimas de respeito e eqüidade, seja de forma imposta ou espontânea, mas seguramente permanentes.
    É uma pena que mulheres, negros e LGBTs, para não enumerar outros grupos, pensem de forma semelhante a autora quando as raízes são mais profundas.

  4. Enquanto isso os japoneses descobriram alguma coisa relacionada ao virus da inflenza e/ou da gripe A.
    Vi a notícia na TV japonesa mas, não entendo nada de japones.
    Por isso, como sei que você lê, pelo menos de vez em quando, os comentários, gostaria de pedir para que expandisse(ou encontre alguém aí da redação para fazê-lo).
    Pode ser uma boa notícia…
    Boa noite,
    DS
    ====

  5. Outro dia li um artigo que começava com o seguinte título.
    Mas o que querem os gays?
    E aí o autor discorria sobre a suposta bobagem de envolver o estado em questões de minorias, evitar por exemplo, que fossem proibidas publicações alusivas a negação do holocausto, para ele não fazia o menor sentido. Este grande pensador ainda referia-se a não necessidade de o Estado disciplinar o comportamento social. (certamente um fumante)
    Pena que ele não é anormal. Pena que ele não vive pagando muito mais por que não encontra a proteção do fisco, na hora de fazer um financiamento por exemplo.
    Seria muito bom se os dedos do estado, não invadissem a privacidade das escolhas pessoais e os relacionamentos, por exemplo. Mas não é assim.
    Ainda ontem a Câmara de Deputados abriu as portas para todo o conservadorismo da Igreja católica, que em um acordo jurídico, volta a obrigar que as crianças na escola sejam doutrinadas sem terem idade e discernimento para fazerem as sua próprias escolhas. Isso entre outras questões oportunistas e sorrateiras que todos nós bem conhecemos. O acordo é vago em questões importantíssimas, e dá margem para futuras considerações.
    Portas abertas para os normais, cinismo e portas fechadas para quais quer que decidam ser diferentes, logo anormais.
    Nem dinheiro basta.
    Gays são piada, e não deveria ser assim. São uma charge do personagem que o imaginário popular personifica em qualquer um com esta opção.
    Achar que não é assim, é de uma ingenuidade cruel.
    A democracia implica que a luta por direitos e oportunidades sejam iguais, mesmo quando nada do tema tiver haver com o meu bem estar. Esta é a conta democrática, permitir que o próximo seja cerceado, mesmo em nome do bom senso, nada tem haver com ela.
    Se todos são iguais perante a lei, como justificar que alguns sejam menos iguais?
    Mesmo os mais radicais religiosos,sabem, a condenação é também fruto de livre arbítrio, e contra esse, nada além de palavras aos que se dispuserem a ouvi-las.
    Se nossa sociedade não responde nem ao poder do dinheiro, pode crer, não responde a mais nada.

  6. Tem ser humano que não quer saber quem o criou e qual é o objetivo original do homem e a mulher para viverem e serem fecundos: Gênesis: 2:18 a 25! Vejam o que o Supremo Deus o Criador de todas as coisas fala de quem se desvirtua da sua originalidade de homem ou mulher, isso é quem acredita! Alguém sabe o que Deus fez com Sodoma e Gomorra ? Leiam gênesis 19:24. e também; 1 Cor.: 6;9.10

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