A saia justa da Uniban

 

Por Carlos Magno Gibrail

“Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa!”

Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirantes de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, e cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de Turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados, e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22)”. FOLHA.

De lá para cá, todas as mídias abriram todos os tipos de espaço. Com razão, pois não é um fato pontual e ocasional. Há que estudá-lo, tal a complexidade da causa e a perplexidade do efeito. Não só momentâneo, mas também extemporâneo, pois Mary Quant, o pessoal de Woodstock e os estudantes revolucionários dos anos 60 jamais poderiam imaginar tal retrocesso social, político e comportamental. Nem mesmo as moças da foto de 37 publicada acima.

Mais do que o resultado do ENEM, que avalia apenas comparativamente o conhecimento, esta manifestação de massa certamente traz o reflexo de fatores primários inconsistentes diante de um ambiente universitário culturalmente acima daquele que os novos participantes não conseguem absorver, tal a diferença do meio que vieram.

O despreparo é gritante e deixa de ser intrigante a reação que se viu diante de um símbolo de moda colocado num ambiente não pertinente. Fato que se observa cotidianamente em todos os ambientes, sem que haja reações de massa e muito menos com a agressividade verificada.

Sociologia, psicologia, pedagogia e economia podem explicar setorialmente esta manifestação, mas a filosofia numa pegada freudiana, marxista e fascista, através da Escola de Frankfurt na passagem da predominância dos economistas para os filósofos, com os trabalhos de Theodor Adorno e Max Horkheimer na primeira metade do século 20, é que tem a resposta mais contundente. É o que confirma Paulo Ghiraldelli Jr. proeminente filósofo brasileiro, em sua análise “A moral por centímetros – o caso Uniban”:

“Adorno e Horkheimer apontaram o choque que as pessoas arcaicas, provincianas e vindas do meio rural tiveram ao chegar às cidades. Ficaram oprimidas pela organização que desconheciam e ficavam revoltadas ao perceber que existiam outros que se davam bem nesta estrutura.

No episódio Uniban, pessoas sem tradição familiar de frequentar faculdade, saem muito rápido de um ambiente que exige pouca capacidade intelectual para a Universidade. A Uniban ensina mal, paga mal, recruta mal. Absorve os alunos que não entraram ou não entrariam na USP, PUC, FGV, etc.

A menina de minissaia simboliza toda a Universidade com sua característica do diferente. O diferente simboliza todo o aparato novo que está oprimindo os que vieram de ambientes menos exigentes.

Se a Uniban tivesse obstáculo para entrar, obrigando a esforço de obtenção de conhecimento, se tivesse obrigado a estudar, a adaptação seria facilitada. Pois, por pior que seja é uma Universidade e apresenta enorme dificuldade de introdução dada a diferenciação de ambientes. Ainda há neste caso a questão do preconceito contra a mulher”. (Adaptado de Paulo Ghiraldelli Jr)

Definimos Moda como uma forma de comunicação, e Elegância como uma maneira pertinente ao ambiente de se vestir.

A Moda é o centro aparente da ocorrência e a não Elegância sua resultante, porém como quase tudo em nosso Universo, a causa do episódio não é aparente. É muito mais profunda.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Milton Jung e nunca se constrangeu diante de uma saia justa.

63 comentários sobre “A saia justa da Uniban

  1. Milton Jung, do enfrentamento com policiais, PMs,PEs,que resultou na liderança politica de hoje – PT,PSDB,DEM – ao apupo à mini saia, que liderança virá?
    Integralista?purista? ou anarquista?
    Ainda bem, como você ressalta não é a maioria que entra nesse ritmo de marcha militar.

  2. Rafa,

    Também sou contra a ditadura do politicamente correto e já sofri represálias em um artigo do Carlos Magno, por ter feito um comentário que soou como preconceituoso. Porém, entendi que minha postura(comentário), foi fora do tom do ambiente. Portanto, o espanto da sociedade pelas piadas do jornal dos alunos da USP, foi por se tratar de uma faculdade de DIREITO tida como uma das melhores do país quiçá do mundo, em que um calouro tem a imagem de nobre estudante. Uma instituição que, localiza-se no largo São Francisco que foi palco de batalhas na luta por democracia e igualdade social. Encaro humoristas seres com licença tal qual os poetas em que se permite licença poética. Enxergo estudantes de direito como futuros advogados, não como humoristas!

    Imagem: Se eu vir minha mulher na cama com outro homem, a imagem será prova definitiva que sou corno.(risos)

    Abraços

  3. Carlos e Milton,

    Por esses motivos, é concenso em toda minha familia responder todas as perguntas das crianças. Quando não sabemos, pesquisamos na internet junto com elas. Quem tem filho, tem que ter tempo para educar e evitar que não comentam barbáries e saibam agir como cidadãos quando exigidos.

  4. Beto, com.49, Imagem é quase tudo, há excessões, por exemplo Jorge Caldeira descrevendo o dia 30 de junho de 2002 em Yokohama,o gol de Ronaldo contra Oliver Kahn.Copa do Mundo.
    Caldeira consegue transmitir mais do que a imagem televisada usando a linguagem escrita.
    Beto x Rafa estão quase chegando lá.

  5. O caso UNIBAN não é mais de saia justa é de policia mesmo.

    SÃO PAULO – A Uniban decidiu expulsar a estudante Geyse Arruda, de 20 anos, hostilizada na universidade por cerca de 700 colegas no último dia 22. Na ocasião, a aluna foi xingada e cercada por estudantes por usar um vestido rosa e curto. A decisão foi publicada em anúncio em jornais de São Paulo deste domingo. IG

    Uniban anuncia expulsão de aluna hostilizada por usar minivestido
    Geysi Arruda afirmou ao G1 não ter sido notificada da decisão.
    ‘Se for confirmado, algo tem de ser feito’, disse. G1

    A decisão da UNIBAN, segundo ela própria foi tomada depois de investigações realizadas com os estudantes envolvidos.

    Isso é puro fascismo , a Escola de Frankfurt bem que alertou.e Goebel deve estar aplaudindo .

  6. Covardia, estupidez e preconceito. Estudantes e diretores da Uniban estão beirando a insanidade. Devem achar também que mulheres estupradas são culpadas pelo crime, e não o inverso… e eu particularmente serei extremamente criterioso na contratação de profissionais provenientes da Uniban… melhor prevenir do que remediar. E por fim, uma pergunta: afinal os estudantes (homens) da Uniban têm vontade de xingar e bater em mulheres de mini-saia??? Que reação mais esquisita!!!

  7. Beto

    É… há momentos em que, como diz a propaganda, a imagem é tudo.

    Bom, posso contribuir para dissipar seu “o espanto da sociedade pelas piadas do jornal dos alunos da USP”, bem em consonância com sua visão dos “humoristas” como “seres com licença tal qual os poetas em que se permite licença poética”.

    É que o jornal em que veiculada a malsinada piada era, nada mais nada menos, um jornal estritamente HUMORÍSTICO!

    Por acaso, estudantes – mesmo da “quiçá melhor faculdade” – não tem licença para fazer humor?

    Na verdade, os estudantes daquela Faculdade tradicionalmente usam o Humor como forma de criticar e satirizar a sociedade e a política (vide a Peruada). É o famoso animus jocandi!

    Mesmo a piada tida como racista teve, segundo alguns, o mérito de dar uma chacoalhada – ou incomodada.

    E o quanto ao futuro dos estudantes de direito: nem todos tem como sina vestir o terno todo o dia e enfrentar o dia a dia no fórum. Muitos se tornaram músicos, poetas, escritores, políticos, atores (até comediantes, ora pois). Outros, por increvel que pareça, seguiram a carreira de advogados, promoteres, juízes – muitas vezes bem humorados! 😉

  8. É bem por aí, Carlos.

    Lógico, não é que devemos ser politicamente INcorretos. Só não podemos deixar que a idéia de ser politicamente corretos nos impeça de pensar e questionar sob pena de condenação moral automática.

    Acredito até que esse tipo de pensamento pré-estabelecido fácil contribua para episódios como o da Uniban: “É puta, é imoral, logo, podemos achincalhar impunes”.

    Pior é ver a própria Instituição chancelar esse comportamento. Voltaram atrás, mas pela pressão.

  9. Sim Rafa, sou adepto do bom humor e recomendo, a licença e pra todos. Admiro os humoristas inteligentes e criativos, venham da realeza ou da plebe.

    O humorista elegante, sabe o tom exato para não cometer a deselegância do humor negro; este que além de instigante é de fácil composição, e no meu ponto de vista, deve ser repudiado por quem se sinta ofendido, seja qual for o motivo. Afinal, quem não se defende de uma ofensa/ataque, é porque se acha merecedor.

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