Da estupidez da enchente à gentileza do banheiro

 

Por Abigail Costa

– Moço qual é o próximo voo?
– Para onde senhora?
O moço elegante e engomado da companhia área parecia surpreso.
– Destino? Qualquer um, desde que a chuva não pare a cidade.

Esse diálogo só aconteceu na minha cabeça, tamanho o desespero de ficar três horas e 10 minutos para percorrer 23 quilômetros do trabalho para casa.

Deu fome e pra encher o estômago água. A água engana mas enche a bexiga, logo…
O negócio começou a apertar.

No rádio, o Eros Ramazzotti cantava “Unica come sei”. E eu respondia: única e sem saída. Assim que encontrei uma, tive que decidir: entre a Marginal congestionada e a avenida lotada. Optei pela avenida. Pelo menos tinha a chance de encontrar um boteco – meu interesse imediato era um banheiro.

Nada de restaurantes, bares.
Um posto no meio do caminho, no meio do caminho um posto.
Aleluia !

Já não tinha mais vontade de nada. Sentia dores. Na bexiga? Nem sei dizer, já estava generalizada, sem exageros. Parei o carro, desci meio curvada tentando me equilibrar no salto alto (tão elegante sempre, e tão ridículo naquele momento).

Meu primeiro olhar encontrou a placa SANITÁRIO. Foi tipo paixão à primeira vista. Ela piscou pra mim. Antes precisava localizar o frentista. Estava na cara que a porta estava trancada. Imaginei uma linha reta e mirei o rapaz gordo de boné vermelho.

– Posso usar o banheiro?
Ele sem nenhum pudor:
Vai trocar o óleo, hein?
Não entendi a brincadeira, ou não quis. Queria sim um banheiro.

Sorridente, ele saca um galão de óleo vazio que servia para segurar uma pequena chave. Agarrei o galão como um troféu e me mandei. Claro que a caminha ao meu destino não foi fácil. Passar entre os carros com aquele negócio nos braços, chamava a atenção. E muito.

Alguns motoristas sabiam exatamente onde eu ia. Certamente muitos já teriam passado por isso. Mirei a setinha enquanto pensava: Mesmo que não tenha papel já tô no lucro. Quando abri a porta, estava num oásis. Limpeza, papel higiênico, papel toalha e sabonete líquido. Nem acreditei.

Passada mesmo fiquei quando li na parede:

“Senhores clientes, caso não encontre o recinto limpo, sem papel ou com problemas de iluminação, aperte a campanhia e avise a gerência”.

Como assim? Estou fora de São Paulo ?

Aquilo me fez engolir a vergonha que estava sentindo em ser paulistana e sentir orgulho das pessoas que tentam fazer desta cidade um pouco melhor. Evidentemente, fui agradecer ao frentista. Ele ficou até meio sem graça. Talvez como eu, não esteja acostumado a gentilezas.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung e teve de encarar com altivez o temporal de ontem na cidade de São Paulo

6 comentários sobre “Da estupidez da enchente à gentileza do banheiro

  1. Ainda sobre a limpeza nos lavatórios…

    Abigail, sou comissário de bordo e meço a educação (ou a falta dela) de um povo pelas condições que encontro os lavatórios dos aviões.

    Quando eu fazia voos para a Inglaterra ou Alemanha, os lavatórios dos aviões permaneciam imaculadamente limpos durante as 11 horas de voo. Já para Portugal, tínhamos que verificá-los frequentemente, pois os passageiros simplesmente ignoravam os avisos para jogar papel no local apropriado.

    Aqui no Brasil, os voos para o Norte e Nordeste também são complicados. E não somente nos lavatórios, como também na cabine de passageiros. No final dos voos, os bolsões das poltronas invariavelmente ficam atulhados de lixo, ainda que os comissários, minutos antes do pouso, passem pela cabine recolhendo papéis, guardanapos, jornais já lidos, etc… etc…

    Pergunto: por quê?

    PS: Deixo claro que adoro Portugal e os portugueses, como também adoro o Norte e o Nordeste do Brasil e seus habitantes, ok? Espero que meu comentário não seja encarado como preconceito, pois não é. Na verdade, é somente uma constatação

  2. Muito obrigada !

    Se aquele sanitário foi um oásis pra você, suas palavras tiveram o mesmo efeito para mim.

    Independente dos outros, tento fazer minha parte. Mas, confesso que venho me sentindo desanimada.

    Cada vez mais as pessoas pensam somente em si, e diga-se de passagem, a curto prazo. Afinal, se fosse o contrário, fariam um esforço de manter a ordem para o futuro.

    Por que me preocupar se os outros (e muitos) jogam um papel pela janela do carro, se a prefeitura não tem capacidade de manter a cidade limpa ?

    Por que jogar o saco de pipoca no lixo após a sessão de cinema, quando a impressão que tenho é de que sou a única ?

    Suas palavras mostram que existem pessoas que fazem sua parte e existem pessoas que dão valor a isso.

    Ânimo revigorado !

    beijos,
    Silvia

  3. Abigail, foi depois de um dia de chuva em que eu fiquei 2h dentro do carro para percorrer 8km que eu desisti do automóvel e adotei a bicicleta. E olha que eu tinha um carro bom, esportivo, com ar condicionado, direção hidráulica e outros confortos, que nem assim compensavam o desconforto de se sentir prisioneiro em plena avenida. Nem penso em voltar a usar um carro para ir ao trabalho – e olha que são 15km de distância hoje em dia, vencidos calmamente pela bicicleta em 50 minutos, faça chuva ou faça sol.

  4. As três horas no meio do congestionamento, parece, que em segundos, foi esquecida. Sabe que podemos sim ganhar presentes em meio a tempestade, literalmente. Um sorriso acolhedor, uma brincadeira: “moça, vai trocar o óleo?”, um aviso, educado, no sanitário de um posto, e finalizando com um OBRIGADA. É… se sua bexiga não tivesse apertada o texto de hoje poderia ser como a maioria das manchetes dos jornais: paulistanos ficam três, quatro horas no congestionamento. Trânsito para chegar em casa…
    Como sempre, sutilidade e gentileza nos seus textos. Reflexo do que você dá e recebe no dia-a-dia.
    Parabéns.

  5. Abigail, sorte que vc não estava na praia grande e Mongagua no final de ano. A grande maioria usava um velho truque de que o banheiro acabou de quebrar e por isso não dá para usar. E o que dava para usar estava em estado precário e tinha banheiro de quiosques que nem água tinha para lavar as mãos. Banheiro para deficiente nos quisques nem pensar. A pergunta: será que não tem fiscalização trabalhando no período de fim de ano nas praias para multar esses quiosques? Durante a noite até as mulheres procuravam um local mais escuro na praia para fazer xixi. Os homens já estão acostumados a urinar na água ou na praia a noite. Fui na quadra da Rosas de Ouro nos ensaios e tive que usar o banheiro, quando entrei tinha pelo menos uns 20 homens em pé urinando nas paredes do banheiro e a poça de urina que se formava era muito grande e o cheiro insuportável. Um amigo americano que foi para conhecer a escola entrou no banheiro e ficou assustado com a cena. Ele preferiu segurar a onda mas não quis entrar naquele banheiro nojento para usar. Banheiro é um caso sério não só em Sampa mas no Brasil em geral. Minha amiga alugou um galpão para vender doces e o Fiscal da prefeitura só liberaria o álvara se tivesse dois banheiros (Homem) e (mulher). Engraçado é que a maioria das lojas nem banheiro tem. Pelo menos eles falam que não tem. Será que os funcionários dessas lojas não usam banheiros? Deveria ser obrigatório qualquer estabelecimento comercial a ter pelo menos um banheiro e na loja placas indicando onde fica o sanitário. A virose correu solta na praia, será que é falta de banheiros decentes e limpos, e a maioria faz da praia um banheiro a céu aberto a noite e tbém de dia dentro da água.

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