O insustentável preconceito do ser !

 

Por Rosana Jatobá

álbum de jef_safi no Flickr

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

– Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os “Paraíba”, que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a “Cabeça chata”, outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor”.

“É ofensivo”, diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão “pé na cozinha”, para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra “niger”para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
“Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe”…que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).
Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan “black is beautiful”. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém.

Será que na era Obama vão inventar “Pé na Presidência”, para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como “inofensivos”, mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

– A minha “criadagem” não entra pelo elevador social !

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, “viado”, maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

– Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!

Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
– Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia …

Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: “O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos…

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre vida e consciência sustentáveis

Veja outras fotos no álbum digital de Jef Safi, no Flickr

30 comentários sobre “O insustentável preconceito do ser !

  1. Rosana,

    Meu dia promete, hoje.
    Cedinho o sol apareceu lindo, e a leitura do teu texto foi um deleite só; do início ao fim. Fundo e forma; como você

    Parabéns e obrigada.

    Beijo,
    ml

  2. Ola Rosana
    Bom dia!

    Muito oportuno seu artigo de hoje.
    Realmente a discriminação é um tema muito sério e a maioria não está nem ai.
    Tanto é que é considerado crime de acordo com o código penal.
    Se uma pessoa é bem posicionada financeiramente, materialmente, tiver ben, etc, certamente “será reconhecido” e aceito pela sociedade “mais poderosa”
    O dia que esta pessoa numa acidente de percurso perder os seus bens materiais, a posição social, certamente será banido pela “roda”.
    Acontece até entre familias.
    Parentes ricos abandonam os mais pobres, pais que abandonam filhos, esposas, filhos que abandonam pais porque o pai “deixou de ser rico’, chegando ao absurdo de executarem o proprio pai ou aa mãe na justiça cobrando pensão alimenticia, comor elatei recentemente aqui no blog o caso de um conhecido que perdeu o seu emprego, ficou na pior e foi preso a mando dos proprios filhos maiores, saudáveis porque não tinha dinheiro para pagar a pensão alimenticia.
    Um caso de um dentista negro que foi assassinado friamente por policiais que imaginaram que seria um bandido.
    A uns anos, levei um amigo negro norte americano, medico Phd para almoçar em um clube e este, sutilmente foi impedido de entrar.
    Idosos “saudáveis” são postos para fora de casa, em precários azilos,, pelos filhos, netos, porque idoso nas “suas concepções” dá trabalho e assim o fazem com objetivos de ficarem com a sua aposentadoria, imovel.
    Triste mais é a realidade.
    Assim é a humanidade
    Só que ninguem sabe o dia de amanhã.
    E vento que sopra lá, sopra cá.

    Abraços
    Armando Italo

  3. Outro dia falei aqui no trabalho que o visual do projeto ficaria “baiano”. Meu colega de João Pessoa perguntou “Como é que é???”.

    Me senti mal pra caramba, e tentei explicar como o termo está impregnado no nosso vocabulário, mesmo que com outra conotação. Sem sucesso. Mandei mal mesmo.

    Outra palavra é “denegrir”, que parece tão bonita se não estivesse carregada de racismo e todo mundo usa…

  4. Infelizmente o povo brasileiro de maneira geral é preconceituoso, egoísta, relaxado e inanimado na hora de cobrar quem se deva.
    Preste atenção: um simples boicote a um produto, por uma propaganda “mal pensada”, ou por uma atutude “errada” da empresa ou de quem ela patrocina, não pega. Hoje a maioria dos pais não educam seus filhos, deixam isso apenas com a escola, e sabemos a quantas anda o nosso ensino. Todas as ações da sociedade civil, embora sejam importantes, representam uma pequena parcela de interessados.
    Sinceramente acredito em melhoras, mas talvez para meus netos.

    Abraços,
    Lucas Maximiano Righi

  5. Ah! Rosana Jatobá! Admirável resultado dessa mistura de cores, crenças e mentes.
    @Lya_Luft disse no twitter: Preconceito é uma doença. Não do corpo, mas da alma. As pessoas com essa doença pensam tudo torto, enxergam errado.

  6. Rosana,

    Sou paulista, filho de baianos com avô materno negro – meu avô foi uma das pessoas mais extraordinárias que conheci. Minha madrinha e mentora filha de italianos, me ensinou a me portar e me impor como homem e nunca esquecer minha condição e, isso faço questão de enfatizar sempre. Como vc, ouço piadas e comentários racistas e contra baianos, como se eu não estivesse presente; comentários estes, sempre acompanhados de desculpas -veja bem amigo, não tenho nada contra negros e nordestinos, a beleza do nosso país esta na mistura; me desculpe pelo amor de Deus. Certa vez em um restaurante em Florianópolis o garçom me disse: -desculpe a confusão senhor, este ano recebemos muitos nordestinos e a língua deles nos deixa confusos. Depois do sorriso amarelo, jantei tranquilamente e, depois de pagar a conta e dar uma boa gorjeta disse: Amigo, sou baiano e meu avô era NEGÃO, parabéns por seu trabalho. Abraço!

    Por outro lado, as duas únicas claras manifestações racistas que sofri, foi por mulatos pelo motivo da minha condição social. E, isto sofro até por parentes que, até já me consideraram “viado” por eu saber me portar à mesa e gostar de mocassim de camurça.

    Nossa sociedade é isso: A hipocrisia está no sangue de todos. Meu amigo gaúcho de Pelotas, não é “baitola”

    Rosana, a baiana tem bagagem para nos informar muito mais que a previsão do tempo, parabéns!

  7. Bem que dizem que, o preconceito é resultado da ignorância.
    Uma vez, trabalhei numa indústria onde o dono dizia: “preto só na obra.Não é que eu tenha preconceito. Isso não. É que eles têm um cheiro forte e aqui é indústria alimentícia e tenho que zelar pelo produto.”
    Vê se pode. Adorei mais este texto. Valeu!

  8. O Brasil é uma democracia racial não porque não exista preconceito. Mas sim porque o preconceito não impediu que todas as cores de pele se misturassem e formassem essa miscigenação que é a marca registada do Brasil.

  9. Me incomoda de ser chamado de japonês, apesar disso estar na cara. Me incomoda porque isso vem carregado de preconceito. Mas também não me vanglorio porque os japoneses conseguriam quebrar esse preconceito, isso seria um preconceito as avessas. Procuro ser tole
    rante quantos as diferenças de qualquer gênero, bendita herança da minha mãe.
    Nas ruas vemos esse preconceito velado, eu jamais fui abordado por policiais independen
    te do horário. Em compensação já perdi a conta de quantas vezes eu vi motociclista e carona abordados por serem negros ou mulatos.

    Outro dia o meu filho ficou indignado, estava ele num fórum e um homem foi constrangido a mostrar a carteirinha da OAB para poder entrar num horário reservado aos advogados.
    O meu filho sendo estagiário do departamento jurídico da faculdade tem o mesmo direito, e algumas vezes tem que ir de terno. Nessas ocasiões é até chamado de “doutor”, apesar do seu aspecto juvenil, e isso aumentou a sua indignação.
    Ah, o homem em questão é advogado sim… e negro.
    E acho que o legado da minha mãe vai continuar.

  10. Quando vemos um trem como este, com vagões antigos e desgastados pela ação do tempo, logo somos remetidos a algo velho, sujo, antiquado.

    Não nos permitimos perceber o mistério da mulher lânguida, instigante e atraente que existe ali dentro. Enganados pela aparência, abrimos mão de uma experiência única e surpreendente.

    Belíssima a foto usada para ilustrar um texto que descreve muito bem as nuances do preconceito que embebe as relações em nossa sociedade.

  11. Querida, simplesmente espetacular seu artigo de hoje. Já morei nessa São Paulo desvairada que aprendi a gostar, já passei porisso de citarem tudo de ruim de baianada, sem saberem esses “filósofos” que todos os “baianos” nordestinos ajudaram a construir uma “nação” dentro de outra Nação. Hoje mesmo acompanho diariamente a novela TEMPOS MODERNOS para poder me lembrar da galeria Preste Maia que vi ser inaugurada ali na frente do Largo Paissandu, que é praticamente o tema desse folhetim, onde me diverti muito – um abraço

  12. Rosana, eis aí um tema que é preocupante.
    A popularidade extraordinária de um presidente sem erudição alguma, mas bastante culto no sentido exato da palavra, poderia demonstrar ausência de preconceito. Entretanto não é o que ocorre.
    Verifica-se inclusive em escolas que não admitem alunos com quaisquer anomalias.
    Além disso temos esses casos como o dos “baianos”, “paraibanos” que não tem nada a ver com os nascidos na Bahia ou na Paraiba. Assim como também quando se usa o verbo judiar.
    Levantar a questão como você bem fez agora é uma das maneiras de enfrentar os êrros de linguagem e quem sabe um dia eliminá-los.
    Não só na forma mas também na essência, que resultaria na extinção do preconceito.

  13. Acho que a mídia é muito preconceitusosa com muita coisa ainda.. Foi difícil a midia engolir, que um torneiro mecânico, nordestino e sem um curso universitário chegasse ao posto de Presidente da República. Isso incomodou muita gente. eu achei o máximo. Assim como achei o máximo o Barack Obama chegar ao posto de Presidente do Primeiro Mundo. Todo mundo fala que o americano é preconceituso, mas nos Estados Unidos vc tem emissoras de rádios e tvs voltadas para o público Latino. Nós moramos na America Latina, muita gente vem morar ou passear no Brasil vindos do Chile, Paraguai, Bolivia, Uruguai, Argentina entre outros países e nós não temos uma TV ou Rádio feita aqui no Brasil para atender esse público, falando a lingua deles. Te garanto que se nosso vizinho fosse a Espanha por exemplo, todas as emissoras teriam um espaço para musica, show, jornalismo e cultura desse País. Agora, vc não vê um show na TV de um Chileno, um Paraguaio, Uruguaio e Boliviano. Será que nesses países vizinhos não temos bons musicos ou artistas? Vejo cantores brasileiros fazendo duetos com americanos, espanhois, franceses, italianos, mas não vejo nenhum cantor brasileiro convidar um artista paraguaio, boliviano, chileno para fazer dueto. Ou nesses lugares não têm bons cantores? E filmes Latinos, alguém assiste nas Tvs? A Argentina ganhou um Óscar esse ano. Será que esse filme um dia vai passar aqui na TV? Filmes Latinos no Cinema nem se fala. Dá para contar nos dedos de uma mão só. Alguém ouve músicas dos Países Latinos nas emissoras de rádios do Brasil. Se tiver é muito pouco. Fizeram novela sobre a India, Italia e USA mas nunca vi uma novela retratando os países da America Latina. Engraçado é que quando vamos passear nos países da America Latina, ouvimos vários artistas brasileiros tocando nas rádios e tvs local. E eles adoram saber do Brasil. Quando Bolivia, Colombia e Paraguai saem nos noticiários é só para falar dos narcotraficantes e pirataria. Mas quando os Estados Unidos mostram cenas da violência do Rio de Janeiro e prostituição infantil todos os brasileiros ficam indignados. "Nossa, os americanos só mostram o lado ruim do Brasil". e o Brasil faz o que quando fala dos países da America Latina? Mostra a cultura, mostra o povo de lá? Não. No futebol nem se fala. Se o Brasil perde para um time da America Latina é o fim do mundo. Não aplaudem a vitória do adversário, tentam achar culpados para a derrota. Imagina, o Brasil perder para esses times. Algo tá errado com a Seleção. Demite o técnico. E livros, alguém consegue achar facilmente um livro feito nesses países? Na lista dos 10 livros mais vendidos figuram sempre os de autores americanos e brasileiros. Não existe escritores na America Latina? A gente fica revoltado quando um americano acha que o Brasil é o País da Valsa. Mas alguém sabe a dança mais popular da Bolivia, do Paraguai, do Chile, Equador ou da Colombia? E as lojas do Brasil com fachadas em inglês tudo mundo vê aos montes. E fachadas com nomes de lojas em espanhol alguém vê aos montes? Como diria Lô Borges "Todo dia é dia de viver
    Eu sou da América do Sul"

  14. Rosana,

    muito bom e oportuno seu artigo. Eu que me policio para evitar qualquer preconceito fui pego em flagrante por mim mesmo ao me surpreender com seus artigos como se uma moça bonita, que apresenta a previsão do tempo, não pudesse pensar e/ou escrever tão divinamente bem.

    Quanto às palavras temos que ter cuidado com aquelas enraizadas no subconsciente de cada um. Imagine que eu, sendo argentino, ao deixar cair uns ovos no chão da sala ouvi de uma amiga q era tb nordestina: -tinha que ser baiano… rsrs

    Muita luz p/ vc!

  15. Gostei muito do texto, o que me fez lembrar de um episódio que vivi quando tinha uns vinte e poucos anos, recém formado e começara a trabalhar em uma empresa, que revendia produtos importados para indústrias. Alguns importadores independentes e que não eram do ramo, começaram a importar os mesmos produtos, de fontes alternativas, com qualidade inferior, sem garantia, etc., e de certa maneira, atrapalhavam muito o nosso negócio. O segmento congregava-se numa espécie de associação, que se reunia periodicamente para discutir interesses do setor. Um dia meu chefe me chamou e disse para eu ir representá-lo numa reunião, pois ele estaria viajando. Fiquei muito orgulhoso e apreensivo pois, os que iam àquelas, reuniões eram sempre os diretores das empresas. Lá chegando, apresentei-me e fui conduzido a uma grande mesa oval onde já estavam sentados alguns. A reunião começou, com uns quinze participantes. Várias opiniões, risos, e piadas depois, um dos presentes disse algo como " esses judeus gananciosos, só pensam nos lucros deles…". Eu fiquei indignado e paralisado, e por alguns segundos imaginei o que poderia dizer para rebater aquela odiosa observação. Imediatamente, um senhor de uns 40 anos levantou-se, deu um retumbante murro na mesa e com veemência, num carregado sotaque nordestino disse, apontando para os presentes: Nós, brasileiros descendentes de escravos negros, não temos o direito de sermos racistas. Exijo uma retratação. O outro cara tentou se justificar, mas eu não ouvi mais nada. Fiquei pensando e admirando o caráter daquele homem e me sentindo muito humilhado por não ter tomado a iniciativa de ter reagido. A reunião terminou e, por várias razões, eu nunca mais vi aquelas pessoas.

  16. Gabriel, (14)
    Obrigada pela sua participação.
    Seu comentário me faz recordar várias situações que enfrento na vida, cuja raiz é a mesma: a surpresa das pessoas diante da falência dos próprios conceitos pré-estabelecidos.
    Certa vez, um professor de Direito Tributário, matéria considerada difícil, fez uma pergunta em sala de aula. O silêncio dos alunos durou alguns minutos e foi interrompido pela minha resposta, correta.
    Ele, admirado, “vomitou”: – Nossa, você , com tanta beleza, pensa! Eu achei que você não pensasse!
    Eu tive vontade de repreendê-lo, mas a tristeza não deixou. Como um mestre poderia ser tão deselegante?
    A partir daí, senti necessidade de sempre deixar claro meus atributos intelectuais e buscar uma imagem mais séria, escondendo o viço de uma jovem de 17, 18 anos…
    Percebi que tinha caído numa armadilha: virei refém de uma imagem , construída só para não ser taxada de burra pelos outros.
    Com a maturidade, que não traz apenas rugas, me libertei da insegurança e até me divirto quando alguém se surpreende comigo.
    Um ditado resume a situação: “Quem se gaba de manter suas escrivaninhas sempre arrumadas, desconhece o prazer de encontrar algo que julgava perdido”.
    Ou seja, a possibilidade de se supreender e mudar, sempre traz alegria e crescimento!
    Obrigada pelo elogio, mas devo dizer que aquela imagem da moça do tempo é fruto de muita produção ( mãos de fada do meu maquiador, o Gil Fernadez) , e de um arsenal tecnólogico da Globo. Sou como tantas outras mulheres que estão ao seu redor!
    Beijo grande.

  17. Tanto sofrimento e indignidades têm em comum uma raiz curiosa, nós humanos. Os únicos capazes de mitigá-los ou multiplicá-los exponencialmente. A piadinha é tão gostosa, a brincadeirinha sempre tão inocente…
    Testemunho de quem sofreu e sofre de muitas delas, não tem graça nenhuma e cedo ou tarde a piada se volta contra o comediante, especialmente se ele for como a maioria de nós, brasileiros crioulos (no sentido literal da palavra).
    Mais uma bela reflexão Rosana, obrigado.

  18. Impressionate esse seu artigo. Enfoca de várias formas a mais pura realidade do preconceito no Brasil. A meu entender o preconceito é causado pela ignorância, que leva à discriminação, à marginalização e à violência. Estas atitudes vem acompanhadas por teorias diversas. O racismo e o etnocentrismo defendem e praticam a superioridade de povos e raças, mas talvez o maior preconceito pode ser motivado pelo medo.

  19. Olá, pessoal sou o maquiador da Rosana a qual ela se referiu,
    Vocês não tem idéia e quanto isso me faz feliz, a Rosana enxerga as pessoas com os olhos da alma, ela é um ser de
    muita luz na qual nos aproveitamos para bilhar os nossos caminhos, Deus me deu o dom da beleza, mas ela não existiria se não enxergassemos o que e belo.
    Não quero com isso jogar confetes é apenas um modo carinhoso de mostrar minha gratidão a essa pessoa que amo tanto, uma amiga irmã. A sua intelectualidade não deixa que a soberba tome conta, ao contrário ela agrega cada vez mais o numero de pessoas que a admirão.
    Um grande abraço a todos e continuem prestigiando essa pessoa tão talentosa e carismatica.

  20. Rosana,

    Como sempre brilhante, sempre surpreendendo.
    O seu texto me faz parar e refletir na vida e como as vezes somos preconceituosos. Vou ter mais atenção com as palavras.

    Beijos,
    Fernanda Braga

  21. Rosana,
    Adorei seu texto. Concordo com você em todos os aspectos citados. Apenas gostaria de acrescentar: o preconceito não está apenas nas palavras, mas encontra-se também no modo de agir.
    Eu tive um estádia preve em São Paulo e percebi como as pessoas mudam de tom quando você diz que é (no meu caso) paraibana.
    É bem simples. Imagine uma conversa casual. Pessoas rindo. De repente, alguém pergunta para você em que cidade nasceu… Pronto. As feições mudam e, inclusive, o tom de voz. É incrivelmente nauseante.
    Voltando ao seu texto: perfeito!
    Abraço!

  22. Rosana,
    Sou jornalista, negro, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul e moro em São Paulo há um ano e meio. Seu texto é um achado interessante. Em uma socieda onde bem mais importante é a informação, as palavras se transformam em ferramentas capazes de carregar o poder. Tem um texto do Eduardo Carvalho que diz: “No princípio era o verbo.
    Depois vieram os substantivos, os adjetivos, os pronomes.
    E o homem começou a produzir discursos e a conquistar seu mundo por intermédio da palavra. Nominar para conhecer, conhecer para conquistar. E jamais houve arma mais poder…”. Enfim, seu texto me fez lembrar de várias coisas. Em Campo Grande, os nordestinos são os “Ceará”. Em São Paulo, as pessoas de Campo Grande são do Mato Grosso. O “do Sul” tão importante que reforça nossa identidade nunca é lembrado. Um amigo disse que em Porto Alegre, entre os gaúchos brancos, quando alguém faz alguma besteira, que os paulistanos falariam que é uma “baianada” eles falam que é um “negrice”. Expressões tão cotidianas, mas que gritam em ouvidos mais atentos. Preconceituosas reforçam estigmas e discriminam determinados seres.
    Enfim, fiquei feliz em saber que essa é uma preocupação sua também. Abraço.

  23. Rosana, tutto bene?
    Li este texto maravilhoso que uma cara amiga – Marize Muniz – postou no Facebook (link Blog do Milton Jung). Simplesmente “stupendo”, como dizem os italianos e lembrei-me de uma frase do genial Albert Einstein
    “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.”
    baci mille!!

  24. Faço minhas cada uma das suas palavras. Impecável tradução desse preconceito velado, aceito e “normalizado” na sociedade. Sonho com o dia em que mudemos esse códigos…

  25. Rosana,
    Que texto maravilhosos! Um pouco tardio meu elogio, mas infelizmente somente hoje tive conhecimento dele.
    Sou Baiana, negra e convivo diariamente com o chamado ‘preconceito velado’, é ridículo. Tenho pena daqueles que manifestam tal atitude.
    Divulgei seu texto para o maior número de contatos.
    Conheci você quando foi mestre de cerimônia na festa de 25 anos da empresa que trabalho. Amei te conhecer (detalhe: achei que eu era a única de logo estampado e fiquei deslumbrada quando também te vi de longo estampado).

    Parabéns!! Grande Beijo.

    Geo

  26. Rosana, parabém texto e pela sua coragem em defender a nossa etnia.
    Sou negra, nordestina (Bahia) e já moro no Rio de Janeiro a quase 12 anos, vez por outra deparo-me com pessoas de mentalidade fútl e vazia que valoriza a pele branca como um trofel, e quando fazem brincadeirinha de mal gosto eu replico, se eu como negra, nordestina e suburbana conseguir conquistar os meus ideais e vocês de cor branca, do sudeste ainda estão a agalgar um lugar ao sol alguma coisa está errada, não achas? Gosto um texto bíblico que diz: conhecereis a verdade e a verdade vos libertarar, bom que todos um dia possa ser libertos da ignorância….. Beijossssssssss

  27. Rosana, parabém pelo texto e pela sua coragem em defender a nossa etnia.
    Sou negra, nordestina (Bahia) e já moro no Rio de Janeiro a quase 12 anos, vez por outra deparo-me com pessoas de mentalidade fútl e vazia que valoriza a pele branca como um trofel, e quando fazem brincadeirinha de mal gosto eu replico, se eu como negra, nordestina e suburbana conseguir conquistar os meus ideais e vocês de cor branca, do sudeste ainda estão a agalgar um lugar ao sol alguma coisa está errada, não achas? Gosto um texto bíblico que diz: conhecereis a verdade e a verdade vos libertarar, bom que todos um dia possa ser libertos da ignorância….. Beijossssssssss

  28. Minha cara Jatobá, não sei se o texto é seu, mas recebi um texto sobre “CRÔNICA SOBRE A DIVERSIDADE E O PODER DAS PALAVRAS POR ROSANA JATOBÁ”. Sim o que diz é verdade, somos preconceituosos. Infelizmente trata-se de raiz de sobrevivência e competitvidade que somos providos, onde suponho seja genético. Concordo que somos a mesma nação, mas com colonizações distintas. São Paulo tem uma raiz italiana prioritariamente, apesar da miscigenação índia e portuguesa de seu início. O que descreve é o choque dessas culturas. Onde nós temos hábitos advindos da criação italiana e vocês (nordestinos) de uma cultura, talvez portuguesa, na questão da imundice que encontrei no meio da rua em Recife. Uma cidade linda mas infestada de lixo (matéria orgânica em decomposição) e montes significantes onde o peso era significante. A vida para os que aqui chegam é difícil, viajei de ônibus para o Recife e vi a alegria da volta ao lar, à raiz, à sua infância, a sua segurança. É triste o abandono que eles com coragem se lançam e chegam aqui com a cabeça cheia de sonho. Alguns voltam e conseguem prosperar, outros desistem e vivem as custas do governo. Não creio que esse seja o caminho do Nordeste, mas uma vida com oportunidades ( o dinheiro jogado lá colocado para auxiliar o povo a se desenvolver e não para enriquecer4 quem já tem muito, ou para sustentar amante como no caso da Monica do Renan) Elogiar um presidente corrupto, ladrão, sem-vergonha que compra o voto do nordestino sem dar nada em troca para os libertar do jugo dos coronéis do velhos redutos de poder da região, só por que é nordestino. Acho isso um preconceito da sua parte. E isso não muda ele ser semi-analfabeto, torneiro-mecânico, inteligente, mas vagabundo como todos que se aproveitam do governo. O nosso problema de preconceito é cultural, onde o choque da cultura indígena totalmente adversa à cultura européia. Uma se satisfaz com o necessário possível e a outra se aventura em conquistar e fazer dos outros seu escravo para que possa ter mais. Infelizmente o seu texto vejo como incompleto pois é parcial. Vejo a coisa como muito detalhista, onde ambos os lados tem responsabilidade e há a necessidade de se ACEITAR, a cada um com sua diversidade cultural e de personalidade. Um texto desses é apenas um desabafo sobre a sua pressão sofrida ou de alguém que se valeu de seu nome para assim valorizar e dar credibilidade a um assunto onde ambos os lados tem que ceder para se conviver. E como brasileiro, paulista, paulistano e mooquense, faço tanto parte do Seu Brasil, como você faz do meu.

    Um abraço.

  29. senti na própria pele este tipo de discriminação preconceituosa, vindo de alguns paulistas enquanto fazia mestrado no interior de São Paulo. É indignante! Ficava muito irritado… a “baianada” eh muito comum escutar.

    Mas, como a Rosana fala, está tão arraigado no costume paulista, que muitos deles nem falam com a intenção de falar mal do nordestino, embora seja deverás ofensivo!

    Muito bem escrito!!!

  30. BOA NOITE…
    SE ESQUECEM DAS LINHAGENS TRAZIDAS PARA O BRASIL…
    OS BRANCOS: DEGREDADOS, DESGRACADOS DE TODA ORDEM…
    OS NEGROS: REIS, RAINHAS, PRINCESAS, NOBRES…
    SÓ ISTO…
    SOU DE DESCENDENCIA BRANCA, E DAI… NAO MUDA O FATO DE TODOS NOS PERTENCERMOS A RACA HUMANA…

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