A violência diminui na África, só até o fim da Copa

Direto da Cidade do Cabo

Jornal da Cidade do Cabo

Duas moças apareceram mortas dentro de uma casa em Parrow, região bem distante dos olhos dos turistas que estão na Cidade do Cabo. Talvez do alto da Table Montain, visitada aos milhares todos os meses, um observador mais atento, de costas para o mar, conseguisse enxergar no horizonte resquícios deste distrito que está no subúrbio e assistiu ao seu empobrecimento, desde o Apartheid. Uma com 20 e a outra com 19, eram amigas de escola e a suspeita é que foram assassinadas por um rapaz que as conhecia. A mais velha das duas vinha se recuperando do vício das drogas, mas parece ter perdido a luta. A polícia promete investigar os motivos do crime e imagina apresentar o matador em breve.

O duplo assassinato vai parar na primeira página dos jornais locais muito mais pela relação que havia entre as duas estudantes e o provável assassino, pois sem o olhar jornalístico da busca do sensacional, o caso seria apenas mais um a fazer parte da crônica de violência contada todos os dias nas cidades da África do Sul, que dominam a parte mais baixa das listas internacionais de pesquisas sobre qualidade de vida.

Por contraditório que pareça, o Cabo que surge no topo destas classificações (é a quarta colocada entre cidades do Oriente Médio e África, segundo pesquisa mundial da Mercer que presta serviço na área de consultoria) não consegue esconder a chaga provocada pela brutalidade. Está aqui a mais alta taxa de homicídio do país com 62 assassinatos por 100 mil habitantes, surpreendente para quem anda nas ruas bem policiadas, neste período de Copa.

Policia na Cidade do Cabo

Para o Mundial, o governo africano incrementou em 44 mil o número de policiais para tentar controlar a violência. Hoje, são 190 mil de acordo com dados oficiais. E especialistas em segurança veem com otimismo o resultado alcançado até aqui, apesar das constantes notícias de turistas, jogadores e jornalistas assaltados, principalmente em cidades como Johannesburgo e Durban. Ontem mesmo, colegas nossos tiveram o cofre de seus quartos arrombado e todo o dinheiro levado embora. As estáticas mostram que o roubo é o “esporte preferido” dos bandidos sul-africanos.

Instituições que estudam questões relacionadas a segurança pública afirmam que os cerca de R 1,2 bilhão investidos no setor para a Copa do Mundo – isto representa algo em torno de U$ 173 milhões – tem reduzido os índices de violência. Gareth Newham, do Instituto para Estudos da Segurança, comparou as taxas de crimes com a Copa do Mundo de Críquete (esporte levado a sério por aqui), em 2003, e calcula que houve, com a de futebol, uma redução de até 24%, segundo informa o jornal sul-africano The Times. Andre Snyman da organização Eblockwatch lembrou que, historicamente, nos meses de maio e junho as taxas são menores se comparadas com setembro, outubro, novembro e dezembro, porém é evidente que a forte presença do policiamento tem inibido os bandidos – por incrível que possa parecer àqueles que nestes sete dias de Copa já foram vítimas de alguns deles.

Long Street na Cidade do Cabo

Ao passear pela mais antiga rua da Cidade do Cabo, Long Street, onde bares com arquitetura vitoriana destacada pela presença de balcões sobre a calçada recebem turistas e moradores locais, chama atenção uma outra característica nas fachadas. O comércio mantém portas de grade na maioria das vezes fechadas nem sempre, porém, altas o suficiente para impedir a invasão de algum assaltante que queira se aventurar na área.

Os portões de ferro se devem a dois fatores, e o primeiro é psicológico, dizem alguns por aqui: há uma paranoia que toma conta das pessoas que vivem em uma cidade na qual se tem notícia a toda hora de algum crime. Pergunto-me se aí onde você vive também não ocorre o mesmo. O segundo motivo é histórico: foi a forma dos brancos se protegerem de invasões que imaginavam seriam cometidas pelos negros ao fim do Apartheid.

O regime que separou as pessoas por cor, raça e horror ainda se reflete na sociedade sul-africana de maneira contundente. Os avanços que a luta de Nelson Mandela implementou são evidentes, mas a cicatriz aparece na pele, na arquitetura e na vida dos negros.

Distrito 6 na cidade do Cabo

Hoje mesmo, estive no Distrito 6 de onde cerca de 60 mil pessoas foram arrancadas de suas casas, a partir de 1966. Além de um museu que lembra aquela barbaridade, quarteirões vazios tomados pela grama e erva daninha foram mantidos para chamar atenção do crime cometido com este povo. Uma injustiça que começou a ser desfeita apenas em 1994.

Atente-se para as datas. O Brasil conquistava o Tetra nos Estados Unidos, quando o regime de segregação estava vindo abaixo. A história é muito recente e ainda viva na África do Sul. Por isso, criticar o país e seu povo pela violência e pobreza que ainda imperam é injusto se não levar em consideração a deterioração sofrida pela sociedade sul-africana.

Injusto, também, é esta gente continuar sendo vítima de uma elite política que ascendeu ao poder na carona de Nelson Mandela e tem esquecido parte de seus ideais. Motivo de seu descontentamento com os organizadores da Copa do Mundo 2010, pois o líder eterno deste país esperava que os jogos trouxessem não apenas visibilidade, mas benefícios concretos para os cidadãos. A ele não bastava um sistema de segurança que se desfizesse assim que a Fifa e sua famiglia fossem embora daqui – o que vai ocorrer no dia 11 de julho. Era preciso uma ação capaz de tirar o país do topo da classificação dos mais violentos do mundo, que transformasse a sociedade sul-africana mais segura não para mim, que voltareiao Brasil em algumas semanas, mas para seu próprio povo.

Morador de rua na Cidade do Cabo

A riqueza apareceu nesta Copa para quem a comanda, para os patrocinadores e seus patrocinados. Alguns segmentos faturaram mais, sem dúvida. Porém, muito do que poderia ficar por aqui foi parar nas mãos de gente lá fora e a renda não foi distribuída como Mandela sonhou.

Por isso, penso naquele senhor maltrapilho, com cheiro de cachaça, sentado na calçada assistindo ao passeio dos turistas em uma rua no centro da Cidade do Cabo. Ele estava sentado, sujo, desconsolado e triste. E, certamente, não se deve ao mal futebol jogado pela seleção da África do Sul.

Um comentário sobre “A violência diminui na África, só até o fim da Copa

  1. Violência é sobrenome de Miséria. A distribuição de renda baseada em diferenças entre as pessoas é o que de mais cruel desenvolveram os humanos. Os efeitos perduram. Na Africa do Sul ainda dá pra sentir no rosto o calor da bomba discriminatória e o tremor ainda abre rachaduras nas paredes da democracia.
    É triste, mas em muitos aspectos me lembra o Brasil, onde mais de 100 anos após o fim do regime escravista, ainda se queima, e ainda se treme ante as desigualdades.
    O que se falar da Africa do Sul.

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