“Beliscão dói pra cacete” *

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

Pain/une souffrance~

No lar, unidade física, social e emocional do ser humano, o ordenamento das relações concretas e abstratas é balizado pelo estado.

Para construí-lo é preciso seguir normas e padrões municipais. Água, luz, telefone são fornecidos dentro de critérios pré-estabelecidos. As relações sociais e humanas devem respeitar a constituição e as leis sociais e trabalhistas. É proibido o incesto, a pedofilia, o uso de drogas, etc.

É um sistema que preserva a ordem necessária para manter a liberdade dos cidadãos sem infringir o espaço e a dignidade dos demais.

O governo, atendendo a solicitação da Rede “Não bata, eduque”, que reúne entidades de defesa das crianças, propôs a proibição de castigos corporais, para complementar o Estatuto da Criança e do Adolescente, passando “maus tratos” para “uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante”.

A criança, peça mais frágil dos componentes do lar, ficará mais protegida com uma lei que deverá servir, como na Suécia, para inibir eventuais transgressões de modo que esta anomalia possa ser extirpada.

Tal qual aconteceu na Suécia em 1980 quando foi criada, e está ocorrendo nos países mais conservadores da Europa, como França e Grã Bretanha, 58% dos brasileiros são contra a lei, de acordo com o Datafolha. Esta população que está contra a “lei das palmadas” em sua maioria (72%) já apanhou dos pais, numa evidente demonstração de conservadorismo.

Herdamos o gosto pelo banho dos indígenas, mas não o respeito pelas crianças. Índio não bate em criança. Contrapondo-se aos “selvagens”, Lino de Macedo do Instituto de Psicologia da USP considera que o projeto “quer regular a intimidade da casa, da relação pai e filho”.

Nesta linha de preocupação com a interferência do estado, uma série de conservadores e intelectuais se manifestou contra a lei. Cony e Viviane Mosé, por exemplo , assim como o secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, José Gregori. Neste caso os Direitos Humanos dos adultos.

E as crianças?

Bem, perguntei ao meu filho Rodolfo, 7 anos, que respondeu favoravelmente à lei. Informei, entretanto que muitos brasileiros eram contra a lei. “Mas são bandidos, não?”

*Frase do Presidente Lula

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, é pai do Rodolfo e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

 Imagem da galeria digital de Constanza Hernandez, no Flickr

11 comentários sobre ““Beliscão dói pra cacete” *

  1. Mais análises favoráveis sobre a lei poderá ser vista hoje na Folha na coluna de Fernando de Barros e Silva, assim como no editorial de ontem da mesma Folha.
    No site da CBN também há a entrevista do Heródoto com o Xexéu,Cony e Viviane, onde se ouvirá a posição favorável do Xexéu.
    Das opiniões contrárias, o capitão William do Corinthians protagoniza uma das mais preocupantes, pois apanhou com vara , está feliz e recomenda.

  2. Essa lei é mais uma tentativa de regular as ações humanas além do razoável. Os maus tratos já são puníveis hoje pelas leis vigentes, como deve ser. Não há necessidade de uma nova lei. Não é com leis que se muda a cultura dos povos. O que a história indica é exatamente o contrário. O Direito é reacionário e não revolucionário. Mas se a proposta vingar, será uma ótima ferramenta para apimentar as brigas conjugais de casais em processos de separação. Ou então de vizinhos ou de desafetos ou inúmeras outras situações que a lei poderá ser utilizada como vingança. Mais uma idéia daqueles que sempre defendem que “deveria ter uma lei que proibisse isso, aquilo, etc”.

    Lamentável!

  3. Acho que se temos leis que protegem a mulher dos crimes de violência, podemos ter, também, leis que protejam as crianças. Sou completamente contra palmadas, beliscões e até espancamento – já que se faz essa distinção – na “educação” das crianças. Acho, inclusive, que, quem não está preparado para o desafio de criar uma criança, não deve se aventurar neste caminho. O problema, como sempre, está na raiz.

  4. Carlos

    Sou contra qualquer tipo de violência, seja fisica, verbal, moral.
    Apesar de quando criança eu ter levado umas boas palmadas e chineladas. rs rs
    Merecidamente!
    Hoje, outros tempos, outros valores,outros conceitos, outra educação, outro moduns vivendi.
    Nos dias de hoje qual seria a fórmula mágica, metodo, atitude, conceitos, educação para os nossos filhos, crianças, adolescentes e até os maiiores de idade?
    ainda ninguem ao meu ver conseguiu encontrar, definir.
    Porém o que mais é preocupante "nestas alturas do campeonato" o que serão num futuro proximo as crianças e adolescentes de hoje?
    Conincidentemente ontem 27 publiquei artigo no meu blog entitulado "Cena de novela?"
    Se me permitem, leiam o artigo.
    http://www.blogdoaitalo.blogspot.com
    Temos hoje o ECA, ate certo ponto justo, porém em muitos outros aspectos deixa a desejar.
    Nao cabe aqui discutir os prós e os contras constantes no ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente.
    Não basta apenas proibir tornar crime os pais que dão palmadas em seus filhos.
    Vai muito mais além.
    Crianças permanecem em suas casas sob cuidados dos avós, dos empregados, ficam o dia inteiro em creches publicas e privadas, escolinhas maternais porque os pais tem que trabalhar para manterem o sustento de suas familias.
    Como educar filhos diante de uma grande diversidade de costumes, de exemplos?
    Quais os limites que os pais e filhos terão que respeitar?

  5. Lindóia, comentário 2.
    A lei que regula o menor e adolescente não especifica maus tratos, daí esta lei que detalha .
    Mesmo que haja excesso, a causa CRIANÇA, o ser mais indefeso e o componente mais importante desta equação , estará protegido e portanto não vejo problema.
    Se houver uso indevido, o mesmo já poderia ter ocorrido com as leis anteriores, que segundo sua ótica defendem de forma suficiente o menor e adolescente.

  6. Maurício Araya,comentário 3
    A maior prova que a lei é necessária, é o resultado da pesquisa , que apresentou 58% contra a mesma.
    Pior, 72% já apanharam.
    Como uma criança vai reagir quando percebe que os pais batem quando são contrariados?
    No momento em que também estiverem sendo contrariadas, as crianças reagirão da mesma maneira.

  7. Mestre Carlos Magno,

    Sou contra a Lei!

    Também sou contra as palmadas não por entender que prejudique algo na formação das crianças -disse palmadas: não surrar e espancar- mas por entender que o diálogo ainda é o melhor caminho.

    Entendo que os abusos somente serão ciobidos com educação dos pais!

  8. Cláudio Vieira,comentário 7
    Até que enfim encontramos algo em que não concordamos.
    Sou favorável a lei.
    Por isso que a democracia é essencial.
    E salve a internet que permite absoluta ação nas idéias.
    Já estava sentindo falta da sua opinião na coluna.
    Abraço

  9. Hoje na FOLHA página A3, Lino de Macedo defende o NÃO e Peter Newell e Paulo Sérgio Pinheiro, respectivamente Coordenador da Iniciativa Global para o Fim de Todo Castigo das Crianças e relator da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos defendem o SIM.
    Vale a pena ler ambos artigos.

  10. Olá mestre,

    Sobre a lei: não consigo enxergar que teria como impedir uma palmada mas vamos ver oque acontecerá se aprovada. Continuo discrente!

    Salve a internet! Desculpe o meu desleixo mas é muita correria para dar conta de tanta coisa mas serei sempre seu fiel leitor.

    Grande abraço.

  11. Cláudio Vieira,comentário 10
    Acredito que a lei ajudará em certos casos.
    É como a impossibilidade de impedir os “puxadinhos” que grande parte dos brasileiros executam em suas casas.
    Ou mesmo casas que são construidas sem aprovação das prefeituras e autoridade competentes para tal. O que não invalida a existência da lei.
    A Suécia por exemplo deve muito a existência da lei, pois houve grande diminuição do problema no trato com as crianças.
    Mesmo assim todos estamos lembrados daquele sueco maluco que manteve a filha em cárcere por mais de 30 anos e praticou incesto.
    A questão que não pode ser esquecida é que todas as minorias tem leis que as protegem e na minha ótica a minoria mais fraca, mais pura e mais desprotegida é a criança.
    Prezado Cláudio, é assunto para não se esgotar por aqui, quanto mais se falar melhor.
    Abraço

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