De resgate

 

Por Maria Lucia Solla


Ouça este texto sonorizado e apresentado pela autora

A Vila Cruzeiro foi ocupada, e o povo de lá se viu sob chuva de pétalas de rosas, em vez de chuva de balas. Surpresos, seus moradores assistiram a um show de policiais que faziam rapel, de um helicóptero ainda no ar, como fazem em alguns casos de resgate. Significativo.

Não entendo os meandros da política e da vida pública, daqueles que fazem e desfazem em meu nome e no teu, mas sei que por mais que a gente berre e reclame, dia após dia, das mesmíssimas coisas, por séculos, nada vai mudar. Sei também que por mais que a gente se descabele pelo que não foi feito e pelo que foi desfeito, nada vai mudar.

Mas voltando à Vila Cruzeiro, a polícia, depois do espetáculo de pétalas e da descida pela corda, distribuiu brinquedos para as crianças dali.

Na TV, vi o homem de fala mansa, que eu ouvira no rádio, dizendo que daqui para frente, tudo vai ser diferente. Acredito nele, e espero que seja mesmo. Bem diferente. Espero que os novos invasores tenham vindo para libertar e não para escravizar. Que esses homens de boa vontade possam vencer os de má vontade que seguramente estão infiltrados nos batalhões. Em vez de droga, oferecem paz.

Que homens e mulheres, daqui para frente possam ajudar a resgatar não apenas corpos, mas dignidade e sonho. Que possam compreender que do que mais precisam as pessoas que moram na Vila Cruzeiro, depois da festa e dos agrados, é respeito, porque desde que portugueses e jesuítas chegaram por estas bandas, nosso povo tem aceitado presente e promessa.

Quero me fazer entender. Acredito nesses homens, como sempre acredito no homem, até que me decepcione tanto que acabo me esquecendo, completamente, de que um dia admirava e respeitava. Pluf, cai a chave geral. Tenho claro que os antigos invasores de vilas e morros também prometiam muito, ofereciam possibilidade de crescimento na “empresa”, ofereciam morte rápida, tudo regado a chuva de bala, terror e escravidão. Os invasores da vez sabem disso, presenciaram isso durante anos até que o tempo certo chegasse – porque nada chega antes – e não vão repetir o erro. Estão do outro lado do campo, o campo do chamado bem, não é?

Entendo um pouco de gente, de gente que integra o lado do bem e de gente que integra o lado do mal, em todas as situações, e só vejo uma solução para todo esse imbróglio em que temos vivido há tanto tempo.

Respeito!

Não é a Educação para fazer do outro o que você quer que ele seja, e o levar a ser isso ou aquilo, que vai resolver. Não é a Saúde que se locupleta da nossa saúde, acariciando sintoma para alimentar grande$ grupo$, que vai resolver; nem um, nem outro. Não é com mais policiais armados na rua, gente como a gente, que se vai resolver a questão.

Não é dando dinheiro na mão do cidadão e presente em data festiva, como faziam os primeiros invasores, que vai resolver a situação.

É respeito, o primeiro ingrediente da receita. É preciso que aprendamos a respeitar o outro, sem esquecer que antes, muito antes disso, é preciso que cada um se respeite e se dê ao respeito. E é isso que a Vila Cruzeiro, os morros, os condomínios de luxo, os palácios e as taperas precisam.

quem sabe meu deus
a gente começa
enfim

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

26 comentários sobre “De resgate

  1. AMIGA MARIA LUCIA,
    BOM DIA.
    FELIZ 2011.
    PARA ACABARMOS COM AS VILA CRUZEIRO/ROCINHA/ALEMÃO/CIDADE DE DEUS,ETC,SÓ EXISTE UMA ÚNICA LINHA DE AÇÃO-
    EDUCAÇÃO/AMOR/TRABALHO/HONESTIDADE/PRINCÍPIOS/RELIGIÃO(FÉ)/PATRIOTISMO.
    BEIJOS
    FARININHA

  2. Olá Malú,

    O que mais me tocou nas reportagens, foi um homem dizer: “ Não podia olhar na minha janela. Não podia ficar no portão de minha casa.”

    Bom, foi um prazer participar de seus artigos e, sinceramente, peço-lhe perdão por algumas vezes meus comentários não terem sido à altura de seus belos textos e do gosto de outros que a acompanham(Mateus 7:5). Não deixarei de ler e admirar suas letras. Uma pena, não me sinto mais a vontade para dedilhar comentários. Não sou perfeito e cometo vários erros, os quais não me intimido no pedido de desculpas e na tentativa de correção. É de meu feitio nunca deixar nada nem ninguém sem resposta e, da mesma maneira que peço licença para entrar, peço pra sair.

    Muito obrigado pelos convites via e-mail para participar de seus textos que, ao contrario da feijoada, degustei com muito prazer semanalmente!

    Um forte abraço, para você e para o líder deste Blog, os quais dedico respeito!

    Outrossim, peço licença para pedir a opinião do Sr. ARMANDO ÍTALO sobre o texto abaixo:

    È difícil para muitas pessoas engolir alguém “fora do padrão” que se considera bem sucedido -com muito orgulho- em todos os quesitos. Este tipo de ser, tira a mascara de gente descente e mostra a face da perseguição e cisma sem sentido e apontam o dedo de dono da verdade, logo que julga ter sido invadido o que escolheu como seu espaço; espaço este bradado como democrático. Pior que alguns além de alimentar, os acompanham nesta barca furada!

    Geralmente este tipo de pessoa é covarde e, ao invés de ser claro e direto com quem escolheu como seu desafeto, prefere a fofoca pelas costas e o ataque através de entrelinhas. Está tão embriagado pelo seu sentimento velado, que não consegue perceber as chances que o atacado lhe dá para que haja como homem: O atacado usa o sistema da repetição de argumento, como instrumento de sedução e oportunidade para quem se colocou como seu algoz, não seja um verme e se manifeste como homem diretamente, sem entrelinhas. Mas não tem jeito, quem nasce traiçoeiro morre como tal.

    Qual seria o melhor título:

    De Futriqueiro?
    De Hipócrita?
    De Caborteiro?

    Alberto Beh Ribeiro (Beto)

    Armando, felicidades para você homem!

    P.S.: Este texto foi postado aqui, porque as entrelinhas saíram daqui!

  3. Ah menina sonhadora….

    Somos ainda indios civilizados. Aceitamos presentes em troca do calar dos nossos anseios. Prá falar a verdade, não sabemos o que queremos, o que nos remete ao Paradoxo Socrático, (Houaiss).
    Queremos uma vida melhor, mas não fazemos o que devemos. Respeito ???
    Muitos de nós ainda não sabe o que é isso. Respeitamos o nosso corpo prá começo de conversa ???
    Vamos no lembrar dessas festas de final de ano ???
    Quantos não se esbaldaram nas festas ?

    Malú, ainda achamos que somos inimpultáveis…..

    Abraços

  4. Olá grande Beto!
    Muito obrigado pela deferencia!
    Preciso refletir mais sobre o que você escreveu.
    Porém posso adiantar que existem pessoas corajosas, altruistas, sinceras, dignas, honestas, fiéis, que não tem medo de colocarem suas “caras” para baterem, tem coragem para tirar os seus proprios veus, que enfrentam a vida tal qual como se apresenta, que não ficam “escondidas e se aproveitam” na calada da noite para tramarem, trairem, para então se aproveitarem de momentos turbulentos e de fraquesa de outrem para feri-lo pelas costas.
    Fora isso na minha sincera opinião meu caro Beto.
    São pessoas doentes, carentes de tratamento psiquiátrico.
    Pois tem medo e suas proprias existencias e personalidades.
    Espero ter comentado o que você esperava.

    -Quanto ao texto de hoje da nossa querida “iscrivinhadeira” Maria Lucia Sola, carinhosamente Mike Lima, matou a pau!
    Acertou na môsca!
    Parabéns e feliz 2011.

  5. Bom dia a todos e bom ano!

    Acabei de chegar! como dizia meu amigo Uzi, israelense que ama o Brasil e fala português muito bem, quando não sabia o que dizer.

    Você, leitor, tem razão se me criticar dizendo: não tem o que dizer então fica quieta; mas acontece que não quero entrar e sair de fininho. Não é assim que se faz, mas preciso de um tempo para refletir sobre o que está rolando aqui.

    Mais um minutinho; antes da reflexão, quero dizer ao beto: não entendi nada, beto, pela primeira vez, num comentário teu. Ao contrário; sempre aprendi e tive muito prazer de ler cada um deles. E não entendo por que você vai me punir, não vindo mais aqui na nossa sala. Eu estava aqui curtindo um bom filme e comendo pipoca de chocolate…

    volto mais tarde um pouquinho.
    beijo,
    ml

  6. beto,

    dei tratos à bola e tempo ao tempo e cheguei à conclusão de que um dos meus desejos para 2011 é ter você aqui, como eu tenho estado; infalível há mais de duas centenas de semanas; faça chuva ou sol, alegre ou triste, de coração cantando ou chorando.

    Teus comentários se tornaram muito importantes, e não é só para mim, viu?

    Ah, você esqueceu de me sugerir um vídeo, uma música.

    beijo,
    ml

  7. Ezaquiel,

    Sócrates chamava de conhecimento, a consciência. Se conhecimento fosse carteirinha para o bem-ser e o bem-viver, Harvard e a USP seriam fábricas de anjos.

    Mas você acertou na mosca: sou, sim, sonhadora, com a ponta dos pés no chão e o resto todo nas estrelas.

    A gente chega lá, você vai ver.

    beijo e obrigada pela companhia,
    ml

  8. “Well, we have a whole new year ahead of us. And wouldn’t it be wonderful if we could all be a little more gentle with each other, and a little more loving, have a little more empathy, and maybe – next year at this time – we’d like each other a little more.” Judy Garland.

    Beijos!

  9. Oi Maria Lucia Solla,
    .
    ehhh, rsrs, esta materia deu o que falar, rsrs,
    isso é muito bom, penso eu, seja do jeito que for!!!

    A quase todos, desejo de coração que consigamos fazer do nosso Brasil um país realmente de todos…

    …que consigamos ver, que a a verdadeira felicida ainda não foi alcançada…

    …que tal felecidadeserá quando todas ou quase todas pessoas voltem sentir orgulho de serem seres humanos…

    …que não sintão mais vergonha da onde moram, das rpouas que usam, ou o pior de todos, de estarem sem comer…

    …que Deus nos perdoe por estragamos o paraíso que era o Planeta Terra, o mundo de todos que estão aqui…

    …que tenhamos serenidade em entender, que nem sempre o que lemos e acabamos entendendo ou não, é realmente o que quis dizer quem escreveu…

    …que tenhamos amor e respeito de comentar com zelo e talvez palavras mais formais [é fácil escrever, difícil de fazer, rsrs, meus advogados que o digam, rsrs]…

    …que nunca deixemos de expressar o que realmente sentimos, poŕem com cuidado, não por medo,mas somente por respeito que todos merecemos, sem distinção!!!…

    …é difícil, mas não é impossível…

    …_” …Não entendo os meandros da política e da vida pública, daqueles que fazem e desfazem em meu nome e no teu…”;
    bem, é simples,
    eles só irão nos respeitar, eu, tu ela, eles…, quando começarmos a fiscalizar tudo, tudo mesmo, quando aprendermos desde pequenos que temos que estar fiscalizando antes, durante e depois de cada ação do Estado, os três poderes e toda a administração pública…

    …do povo, pelo povo e para o povo, tal deveria ser em qual quer lugar do planeta…

    …e será, tenho fé,…

    …mas só de fé [com todo respeito as pessoas que tem fé em algo e/ou alguém], precisamos e agir…

    …o que é melhor, criar empregos e pagar R$1000, 1500, ou gastar R$3 mil, 4 mil em penitenciárias???…

    …A VERDADE, ME DESCULPE TODOS,
    TORNAMOS SERES ACOMODADOS, MAS MUITO ACOMODADOS!!!…

    …E O ESTADO NÃO QUER QUE MUDE, E
    OS TRÊS PODERES ATE ENTÃO TAMBÉM NÃO QUEREM QUE O POVO MUDE, cresça, aprenda, raciocinie!!!

    …brigas a parte, um abraço bem gostoso e um beijo carinhoso!!! com respeito, é claro, rsrs

    .
    ass: Douglas The Flash
    .
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    .
    http://eujafuiprejudicadoporservicospublicos.wordpress.com/
    .

  10. Meus caros Armando, Beto, Bruno, Farina, Suely, Ezequiel, querida Malu e todos os amigos que sempre nos encontramos por aqui nas ultimas semanas de tantos meses que já caminhamos juntos.
    Estarmos aqui, comentar o que entendemos ou não dos textos neste espaço, é prova do poder que tem a palavra.

    Que no próximo ano (neste também, rs) sigamos confiantes de que cada um de nós tem um pedaço único do todo que só é todo quando estamos juntos. Que nossos problemas e nossas falhas tem o tamanho do medo que experimentamos quando nos sentimos só. Que as feridas abertas nos outros, intencionais ou não, doem mais em nós mesmos e que no tempo que levamos para agradecer, o medo se desfaz e nos tornamos outra vez grandes o suficiente para as três palavras que naturalmente seguem o muito obrigado…
    Foi um prazer!
    Voltemos sempre.

  11. Sergio Mendes, vc merece:

    Como vc citou os saudosos participantes deste Blog, vamos imaginar que estamos todos nesta confraternicação. A mais bonita que ja vi:

  12. Meu pai!

    foi eu virar as costas e a sala ficou cheia de música, de alegria!

    vou me recuperar da visita, preparar alguma coisa pra comer e volto mais tarde.

    beijo,
    ml

    (Este texto apesar de levar meu nome – Milton – é da autora do post, a Maria Lucia, coisa fácil de perceber dada a sutileza e poesia da escrita, coisas que costumo não encontrar na ponta de meus dedos)

  13. Douglas The Flash,

    antes de responder a você, quero dizer que assim que vejo o teu nome já me planta um sorriso na cara. Também, você já começa rindo

    Gosto do teu humor.

    Eu assinaria embaixo de quase tudo o que você disse, e vou justificar a minha posição:

    Nesta Vida, somos Um, de verdade!
    Se um, apenas um de nós for considerado de fora da patota que consideramos "os caras",os "nossos", a patota não vai completar mais uma fase, e passar para outra, superior. Progredindo. Pode é escorregar de traseiro no chão, para uma fase anterior. Regredindo.

    Então eu mudaria a tua frase para:

    A todos, desejo de coração que consigamos fazer do nosso Brasil um país realmente de todos!

    Pra você também, um abraço bem gostoso e um beijo carinhoso, redobrando o respeito, é claro!

    ml

  14. sérgio,

    que bom!

    Na gostosura toda do teu texto, você fala no poder da palavra.

    palavra é energia
    como o trovão
    o movimento da mão
    a panela de pressão

    como energia
    não é regida por códigos morais
    palavra é amoral
    dita escrita falada
    como a feijoada
    a bebida
    mesmo se for sussurrada

    Como disse o beto, a escrita tem alma. E tem a seu dispor, um baita cardápio de palavras – que têm almas -, de encontros de palavras – que têm alma – e do lugar que ocupam, que também tem alma. Assim,um texto pode ser lido, sentido e compreendido de forma diferente segundo cada universo pessoal.

    Isso é que é ter acesso à riqueza, não é?

    Pois vamos continuar treinando a colocar nossas almas na mesa, porque além de mostrá-las a gente vai sempre ter a oportunidade de olhar para a própria alma também.

    beijo,
    ml

  15. beto,

    nem preciso dizer que já vi o vídeo umas três vezes.

    Me senti lá, sim. Uma baita emoção; sempre bem-vinda.

    E ajudando a contribuir com as nossas gotas musicais, aí vai uma, do mesmo concerto, que recebi de um amigo:

    beijo,
    ml

  16. A obra chama-se Fausto do poeta alemão Goethe.

    Não a li, mas ficou marcada a lembrança de um professor de filosofia que a citava para nos provocar.

    No fundo muitas pessoas fazem exatamente isso e não se dão conta

    Abraços

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