Jornalismo pragmático esquece o ser humano

 

Joseíldo acabara de chegar da casa da mãe no Nordeste – este ‘país’ que teimamos em não reconhecer e discriminamos. Não teve tempo pra contar aos parentes as notícias da terra natal. Chegou, era noite, talvez tenha beijado a mulher e abraçado os filhos. E morreu. Morreram todos embaixo da lama e dos tijolos do abrigo que haviam conseguido construir com o dinheiro que juntou no trabalho de pedreiro.

Das crianças sobraram fotos gravadas no celular de um dos tios. Havia uma mochila escolar, também. Da família, tristeza, desolação e resignação.

A tragédia foi em Jundiaí, interior de São Paulo, e havia sido descrita pelos repórteres durante o dia. Chamou-me atenção, porém, o relato feito pela jornalista Abigail Costa, que você lê, esporadicamente, neste blog, e reporta as notícias no Jornal da Record (mulher deste blogueiro, também). Foi lá, conversou com amigos e parentes da família, fez questão de conhecer a história de cada uma daquelas pessoas que para maioria de nós é apenas uma estatística, no máximo a garantia de uma manchete no noticiário da noite.

Por tempos fui repórter, também. E, muitas vezes, tive de desenterrar o pé do barro para fechar reportagens no rádio e na TV. Sempre me intrigou a história privada de cada uma daquelas vítimas. Nem sempre tive sensibilidade para descrevê-la. Por isso, valorizo o repórter capaz de entender que há momentos em que a pauta tem de ser cumprida com o coração.

Na reportagem que assisti hoje, não faltou racionalidade na condução da história. Mas o destaque ficou a cargo daquilo que foi percebido pela alma, sem o sensacionalismo comum nestes momentos.

A forma com que a notícia foi contada não impediu, porém, que colegas de profissão reclamassem da cor da bota, do tamanho do anel e da estampa do lenço que encobria o pescoço da repórter. Confesso, as lágrimas não me permitiram ver estes detalhes. Eles viram.

Pensei em silêncio – que se transforma em palavras neste post: o que nos torna tão frio diante de uma tragédia humana a ponto de nos permitir perceber a superficialidade na imagem ?

Preocupa-me o fato de estarmos construindo redações pragmáticas, nas quais a forma se sobrepõe ao conteúdo. Feita de pessoas que buscam a notícia a qualquer preço. Profissionais que transformam a arte de contar histórias em um exercício burocrático. Que escrevem seus textos como se batessem ponto em uma repartição pública caquética.

Aos repórteres ainda dispostos a ouvir sugestões: não se iludam com a falsa ideia da imparcialidade; jamais transformem a isenção em insensibilidade; e nunca deixem de exercer o direito sagrado de se emocionar diante da realidade humana .

16 comentários sobre “Jornalismo pragmático esquece o ser humano

  1. Falou tudo no último parágrafo, Milton. Sob a égide da imparcialidade, muitos repórteres e profissionais da comunicação está se tornando insensíveis. Por isso gosto de você, do Heródoto e de tantos outros, não só da CBN, mas de outras emissoras, que parecem ser um pouco mais “Old School”, como os escritores-cronistas-literários, tipo Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Scliar e tantos outros que fazem da arte literária um veículo de comunicação, e das notícias uma forma de arte. Parabéns!

  2. Isso é uma coisa que me entristece. Às vezes você vê aquele jovem, no início da carreira de jornalista querendo mudar o mundo, mas ele acaba perdendo (será que teve, mesmo?) a sensibilidade com o sofrimento alheio por causa de uma pauta.

    O mesmo ocorre na ciência, quando entramos no curso querendo entender o mundo, mas acabamos numa corrida de ratos pelo número de públicações em revistas científicas.

    Vejo, nos dois casos, a perda certa perda de sensibilidade e, talvez, amor pelo que fazemos. Perda de envolvimento.

    É por isso que temos que tomar muito cuidado para um jovem não perder o brilho nos olhos enquanto é tempo.

  3. Milton
    Nos dias de hoje, a regra é quem chega primeiro leva.
    No caso, um furo de noticia, em primeira mão.
    Tudo parece ser mecânico, digitalizado, muitos, profissionais mais parecem robos em suas funções.
    O aspecto, o ser humano deixa de existir.
    A tecnologia atual obriga para que todos trabalhem com velocidade supersonica.
    Foi o tempo que reporteres quando tinham quem reportar noticia para as redações tinham que recorrer a telefones publicos, telex e até pouco tempo o fax.
    Assim como acontece em outras profissões.
    Medicos baseiam-se somente nos exames digitalizados, atraves de maquinas em minutos “ja sabem” qual a doença.
    Pois a fila anda e que venha o proximo “doente”
    O toque amigo e curativo do medico de outrora deixou também de existir.
    Mecanicos de automoveis, quando levamos nossos possantes nas modernas oficinas plugam todos tipos de fios nos motores de nossos carros e em minutos ja sabem qual o problema.
    Pilotos das modernas aeronaves embarcam nestas totalmente prontas, pois ao sair do chão, somente como somente como simples exemplo para os mais leigos, “basta apertar enter” nos sistemas digitais do avião o FMC / FMS e o avião decola, voa por aerovias poin to point as RNAVS e pousa automaticamente.
    Estudantes, fazem seus trabalhos de casa, com ajuda da internet, wiki, e basta o Ctrl+C / Ctrl+V, pronto o trabalho de casa está pronto como num passa de magica.
    Periferias crescem, barracos pendurados em morros, casas construidas nas margens de rios como palafitas crescem espantosamente.
    A velha teoria:
    Quanto mais a periferia cresce, mais votos para politicos.
    Quanto mais periferia mais sera a fonte de votos e mais rapido poderão eleger-se.
    Pais deixam seus filhos por horas a fio na frente de PCs e TV, Games porque quando chegam a noite em casa do trabalho ainda tem que fazer o relatorio para ser entregue ao chefe no dia seguinte e não tem tempo para dar um pouco de atenção a sua prole e aos seus velhos.
    E assim deixamos de ser seres humanos e passamops a teres humanos.
    Todos plugados, conectados, tentando acomapnhar freneticamente a velocidade dos bits, megabits.
    Infelizmente!
    que legado deixaremos aos nossos filhos e netos?
    Abraços
    Armando Italo

  4. Belo ensinamento tomara que boa parte dos que estão saindo das faculdades tenham a sorte de escutar uma voz com bom senso como a tua. Sorte dos teus estagiários.
    Forte abraço e não perca a sensibilidade nunca. Chorar não custa nada e diz muito mais que um texto cheio de baboseiras.

  5. .
    _ "…Do Povo, pelo Povo e para o Povo…"

    só p/constar, após o email indagador e reflaxivo ontem sobre "comprovante de residência", algo não identificado neste momento, mudou minha senha do msm email, rsrs

    E aqui existe democracia, no nosso Brasil, rsrs!!!

    Um abraço e uma ótima semana!!!
    .
    ass: Douglas The Flash
    .
    O15x2dc1Dougl.O!%x207Jan20111556ISex7111AspSBM2fj5155458
    .
    http://eujafuiprejudicadoporservicospublicos.wordpress.com/

  6. bom seria se pelo menos a metade da população tivesse esta sensibilidade, talvez assim talvez brigassem pelo menos para amenizar o sofrimento dessas pessoas.admiro você e o barbeiro por isso.

  7. As faculdades estão despejando “profissionais” burocráticos e insensíveis,incapazes de fazer uma reportagem como a que realizou a nossa Abigail. Quem ainda possui um pingo de disposição para compreender os dramas do cotidiano e não se fixar em baboseiras como a cor da bota e o tamanho do anel da repórter, que trate de prestar atenção ao que o Mílton escreveu no último parágrafo do instrutivo texto que acabei de ler.

  8. Espanta-me que jornalistas estranhem botas e anel da Abigail em detrimento do que deveria lhes chamar a atenção,isto é,a bela matéria feita pela repórter,o conteúdo profundamente humano dado pela excelente profissional ao seu trabalho sobre e com as vítimas da tragédia ocorrida em Jundiaí. Seria interessante que lessem o que o Mílton escreveu no último parágrafo do seu texto. Se não aprenderam absolutamente nada na universidade ainda há tempo para que ponhamn algo mais que baboseiras em suas,pelo menos por enquanto, cabeças vazias.

  9. Os recém formados estão saindo das “facuRdades” como produção em série.
    Com um monte de papel nas mãos, “dipRomas”, principalmente de algumas UNIS da vida, tipo, as pagou passou e quando começam a atuar só sai besteira mesmo.
    Recentemente conversando com uma garota recem formada em arquitetura, esta foi taxativa em afirmar que não sabia desenhar uma perspectiva em ponto de fuga com as mãos.
    E assim, como no jornalismo a arte, a criatividade, o lado humano, deixam de existir em detrimento da velocidade, dos grandes lucros, da ganância, da rapida ascenção social e financeira, do status.
    Como disse acima pilotos atuais, são mais parecidos com gerenciadores de sistema do que verdadeiros aviadores, que nos tempos de outrora vestiam o avião plenamente.
    Muitos jovens pilotos tem dificuldades de levar um avião na mão baseando-se somente por VOR, NDB, cartas de voo.
    Pois tudo encontram-se nos bancos de dados dos sistemas gerenciadores de voo.
    Ai vem depois, novos medicos, e outras formações.
    Não podemos nos esquecer o elevado indice de reprovados nos exames da OAB e do recem realizado para futuros medicos.
    Tenho uma filha que estuda medicina e este é um fato que me preocupa, por sinal exaustivamente conversado com a garota.
    Hoje os valores estão totalmente invertidos.
    Bom findi a todos

    http://www.blogdoaitalo.blogspot.com

  10. Milton, o pior é que não são apenas jornalistas que perdem ou perderam a sensibilidade na profissão. O cidadão comum também vem perdendo a sensibilidade a muito tempo. A maioria vai se acostumando com as tragédias e mortes que para elas isso não tem importância. Num acidente de trânsito os donos dos carros envolvidos no acidente querem saber se o carro amassou muito para depois perguntar ao motorista se está machucado. E os outros carros começam a buzinar porque estão com pressa. Quano tem uma pessoa morta na calçada, o pedestres na correria do dia-a-dia até passam por cima do morto porque não querem chegar atrasados na empresa. No Sé e no Parque Dom Pedro onde tem muitos moradores de rua dormindo no chão, a maioria passa quase que em cima desse moradores porque estão com pressa. A verdade é que cada um se preocupa só consigo mesmo. Agora, os mais insinsíveis mesmo são os políticos. Essa gente tem um coração de pedra. É claro que não são todos, mas a maioria se preocupa só com seus familiares. Nessas tragédias, onde estão os senadores, vereadores, deputados, prefeitos, governadores, Presidenta. Na hora do voto eles vão nesses bairros. Na hora do desastre passam longe. E os Direitos Humanos onde estão? Com certeza estão preocupados se os bandidos estão sendo tratados com respeito. E esses moradores que perderam tudo, estão sendo tratados com respeito?

  11. Oi caro Daniel Lescano

    Nesta frase onde você diz:

    “mas a maioria se preocupa só com seus familiares”

    Nem isso mais vem acontecendo entre familiares.

    Comentei recentemente sobre um grande amigo de infancia, pais de dois filhos agora maiores de 21 anos.
    Divorciado da mae dos “meninos”, sempre voltou as suas atenções aos filhos, tanto como um pai presente e com muitas dificuldades financeiras.
    Bastou o pai perder o emprego, ficar sem dinheiro, os filhos então orientados por “esperto advogado”, apoiando-se numa tal nova sumula, onde esta depois de aprovada pelo STJ, e senadores, filhos maiores de 21 anos desde que esteja estudando tem direito a continuar receber pensão alimenticia.
    Como o pai nao tinha dinheiro os proprios filhos colocaram o pai na justiça reinvidicando a pensão alimenticia correndo o risco de ser preso.
    E foi preso por nao conseguir dinheiro.
    Amigos reuniram-se, sabendo que se tratava de pessoa integra, honesta, trabalhadora, sem possuir qualquer divida junto a justiça e a quem fosse, pagaram a divida do nosso amigo.
    Hoje este amigo encontra-se enfermo depois da facada que levou pelas costas, da trama, da traição.
    Sofre de depressão crônica, toma uma variedade de medicamentos, para depressão, coração, pressão, etc.
    Tudo porque o pai não tinha como pagar dois salarios minimos para os filhos, maiiores, saudaveis, culto as custas do pai até então.
    Só como exemplo, Daniel, estes são os “os seres humanos de hoje”.
    O passado para esse tiipo de idiotas que não enchergam um palmo adiante do nariz por maior que seja, nunca existiu, nem o futuro, pois o que mais interessa a tais tipos, matereialistas, fanaticos por status, pelo dinheiro, posição social, é a ganância, o poder, o agora!
    E tudo com anuencia dos politicos, que elaboram e aprovam nas caladas das noites, leis equivocadas, com valores totalmente invertidos, sem escrupulos, somente para prejudicar ou pegar sorrateiramente quem não deve nada, porque não pertence a sociedade consumista e materialista, pobres de espírito, tacanhos, verdadeiros neuroticos e doentes mentais.
    Assim penso e considero os que querem a todo custo fazer fama, tornar-se evidente perante a sociedade consumista e burra, gananciosa, egoísta.
    A exemplo de certos programas e materia sensacionalistas que assistimos diariamente nas TVs, que so falta pingar sangue pelas telas das TVs, onde atuam, verdadeiros robôs, paus mandado, sem alma, sem sentimento, sem qualquer amor e respeito ao proximo, sem carater, sem o menor senso proficionalistico e jornalístico.
    Estão somente atráz, de fama, dinheiro rápido e fácil
    São certamente “sêres” infelizes, que ainda não acordaram e amadureceram para a vida, independente da idade que tenham, e pior ainda.
    Tem um medo terrivel de amadurecerem, de encararem a realidade nua e crua se suas pobres existencias.
    Mas certamente, um dia a vida lhes cobrará, pois quem cospe para cima o cuspe volta para as suas faces, cospem nos pratos que comem.
    Olha o exemplo muito comentado na midia esta semana, da jornalista paranaense que acabou sendo presa, depois que “se aliou” a bandidagem em troca de infirmações para por no ar em primeira mão noticias em programa jornalístico

    Abraços
    Armando Italo

  12. Milton,

    Te conheci pessoalmente a pouco tempo, admiro seu trabalho desde que assumiu o CBN SP, confesso que nada sabia sobre você antes disso. Com o passar do tempo conhecendo seu trabalho a frente do programa em defesa da cidadania esta admiração só fez crescer.

    Isto tudo só para dizer que, suas matérias dispensam elogios e sempre vão de encontro com minhas ideias e pensamentos.

    Não sou ninguém para julgar esta ou aquela atitude tomada por alguns jornalistas, mas existem alguns figurões na televisão que nem merecem este título. Não vou aqui mencionar nomes porque não tenho condições financeiras para bancar minhas palavras, sei que seria alvo de processos por difamação e calúnia entre outros adjetiivos que podem aparecer por aí.

    A desgraça alheia deixou de ser noticia a muito tempo, virou sensacionalismo, como disse meu amigo Armando Itálo, quem chegar primeiro leva. Infelizmente canais de TV aberta dão mais valor ao sensacionalismo do que ao sentimento alheio, pagam fortunas a seus “apresentadores” para fazerem sensacionalismo barato em troca de audiência.

    A notícia é levada aos berros e discursos préviamente ensaiados, pouco importa o conteúdo da reportagem, são criticas apenas pelas criticas. Não existe o sentimento humano em nada que fazem ou apresentam e com isso vão acumulando fortunas…

    Quanto a você, é jornalista com “J”, não conheço seu pai mas sei que além da faculdade ele deve ter sido o seu grande professor e isso o ajuda ser o jornalista e amigo que é.

    Não assisti a reportagem da Abigail, em questão, e acredito que por tráz de seus anéis, botas e lenços existe um ser humano capaz de se emocionar com a desgraça alheia mandando as favas pontos na audiência.

    Como disse o Armando Italo, dipRoma não é nada, é preciso amor a profissão e muita sensibilidade.

  13. Pingback: 4o Beta Jornalismo: a plataforma não é jornalismo; o jornalismo está no conteúdo | Mílton Jung

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