A Avalanche definitiva

 

 

Voltei para casa. Mesmo morando há 21 anos em São Paulo, lá ainda é a minha casa. Minha infância, minha adolescência e o início da vida adulta foram vividos por lá. Fui brincar no pátio como fazia quando criança. Vi o campinho de futebol, encostado na rua Dr Aurélio Py, onde joguei bola muitos anos, nos tempos em que, como zagueiro e lateral esquerdo, exercitava a arte de chutar canelas. Havia muitos carros estacionados sobre ele, mas o areião, no qual rasguei joelhos e cotovelos, ainda se destaca em toda sua extensão. Do outro lado, vi a quadra na qual joguei basquete, passei frio e escorreguei na água da chuva que ultrapassava o telhado que despencou durante um vendaval. No meio do caminho enxerguei a sacada, onde meus craques apareciam de vez em quando, abanavam e, com o polegar, davam sinais de confiança. Foi meu pai quem lembrou das piscinas que ladeavam a avenida Carlos Barbosa, as quais frequentava carregado pelas mãos da minha mãe, no verão gaúcho. Os guris com quem fiz amizade não encontrei. Devo ter passado por eles, mas a idade escondeu seus traços de criança e não os reconheci. Havia outros ao meu lado. O Christian, meu irmão, o Fernando, meu sobrinho, e o Lorenzo, meu filho mais novo, que não escondia a alegria de estar compartilhando comigo as brincadeiras de criança naquele imenso pátio que se transformou o Olímpico Monumental.

 

No último dia de vivência no estádio, cenário de parte da minha vida, chorei de forma contida, não pela despedida, mas ao ouvir, mais uma vez, o radinho de pilha transmitir a voz de meu pai que, Milton Ferretti Jung, que por 15 longos minutos, narrou os lances do Gre-Nal. Antes do jogo, havia sido tocante ouvir as declarações dos craques do passado que desfilaram no gramado do Olímpico. Gente como Gaspar, Jardel, Danrley, Mazaropi, Iura e Loivo, meu eterno Coração de Leão. Nada se comparou, porém, a transmissão feita pelo meu craque da locução esportiva. Perfeccionista, jura que os óculos impróprios para a distância atrapalharam e preferia ter dado ritmo mais acelerado ao jogo. Só ele tinha esta preocupação. O que nós, seus fãs e ouvintes, queríamos era relembrar, agradecer por todas as emoções narradas. Tirar foto ao lado dele, assim como dezenas fizeram questão na caminhada até a cabine da rádio Guaíba. Voltar no tempo.

 

O Gre-Nal desse domingo, que só descrevo ao fim desta segunda-feira pela necessidade de retomar o fôlego, sufocado pelas sensações que vivi, era coadjuvante num cenário tão grandioso. A falta do futebol bem jogado, a carência de habilidade para furar bloqueios defensivos, a predominância da violência, o descontrole dos comandantes e a incompetência do árbitro pouco nos importaram. Esperávamos o fim da partida ansiosos para dar adeus ao velho estádio. E o fizemos com uma Avalanche definitiva, que extrapolou os limites da Geral, torcida que trouxe este movimento sincronizado para as arquibancadas. Era a última vez, oficialmente, que comemoraríamos nossos feitos, ao lado de filhos, sobrinhos, irmãos, pais e amigos no pátio da minha casa. No Olímpico Monumental.

14 comentários sobre “A Avalanche definitiva

  1. Sobre a temporada:

    Como sempre, ano após ano, o campeonato vai diminuindo a nossa empolgação. Tenho plena convicção de que o nivelamento está cada vez mais por baixo. O Fluminense foi campeão e o futebol apresentado, digno de estar apenas entre o 5º e o 10º. Vamos esperar o próximo campeonato com os 3 times grandes vindos da sére B. Porém como disse, o nivelamento esconde a real carência de novos talentos que podem fazer a diferença num jogo da seleção. Na seleção escolheram um “jurássico” prá treiná-la e há que peça um goleiro “frangássico” tipo R.Ceni. O negócio é fazermos um estoque de analgésico porque novas dores de cabeça virão.

  2. Não sou contra esse esporte, jamais. Mas ao besteirol que se criou em torno dele. Tem gente que gosta. Eu acho um des serviço ao desenvolvimento da nação.

  3. Milton, bom dia! Desculpa, mas ñ concordo com o termo "jurássico", pois penso q seleção ñ é laboratório. O Felipão e o Parreira têm bagagem d sobra, são caras atualizados e com visão holística s/futebol. Infelizmente a nossa cultura futebolística é a d resultados imediatos, por isso esse troca-troca d técnicos. Como explicar os vários casos d treinadores q num ano são ovacionados por tds, pq levaram seus times a resultados fantásticos, mas no ano seguinte são execrados pq ñ tiveram a mesma performance? Time é q ganha jogo; lembra-se do Flamengo campeão do mundo com o Carpegiani? então… Felicidades!!!

  4. Em parte,concordo com o que escreveu o Ezequiel. Creio,no entanto,que não deixa de ter razão ao falar do baixo nível do Brasileirão e do próprio futebol brasileiro. Mas,que diabo,quem presenciou a empolgação da torcida gremista durante todo o Gre-Nal e,depois dele,praticanfo a Avalanche Tricolor,classificada pelo Míton de “definitiva” (espero que os promotores, que querem acabar com ela, tratem de questõs bem mais importantres),entendfo que nem tudo está perdido. Talvez esteja me contentando com pouco,,mas o Grêmio,ao conquistar a vaga para a Libertadores,deixou muitos clubes – o Inter especialmente – com uma baita inveja.

    • Fundamental lembrar esta conquista. A vaga na Libertadores e os bons jogadores que surgiram devem ser comemorados e, com o pé no chão, rever posições para 2013, onde não bastará vagas, mas títulos.

  5. Da avalanche final, ficaram as emoções do MONUMENTAL e um misto de frustração pela bola chutada (de bicicleta) pelo Zé Roberto e ela não ter entrado, embora se tivesse acontecido, sei não se hoje aqui estaríamos, pois seria demais para nosso CORAÇÃO TRICOLOR, embora sejamos todos IMORTAIS. Aliás vale também para o chute de cobertura do Elano, interceptada indevidamente pelo goleiro deles.
    Mas o que se viu neste adeus a um TEMPLO SAGRADO para nós GREMISTAS, foi um jogo em que faltou raça, sangue e suor dos nossos representantes em campo, embora temos que lembrar que foi um dia atípico, onde mesmo os nossos atletas têm o direito e o dever de ficarem vislumbrados e emocionados pelo que tudo representou este jogo, coisa que aliás cerca todo e qualquer GREnal, imagina este então.
    Portanto, nada mais justo o Galo Mineiro chegar em segundo, pois analisando friamente, em momento algum estivemos uma vez sequer em primeiro no campeonato. E se agora somos obrigados a jogar a pré libertadores, podemos dizer, que bom, só assim temos uma possibilidade a mais para ir a nova casa em janeiro, tendo um jogo “extra” neste torneio Sulamericano.
    E se a flauta deles é demonstrar cara de “vitória” em jogo de empate, fica mais evidente ainda o quanto fomos superiores neste ano.
    Agora nada se compara ao ficar à tarde de domingo ouvindo gols do nosso GRÊMIO antes do jogo começar, gols dos narradores da Guaíba que marcaram época. Assim como emocionante foi ouvir seu pai, Milton F. Jung gol-gol-golgolgolgol, iniciar narrando o jogo. Bons e velhos tempos, que só o Olímpico nos fez lembrar, viver e se emocionar.
    A vida segue e o destino é a ARENA.
    Libertadores, objetivo alcançado no ano em que estaremos com “casa nova”!

  6. Me pergunto porque o Inter não demonstrou esta superação nos jogos anteriores. Sobre o jogo, os jogadores colorados pelo menos tiveram vergonha na cara e honraram o manto vermelho mesmo com 2 jogadores a menos. Já os jogadores do Grêmio não conseguiram suportar a pressão de jogar um jogo tão emblematico e sentiram todo o peso da história do Olímpico Monumental sobre as costas. O presidente gremista Paulo Odone não respeitou a instituição Sport Club Internacional ao afirmar que os colorados sairiam do Olímpico humilhados e com o rabo entre as pernas. Parabéns aos gremistas pela nova casa, mas respeitem o manto sagrado colorado. Ah, aproveito para parabenizar a rádio Guaíba pela grande homenagem que fez para o teu pai, o Milton Jung, que na despedida do Olímpico narrou os 15 primeiros minutos do Grenal. Uma voz inconfundivel que ecoa em nossos ouvidos a tanto tempo, e que apesar da identificação com o Grêmio, sempre narrou os Grenais de forma imparcial. Márcio/NH

    • Márcio,

      Infelizmente, nossos cartolas não compreendem a importância das suas palavras e a responsabilidade de suas funções. Atuam como torcedores comuns. Quanto ao Grêmio, apenas repetiu as dificuldades de todo o Campeonato quando enfrentou um time fechado, que foi a opção colorada na ausência de dois de seus jogadores. Obrigado por passar por aqui e discutir futebol de maneira equilibrada e respeitosa.

  7. Mílton,teu texto sobre os episódios do último domingo me emocionou bem mais do que o Gre-Nal. Quem disse que recordar é viver, tinha razão. Nossas lembranças transformaram fatos passados em imagens vívidas. Elas viraram,ao ler-te, em um slide-show.

  8. Desculpe o atraso no comentário mas só agora me detive com tempo no computador depois de 1700 km rodados pelo estado do RS.
    Como te conheço e não é de hoje vi no teu rosto o choro contido da volta ao passado que ainda é presente.
    Nos criamos em volta de um mito que é pai e de um pai que é mito e com isso a presença marcante nas cabines da Guaíba que nunca será Record e do Milton que nunca será Gaúcha, nos emocionamos porque novamente viramos crianças de um pai que nunca deixou de ser narrador.
    Tivemos e ainda temos o mesmo orgulho desta figura que não cansa de ser bom. Reconhecimento que nesta semana mesmo se repetiu quando falando com uma menina que agora é repórter da TV da Corsan me relatou ao falar do prêmio Press do qual o seu namorado concorria como melhor fotógrafo.
    Relatou com surpresa: o que é a voz do teu Pai.
    Veja só e aí se vão 76 anos de vida com um padrão de voz que não se costuma mais ver por aí e mesmo que ele se queixe que os óculos não permitiram que ele detalha-se quem eram os jogadores no campo, Deus não lhe poupou de manter um Grave que acolhe e a dinâmica que comunica.
    E a simbiose entre mestre e microfone será eterna, senão em vida porque não somos eternos, mas em lembranças e gravações.

    Parabéns pelo texto!
    Abração

    Christian Müller Jung

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