Avalanche Tricolor: O gol de Pará!

 

Flamengo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Arena Mané Garrincha (DF)

 

 

Tivesse sido um jogador de futebol, eu seria o Pará. Percebi esta semelhança há três, quatro partidas quando tentava entender o papel de cada um dos jogadores gremistas em campo. E, por favor, minha referência não é visual (jamais teria coragem de usar aquele falso moicano sobre a cabeça, apesar de ser adepto do cabelo longo, abaixo dos ombros) é apenas funcional. Na curta carreira de jogador de futebol, totalmente dedicada à Escolinha do Grêmio, de onde já saíram grandes craques para o Mundo, migrei da zaga para a lateral esquerda. Joguei em uma época na qual os laterais não tinham direito de passar do meio campo e se o fizessem logo eram corridos aos berros do ataque, pois a prioridade era impedir o avanço do ponteiro. Eu cumpria bem esse papel. Importante ressaltar que o meu conceito de “bem” talvez seja um pouco diferente daquele usado pelos amantes do bom futebol. Ponteiros não ciscavam muito na minha frente porque eu tinha o hábito de entrar na jogada com o que, atualmente, os comentaristas costumam chamar de força desproporcional. Naquele tempo, era o suficiente para atender à responsabilidade que me era conferida.

 

Por favor, não imagine que pela descrição no parágrafo acima, analise o futebol de Pará como violento. Não é nada disso. Traço esse paralelo entre o que representa para o time nosso lateral direito e o que eu fazia vestindo a camisa do Grêmio, porque nunca tive técnica apurada, sendo incapaz de brincar com a bola em embaixadinhas, por exemplo. Jamais seria lembrado pelo talento nos cruzamentos ou pelo passe refinado, apesar de me garantir na posição pela personalidade que apresentava no comando do grupo. Tinha fôlego de causar inveja, mas corria mais do que pensava. Marcar gols, era raridade, então comemorava bolas despachadas para fora do campo e carrinhos que desarmavam o adversário (às vezes, causavam prejuízos maiores). Se precisassem de alguém para ser sacrificado, podiam contar comigo. Houve oportunidades em que esta vontade de bem servir acabava injustamente punida com cartão vermelho. Os árbitros nunca gostaram de mim. Eu menos ainda deles.

 

Pará nunca será um craque e, provavelmente, a camisa que veste não está entre as mais desejadas pelas crianças na loja do Grêmio, que costumam ser atraídas pelas dos jogadores do meio para frente. Ser lateral é quase uma falta de opção no Brasil. A última a ser ocupada no time de amigos, pois até para ser goleiro já existem aficionados. Há tanta carência que ele próprio jogou boa parte do ano passado no lado esquerdo e agora voltou para sua origem na direita. Se amanhã aparecer alguém tecnicamente melhor do que ele, não tenho dúvidas de que aceitará correr para o outro lado do campo. Pará é um soldado disposto a qualquer desafio e cumpre com eficiência esse papel. Ninguém espere um drible que desconcerte o marcador ou conte com sua presença na linha de fundo a todo momento. Mas tenha certeza de que ele aparecerá com o bico da chuteira para impedir que o inimigo ofereça perigo a seu time, não poupará esforços para chegar na bola antes do adversário e cerrará os pulsos para agradecer a graça alcançada.

 

No sábado à noite, Pará surpreendeu a todos ao cobrar a falta com qualidade e firmeza. Quando se preparavam para o chute de Alex Telles, esse sim um lateral refinado, Pará correu com tal personalidade que não tive dúvida de que resultaria em gol. Ele disse que voltara a treinar cobrança de falta na sexta-feira pela ausência dos batedores titulares do Grêmio. Ou seja, mais uma vez, se dispôs a atender às necessidades de seu time, mesmo que isso significasse um esforço extraordinário. Antes mesmo de a bola chegar ao fundo do poço, abri os braços para comemorar, praticamente repetindo o gesto do nosso lateral na festa pelo primeiro gol que marcou com a camisa do Grêmio. Pelo que entendi em sua fala pós-jogo, o segundo na carreira de profissional. Era o gol de todos nós jogadores de futebol frustrados; que não tivemos chances de brilhar em campo, mesmo quando escalados; que éramos abnegados e não desistíamos de lutar, mesmo diante de nossas limitações; que nascemos para servir a uma causa maior: a alegria de nossos torcedores. Era um gol de Pará.

9 comentários sobre “Avalanche Tricolor: O gol de Pará!

  1. O texto que o Milton postou está correto em todos os sentidos. Garanto isso como pai do menino que, tanto por insistência paterna quanto pelo seu próprio desejo, jogou na Escolinha do Grêmio,sonhando,como todos os guris,em ser um dia titular do time do seu coração. O sonho não se tornou realidade,mas isso não se deveu,como ele mesmo confirmou,a falta de brio que,fui testemunha ocular,ele mostrava a cada trombada na bola ou nas canelas dos adversários. Milton teve,pela sua confissão,o mesmo espírito demonstrado por Pará e que permitiu ao lateral gremista ser um marcador tenaz e,agora,disposição para dar um calaboca nos seus críticos com o gol que manteve o Grêmio entre as três melhores equipes do Brasileirão. Duvido que tenha passado pela cabeça de qualquer comentarista que Pará,um dia,acabasse sendo escolhido pela Guaíba,conforme ouvi, como o “melhor do jogo”,nesse domingo. Gostei,especialmente,das duas últimas frases do texto da Avalanche Tricolor.

  2. Assisti ao jogo na noite de sábado ao lado do meu pai, gremista dos bons e do meu irmão, este flamenguista por algum desvio familiar. No momento da falta, brinquei com meu irmão, Daniel. “Preste atenção, que agora vai sair o gol do Grêmio”. Claro que falei isso muito mais em forma de brincadeira do que propriamente uma convicção. No fundo, evidentemente desejava por isso, mas nem sempre nossos desejos de torcedor se concretizam.

    Quando saiu o gol, e ainda por cima do Pará, a festa foi geral em parte da casa, minha e do meu pai. Extravasei no Twitter, fiquei com o sorriso de orelha a orelha e a esperança de um final glorioso ao longo do campeonato. A começar por quarta-feira, onde teremos que superar o Santos. Time para isso nós temos, basta não cometer os mesmos erros da partida de ida.

    Abs

  3. O que não faz troca de técnico! Quem imaginaria que nosso time pudesse ganhar 4 seguidas, depois de ver desde o início do ano as atuações do GRÊMIO com o Luxa.
    Pois se não saiu um lateral Jung, imaginei um dia ouvir o Correspondente Renner narrado pelo Jung filho…… rsssss

    • Gunar,

      Aprendi com o futebol, também: cada um na sua. Não queira ser camisa 10 se nasceu para vestir a 4. Veja que já me arrisquei a narrar futebol, na época da Rede Tv!. Um atrevimento e tanto, dado o risco de por em jogo a boa fama da família Jung. Se não fui o sucesso paterno na narração, posso ao menos dizer que fui uma narrador de sorte: a última partida que transmiti foi a final da Copa do Brasil de 2001 quando o Grêmio, de Tite, venceu o Corinthians, do Luxemburgo, por 3 a 1, no Morumbi.

  4. No internato,na cidade de Farroupilha,nunca cheguei à seleção do colégio. Tentei jogar na lateral,mas,como todos os guris ruins de bola, acabei no gol. Até que me dei razoavelmente nessa posição. No rádio,tive mais sorte,contentando-me em ser,ao invés de jogador,narrador esportivo. No Correspondente,estou até hoje,isto é,há 55 aninhos. Jamais seria um bom repórter e,com certeza,não faria sucesso como âncora. Âncoras são os camisas 10 do rádio.

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